domingo, 11 de janeiro de 2009

Pequenos flagras da vida de todos nós IX

Por João Paulo da Silva

Eles também sabem rir

Anos de chumbo.
As organizações de esquerda estão na ilegalidade. Paira sobre o país um ar sombrio, não há razão para sorrisos. Membros de um pequeno partido revolucionário se reúnem na casa do... espere um pouco! Não interessa saber na casa de quem eles se reúnem, ora bolas! São tempos difíceis. Então eles apenas se reúnem. Homens e mulheres discutem qual a melhor tática para agir, afinam a política a ser aplicada etc. Estão todos sérios, apreensivos. Não há razão para sorrisos.

Ao final da discussão, não chegam a um consenso. Vão ter de fazer uma votação. Numa organização conspiratória como a deles, por uma questão de segurança, nem todos podem votar. Apenas os militantes decidem. Aqueles que ainda são aspirantes votam de forma consultiva, não deliberativa. Há duas propostas e um único aspirante na reunião. Todos votam. O aspirante é o único que, mesmo consultivamente, não vota em nenhuma das propostas. O dirigente da reunião então diz:
- Muito bem... abstenções?
O aspirante levanta a mão.
- Eu me abstenho consultivamente.
Eram tempos difíceis. Mas ninguém pôde segurar o riso.

A mais tocada no Brasil

Eu tinha ido ajudar na produção de um documentário em homenagem aos 21 anos do MST em Alagoas. Em Penedo, depois de ter rodado pelo interior do estado, passamos na frente do prédio onde funcionou uma rádio chamada São Francisco. O Rubem, nosso cinegrafista, nasceu e morou em Penedo. Na volta pra casa, contou uma história bastante conhecida na região, um incidente envolvendo um radialista da época em que o próprio Rubem ainda era uma criança.
A emissora encerrava suas transmissões às 22 horas. O locutor dizia:
- Bem, estamos chegando ao fim de mais uma transmissão da sua rádio São Francisco. A mais ouvida no Brasil.
E o assistente desligava o transmissor.
Era sempre assim.
Aí teve um dia em que as coisas não saíram como de costume. O ponteiro do relógio marcava 22 horas e a transmissão já estava acabando. Mas não para o assistente, que havia cochilado na cadeira.
- Chegamos ao final de mais uma de nossas transmissões. Essa é a sua rádio São Francisco. A mais ouvida no Brasil. Boa noite.
Imaginando que o assistente tinha desligado o transmissor, o locutor deixou escapar:
- Essa peste não pega nem em Piaçabuçu!
No outro dia demitiram o cara.
Versado em Mitologia Grega

Final de tarde de um domingo. Entre umas e outras cervejas na beira da praia, o advogado Antonio Sebastião esbanjava seu vasto conhecimento sobre o mundo e as coisas que existem dentro dele. Grande entendedor de História Geral e versado em Mitologia Grega, Antonio contava a seus filhos, de forma detalhada, as aventuras épicas descritas pelo poeta Homero nas obras a Ilíada e Odisséia.

Falou sobre Aquiles e seu tendão (ou era calcanhar?) e sobre um cavalo de madeira cheio de gregos que entrou em Tróia. Contou, também, a história de Odisseu, rei de Ítaca, que depois de dez anos fora de casa, ainda teve a coragem dizer para sua mulher que tinha se perdido na viagem de volta. Por fim, o versado advogado discorreu sobre a capacidade criadora de Homero ao narrar as famosas epopéias gregas. Finalizando sua dissertação acerca das aventuras mitológicas, Antonio concluiu com a seguinte constatação:
- Olhem, meus filhos, Homero deve ter sido um cabra inteligente da peste, pra imaginar todas aquelas histórias fantásticas. O engraçado é que ele era cego. E o pior: não enxergava nada!

4 comentários:

Bruno MGR disse...

Cara, essa da rádio de Penedo é sensacional. Rachei o bico de tanto rir.
Abraço, João!

Margarida Alexandrina disse...

texto bom!

Anônimo disse...

João, quem foi o aspirante que votou consultivamente? Essa eu queria ver.

Edja Jordan

Elliott disse...

o joão já da pra escrever um livro de cronicas soh com os flagras!!
:P

serio mesmo