domingo, 17 de maio de 2009

Pequenos flagras da vida de todos nós XI

Por João Paulo da Silva

Mandrake

A gente sempre acha que já viu de tudo nessa vida. E é aí que mora o perigo. Na maioria das vezes, subestimamos a cota de bizarrices que cada um de nós possui.

Certo professor de Língua Portuguesa, na tentativa de ganhar a simpatia de seus alunos, resolveu entrar numa popular brincadeira proposta pela turma da 6ª série. Se você foi uma criança normal, com certeza já brincou de “Mandrake”. Não lembra? É simples. Quem estiver brincando, precisa ficar o tempo todo com os dedos de uma das mãos cruzados. Do contrário, se alguém disser “Mandrake”, o participante que foi pego com os dedos descruzados não poderá se mexer até receber permissão.

Na ânsia de conseguir a confiança dos alunos, o professor entrou na brincadeira. Só teve um problema: ele levou tudo a sério demais. Dava aula com os dedos cruzados, escrevia no quadro com os dedos cruzados, corrigia as atividades da turma com os dedos cruzados. Tudo isso para não ser pego no “Mandrake”. Passou uma semana, e a brincadeira persistia. Nem ele nem os alunos se descuidavam.

Um dia, enquanto o professor escrevia no quadro, um menino chegou perto e disse:
- Professor, posso ir ao banheiro?
- Claro. Pode ir.
Mal o garoto cruzou a porta e desceu as escadas, o professor se virou para a turma.
- Agora eu pego ele.
E saiu na ponta dos pés atrás do aluno. Esperou um pouco na porta do banheiro, depois entrou. O menino estava lavando as mãos quando foi surpreendido.
- MANDRAKE! – gritou o professor.
Como num passe de mágica, o pobre do moleque ficou paralisado.
- Agora te peguei, malandro.
- Pô, professor. Assim não vale, não.
- Que não vale o quê, mané?! Você vai ficar aí paradinho.
- Mas assim eu vou perder aula.
- E o que é que eu tenho a ver com isso?
- Ué, você é o professor.
- Isso não quer dizer nada. Você deveria ter pensando nisso antes. Agora aguente.
E lá se foi o professor de volta para a sala, deixando o aluno paralisado dentro do banheiro. Só depois do fim da aula foi que ele recebeu permissão para se mexer. O moleque já estava aos prantos quando o professor entrou.
- Mas o que é isso?! Chorando?! Você é um homem ou um pacote de amendoim?!
- Sou um pacote de amendoim.
- Frouxo! Sabe nem brincar. – sentenciou o professor.
“Mandrake” não era pra qualquer um.

Pequeno mau-caráter

Eu tinha uns 11 anos, e ainda não era o bom sujeito que sou hoje (é o que dizem). Na verdade, eu era mesmo um pequeno mau-caráter. Mas fui só até os treze. Depois mudei. Juro. Há um causo que comprova minha inclinação infantil para a safadeza. Como disse, eu tinha uns 11 anos quando sucedeu o fato.

Meu irmão e eu costumávamos voltar pra casa sentados nas cadeiras da frente do ônibus, reservadas apenas para os idosos. Quando os velhinhos subiam pela porta dianteira, nós dois ficávamos com raiva porque eles pediam para sentar nos lugares. Aí a gente fazia a viagem toda em pé. Um dia bolei um plano para nunca mais ter que dar o lugar no ônibus para os vovôs. Funcionava assim: quando parávamos num ponto de ônibus e víamos que velhinhos estavam subindo, imediatamente meu irmão e eu fingíamos dormir nas cadeiras. Dessa forma, nenhum idoso tinha coragem de acordar aquelas pobres crianças indefesas. Durante muito tempo funcionou, mas nesta vida nada é eterno.

Um dia voltávamos para casa, como de costume, seguindo o mesmo esquema. O ônibus parou e subiram dois velhinhos. Distraído, só os vi quando já estavam dentro. Aí, no desespero, soprei um pouco alto para meu irmão:
- Olha eles! Dorme rápido! Dorme! Vai, dorme logo!
Com uma brechinha do olho, fiquei observando os velhinhos ao lado das cadeiras. Então, eis que o terrível aconteceu. Uma senhora, que estava sentada atrás de nós, revelou meu plano quase perfeito.
- Olha pra isso, Fulana. Que coisa feia desses dois meninos! Fingindo que estão dormindo pra não dar o lugar pros mais velhos.
Meu irmão e eu não nos aguentamos. Explodimos numa gargalhada ainda mais mau-caráter do que nosso ato. Saímos corridos do ônibus, quase a bengaladas.
Hoje eu sei: nada mais justo.

6 comentários:

Estêvão dos Anjos disse...

Só não sei de onde você tirou que era bom moço, mas... E esse professor ta parecendo ser você mesmo, o que comprova que continuas o mesmo :p

Bruno MGR disse...

Moleques sacanas vcs hein? Concordo com o Estêvão, o professor sacana és tu, malandro, hehehehe

Segredos da Luz disse...

eitaaa joão...
tbm acho que esse professor devee ser vc... adoreiiii a parada do mandrake... no começo nem lembrava oq era, mas dps... kkkkkkkkkk eitaaaaa... será que era tu e teu irmão que tbm fingiam durmir no onibus... mermão que sacanagem com os idosos né??!!kkkkkkkkkkkk
Ultimamente os textos aqui me fazem rir bastanteee. :))

Janine disse...

Esse professor é do mal!

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E sobre vc e seu irmão, bem...
EU ACHO É TOME!

KKKKKKKKKKKKKKKKKKK

Anderson Santos disse...

Concordo com os anteriores, esse´professor é vc, João. Só um cara que narra as próprias jogadas no futebol pode fazer algo assim.

Coitados dos velhinhos. Ninguém nunca te disse: "um dia vcs terão a idade deles"?

leoo disse...

Pô, João! Ainda bem que eu te conheci depois dos 11 anos! hehehehe!