domingo, 11 de maio de 2008

Pequenos flagras da vida de todos nós I

Por João Paulo da Silva

Clínico geral

Antônio Sebastião da Silva é advogado. E, eventualmente, meu pai. Há muitos anos, quando eu era um garotinho e o mundo ainda me surpreendia, fiz a meu velho uma pergunta que acabou revelando muitas coisas. Inclusive a imprecisa escolha profissional de meu pai.
Cheguei em casa perguntando:
- Pai, que tipo de advogado o senhor é? Trabalhista ou criminalista?
Me olhou com uma cara de falsa modéstia e disse:
- Bem, na verdade sou um clínico geral. Um clínico geral.
Meses depois, um tio meu se meteu numa confusão de bar. Foi preso por arruaça. Minha vó telefonou desesperada para meu pai. “Você precisa tirar ele de lá”. Relutante, o velho concordou. Meu tio iria passar só algumas horas na delegacia. Depois, estaria livre. Não sei exatamente o que meu pai disse ao delegado, mas meu tio acabou dormindo duas noites na cadeia.
Desse dia em diante, me dei conta da falta que faz um especialista.

Charlatão

Tenho uma admiração especial pela charlatanice. Acho até – de verdade mesmo! – que ela deveria ser considerada uma arte. Não deve ser nada fácil dominar a técnica da embromação. O sujeito precisa ter desenvoltura, ser escorregadio, habilidoso e saber a hora exata de fingir. Além disso, um bom charlatão deve passar confiança. A charlatanice não é pra qualquer um.

Poeta ranzinza, músico e eterno estudante de Letras, o amigo Luis Rosas de vez em quando ataca de professor de literatura. E é nesta área que ele demonstra todo seu talento para a charlatanice. Certa vez, tive a oportunidade de assistir a uma de suas aulas.
Do lado de fora da sala, eu acompanhava a destreza do professor charlatão.
- Bom, turma, naturalmente vocês sabem que o Quinhentismo também é conhecido como literatura dos viajantes. – dizia ele – Isso porque os primeiros escritos da época foram feitos por cronistas vindos nas caravelas. E o principal deles, é claro, chamava-se Pero Vaz de Caminha. O mesmo que escreveu o primeiro relato sobre as terras recém-descobertas.
Aí veio a pergunta:
- Professor – falou um dos alunos – além de Pero Vaz de Caminha, quais eram os nomes dos outros cronistas?
Fora da sala, eu pensava: “Pronto. Agora ele se lascou.”. Mas um charlatão é sempre um charlatão.
- Veja bem, sua pergunta é muito interessante. Me lembra de algumas coisas engraçadas desse período. O principal cronista foi o Pero Vaz de Caminha, mas naquela época todo mundo se chamava Pero. Era Pero Disso, Pero Daquilo, Pero no mucho e por aí vai. Era tudo Pero. Mas o que o aluno precisa saber mesmo é o seguinte: teve Pero é do Quinhentismo.


O Banana

Não há um só dia em que a gente não escute alguém reclamar da violência. Nas filas, nas praças, nos jornais. Em todo lugar. Ao que parece, à medida que a miséria e fome aumentam a violência se expande mais. E as vítimas, na maioria das vezes, são aquelas que menos têm para serem roubadas. Isso sem falar, é claro, no pior de todos os roubos: o roubo oficializado, quando o governo faz seus cortes nos orçamentos da saúde, educação, reforma agrária etc. Enfim, começamos a vislumbrar a decadência.

Digo isso porque a cena que presenciei por esses dias me serve de prova irrefutável. Assim como tantas outras pessoas, eu voltava pra casa no começo da noite quando ocorreu o incidente. Nesse dia, o ônibus até que não estava tão cheio e eu viajava sentado. Num determinado ponto da viagem, subiu no coletivo um sujeito mal-encarado. Percebi as pessoas trocarem olhares de desconfiança, numa clara expressão de perigo iminente.

Assim que passou pela roleta, o homem gritou:
- Todo mundo quieto! Isso aqui é um assalto! Pode ir passando os celular, relógio e dinheiro!
Por baixo da camisa, o homem segurava um objeto pontiagudo, semelhante ao cano de um revólver. Os passageiros, assustados, começavam a entregar as coisas. Nesse instante, o motorista deu uma freada mais brusca. O assaltante cambaleou, desequilibrou-se e, para não cair, acabou soltando o objeto que tinha por baixo da roupa. Era uma banana! Isso mesmo. Uma banana. A cena que se seguiu foi uma daquelas que contando a gente não acredita. A multidão partiu pra cima do sujeito e o que se viu foi um verdadeiro linchamento. O pobre do homem apanhou mais do que carne de terceira. Não sei como aconteceu, mas milagrosamente ele conseguiu escapar por uma das portas do ônibus.
- Palhaçada, rapá! Tá pensando que o povo é trouxa?! – diziam uns.
- Onde já se viu uma coisa dessas?! Assaltar com uma banana?! É o fim da picada. – protestavam outros.
Após uma chuva de xingamentos, a relativa paz voltou a tomar conta do coletivo. Mais tranqüilo, me lembrei de procurar a banana que o assaltante havia deixado cair. Encontrei apenas a casca. Alguém tinha comido.
Definitivamente, estamos à beira do caos.

Profissão

- O que o filhinho vai ser quando crescer?
Praticamente todas as crianças escutaram ou escutam essa pergunta de seus pais. O problema é que não se trata de uma mera pergunta. É um pacote completo. Já vem até com a resposta. Parece haver uma vontade tácita em alguns pais de se verem realizados nos próprios filhos. Desejam que seus filhos tenham a vida profissional que eles não tiveram. E nisso consiste parte de nossas frustrações.
- O meu filho vai ser médico.
- O meu advogado.
- E o meu será dentista.
Mesmo quando se tem a melhor das intenções, há sempre o risco de ceifar pela raiz os sonhos de uma criança.
Meus pais sempre me disseram que eu tinha de passar por uma universidade, estudar pra ser gente e tal. Queriam, na verdade, que eu fosse alguma coisa que pudesse ser chamada de “doutor”. De qualquer forma, quando era criança, eles me fizeram a famosa pergunta:
- O que meu filho vai ser quando crescer?
Aos seis anos, eu já tinha a resposta na ponta da língua.
- Quero ser motorista do caminhão do lixo!
Meus pais quase tiveram um troço. E fizeram de tudo para que meu sonho não se realizasse. Um crime. Hoje sou professor e jornalista. Mas, vez por outra, me flagro pensando com uma pontinha de remorso: para onde poderia ter ido a minha vida?

4 comentários:

jessica disse...

tem muita poesia na sua prosa! é lindo como vc consegue transformar a realidade em palavras tão habilidosamente... e as suas palavras são arrumadas de maneira tão delicosa. vc sabe encantar.
grande artista..

Salomão Miranda disse...

Oi João. Gostei desse último texto, só que por vezes fiquei na dúvida se as coisas são ficção ou realidade. Se isto foi intencional, parabéns!!
Estou sempre de olho no que vc escreve pois admiro o seu senso crítico referente à sociedade.
À propósito, postei um texto intitulado PROTECIONISMO CULTURAL, gostaria que vc lesse comentasse.
Abraço!!

Gustavo disse...

Como sempre, muito bons os seus textos. Aproveitou pra dar uma "alfinetada" nos advogados... heheh

abração!

julia disse...

pô esse do clínico geral
ficou fantástico
queria saber escrever assim
também =~