domingo, 23 de janeiro de 2011

Psicopatas

Por João Paulo da Silva

Horrores inimagináveis como os que foram cometidos por Josef Fritzl, o “Monstro da Áustria”, condenado em 2009 à prisão perpétua pelos crimes de incesto, estupro, cárcere privado e homicídio, estarrecem a humanidade pelo grau de barbárie e reacendem, de tempos em tempos, um medo imensurável em todos nós: o de que qualquer um ao nosso lado pode ser um psicopata. Inclusive o próprio pai. É claro que viver num clima desses só pode nos levar a uma paranoia coletiva, algo muito comum numa sociedade doente como a nossa.

É terrível, verdade seja dita. Como podemos saber se estamos diante de um psicopata? Como reconhecer alguém que pode cometer as piores insanidades sem o menor remorso, já que psicopatas não andam com placas de aviso nem rótulos no peito? Fica difícil. Quer dizer, ficava.

Recentemente, li uma entrevista com o psicólogo canadense Robert Hare, famoso por ter criado uma escala usada mundialmente para medir os graus de psicopatia de cada um. Na escala, o número máximo que a insanidade pode atingir é 40. A dificuldade de reconhecimento de um maníaco pode ser ilustrada com uma simples analogia.

Imagine um jogo de gato e rato. Para Hare, o psicopata é como o gato, que não pensa no que o rato sente. Ele só pensa em comida, em satisfazer a si mesmo. A vantagem do rato sobre as vítimas do psicopata é que ele sempre sabe quem é o gato. Com a gente é diferente. Às vezes não dá tempo de reconhecer o gato.

Mas os critérios de avaliação adotados por Hare podem ajudar a identificar um comportamento psicótico. Ele estabeleceu alguns, como extrema facilidade para mentir, grande capacidade de manipulação e mania de dizer que está sendo mal interpretado quando é pego fazendo coisas erradas.

Juro – e nem sempre faço isso – que quando li que estes seriam os indicadores de psicopatia pensei: se o psicólogo canadense estiver certo, nosso problema é bem maior do que imaginamos. Por quê? Observe o cenário político brasileiro. Agora, responda: em que as atitudes dos políticos se diferenciam dos comportamentos indicados pelo psicólogo?

Eu sei, não é uma conclusão tranquila. Eles mentem, manipulam e ainda se dizem mal interpretados quando são pegos com a boca na botija. Estou inclinado a acreditar que nosso país e estados são governados por astutos psicopatas, classificados nos graus 12, 13, 15, 22, 25, 40, 43, 45, 65, conforme número do partido. Terrível, não?

Mas isso não é tudo. Pior é quando, em tempos de crise econômica ou não, eles aumentam os próprios salários, culpam a natureza por tragédias em que eles são os responsáveis e ainda reduzem o orçamento de serviços essenciais, como a saúde, por exemplo. Aí deixam de ser apenas psicopatas. E, sem remorso nenhum, se tornam verdadeiros serial killers, responsáveis por todos os mortos nas filas dos hospitais e enchentes da vida.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Feliz ano novo!

Por João Paulo da Silva

Na beira do mar, o Roberval segurava sua tacinha de plástico cheia de vinho espumante barato. Vestido de branco, assim como centenas de tantas outras pessoas, ele aguardava eufórico a queima de fogos e a chegada do ano novo. No peito, aquele velho e conhecido pensamento: “Porra, o próximo ano tem que ser melhor, né?! Esse foi de lascar.”. E o Roberval tinha razão. O ano não fora nada bom. Repleto de tragédias individuais e coletivas, muitas das quais ele mesmo começou a recordar naquele momento, enquanto esperava o início da contagem regressiva.

Desgraças tomam conta do Haiti. Terremoto, furacão, cólera. Tudo agravado pelo papelão das tropas militares da ONU no país. Vazamento de óleo inunda Golfo do México. Vulcões enfurecidos cospem fogo e cinzas na Europa. Geleiras derretem cada vez mais e aquecimento global aumenta. Crise econômica retorna, com a fatura sendo depositada na conta dos mais pobres. Mineiros são soterrados no Chile. Rio de Janeiro patina entre os tiros do Bope e dos traficantes. Enchentes se espalham por São Paulo, Alagoas e Pernambuco. Violências aterrorizantes são cometidas contra mulheres, indo do Irã aos gramados brasileiros. Na Avenida Paulista, quem desfila é a homofobia. Capitão Nascimento chega ao posto de herói nacional. Dilma é eleita presidente para dar continuidade ao passado, junto com Tiririca e Maluf. Lula atinge 87% de popularidade pagando R$ 130 para miseráveis. Serra sofre atentado terrorista com bolinha de papel. Parlamentares aumentam os próprios salários para R$ 26 mil. Morre José Saramago, e o Paulo Coelho nem gripe pega. Brasil deixa escapar o hexa numa das piores Copas do Mundo da história (se não fosse a Larissa Riquelme, tudo estaria perdido).


O Roberval só foi tirado de sua rápida e trágica retrospectiva por causa da queima dos fogos de artifício e de um sujeito que o cutucava insistentemente.


- Opa, companheiro! Feliz ano novo pra você! – adiantou-se o Roberval para o desconhecido.
- Feliz ano novo é o cacete, cumpade! Passa logo pra cá a carteira, o relógio, o celular e essas pulseiras de bacana aí! – disse o sujeito com um canivete encostado na barriga do Roberval.
- Mas calma aí, colega. Também não é assim, né?! Poxa, é ano novo. O que é isso, companheiro?! – ainda tentou argumentar o Roberval, enquanto entregava os pertences.
- Isso é assalto, mano! Nunca viu, não? Nesse país todo mundo rouba. Por que ladrão não pode roubar?! Se ligou na ideia? Pois é. Agora me dá um gole desse champanhe aí também. Perdeu, prayboy. Feliz ano novo!


“É. Vai ser um ano daqueles.”, pensou o Roberval, vendo o sujeito se afastar e os últimos fogos de artifício estourarem.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Lista de presentes

Por João Paulo da Silva

Natal e réveillon são tempos de festa, paz, alegria e solidariedade. Tudo bem que no resto do ano o mundo tenha sido violento, desigual, triste, cheio de sofrimento e egoísta pra diabo. Mas no Natal e no réveillon, não né?! Aí não pode. O clima deve ser outro, entende? Esses são momentos de renovar as esperanças e o espírito de humanidade (dá pra acreditar nisso?!). O Natal e o réveillon, inclusive, são as épocas mais importantes e especiais para presentear as pessoas. Uma espécie de ritual alegórico, cujo objetivo, além da obviedade de oferecer algo que se esteja precisando, é demonstrar nosso apreço pelo outro. Por isso, resolvi fazer minha listinha de presentes de Natal e fim de ano, com os nomes das figuras para quem eu gostaria de revelar toda a minha consideração. Por motivos logísticos, não cheguei a concretizar a entrega das “oferendas”, mas acredito que já valeu pelo exercício de solidariedade. Confira aí.

1) Presidente Lula – Ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eu daria a chance de voltar no tempo uns 20 ou 25 anos e desistir da ideia de se juntar aos grandes empresários para governar o país. Essa história de “unir um sindicalista com um grande empresário” não resolveu os problemas do Brasil. Ao contrário, manteve a mesma política do passado e ainda trouxe mais confusão.

2) Parlamentares – Aos espertalhões do Congresso Nacional, meu presente seria a troca de seus “baixos” salários pelo valor do nosso mínimo. Todos os trabalhadores do país passariam a ganhar R$ 26 mil, enquanto os parlamentares receberiam R$ 510, talvez R$ 540. Não sei ainda. Poderíamos negociar.

3) Vice-Presidente José Alencar – Para o empresário têxtil e ainda vice-presidente da República, decidi ser mais humano. De minha parte, José Alencar receberia um tratamento completo e especializado contra o câncer que enfrenta há mais de 10 anos. O tratamento seria pelo SUS, claro. Com direito a espera de um ou dois anos para marcar uma cirurgia.

4) Dilma Rousseff – Já que a presidenta eleita está preparando um presentinho de grego para o povo brasileiro logo no início de 2011, nada mais justo do que retribuir na mesma moeda. Para Dilma Rousseff, eu daria uma aposentadoria pelo INSS nos moldes de sua nova reforma da previdência.

5) José Serra – Sem sombra de dúvidas, ao Serra eu daria um Super Capacete Protector Tabajara, muito eficiente contra ataques de bolinhas de papel. Afinal, num país com atentados terroristas de tamanha magnitude, ninguém está seguro sem um capacete desses.

6) José Roberto Arruda – Para o ex-governador de Brasília, meu presente não poderia deixar de ser um grande panetone, da marca Panetonegate, fabricado exclusivamente no Distrito Federal e recheado com você sabe o quê.

7) José Beltrame – Para um homem de ideias arejadas, bom gosto e de intelecto refinado, como o Secretário de Segurança do Rio de Janeiro José Beltrame, eu daria o Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler, além de um pôster em tamanho natural do autor do livro. Eu sei que ele adoraria.

8) Sarney, Renan Calheiros e Maluf – Aqui, o presente é triplo. Aos baluartes da corrupção brasileira, inspiração para tantos parlamentares, eu ofereceria a mesma camisa que veste os Irmãos Metralha. Traje que os três, inclusive, deveriam usar em todas as sessões no Congresso.

9) Silvio Berlusconi – O primeiro-ministro da Itália não merece outro presente que não seja um medieval cinto de castidade. Berlusconi ainda precisa de um legítimo sapato de couro italiano. Não para calçar, mas para enfiar na boca.


10) Papa Bento 16 – Este, sim, merece um bom presente. Um kit completo de sexo seguro, com camisinhas, pílulas do dia seguinte, anticoncepcionais e tudo mais que tiver direito. Obs.: deveria dividir o presente com padres católicos e com o ex-bispo Fernando Lugo, atual presidente do Paraguai.

11) Programa Pânico na TV – A todos os integrantes do programa Pânico na TV, da Rede TV, eu daria um cérebro. Penso que esta é uma ferramenta maravilhosa e que todos deveriam ter um, até mesmo esse pessoal.

12) Vanusa – Este não seria um presente só para a cantora Vanusa, e sim para todo o povo brasileiro. A ela, eu ofereceria, antecipadamente, cópias de todas as músicas que se proponha a cantar em qualquer parte do território nacional, principalmente se for o hino do país. É só para evitar constrangimentos. Na gente, claro. Não nela.

13) Mick Jagger – Para o líder dos Rolling Stones, meu presente seria um kit “xô pé frio”, contendo um trevo de quatro folhas, uma ferradura, uma carranca (além da dele!), dois pés de coelho, três figas, um galhinho de arruda, um olho grego e uma dezena de escapulários. Além, é claro, de um banho com sal grosso. Para quem não lembra, durante a Copa do Mundo de 2010, Mick Jagger consagrou-se como o maior pé frio de todos os tempos. Todas as seleções para quem ele torceu foram desclassificadas, incluindo a nossa.

14) Sílvio Santos – Ao Sílvio Santos, eu daria um joguinho do Banco Imobiliário, só pra ele ir treinando.

15) Deputado Tiririca – Bom, ao Tiririca meu presente seria educativo. Para o deputado mais votado em 2010, eu daria uma cartilha do programa Brasil Alfabetizado, do governo federal. Assim, ele poderia justificar que não aprendeu a ler pela mesma razão que os mais de 14 milhões de analfabetos do país também não aprenderam.

Feliz ano novo, abestado!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Estado mínimo e Estado máximo

Por João Paulo da Silva

Nos anos 70, crescia e ganhava força a ideia de que o Estado deveria se desocupar de suas responsabilidades sociais e da prestação de serviços públicos gratuitos, como saúde e educação. Na época, diante de uma crise econômica profunda, os donos da “bufunfa” disseram que era preciso desinchar a máquina estatal e inchar os seus próprios bolsos. Sem essa de assistência social, investimentos em áreas não rentáveis e interferência do Estado nos negócios. A palavra-chave era liberdade. Mas para o mercado, não para as pessoas. Para fazer a economia voltar a crescer, era preciso reinventar o espírito de Robin Hood, só que às avessas: tirando dos pobres para dar aos ricos. Aí o FMI, o Banco Mundial e os governos se encarregaram do serviço. Privatizações e pagamentos regulares de juros de uma dívida impagável a banqueiros inauguraram o neoliberalismo e a conversa mole do Estado mínimo.

O Rio de Janeiro talvez seja um dos mais trágicos exemplos das consequências neoliberais do capitalismo, o que se confunde com o próprio conceito de capitalismo. A guerra nos morros cariocas é o reflexo manchando de sangue do encontro entre dois tipos de Estado. O Estado mínimo da assistência e o Estado máximo da violência. Só os responsáveis diretos pelos problemas sociais acreditam que a criminalidade é apenas um caso de polícia e que pode ser resolvida com a política do “mandar bala”. Lula e Sérgio Cabral estão combatendo o que eles e os governos anteriores mesmos criaram. A criminalidade não surge através de geração espontânea, assim como também ninguém nasce bandido, nem assaltante dá em árvore. A vida real não se movimenta pelo maniqueísmo barato dos filmes de ação e gibis de super-heróis, como gosta de fazer parecer a cobertura da imprensa. Nossos problemas vão além do bem e do mal, além da divisão entre mocinhos e vilões. A questão, na verdade, é de classe; de classes sociais, de quem tem acesso e de quem não tem acesso.

Se a repressão policial fosse a solução, o Brasil já seria pelo menos a Noruega. Afinal, as invasões policiais nos bolsões de miséria não podem ser contadas nos dedos, a não ser que você seja uma centopéia. Quando o assunto é garantir o atendimento às necessidades básicas do povo, como saúde, educação, emprego e moradia, o Estado se torna mínimo. Desaparece por completo, ao melhor estilo de “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Entretanto, quando a conversa é reprimir aqueles que foram empurrados para os braços do narcotráfico e da violência, aí o Estado é máximo. Aí tem Bope, Exército, Marinha, Aeronáutica e até Tropas Estelares. Aí vale revistar todo mundo, roubar trabalhador e atirar no primeiro preto pobre que correr.

Enquanto a única coisa que subir o morro for o fuzil, não haverá ponto final nessa história. Apenas cenas dos próximos capítulos.