segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Dois Brasis

Por João Paulo da Silva

Não sei se você sabe. Mas existem dois Brasis. Parafraseando um autor cujo nome não lembro, posso dizer que nos dividimos em dois grupos. Aqueles que têm mais jantares do que apetite e os que têm mais apetite do que jantares. Pode até parecer uma definição simplista demais. No entanto, isso não faz dela uma mentira. É claro que existe um evidente confronto de classes nisso tudo. Tratemos desses dois Brasis de maneira metafórica. Até mesmo porque – “nunca na história deste país” – uma metáfora foi tão real.

Existe um Brasil chamado “doutor” Luiz Cavalcante Alves Calheiros Gomes de Moraes Sobrinho, que por motivos didáticos chamarei de doutor Luiz. Homem branco, dono de vários latifúndios, empresas, bancos e usinas, morador de um condomínio fechado e de alto luxo, o doutor Luiz também possui fazendas, chácaras, casas de praia e coberturas espalhadas pelo mundo todo. Sua fortuna pessoal está avaliada em torno de 70 bilhões de dólares. Sem falar, claro, nas contas secretas em paraísos fiscais. Além de tudo isso, o doutor Luiz também é um político de sucesso. Um parlamentar que constantemente aprova no Congresso Nacional leis que flexibilizam os direitos trabalhistas e favorecem os lucros de suas empresas. E eu nem preciso mencionar os casos de desvio de dinheiro público em que o doutor Luiz está metido.

Em contrapartida, existe outro Brasil chamado José da Silva. Mais conhecido na periferia como “Zé da construção”. Co-habitante de um barraco no morro do Sururu (pois divide um único cômodo com a mulher, os filhos, os ratos e as baratas!), Zé da construção é negro, pobre, miserável e não possui nenhuma propriedade em seu nome. Trabalha como ajudante de pedreiro numa construção em um bairro nobre da cidade. Mas nas horas vagas também faz uns bicos como encanador, eletricista e marceneiro. O único lazer do Zé da construção é a cachacinha que toma com os amigos jogando sinuca nos finais de semana. Mas o Zé da construção não é nenhum bobo, não! Conhece alguns de seus direitos e em determinados momentos até já chegou a se mobilizar em greves.

O fato, senhoras e senhores, é que esses dois Brasis um dia tiveram seu encontro com a justiça.
O doutor Luiz descuidou-se um pouco da segurança dos seus “esquemas”. Tsc, tsc. Aí já viu, né? Alguém deu com a língua nos dentes, veio o grampo do telefone, a câmera escondida. Doutor Luiz acabou virando manchete de jornal. As acusações que pesavam sobre sua cabeça eram as mais diversas. Desvio de verba pública, sonegação de impostos, estelionato, caixa-dois, tráfico de influências, compra de voto, trabalho escravo, formação de quadrilha, envolvimento com o narcotráfico, quebra de decoro, cárcere privado e até assassinato de fiscais tributários. Mas o doutor Luiz era branco, rico, parlamentar, tinha curso superior, muitas posses etc, etc, etc. Enfim, não foi preso. Não sentiu o peso das algemas. Nem entrou no camburão. Foram abertos vários processos. E todos, posteriormente, acabaram arquivados. Motivo: insuficiência de provas. O doutor Luiz teve apenas que renunciar ao seu mandato. Mas isso ele mesmo disse que não era problema. Iria se candidatar de novo no ano que vem. E voltaria à política “nos braços do povo”.

Com o Zé da construção foi um pouco, digamos, “diferente”. O Zé tava com o salário lá da construção atrasado fazia tempo. Em casa já não tinha mais nada pra comer. A mulher e os meninos viviam chorando de fome e de doença. O Zé tava aperreado. Não sabia nem o que fazer. Um dia, chegando no trabalho, descobriu que não ia mais ter trabalho. A empresa tinha dispensado todo mundo e não ia pagar nada. “Faliu!” – disseram pro Zé. E o dono? “Sumiu!” – completaram. O Zé desesperou-se. Saiu de lá se sentindo um ninguém. E se sentir um ninguém é uma merda. Entrou no primeiro bar que viu e bebeu todo o dinheiro que tinha. Uns míseros trocados. Chorou, chorou muito. Mas tinha de ir pra casa. Como? Com as mãos abanando? Sem levar nada pros meninos? Não podia. Saiu do bar disposto a fazer uma coisa que nunca tinha feito.

“A dona daquela casa cria umas galinhas” – disse o Zé pra si mesmo. Pulou o muro que dava pro quintal e deu de cara com as “bichinhas”. Abriu a portinhola do galinheiro e catou pela asa uma ave bem gordinha. Na saída, acabou derrubando umas gaiolas, cuias, canecos. Fez muito barulho. As luzes se acenderam e o Zé ouviu uns gritos. “É ladrão! É ladrão!”. Soltaram os cachorros. O Zé pulou de volta o muro numa pernada só. Com a galinha na mão, se pôs a correr em disparada. Na esquina, o vigia da rua já soprava com toda força o apito que tinha na boca. “Pega ladrão! Paga ladrão!” – gritava o vigia.

A polícia chegou rápido. E mais rápido ainda chegou até a casa do Zé. Não é difícil seguir o rastro de um homem correndo com uma galinha embaixo do braço. Os policiais entraram derrubando a porta do barraco. O Zé não teve tempo nem de correr. Foi logo arrastado pra fora de casa. Juntou gente pra ver. Chorando, a mulher e as crianças pediam pra não levarem o Zé preso. Não teve jeito. “Bandido é bandido, dona. A Lei é igual para todos”. Bateram muito na cara do Zé da construção. Assim, além de sangue, ele também perdia a dignidade. Depois, a agressão dos policiais a um homem desarmado seria justificada com a já conhecida frase: “O acusado reagiu à prisão.”.

O Zé conheceu pela primeira vez o fundo do camburão e o peso das algemas. Sentiu tanta vergonha que até mesmo o choro ficou engasgado, sem querer sair. Na delegacia, foi jogado numa cela com outros 50 presos. Todos uns ninguéns. Assim como ele. Negros, pobres, miseráveis. Desgraçados.

O Zé foi levado para o presídio. Lá, aguardaria durante uns anos a data do julgamento. Depois esperaria mais uns tantos outros até cumprir a pena. Quando saísse, nunca mais arrumaria emprego e viveria infeliz o resto de seus dias.
Mas nada disso aconteceu. Não deu tempo. O Zé morreu antes. Teve rebelião no presídio. Armada até os dentes, a polícia entrou atirando em todo mundo. “Era preciso manter a ordem.” – disseram mais tarde. Uma das muitas balas encontrou o Zé. E ele finalmente teve seu encontro com a justiça. E viu que ela não era cega. Sabia exatamente em quem estava atirando.
O Brasil chamado Zé da construção provavelmente nunca leu Eduardo Galeano. Possivelmente uma parte dele nem sabe ler. Mas talvez não seja preciso. A conclusão é simples e dura.

Nós, os ninguéns, somos os filhos de ninguém, os donos de nada.
Nós, os ninguéns, custamos menos do que a bala que nos mata.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

O apartamento

Por João Paulo da Silva

Ele passava por ali todos os dias. Desde que ela fora embora, aquilo se tornara uma constante em sua vida. Era parte de seus dias e noites. Uma necessidade inabalável, como comprar o pão todas as manhãs ou tomar um banho todas as noites, mais para limpar a alma do que o corpo. Ficava ali, em frente ao antigo prédio dela, com os olhos presos à janela do apartamento. Esperava um sinal qualquer, um aceno, uma lâmpada acesa. Qualquer coisa que lhe permitisse compreender que podia subir, tocar a campainha, entrar no apartamento e beijar-lhe a boca pela primeira vez. Mas não. Não haveria luz acesa, nem aceno, nem qualquer tipo de sinal. Há meses ela não vivia mais ali.

Para ele, ficaram apenas as lembranças e as possibilidades, imagens soltas e turvas do que viveram juntos e também daquilo que não tiveram tempo ou coragem para viver. Agora, como um velho de oitenta anos parado sobre o ponteiro das horas, ele pensa no hiato em que se transformou sua vida. O vácuo. O vazio. A garganta do monstro que insiste em não devorá-lo. Olhando a fachada do prédio, ele pode jurar que sente o cheiro dela. Um cheiro doce, trazido pelo vento, como naqueles dias em que ela subia as escadas deixando pra trás o perfume. A fragrância adocicada fez suas recordações ganharem mais cor, se transformando em quadros recém-pintados. Em tinta fresca.

Diante da escuridão da janela, as imagens daquela tarde foram surgindo aos pingos. Ali, no quarto dela, sentados frente a frente. As caixinhas de som do computador tocando Doce vampiro, da Rita Lee. Comendo jujubas, ela o encarava como se quisesse despi-lo. “Venha me beijar, meu doce vampiro” – cantarolava, bastante convidativa. Colocou uma jujuba entre os lábios e ofereceu a ele. As bocas se tocaram por um breve momento, tempo suficiente para ele perceber o quanto era bom ser mortal. O olhar terno que ela lhe lançou depois revelou que não eram duas esferas verdes que existiam naquelas órbitas. Eram dois enormes labirintos. E nunca foi tão bom se perder neles.

As luzes de Natal e as crianças brincando formavam o único quadro de coisas vivas na frente do prédio. Quando a chuva começou a cair com força, todas as criaturas correram para seus abrigos. Ele procurou uma árvore grande para se amparar, sempre protegendo o envelope que tinha nas mãos. O frio da noite lhe fez sentir um estremecimento. Lembrou do dia, muitos meses atrás, em que voltavam pra casa. Sentada ao seu lado no ônibus, ela repentinamente aproximou a boca do seu rosto e lambeu-lhe atrás da orelha. Ele estremeceu, como que atingido por uma golfada de vento. Riram. Daquele dia em diante, sempre que estavam no ônibus, ele pedia para que ela lhe lambesse a orelha.

Mas, agora, com o olhar fixado no aviso de “aluga-se”, as lembranças parecem mais saraivadas de balas contra o peito. Tantos foram os dias em que ele deitou a cabeça em seu regaço, querendo apenas os afagos daquelas mãos. Foram confissões, segredos, pecados, angústias e solidões trocadas. Uma cumplicidade que só os amantes possuem. Nunca foram ao cinema juntos. Mas viram alguns filmes comendo pipoca e bebendo vodca com fanta. Faziam juras de amor.

Um dia ela falou que ia embora. Não dava mais pra ficar. Andava sofrendo muito e achou que assim seria melhor. Até já tinha se afastado dele nos últimos tempos, estava diferente. Não queria criar problemas, era o que ela dizia. Não podiam andar juntos, nem mesmo podiam ser vistos juntos.
Acabou indo embora. Na despedida, apenas se olharam. Talvez nunca mais voltasse.

A chuva começou a diminuir. Foi ficando rarefeita, assim como as lembranças que se diluíam ao tocar o asfalto do passado. Com os olhos ainda pregados no apartamento escuro, ele se deixou tomar por fantasmas daquilo que não aconteceu. Um flashback do “se”. Saudades do que poderia ter sido, mas não foi. Muitas foram as vezes em que ficaram só se olhando. Dias e noites que poderiam ter sido resolvidos com um único gesto. Frases que murcharam antes mesmo de saírem da boca.

A saudade é um privilégio dos povos de Língua Portuguesa. Os americanos, por exemplo, não sentem saudade. Sentem falta de alguma coisa. Antes de atravessar a rua, era nisso que ele estava pensando. Na saudade da vida que nunca teve. Dos beijos que nunca deu. Das noites que não dormiu. Das cartas que não escreveu. Do amor que nunca fez. Era um homem pela metade, incompleto. Um náufrago em terra firme.

Com o envelope nas mãos, subiu devagar as escadas que há muito tempo não subia. Aproveitou o percurso até o apartamento para cantarolar Doce vampiro. Lembrava com nitidez o número. Parou diante da porta. Olhou pela última vez o que tinha escrito dentro do envelope. Duas palavras apenas. Foi o mais sincero possível. Não assinou o bilhete. Não era preciso. Ela entenderia quando voltasse. Passou o papel por baixo da porta e desceu as escadas.

Ao sair do prédio, ele podia jurar que havia sentido um cheiro doce vagando na noite.

domingo, 16 de dezembro de 2007

A democracia do porrete

Por João Paulo da Silva

Definitivamente vivemos outros tempos. Muito confusos, por sinal. Há dez anos, minha mãe costumava dizer:
- Filho! Se você não estudar, vai apanhar.
Provavelmente muitos filhos já ouviram isso de seus pais. Era um incentivo. Antipedagógico, concordo. Mas um incentivo.

Hoje as coisas estão diferentes. A regra agora é bater naqueles que desejam estudar. Principalmente naqueles que defendem uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos.
Não há dúvidas. Os tempos são outros.

Prova maior disso foi o circo dos horrores montado há alguns dias pela reitora da Ufal, Ana Dayse Dórea. Tudo o que os estudantes queriam era discutir com toda a universidade o famigerado Reuni de Lula. Queriam apenas um plebiscito. Debater democraticamente com a comunidade acadêmica o desmonte da educação pública representado por este decreto. Não foi o que aconteceu.

A reitora, que enxerga em si mesma o último baluarte da democracia, não aceitou a proposta de plebiscito dos estudantes. Para ela, é mais democrático que 53 conselheiros definam o futuro da universidade. A resposta de Ana Dayse no Consuni veio em forma de socos e pontapés. Estudantes que protestavam pacificamente contra a falta de uma discussão mais ampla foram agredidos por seguranças patrimoniais a mando da reitoria. Estava inaugurada a democracia do porrete.

Se o Reuni é tão bom como afirma a reitora, por que não discutí-lo abertamente? Por que decidir um projeto desses num acordão de cúpula, onde existe um jogo de cartas marcadas? Ora, é muito simples. Ana Dayse é uma fiel escudeira do governo neoliberal de Lula. Governo este que tenta implementar a todo custo uma reforma universitária privatizante, destruindo os últimos vestígios do caráter público da educação. Expandir indiscriminadamente as vagas, sem aumentar os recursos para o ensino superior, criando cursos sem qualidade, precarizando a educação dos estudantes e o trabalho dos docentes, soa aos meus ouvidos como um dos maiores ataques já realizados por Lula. Para mim, já está mais do que claro: o Reuni é o coveiro da universidade pública e Ana Dayse, um títere de porrete.

Não satisfeita com sua demonstração de autoritarismo, a reitora ainda deu uma trágica e cômica declaração numa coletiva de imprensa. “Eles (os estudantes) são partidários, elitistas e agressivos.”. De fato, tenho que reconhecer. O movimento estudantil é formado por latifundiários e banqueiros. Eu mesmo só trabalho para disfarçar. Sou acionista de várias multinacionais. E, assim como os outros estudantes, também sou agressivo. Na verdade somos tão agressivos que mal podemos sair nas ruas. Queremos bater em todo mundo.

O mais ridículo disso tudo é que nem parece que foram os estudantes os agredidos. Alguém precisa dizer à reitora que foram os seguranças patrimoniais que quebraram o patrimônio em nossas cabeças. Com o consentimento dela, claro.
Ah! Uma última observação. A pedido de Ana Dayse, a Polícia Federal apareceu na Ufal para verificar o comportamento dos estudantes que montaram uma vigília no hall do prédio da reitoria. Empunhando metralhadoras, os policiais federais queriam saber se os estudantes haviam quebrado alguma coisa. Nas palavras do próprio delegado: “Estamos aqui para dialogar e evitar destruição”.

Não sei, não. Dialogar e evitar destruição com armas em punho?! Não quero ser apocalíptico nem alarmista, mas precisamos ficar atentos. Nuvens escuras despontam no horizonte.

sábado, 8 de dezembro de 2007

O Natal que Lula deu a Renan

Por João Paulo da Silva

Ele pode dormir tranqüilo. Já recebeu seu presente de Natal. Antecipando as festas natalinas, o Governo e o Senado resolveram presentear Renan Calheiros (PMDB-AL). Sim, porque foi indiscutivelmente um presente. “Nunca na história deste país” um presidente da República interpretou tão bem um personagem.

Lula “Noel” – como vai ficar conhecido de agora em diante – brindou o fim do ano com a impunidade de Renan. Desceu a chaminé do Senado e deixou um peru de Natal na meia do ex-presidente da Casa. A absolvição de Calheiros da acusação de comprar meios de comunicação através de “laranjas” é mais uma prova de que a justiça não é cega. Tem visão aguçada e faro fino para prender trabalhadores negros e pobres. E, mais recentemente, aprendeu a manter uma menor de idade numa cela com homens. Enquanto isso, um parlamentar corrupto pode fazer a rapina do dinheiro público tranquilamente. O Senado que livrou mais uma vez a cara de Renan e a Justiça que não condena ricos comprovam cinicamente o caráter de classe dessas instituições.

Mas o presente que Lula deu a Renan é fruto de um acordão. Na acusação de ter contas pagas por um lobista, o governo utilizou desde chantagem até liberação de verbas para salvar Calheiros. Desta vez, a moeda de troca foi a CPMF. Se Renan fosse cassado, o PMDB ameaçava não aprovar a prorrogação do imposto do cheque. “Faz sentido, não faz?” – chegou a dizer o senador Gilvan Borges (PMDB-AM). Os conchavos e as negociatas são práticas típicas da democracia dos ricos. Bandidos sabem lidar com bandidos. Estão em casa.

Olha, eu não vou dizer que essa nova absolvição foi uma palhaçada. Seria uma ofensa aos palhaços de circo que ganham a vida fazendo os outros rirem. Mas vou contar uma história que provavelmente vai nos ajudar a entender o ocorrido.

Sou professor de Português numa escola perto da minha casa. Esta semana, durante uma aula sobre substantivos coletivos, fui surpreendido por uma resposta de meus alunos.
- Então, queridos alunos, vamos ver se vocês conhecem os substantivos coletivos. Qual é o coletivo de camelos?
- Cáfila! – responderam todos.
- Muito bem. E o de lobos?
- Alcatéia!
- Perfeito, turma! E o de abelhas?
- Enxame, professor!
- Maravilha! Vocês estudaram, hein! Agora eu quero ver se vocês sabem este. Qual é o coletivo de ladrões?
A resposta foi instantânea.
- Senado! – gritaram todos.
Tá errado? Eu posso dizer que tá errado?! Não, não posso!

Em 2005 manifestantes fizeram uma marcha a Brasília contra a corrupção. Uma das palavras de ordem mais cantadas era: “É ou não é piada de salão! O chefe da quadrilha é o presidente da nação!”.
Mais atual do que nunca.

domingo, 2 de dezembro de 2007

De quem é a culpa?

Por João Paulo da Silva

É sempre assim. Basta um crime brutal ocupar as principais páginas dos jornais do país para a imprensa e todo um setor da burguesia brasileira começar logo a espernear em torno do aumento da repressão para combater à criminalidade. Ficam desesperados, exigindo mudanças na legislação, endurecimento contra o crime e redução da maioridade penal. Uma baita de uma hipocrisia.

A mídia e os políticos aproveitam todo desespero e dor da sociedade para defender o aumento da repressão e esconder as verdadeiras causas que geram a criminalidade. Para eles, a solução parece muito fácil. Basta elevar o número de policiais e está tudo resolvido. Não têm interesse nenhum em buscar as raízes do problema.

A política que coloca mais polícia nas ruas já demonstrou sua falência. Mesmo com o aumento do efetivo policial, a criminalidade não diminuiu nos grandes centros urbanos. Prova disso é que nem o PCC nem as balas perdidas (que de perdidas não têm nada!) pararam de agir. A elevação do poder repressor do Estado burguês só faz aumentar a violência. E as vítimas preferidas são sempre negros, pobres e trabalhadores.

Toda a direita (incluindo o Lula e o PT!!!) é responsável pelo crescimento da violência no Brasil. Os governos do PSDB/DEM e, agora, do PT, com seus planos econômicos neoliberais, fizeram aumentar a já gritante desigualdade social do país. Essa barbárie que se alastra como uma peste entre nós não tem outro motivo senão a manutenção do capitalismo, sustentado pela burguesia, seus governos e Congresso corruptos. Sem resolver os problemas básicos da sociedade (desemprego, fome, miséria etc), não há como resolver o problema da criminalidade. É por essa razão que os verdadeiros responsáveis pela violência acham mais fácil, digo, mais interessante aumentar a repressão.
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Pouco tempo depois do assassinato do menino João Hélio, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), saiu em defesa do disparate da redução da maioridade penal. E não saiu sozinho. O Congresso foi atrás, colocando a proposta em pauta de discussão.
Diante de tal situação, eu fico pensando cá com meus botões. O que faz o Cabral e outros malucos acharem que a redução da maioridade e o aumento da repressão vão inibir a violência urbana? Acho que eles devem pensar assim: “Se tivesse mais polícia nas ruas e a maioridade penal fosse de dezesseis anos, aquele menor que participou do assassinato do garotinho teria pensado duas vezes antes de participar do crime.” Quer dizer que quando alguém de catorze anos participar de uma tragédia semelhante outro maluco vai propor que a maioridade penal seja reduzida para catorze anos. E assim sucessivamente. Eu até já imagino aonde isso vai parar.
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Já é noite numa maternidade pública em alguma cidade do Brasil. A mãe respira tipo cachorrinho. O médico pede que ela faça um pouco mais de força.
- Vamos! Ele já está quase lá. Força!
Finalmente o choro. Uma linda criança negra vem ao mundo. A mãe segura seu filho, ainda sujo de sangue, entre os braços. De repente a porta da sala de parto se abre e um grupo de policiais invade o recinto. Um deles vira-se para a mulher com o filho nos braços e diz:
- Seu filho está preso!
- O quê?! Que história é essa? Preso por quê?! – desespera-se a mãe.
- Por ser negro e pelos crimes que ele ainda vai cometer. – informa o policial.
- Mas ele ainda é menor de idade!
- Até ontem, minha senhora. A maioridade penal foi reduzida de novo. Agora, para os primeiros trinta segundos de vida.
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Não tenho dúvidas de que a tragédia ocorrida com o pequeno João Hélio foi outro sinal da barbárie social mais do que anunciada em nossos tempos. Crimes brutais como esse do garoto ocorrem cotidianamente nos grandes bolsões de miséria. A população negra e pobre é a principal vítima. Só com uma diferença. Nos grandes bolsões não são tragédias. São só estatísticas.