Por João Paulo da SilvaCantada
Confesso que ainda não consegui digerir muito bem o ocorrido. Vez por outra me pego pensando sobre o fato. Na repartição em que trabalho, conheço poucas pessoas. Falo com algumas, mas na maioria das vezes tô sempre na minha. Pra encurtar a história, o negócio é que dia desses fui cantado por uma funcionária do departamento. Meu espanto não foi por ter recebido uma cantada – por favor, não pensem que me acho um sujeito bonito – foi por outras razões: quem fez e como fez. Isso sim foi o mais surpreendente.
Ela já é uma senhora, provavelmente com seus 60 e tantos anos, mas poderia ser facilmente confundida com uma múmia egípcia. Perdi as contas de quantas vezes esbarrei com esta funcionária nos corredores do departamento. Foram muitas. Mas sempre era o mesmo cumprimento: “Opa. Bom dia!” ou “Tudo bom? Como vai?”. Nada mais que isso.
Um dia cheguei mais cedo ao trabalho. Eu estava prestes a entrar na minha sala quando ela apareceu na porta da sala ao lado (sabe lá Deus como!). Assim que me viu, olhou-me da cabeça aos pés e disse:
- Oi moreninho gostosinho!
Não acreditei em meus ouvidos. Ela repetiu:
- Olha como ele tá hoje. Todo gostosinho. É desses que eu gosto. Tô fazendo coleção. Quero levar você lá pra casa.
Eu não sabia se corria ou se me atirava pela janela. Para minha salvação, outra funcionária chegou e me acalmou:
- Ligue não, meu filho. Ela é assim mesmo.
No departamento, dizem que ela costuma assediar os novinhos. Parece carregar um histórico. Na hora acabei rindo, meio sem jeito. Mas, por via das dúvidas, tranquei a porta da sala quando entrei.
Comunista não é São Francisco de Assis!
A propaganda ideológica do capitalismo fez (e ainda faz!) durante muitos anos o desfavor de atribuir aos comunistas inúmeras características caluniosas. As histórias de que os comunistas são totalitaristas sanguinários ou perversos comedores de criancinhas são alguns exemplos. Por favor, a anomalia stalinista não tem nada a ver com comunismo. Mas, no jogo dos marqueteiros do capitalismo, o que vale mesmo é a música do Humberto Gessinger: “quem mente antes diz a verdade”.
Durante uma aula, um conhecido professor de História do Brasil, comunista assumido, se viu diante de mais uma calúnia largamente difundida: aquela que diz que comunista deve ser pobre. Se não for pobre, não é comunista.
Do meio da sala, um aluno mau-caráter fez a provocação:
- Professor, como é que o senhor pode ser comunista se comprou um carro novo?
A resposta estava na ponta da língua. E não poderia ter sido melhor.
- Meu filho, eu comprei um carro com o suor do meu trabalho. Sou um comunista! Não fiz voto de pobreza não!
Tá aí. Gostei dessa. Vou fazer uma camisa. Logo abaixo de “O capitalismo mata, morte ao capitalismo”, vou colocar: “Sou um comunista! Não fiz voto de pobreza!”.
Acho que vai pegar.
Coçadinha
Quando temos febre, é sinal de que as coisas não andam muito bem. Podemos estar doentes.
Há em nossa sociedade uma febre. Você já deve ter notado (se ainda não notou é porque é um tapado!) que somos vigiados em todos os lugares. As câmeras estão por toda parte. Quer dizer, por quase toda parte. O banheiro ainda é a última trincheira da privacidade. Mas o fato é que tem sempre alguém bisbilhotando a gente através das lentes das câmeras. Aquela história de que estão nos filmando para a nossa própria segurança é pior do que conto da carochinha. A única segurança que importa não é a nossa, é a das mercadorias que não podem ser roubadas. Nossa sociedade aprofundou de tal forma a desigualdade entre os homens que precisa vigiar a si mesma, em praticamente todas as situações. Este é apenas um dos sinais de nossa doença, os outros são ainda mais cruéis.
Mas o causo que quero contar é um pouco mais leve do que isso. Tem a ver com um grande atentado à privacidade, representado por estas lentes indiscretas. O Moisés, funcionário administrativo de uma repartição pública, sentiu na pele os efeitos da bisbilhotice.
Saindo do banheiro, quando retornava para sua sala, certo de que não havia ninguém olhando, o Moisés meteu a mão na bunda para dar aquela boa e velha coçadinha. Mas uma coçadinha com gosto mesmo. Depois, deu uma cheirada rápida na mão. Só para garantir que estava tudo bem. Olhou para os lados, e não viu uma só alma. Ficou tranqüilo.
Na saída pro almoço, o Moisés cruzou com um dos seguranças da repartição. Todo efusivo, ele disse:
- Grande Coçadinha! E essa mão aí, hein?!
Na portaria, outro segurança fez o mesmo:
- Olha a mão aí, ô Coçadinha!
Agora ninguém mais respeita o Moisés. Está até pensando em pedir transferência de departamento. É um tal de Coçadinha pra cá, Coçadinha pra lá.
Um horror.

4 comentários:
que isso João... a velhinha só tava tentando ser simpática! rsrsrsrsrsrs
Ri demais aqui meu bem!! kkkkkkkkk
P.S.
e o meu docinho?
Essa história do assédio sexual da velhinha é apenas ficção ou é real? Natália sabe disso?
Se for verdade, é uma velhinha de muito mau gosto. Você é muito feio.
Esse tipo de situação do segundo conto, que nós devemos apoiar a classe trabalhadora mas não devemos nos apropriar do que de melhor existe nas mercadorias frutos do trabalho dessa classe é bastante repetitiva. Comprar um Fusca ou um Ferrari é comprar uma mercadoria produzida por trabalhadores. O que deve ser combatida é a fetichização do produto, e não a circulação do mesmo.
Como seria melhor o mundo se todos lêssem Marx...
João, por que o discurso comunista anda tão fora de moda?
Parece que as pessoas não gostam mesmo de questionar.
É consumir, trabalhar, consumir, pagar contas, limpar a bunda dos filhos, consumir de novo, mercado de trabalho, qualificação, mercado de trabalho, bla, bla, bla.
Porra! Por que ninguém pára pra pensar que o mundo poderia ser diferente? É um passo importante.
Quanto ao texto, cada vez mais seu fã, cara! Abraço!
Ah... Isolda foi ao Mandala por sua indicação. Foi uma noite muito boa. Divulguei o blog dela lá e conversamos um bocado. Valeu meu irmão, e espero vc por lá de novo! rs
Cara, a velha tem um mau gosto que eu vou te contar viu? Pergunta a ela se a digníssima não estaria interessada na sua entrevista completa sobre beleza pro Trabalho de Sociologia?
Acho que ela ia adorar, hein?
E a história do Coçadinha, coisa normal. É melhor o cara se acostumar com o apelido e pronto. É que nem os são-paulinos com o Bambi, tem que assumir o que se é de uma vez.
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