domingo, 28 de setembro de 2008

Pequenos flagras da vida de todos nós VI

Por João Paulo da Silva

Um cochilinho

André Luis é um rapaz muito atarefado. Para ele, tempo é um bicho. Trabalho, estudos, reuniões, atividades políticas. Enfim, um sujeito que não possui nem horário para dormir. E é exatamente sobre isso que versa este “causo”. Nosso herói voltava pra casa depois de mais um dia cheio. Subiu no ônibus já convicto: “Onde eu encostar, eu durmo”. E assim o fez. Deu a sorte de arrumar uma cadeira vaga e sentou-se. Ao lado, estava uma senhora grande e gorda. Ele, magrinho, não teve dificuldades de se acomodar. Sucedeu-se, então, o fato. Em questão de segundos, nosso “cavaleiro da triste figura” estava cochilando. Até aí tudo normal, não fosse pelo vexame ocorrido. Por causa do balançar do ônibus, André constantemente tombava sua cabeça sobre os enormes peitos da mulher. A cada cochilada, um constrangimento.
- Opa. Desculpe, senhora. É que estou com muito sono. – dizia depois de bater a cabeça nos peitos da madame ao lado.
- Está tudo bem, meu filho. Não foi nada.
Esta cena se repetiu pelo menos umas cinco vezes. E a única coisa que mudava era o grau de constrangimento. Até que...
Compadecida pela sonolência de nosso herói, a mulher ao lado realizou um dos mais belos gestos humanos que já vi. Após nova cochilada, a grande senhora gorda foi ao socorro de André.
- Ô meu filhinho... Tá com sono mesmo, né?
- A senhora não faz idéia.
- Venha aqui, chegue. Vou resolver seu problema. Deite sua cabecinha aqui no meu peito, vá. Não precisa ficar com vergonha. Pode tirar um cochilinho no peito da titia.
A cena foi, de fato, comovente. Outro dia conversei com o André e ele me confessou:
- Olha, foi o melhor cochilo que tirei na minha vida. Tão acolhedor, sabe? Uma fofinha aquela senhora.

Monômios e polinômios

Estamos numa escola. O professor de matemática acabou de entrar na sala de aula. Espera o silêncio da turma e começa a falar:
- Bem, meus queridos, hoje nós vamos conversar sobre um conteúdo muito importante para o estudo da matemática. Falaremos sobre os monômios e os polinômios. Alguém aqui sabe o que é um monômio?
- Eu sei, professor! – disse o Fernandinho, o gaiato da sala.
- E o que é?
- Monômio é Fernando! – respondeu o infeliz.
“O futuro de um país está na educação”, dizem por aí.

Aguinha com açúcar

Família reunida na sala. Atentos, todos os membros do clã assistem ao Jornal Nacional. Pai, mãe, filhos, avós. Destaque para a vovó Nêna. Aos 98 anos, aposentada – um verdadeiro milagre. Não econômico, claro – continua ali, firme. Mas qualquer tosse da vovó é motivo para alerta na família. Pode ser a última.
A crise econômica está deixando os investidores de cabelo em pé. A insegurança toma conta do mercado. Parece que dessa vez o negócio é sério mesmo. A reportagem na TV fala sobre perdas bilionárias dos bancos, empresas fechando, instituições de crédito falindo. Se referindo ao mercado, o repórter usa termos que deixam a vovó Nêna intrigada com toda essa confusão. “O mercado está nervoso, parece ter acordado amedrontado com a desvalorização das ações. O clima é de preocupação”.
- Isso ainda vai dar merda. – comenta o pai.
Vovó Nêna, sagaz como um felino, dispara:
- Dá um chazinho de camomila, um suco de maracujá, uma aguinha com açúcar. Num instante ele fica calminho, calminho.
Depois, tossiu seco e forte. Mau sinal.

domingo, 21 de setembro de 2008

Pequenos flagras da vida de todos nós V

Por João Paulo da Silva

Fogueira

A sinceridade é uma daquelas características típicas dos que vivem de extremos. Ser sincero pode afastar ou aproximar. No caso da primeira situação, o ator Luiz Fernando Guimaraens, interpretando o Super Sincero do Fantástico, nos deu a idéia das conseqüências da sinceridade. Muitas pessoas, entretanto, prezando pela boa convivência, escolhem contar uma mentirinha aqui, outra ali. “Pra não magoar, sabe?”.

Mas um amigo meu não. Argumenta que prefere falar o que pensa mesmo. “Digo na lata, mano.”. Essa característica de sua personalidade lhe trouxe situações, no mínimo, inusitadas.
Estamos numa festa de aniversário do referido amigo. Muita animação, música, bebidas, comidas. Quer dizer, comidas nem tanto. Mais bebidas. Enfim, uma festa. À medida que os convidados chegavam, iam trazendo seus presentes. E o aniversariante, todo cheio de si, feliz da vida. Até que...

Eis que surge mais um convidado com seu presente. Uma bela camisa, não fosse pela estampa que trazia. A roupa tinha a bandeira norte-americana impressa na frente. Meu amigo aniversariante, revolucionário socialista convicto, quase teve um treco.
- O que é isso, companheiro?! Como é que você me dá uma blusa do imperialismo ianque?! Nunca vou vestir uma coisa dessas!
- Mas é só uma camisa... – tentou se justificar o convidado.
- Só uma camisa?! Não senhor! Isso é um discurso do capital!
- Quer dizer que você não gostou?
- Claro que não! Odiei essa bosta.
- Então você não vai usar? – perguntou o convidado, já murchinho.
- Eu mesmo não! Quer dizer, vou fazer melhor. Daqui essa camisa!
- O que você vai fazer?
- Vou fazer um ato político!
O aniversariante foi lá dentro, trouxe uns trapos e ateou fogo. Em seguida, tascou a blusa que havia ganhado na fogueira. Dançando em torno da chama, ele falava:
- Morte ao imperialismo americano! Fora Bush do Iraque!
Ficou um clima chato, sabe? Poxa, queimar um presente na frente de quem deu é dose! Mas também só podia ser provocação dar uma camisa daquelas. Bem pregado.

Fogueira II

Na mesma festa, passado o incidente, quando nós imaginávamos que mais nada poderia acontecer, eis que surge outra surpresa. Um convidado chegou com um livro de presente. Quando o aniversariante desfez o embrulho... Era Paulo Coelho.
- Mas o que é isso aqui?!
- Um livro do Paulo Coelho, ué!
- Livro? Você chama isso aqui de livro?! Meu amigo, essa bosta não serve nem pra limpar a bunda!
- Mas é que...
- Não tem “mas” nem meio “mas”! Aê pessoal! O colega aqui trouxe mais lenha pra fogueira!
A sinceridade é fogo!

37?

Eu estava voltando pra casa e resolvi passar num supermercado para comprar uma barra de chocolate. Na boca do caixa, tirei meu cartão de crédito.
- A carteira de identidade, por favor. – pediu a mulher do caixa.
- Pois não. Aqui está. – eu disse.
A mulher olhou, olhou, examinou a foto e lascou pra cima:
- Meu Deus! Como tava novinho aqui.
- Pois é. Eu tinha uns nove anos nessa foto.
- Vendo assim até parece seu filho.
Como todos sabem, estou perdendo os cabelos. E, na ocasião, eu ainda estava com uma barba de personagem bíblico.
- Quantos anos a senhora acha que tenho hoje? – perguntei.
Ela me olhou com uma cara de quem diz “quer mesmo que eu diga”.
- Vamos. Pode falar. – incentivei.
- Uns 37? – disse ela, querendo mesmo era dizer 40.
- 37!! Ora essa! Eu tenho é 23, minha senhora!
- Me desculpe. É que...
- Olha, não diga mais nada não! Daqui o meu chocolate. Ora, vejam só! 37!
Saí depressivo do supermercado. No caminho de volta, pensei: do jeito que as coisas vão, vou chegar em casa com uns 50 anos.