domingo, 31 de maio de 2009

Me contaram

Por João Paulo da Silva

“Não sei se é verdade, mas me contaram uma...”. Normalmente, é assim que começam os relatos duvidosos. O fofoqueiro – espécie de jornalista sem critérios de apuração nem código de ética – é o responsável por essas narrativas audaciosas. Para ele, uma boa história não precisa ser necessariamente verdadeira. Precisa ser apenas atraente e, de preferência, escandalosa.

Eu tenho pena do jornalista, esse fofoqueiro com código de ética e critérios de apuração. Quantos jornalistas já deixaram de contar boas histórias só porque elas não eram totalmente verdadeiras? O fofoqueiro é que é feliz. Pode aumentar uma coisinha aqui, inventar outra acolá. Melhor: se quiser, pode até inventar tudo e ficar com a consciência tranquila. Ninguém vai punir o fofoqueiro. Mesmo porque, depois de feita a fofoca, é muito difícil provar que fulano de tal é responsável pela história. O fofoqueiro sempre nega.

Não sei se é verdade, mas outro dia também me contaram uma. No início dos anos 90, durante uma viagem aos EUA, um embaraçoso acontecimento envolveu o então presidente da República, Fernando Collor de Mello, e a primeira-dama, dona Rosane. Dizem as más línguas que ela nunca foi uma pessoa, digamos, “esperta” demais. É como falam por aí: o cérebro é uma coisa maravilhosa. Todos deveriam ter um. Ao que tudo indica, dona Rosane Collor não tinha. Ou, na melhor das hipóteses, se esqueceu de levar no dia da viagem.

Assim que o presidente e a primeira-dama desembarcaram no aeroporto, foram recebidos com todas as honras a que tinham direito. Inclusive, na ocasião, havia uma enorme faixa na entrada do saguão com os seguintes dizeres: Welcome, Collor! Dona Rosane, um poço de sagacidade, olhou com atenção a frase e rapidamente se deu conta do que estava escrito. Com cara de mulher que exige explicações do marido, a primeira-dama lascou pra cima do presidente:
- Mas que história é essa, Fernando?! Quem é esse tal de Wel?!
Bom, foi o que me contaram.

domingo, 24 de maio de 2009

Indo ou voltando?

Por João Paulo da Silva

Eis que me chega outra história do nosso intolerante professor de português. Criador da eficaz “Pedagogia da Jeguice”, cuja técnica consiste em humilhar os que cometem erros gramaticais, o inflexível mestre se deparou, na semana passada, com mais um atentado contra a Língua Portuguesa.

Mesmo ainda um pouco abalado com a última jeguice, que lhe rendeu até um infarto do miocárdio, o persistente professor resolveu voltar às salas de aula. Na ocasião, ele falava sobre um assunto que para muitos é um dos maiores terrores da nossa língua: a crase.
- Este é um tema que não guarda mistérios. – dizia o professor – As pessoas gostam de complicar as coisas simples. A crase, por exemplo, não tem segredo algum. Vejamos. Para que ocorra o acento grave da crase, é necessária a fusão de duas vogais idênticas.
- Não entendi, fessor. – interrompeu um aluno.
- Paciência, pequeno jerico. Ainda não terminei de explicar. Continuemos. Haverá crase quando houver o encontro da preposição “a” com o artigo feminino “a”. Exemplo: O táxi chegou à esquina. Neste caso, a palavra “esquina” admite o artigo feminino “a” e o verbo “chegou” exige a preposição “a”. Sendo assim, a crase é perfeitamente possível.

Ao longo da aula, o professor foi explicando ainda mais sobre esse encontro da preposição com o artigo e coisa e tal. Até que, num determinado momento, resolveu ensinar um macete para aqueles alunos que sempre acharam que a crase era um recurso estilístico.
- Como sei que estou entre muitos jumentos, darei uma dica que ajudará na identificação da crase. Acompanhem, jovens quadrúpedes. Exemplo: na frase “fui a Portugal”, devemos ou não usar a crase?

Silêncio. O professor prosseguiu.
- A resposta é não, meus bestiais alunos. Vejamos a razão. Se eu disser que fui a Portugal e não souber se devo aplicar a crase ou não, basta voltar do lugar para saber a resposta. Se aparecer a expressão “voltar da”, então ocorrerá crase.
Aí veio a pancada.
- Ah, fessor. Assim fica muito fácil. Já entendi tudo. – disse um aluno – Quer dizer que só tem crase se eu for para um lugar e voltar, né? Se eu for pra ficar no lugar e não voltar, então não tem crase, certo? Muito fácil assim. Desse jeito, qualquer um acerta.
O professor começou a tremelicar violentamente, tropeçou nas próprias pernas e caiu. Com a boca torta, babando e revirando os olhos, ele parecia querer dizer alguma coisa. Chegando mais perto, os alunos puderam identificar duas palavras. Com a voz esganiçada, o professor ainda encontrou forças para dizer:
- Que jeguice...
Como a pressão cerebral fora muito grande, o mestre acabou sendo internado às pressas. Derrame. Parece que dessa vez ele não escapa.
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Nota do autor:
Este mês o blog As Crônicas do João completou dois anos de existência. Para todos aqueles que passam por aqui, meus sinceros agradecimentos.

domingo, 17 de maio de 2009

Pequenos flagras da vida de todos nós XI

Por João Paulo da Silva

Mandrake

A gente sempre acha que já viu de tudo nessa vida. E é aí que mora o perigo. Na maioria das vezes, subestimamos a cota de bizarrices que cada um de nós possui.

Certo professor de Língua Portuguesa, na tentativa de ganhar a simpatia de seus alunos, resolveu entrar numa popular brincadeira proposta pela turma da 6ª série. Se você foi uma criança normal, com certeza já brincou de “Mandrake”. Não lembra? É simples. Quem estiver brincando, precisa ficar o tempo todo com os dedos de uma das mãos cruzados. Do contrário, se alguém disser “Mandrake”, o participante que foi pego com os dedos descruzados não poderá se mexer até receber permissão.

Na ânsia de conseguir a confiança dos alunos, o professor entrou na brincadeira. Só teve um problema: ele levou tudo a sério demais. Dava aula com os dedos cruzados, escrevia no quadro com os dedos cruzados, corrigia as atividades da turma com os dedos cruzados. Tudo isso para não ser pego no “Mandrake”. Passou uma semana, e a brincadeira persistia. Nem ele nem os alunos se descuidavam.

Um dia, enquanto o professor escrevia no quadro, um menino chegou perto e disse:
- Professor, posso ir ao banheiro?
- Claro. Pode ir.
Mal o garoto cruzou a porta e desceu as escadas, o professor se virou para a turma.
- Agora eu pego ele.
E saiu na ponta dos pés atrás do aluno. Esperou um pouco na porta do banheiro, depois entrou. O menino estava lavando as mãos quando foi surpreendido.
- MANDRAKE! – gritou o professor.
Como num passe de mágica, o pobre do moleque ficou paralisado.
- Agora te peguei, malandro.
- Pô, professor. Assim não vale, não.
- Que não vale o quê, mané?! Você vai ficar aí paradinho.
- Mas assim eu vou perder aula.
- E o que é que eu tenho a ver com isso?
- Ué, você é o professor.
- Isso não quer dizer nada. Você deveria ter pensando nisso antes. Agora aguente.
E lá se foi o professor de volta para a sala, deixando o aluno paralisado dentro do banheiro. Só depois do fim da aula foi que ele recebeu permissão para se mexer. O moleque já estava aos prantos quando o professor entrou.
- Mas o que é isso?! Chorando?! Você é um homem ou um pacote de amendoim?!
- Sou um pacote de amendoim.
- Frouxo! Sabe nem brincar. – sentenciou o professor.
“Mandrake” não era pra qualquer um.

Pequeno mau-caráter

Eu tinha uns 11 anos, e ainda não era o bom sujeito que sou hoje (é o que dizem). Na verdade, eu era mesmo um pequeno mau-caráter. Mas fui só até os treze. Depois mudei. Juro. Há um causo que comprova minha inclinação infantil para a safadeza. Como disse, eu tinha uns 11 anos quando sucedeu o fato.

Meu irmão e eu costumávamos voltar pra casa sentados nas cadeiras da frente do ônibus, reservadas apenas para os idosos. Quando os velhinhos subiam pela porta dianteira, nós dois ficávamos com raiva porque eles pediam para sentar nos lugares. Aí a gente fazia a viagem toda em pé. Um dia bolei um plano para nunca mais ter que dar o lugar no ônibus para os vovôs. Funcionava assim: quando parávamos num ponto de ônibus e víamos que velhinhos estavam subindo, imediatamente meu irmão e eu fingíamos dormir nas cadeiras. Dessa forma, nenhum idoso tinha coragem de acordar aquelas pobres crianças indefesas. Durante muito tempo funcionou, mas nesta vida nada é eterno.

Um dia voltávamos para casa, como de costume, seguindo o mesmo esquema. O ônibus parou e subiram dois velhinhos. Distraído, só os vi quando já estavam dentro. Aí, no desespero, soprei um pouco alto para meu irmão:
- Olha eles! Dorme rápido! Dorme! Vai, dorme logo!
Com uma brechinha do olho, fiquei observando os velhinhos ao lado das cadeiras. Então, eis que o terrível aconteceu. Uma senhora, que estava sentada atrás de nós, revelou meu plano quase perfeito.
- Olha pra isso, Fulana. Que coisa feia desses dois meninos! Fingindo que estão dormindo pra não dar o lugar pros mais velhos.
Meu irmão e eu não nos aguentamos. Explodimos numa gargalhada ainda mais mau-caráter do que nosso ato. Saímos corridos do ônibus, quase a bengaladas.
Hoje eu sei: nada mais justo.

domingo, 10 de maio de 2009

Pequenos flagras da vida de todos nós X

Por João Paulo da Silva

Braços

À noite, passando por uma rua deserta, um grupo de estudantes voltava pra casa. Por andar devagar, um deles acabou se afastando um pouco do restante. Como o bando vinha numa conversa animada, não notou que um dos rapazes ia ficando para trás.

Algum tempo depois, o grupo sente falta dele. Ao se virar, a caravana avista o rapaz a uma distância considerável. Ele, que era negro, estava branco. Logo todos se aproximaram para saber o que acontecera.
- O que houve, cara?!
- Fui assaltado! Levou meu celular. – contou ele, muito nervoso.
- Assaltado?! Mas como? – perguntaram todos.
- Um cara chegou por trás de mim...
- Ui!! – alguém do grupo suspirou.
- Peraí, porra! É sério. O cara foi assaltado. Fala. – disse o Erivaldo.
- Um cara chegou por trás de mim. Passou o braço pelo meu pescoço, encostou o cano do revólver nas minhas costas e enfiou a mão no meu bolso pra pegar o celular. E disse que se eu fizesse qualquer coisa ele atirava.
- Peraí, peraí, peraí. Você disse que o cara fez o quê?! Deixa ver se eu entendi. O cara te deu uma gravata, encostou a arma nas tuas costas e enfiou a mão no teu bolso?
- É. Foi isso. – confirmou o rapaz assaltado.
- E quantos braços tinha esse assaltante, pelo amor de Deus?! Três?! – estranhou o Erivaldo.
Nesse momento, uma forte dúvida se abateu sobre o grupo. Alguma coisa não estava fazendo sentido naquela história.
- Mas não é possível. Pra fazer tudo isso ao mesmo tempo, o assaltante teria que ter três braços. Você tem certeza do que aconteceu?
- Tenho sim. Foi exatamente isso. – insistiu o assaltado.
- E como diabos o bandido fez toda essa ação? – o Erivaldo não se conformava.
- E eu é que sei! Só sei que o cara levou meu celular!
- Calma aí, pessoal. Vamos analisar friamente. – ponderou o Alex. – Há três possíveis explicações, mas apenas uma pode ser a verdadeira. Primeira: nosso amigo aqui está mentindo, mas ele não teria razões para mentir. Então está descartada. Segunda: o assaltante realmente tinha três braços, o que seria irreal e por si só uma mentira. Resta apenas a terceira. Vai ver que...
- Vai ver o quê?! Fala logo! – exigiu o grupo todo.
- Vai ver que esse terceiro braço não era exatamente um braço. Nem o cano era exatamente de um revólver. Bom, essa é explicação mais plausível.
Fez-se um silêncio constrangedor. Aí o Erivaldo falou:
- Isso só piora as coisas. Parece que agora a dúvida mudou.
- E qual é a dúvida então? – quis saber o Alex.
- Dadas as proporções avantajadas do caso, agora precisamos saber se assaltante era um homem ou jumento.
- Uiii! – alguém suspirou de novo. Dessa vez, mais profundo.


Coronel

Os nomes das pessoas envolvidas nesta história serão preservados por motivos de segurança. No caso, a minha segurança. Não a deles.
Banheiro masculino do prédio da reitoria da Universidade Federal de Alagoas. Um estudante baixinho e negro entra para fazer xixi. Posiciona-se em frente ao mictório e começa a urinar. Neste momento, entra no banheiro um conhecido pró-reitor da universidade. Coloca-se ao lado do estudante, também para mijar. Não demora muito e o pró-reitor começa a olhar, com o canto do olho, para o membro fálico do referido aluno. Dá aquela olhadinha, depois desvia o olhar. Espia de novo, e para. Fica nessa durante todo o xixi.
Quando terminam de urinar, vão os dois até a pia para lavar as mãos. Aí o pró-reitor põe a mão no ombro do estudante e, categórico e enfático, diz:
- Coronel...