Por João Paulo da SilvaO refrão da música de Chico Buarque ficou imortalizado como uma das marcas da luta contra a ditadura. A ambigüidade da expressão “cálice” era a representação de uma forma criativa encontrada por Chico na tentativa de afastar o silêncio que atordoava muita gente. Passados os anos de chumbo, o silêncio ainda permanece. Mas a verdade mesmo é que ele nunca nos deixou. Desde muito tempo somos obrigados a nos calar, ou, na melhor das hipóteses, não nos é permitido responder. O que na prática não tem muita diferença.
A televisão é uma das muitas maneiras de impor o silêncio. Em 1996, o sociólogo francês Pierre Bourdieu, em entrevista concedida ao Jornal do Brasil, afirmou: “A televisão é uma lavagem cerebral, uma despolitização trágica, um instrumento antidemocrático.”. Dando o exemplo da TV norte-americana, Bourdieu caracterizou o ato de ver televisão como uma “experiência terrível”. Para o pensador francês, a caixa mágica resume-se a uma avalanche de propaganda, propaganda e mais propaganda. Numa clara demonstração dos interesses mercadológicos por trás da telinha.
De fato, Bourdieu tem razão. Se levarmos em conta – e acho que devemos! – algumas reflexões feitas por Muniz Sodré em seu O monopólio da fala, chegaremos a uma conclusão perigosa sobre a função da TV. Trilhando, de certa maneira, o mesmo caminho que Bourdieu, Sodré diz ser a televisão uma “violência” ao processo comunicativo. Comunicação é, em última instância, diálogo. Deve haver reciprocidade entre falante e ouvinte. A televisão não permite a troca plena da comunicação, não há possibilidade de resposta para o interlocutor. É nisto que consiste o monopólio do discurso, na eliminação da possibilidade de resposta. Nasce assim a hegemonia do falante sobre o ouvinte.
Penso que Bourdieu e Sodré estão certos. A TV “castra” o interlocutor. O conteúdo veiculado impede a compreensão do mundo como ele de fato é, criando falsas ideologias. A televisão, sob a perspectiva de uma sociedade cindida em classes e voltada aos interesses do mercado, torna-se um poderoso instrumento de homogeneização do grotesco e do vazio.
Não estamos mais nos anos de chumbo, é verdade. Mas a imensa vontade de afastar o “cálice” ainda persiste.
***
NOTA DO AUTOR: Os pequenos flagras da vida de todos nós estarão de volta em breve. Aguardem!!

4 comentários:
"atena minha cabeça
atena minha visão
atena minha antena
sem nunhuma informação"
sinceramente acho esse tema meio batido
mas vc escreveu de uma forma que tirou essa impressão
principalmente com esse final brilhante
;***
“castra”
kkkkkkkkkkkk
ainda fala de mim.
seu lindo.
E, segundo um certo comentarista, quem ñ tem cão caça com gato e quem ñ tem gato caça com ato. Bju, vc sabe que continua escrevendo muito bem. A respeito das suas falhas de memória, relaxe, vai passar.
SAUDAÇÕES DAMINISTAS"
"A Televisão me deixou muito burro, burro d+; agora todas as coisas que penso me parecem iguais..." nunca é demais denunciar a bomba de efeito retardado que é a tv, que como mui bem foi colocado castra a possibilidade de resposta dos aparentes espectadores, transformando-os em meros consumidores teleguiados. A quem serve isso? A quem não, se não aos próprios detentores dos canais... ou seja, a classe dominante. Assim sendo, as caras maqueadas, sorrisos forçados, a desvirtuada realidade da sociedade, etc. tem como objetivo fundamental manter o sistema opressor de uma minoria sobre uma maioria... Pão e CIRCO ao povo!!! Parabéns João, trataste o tema brilhantemente.
> Lord Daminismo (O lord do Nada)
(Sol a luta muda a história de um povo.)
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