domingo, 10 de abril de 2011

O pesadelo de Odair Reacionário

Por João Paulo da Silva

Parecia ser mais um dia como outro qualquer na vida do deputado federal Odair Reacionário. Como de costume, acordou por volta das 5 da manhã, tomou sua ducha fria de meio minuto e barbeou-se com um canivete do tempo em que ainda era militar. Em seguida, vestiu sua cueca da sorte, com a suástica bordada na frente, sentou-se na cama e começou a lustrar os coturnos. Só para não perder o hábito, montou e desmontou seu fuzil umas trezentas e cinquenta vezes. Depois, dirigiu-se a um pequeno e singelo altar. Ajoelhou-se e pôs a mão sobre um livro de capa preta. Mein Kampf, dizia o título em alemão. Rezou em silêncio e com a cabeça voltada para duas imagens acima do altar. Eram figuras bastante conhecidas. Da parede, as fotos de Médici e Geisel observavam com alegria o nobre deputado.

Terminado o ritual matutino, Odair Reacionário sentou-se à mesa sem dar bom-dia a sua esposa, pediu o café e pegou o jornal. As notícias não eram nada animadoras. “MST ocupa mais dez fazendas no interior de São Paulo”, “Metalúrgicos do ABC iniciam greve geral”, “Congresso vota hoje Lei da Homofobia; movimento LGBT promete fazer pressão”. Os tempos não eram bons, pensou o deputado.
- Ai, que saudade da Dita. – suspirou Odair. – A Dita é que era mulher de verdade... – cantarolou baixinho.

Imediatamente, a esposa fixou os olhos duros no marido. Como um balão que não podia mais receber ar, ela explodiu pra cima dele:
- Não aguento mais isso, Odair! Desde que nós nos casamos que você fala nessa tal de Dita. Até na minha frente você fala nela. Anda, Odair! Quem é essa Dita?! Hein?! É Benedita o nome dela, não é?! Quem é essa sirigaita?! Fala, Odair!
- Olha aqui, mulher. Não admito que você levante a voz pra mim. Tá pensando o quê?! Que mulher pode fazer o que quiser?! Numa boa família, quem manda é o homem! E aqui o homem sou eu! Só não te dou umas porradas porque se não vou amassar meu terno. E outra. Larga de ser burra. A Dita de que tô falando é a Ditadura! Essa, sim, me dá saudade.

Raivoso, engoliu os ovos com bacon e saiu da cozinha pisando firme. Quando passou pela sala, viu que seu filho mais novo, um garoto de seus treze anos, estava assistindo ao desenho do Bob Esponja.
- Mas o que é isso, moleque?! Que merda de desenho é esse?!
- É o Bob Esponja, pai.
- Bob Esponja é o cacete, rapaz! Isso daí é o Bob Boiola. Que tipo de homem tem um amigo em forma de estrelinha cor de rosa?!
- Mas o Bob não é um homem. É uma esponja, pai.
- Ah, logo vi! Claro que não poderia ser homem. Mole desse jeito! Você não vai ver esse desenho. Isso é coisa de gay.
- Mas eu gosto, pai.
- Gosta nada, moleque. Escuta aqui. Se você não andar na linha, eu te dou um couro! – e Odair lascou um cascudo na cabeça do filho.

Da entrada da cozinha, a mulher ainda pediu:
- Não faz isso, Reacionário.
- E você cala a boca! Volta pra cozinha que é o teu lugar. Tão pensando o quê?! Que vão fazer revolução?! Que aqui pode ter mulher independente e filho veado?! Nada disso! Aqui não é a casa da mãe Joana, não!

E olhando para o filho que chorava, Reacionário completou:
- Ô moleque! Para de chorar! Homem não chora, cacete! Parece uma bichinha. E tem mais, hein! Quando eu voltar, se você não tiver aprendido a coçar o saco e a cuspir no chão, vai pro pau de arara. Tá me entendendo?! Agora quero ver pedir pra sair! Pede pra sair! Pede pra você ver!

Antes de sair de casa, o deputado Odair ainda deu mais três coices, relinchou e bateu a porta com força atrás de si. Só não comeu a grama do jardim porque já tinha tomado café. No caminho até o Congresso Nacional, ligou o rádio no carro para ouvir as notícias. Estarrecido, descobriu que centenas de milhares de pessoas se aglomeravam em frente à “Casa do Povo”. O locutor informou que a Praça dos Três Poderes estava repleta de pessoas. Eram trabalhadores, jovens, idosos, homens, mulheres, negros, brancos, gays, lésbicas, travestis. Segundo o locutor, bandeiras vermelhas e coloridas tomavam a fachada do Congresso. Todos querendo pressionar o Legislativo para que a lei contra a homofobia fosse aprovada. No carro, Odair Reacionário pensava: “Meu Deus. Hoje vai ser um dia daqueles. Parece um pesadelo. Esses promíscuos querem acabar com a família, a moral e os bons costumes. Isso tem que ser resolvido é na bala.”.

Quando o carro se aproximou do Congresso, o deputado pode comprovar que o pesadelo era maior do que o rádio havia informado. Na praça, tinha mais gente do que ele imaginara, mais até do que fora anunciado. Nas mãos, os manifestantes exibiam cartazes e faixas. “Chega de homofobia!”, “Direitos iguais para os homossexuais!”, “Contra toda forma de opressão!”, “O amor não é pecado!”, “Pela aprovação imediata do PLC 122!”, “Criminalização da homofobia já!”.

Odair Reacionário não acreditava no que estava vendo, devia ser um pesadelo mesmo. Ainda teve ímpetos de baixar o vidro do carro, colocar a cabeça para fora e gritar: “Mas o que é isso?! É o Apocalipse?! Sodomitas! Infiéis! Vão queimar no fogo do inferno!”. Só não o fez porque estava em menor número. Era um soldado, um estrategista. “Mas esperem até eu entrar no Congresso. Aí vocês vão ver. Os defensores da família não vão permitir a aprovação da safadeza.”, disse pra si mesmo.

Na entrada do prédio, dezenas de repórteres se amontoavam. Todos esperando a chegada do deputado Odair Reacionário, principal representante da moral e dos costumes. Um parlamentar que usava a democracia para defender abertamente a ditadura e que pregava sem remorsos o direito de ser preconceituoso. Eufóricos, os jornalistas queriam ouvir de Odair uma avaliação sobre a decisão que o Congresso estava prestes a tomar.
- Então, deputado, parece que por causa da pressão popular a bancada do governo está se vendo obrigada a votar pela aprovação da lei anti-homofobia. O que o senhor tem a dizer sobre isso? – perguntou uma repórter.
- Nós estamos numa guerra, minha filha. Esse é um governo de frangotes. Nós não vamos amolecer diante deste bando de pederastas que está aqui na frente do Congresso. Nossa bancada vai lutar até o fim contra essa imoralidade. Eu não quero que meu filho abra a porta de casa e dê de cara com duas mulheres ou dois homens se beijando. Eu quero que meu filho seja macho.
- Mas o senhor não acha que este tipo de comportamento é intolerante e homofóbico? – quis saber outro repórter.
- E quem é que está sendo intolerante e homofóbico aqui, meu rapaz?! Eu não sou homofóbico, só acho que isso de homossexualismo é coisa de veado. E por isso sou contra. Quero ter esse direito.
- Então, o senhor quer ter o direito de oprimir os homossexuais?
- Bom, se você chama de opressão o fato de eu estar defendendo que os homossexuais não tenham direitos, então sou um opressor, sim.

Odair Reacionário ainda deu mais algumas de suas “racionais” declarações e se encaminhou para o plenário da Câmara. Mas, antes, fez questão de relinchar três vezes e beliscar um pedacinho da grama do Congresso.

Lá dentro, deputados e senadores debatiam – obrigados pela pressão popular, é claro – o projeto de lei que tornava crime a homofobia. Foram horas e horas de sessão, seguidas de discursos e mais discursos. Contra e a favor. A bancada evangélica estava assombrada diante da possibilidade da aprovação da lei. Da tribuna, seus representantes esperneavam e faziam falas bíblicas, citavam passagens dos evangelhos, reivindicavam que Deus havia criado Adão e Eva, e não Adão e Ivo, etc, etc, etc. Governistas e oposição de direita discursavam constrangidos. Uns contra, outros a favor. Mas todos constrangidos. A pressão era grande. Estavam numa encruzilhada.

Lá fora, quase um milhão de pessoas ameaçava entrar no Congresso, caso os parlamentares não ouvissem seu clamor e não aprovassem a lei anti-homofobia. Os jornais noticiavam que o Movimento Gay não iria mais retroceder em suas reivindicações. “O país já sofreu o suficiente com o preconceito, a violência, a perseguição e a intolerância. É preciso avançar no combate à opressão aos homossexuais, que tanto serve para aumentar a exploração sobre nós.”, diziam líderes do movimento.

Dentro da Câmara, o deputado Odair Reacionário era a todo instante informado por seus assessores sobre os desdobramentos da situação. O governo não tinha condições de enfrentar mais uma crise política. Caso o Congresso não aprovasse a lei, a imagem negativa das instituições democráticas só iria aumentar. Depois dos problemas com a Ficha-Limpa, será que o Legislativo suportaria mais esse baque? Era o que se perguntavam os analistas políticos.

Já passava das onze horas da noite quando o que parecia apenas um pesadelo para Odair Reacionário finalmente tornou-se uma realidade. Por uma margem pequena de diferença, o Congresso havia aprovado a lei anti-homofobia. Do lado de fora, os manifestantes comemoravam o direito de expressar a própria sexualidade. Comemoravam o direito de ver presos aqueles que ousassem reprimir a felicidade e o amor dos outros. Do lado de dentro, Odair Reacionário, já muito desesperado, pediu para subir até a tribuna. Queria falar.

- Isso é uma vergonha! – gritava – Vocês não podem aprovar essa safadeza! Isso aqui vai virar uma república de veados. Onde estão a moral e os bons costumes?! Eu não sou a favor da violência contra os homossexuais, mas acho que se o menino começa a ficar meio gayzinho ele tem que tomar umas porradas pra se orientar. Vocês não sabem o que estão fazendo. É por isso que eu defendo a ditadura e a tortura! Assim é que se endireita esse país!

Nesse momento, o deputado Odair Reacionário foi interrompido por um assessor, que lhe informou que alguém precisava falar com ele urgentemente pelo telefone.
- Quem é?!
- Seu filho, deputado. Diz que tem algo importante pra falar. – disse o assessor entregando um celular.
- O que é, moleque?!
- Pai, queria cantar pra você uma música muito legal que aprendi hoje. Tem uma lição de vida.
- Garoto, esse não é um bom momento. Estou aqui numa situação muito difícil.
- Só o refrão, pai. É rápido.

Depois de um suspiro de impaciência, Reacionário concedeu.
- Tá, moleque. Vai logo.

Com um fundo musical dançante, Odair ouviu o filho cantar:
- “Não se reprima! Não se reprima! Não se reprima!”. – em seguida, ainda com o telefone no ouvido, o deputado ouviu o garoto improvisar. – Não me reprima! Não me reprima! Não me reprima!

Imediatamente, Odair Reacionário sentiu uma forte dor no peito, a visão escureceu e ele tombou sobre o chão. Acordou assustado em sua cama, com o corpo lavado de suor.
- Meu Deus, que pesadelo. Tudo parecia tão real. Por um momento até achei que... ah, não. Claro que não. Impossível de acontecer.

Levantou-se e andou pela casa. Notou que estava sozinho. Acabou encontrando um bilhete da mulher sobre a mesa da sala. Dizia que ela havia decidido abandoná-lo. Tinha levado o filho também. “Que merda está acontecendo aqui?”, pensou Odair. Sentou-se no sofá e ligou a TV. Os telejornais falavam da realização do primeiro casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Acontecimento que só se tornou possível após a extensão dos direitos de casais heterossexuais para casais homossexuais, aprovada juntamente com a lei anti-homofobia.

- NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO!!! – gritou Odair Reacionário, acordando para o seu pesadelo.

domingo, 27 de março de 2011

Braços

Por João Paulo da Silva

À noite, passando por uma rua deserta, um grupo de estudantes voltava para casa. Por andar devagar, um deles acabou se afastando um pouco do restante. Como o bando vinha numa conversa animada, ninguém notou que o rapaz ia ficando para trás.

Algum tempo depois, o grupo sente falta dele. Ao se virar, a caravana avista o sujeito a uma distância considerável. Ele, que era negro, estava branco. Logo todos se aproximaram para saber o que acontecera.

- O que houve, cara?!
- Fui assaltado! Levou meu celular. – contou ele, muito nervoso.
- Assaltado?! Mas como? – perguntaram todos.
- Um cara chegou por trás de mim...
- Ui!! – alguém do grupo suspirou.
- Peraí, porra! É sério. O cara foi assaltado. Fala. – disse o Erivaldo.
- Um cara chegou por trás de mim. Passou o braço pelo meu pescoço, encostou o cano do revólver nas minhas costas e enfiou a mão no meu bolso pra pegar o celular. E disse que se eu fizesse qualquer coisa ele atirava.
- Peraí, peraí, peraí! Você disse que o cara fez o quê?! Deixa ver se eu entendi. O cara te deu uma gravata, encostou a arma nas tuas costas e enfiou a mão no teu bolso?
- É. Foi isso. – confirmou o rapaz assaltado.
- E quantos braços tinha esse assaltante, pelo amor de Deus?! Três?! – estranhou o Erivaldo.

Nesse momento, uma forte dúvida se abateu sobre o grupo. Alguma coisa não estava fazendo sentido naquela história.

- Mas não é possível. Pra fazer tudo isso ao mesmo tempo, o assaltante teria que ter três braços. Você tem certeza do que aconteceu?
- Tenho sim. Foi exatamente isso. – insistiu o assaltado.
- E como diabos o bandido fez toda essa ação? – o Erivaldo não se conformava.
- E eu é que sei! Só sei que o cara levou meu celular!
- Calma aí, pessoal. Vamos analisar friamente. – ponderou o Alex. – Há três possíveis explicações, mas apenas uma pode ser a verdadeira. Primeira: nosso amigo aqui está mentindo, mas ele não teria razões para mentir, não neste caso. Então está descartada. Segunda: o assaltante realmente tinha três braços, o que seria irreal e por si só uma mentira. Resta apenas a terceira. Vai ver que...
- Vai ver o quê?! Fala logo! – exigiu o grupo todo.
- Vai ver que esse terceiro braço não era exatamente um braço. Nem o cano era exatamente de um revólver. Bom, essa é explicação mais plausível.

Fez-se um silêncio constrangedor. Aí o Erivaldo falou:

- Isso só piora as coisas. Parece que agora a dúvida mudou.
- E qual é a dúvida então? – quis saber o Alex.
- Dadas as proporções avantajadas do caso, agora precisamos saber se o assaltante era um homem ou um jumento.
- Uuuuiii! – alguém suspirou de novo. Dessa vez, mais profundo.

domingo, 13 de março de 2011

Agora eu sou fitness!

Por João Paulo da Silva

Recentemente fiz minha matrícula numa academia de ginástica. É isso mesmo. Agora eu sou fitness. Não que eu tenha me rendido ao culto vazio e desnecessário do corpo perfeito. Mas decidi que não vou ficar gordo e muito menos deixar minhas coronárias entupirem. Meu médico falou que a partir dos 25 anos o ritmo do metabolismo começa a diminuir e isso, sob determinadas circunstâncias, pode se tornar perigoso, já que muitos de nós continuamos comendo porcarias e levando uma vida sedentária. Sendo assim, resolvi fazer exercícios físicos, mudar a alimentação e combater o colesterol ruim. Agora eu sou da turma da granola e da linhaça. É claro que não entrei numa academia para buscar músculos extravagantes e ficar deformado. Meu objetivo é alcançar uma vida saudável. Mas não reclamaria se conseguisse ficar igual ao Hugh Jackman.

Obviamente, como todo marinheiro de primeira viagem, tive alguns contratempos com o início de minha vida fitness. Para se ter uma ideia da situação, eu estava pedindo arrego já no alongamento. Fiquei lavado de suor só em esticar os braços para cima com os dedos entrelaçados, o que é muito preocupante para alguém que passou toda a adolescência jogando basquete. Quer dizer, um horror. Vendo o nível do meu sedentarismo e da minha escandalosa ausência de condicionamento físico, a professora decidiu que eu começaria com um leve exercício aeróbico. Assim, me pus a andar em cima de uma esteira durante dez minutos. Foram os dez minutos mais chatos de toda a minha vida. Não há nada mais enfadonho e irritante do que andar ou correr numa esteira, sem sair do canto e tendo a absoluta certeza de que não se vai chegar a lugar algum.

Entretanto, o desespero mesmo veio com os exercícios de levantamento de pesos. Aí o negócio ficou feio de verdade. Depois da esteira, a professora pediu que eu deitasse sobre uma plataforma acolchoada e levantasse uma barra de metal com dois pesinhos. Para evitar constrangimentos, eu nem quis saber quantos quilos tinham naqueles pesos.

- Aqui, nesse exercício, você vai fazer três séries de doze levantamentos. – orientou a professora.

E lá fui eu. As duas primeiras séries até que completei com relativa tranquilidade. O problema foi a terceira. Lá pelo quinto ou sexto levantamento da barra os braços já começaram a arder e a tremelicar. A dor aguda nos bíceps só me fazia pensar numa única coisa, que eu repetia mentalmente inúmeras vezes.

- Eu vou morrer! Eu vou morrer, meu Deus! Eu vou morrer!

Não morri. Mas por pouco não derrubei a barra e os pesos em cima de mim. Graças a um forte sentimento de orgulho próprio, eu ainda cheguei ao décimo levantamento da última série do exercício, faltando apenas dois para completar tudo.

Antes de me dirigir para a próxima atividade, resolvi saber quantos quilos eu havia levantado. Mais por curiosidade mesmo. E a professora me informou que cada pesinho daquele possuía dez quilos cada. Fiquei todo inflado de soberba. Tudo bem que não se tratava de um grande feito, mas já era um avanço. Afinal, nos últimos tempos, o único peso que tenho levantado é o controle remoto.

É evidente que este júbilo não durou muito. Enquanto eu fazia um exercício de fortalecimento das pernas, observei uma vovó toda durinha que se aproximava da barra de metal e dos pesos. Para minha surpresa e revolta, ela posicionou os braços junto ao corpo e começou a erguer a barra com dois pesos de dez quilos de cada lado. Quer dizer, o dobro daquilo que eu quase morri para levantar. A vovó movia os antebraços para cima e para baixo com tanta tranquilidade que mais parecia estar levantando um pacote de jujubas. Minha reação não poderia ter sido outra.

- Filha da mãe! – disse para mim mesmo – Que vovó filha da p...! Assim não dá. Assim eu me desmoralizo.

Passei o resto do dia moralmente abalado. Não por reconhecer a força da velhinha, e sim por constatar o agravo de minha moleza crônica. Um absurdo. Contudo, nem só de vergonhas e surpresas foi marcado o meu primeiro dia fitness. Uma cena medonha também me assaltou os olhos enquanto eu usava um aparelho para malhar o tórax.

Ao meu lado, em pé, um brutamontes exercitava o bíceps direito levantando um peso de uns trintas quilos, acho. A espessura do braço do sujeito devia ter mais ou menos o tamanho da minha cabeça. Algo monstruoso. Mas isso não era o pior. O apavorante de verdade foi ver as caras e bocas do gorila. Ao mesmo tempo em que erguia o peso, o fortão fazia biquinhos como se estivesse beijando alguma coisa e sorria para si mesmo, olhando de forma saliente para o próprio bíceps. Com medo de ver uma cena ainda mais bizarra, mudei rapidamente de aparelho. Tenho quase certeza de que se tivesse ficado por lá mais um pouco eu teria visto o sujeito se masturbar ali mesmo. Eu hein.

Bom, o mais importante é que, ao final da malhação, não me encontrava apenas com o corpo lavado de suor. Estava também de alma lavada. Nada melhor do que a sensação de bem estar depois de alguma atividade física. É cansativo, claro. Porém, é impossível alcançar resultados sem sacrifícios. No dia seguinte, parecia que eu tinha passado num moedor de carne. Tudo doía. Nem o controle remoto da TV eu conseguia levantar. Mas é isso mesmo. O que arde, cura. Vou continuar minha maratona de exercícios. Abaixo o colesterol! Rumo ao corpo do Hugh Jackman! Rumo a uma vida saudável e aos 130 anos de vida!

domingo, 6 de março de 2011

“Os bons morrem jovens”

Por João Paulo da Silva

Quase 50 anos de literatura e mais de 80 livros publicados. Três prêmios Jabutis e um prêmio Casa de Las Americas. Obras publicadas em 20 países e traduzidas para 12 idiomas. Entre as mais elogiadas, estão O Centauro no Jardim, A Guerra no Bom Fim, A Estranha Nação de Rafael Mendes e O Exército de um Homem Só. Médico por formação, passeou pelos gêneros literários como se fosse um clínico geral, mas com as propriedades de um especialista. Publicou romances, contos, crônicas, ensaios e literatura infanto-juvenil. Assim como outros bons gaúchos da literatura nacional, era um contador de histórias nato. Escreveu em média mais de um livro por ano. Só não escrevia quando não tinha nas mãos com o que escrever. Influenciado por Franz Kafka, Julio Cortázar e a Bíblia, fez de sua obra fantástica uma arena para alegorias e parábolas sobre a realidade e os seres humanos. Foi membro da Academia Brasileira de Letras, o que talvez não fosse lá grande coisa, já que o Paulo Coelho e o José Sarney também fazem parte. Moacyr Scliar estava com 73 anos quando seus órgãos resolveram descansar primeiro do que ele. Era um garoto. Aliás, um guri. Possivelmente, ainda guardava muitos livros em sua cartola mágica. Entretanto, quanto mais rápido o tempo passa a nos engolir, mais certeza eu tenho de que, infelizmente, “os bons morrem jovens.”.

A maioria de vocês provavelmente não vai acreditar. Mas eu trocava emails com o Moacyr. Depois que o conheci pessoalmente, numa palestra sobre Graciliano Ramos, passei a ter uma admiração maior por sua obra. A simpatia e o humanismo de sua literatura eram facilmente reconhecidos em seu trato com as pessoas. Sempre atencioso como um bom médico, recebia os fãs sem aquela empáfia comum aos escritores consagrados e arrogantes. As respostas aos meus emails estão cheias da generosidade e da humildade do Scliar. Algumas delas tratam de felicitações pelo Jabuti que ele ganhou em 2009 e de opiniões sobre as minhas crônicas. Guardo com carinho especial duas mensagens que recebi do Moacyr.

A primeira veio em resposta a uma crônica que enviei a ele sobre o dia em que o conheci. Diz o seguinte: “Meu caro João Paulo, obrigado pela mensagem e sobretudo pela crônica, que me encantou e me emocionou, tanto por seu ótimo estilo como pela homenagem - melhor que o prêmio Nobel! Aceite os parabéns e o abraço deste seu fã, Moacyr Scliar.”. A segunda mensagem foi uma opinião que ele deu sobre outra crônica. “João Paulo, obrigado pelo e-mail e pela crônica - excelente, belíssimo texto! Receba os parabéns e o abraço do Moacyr Scliar.”.

Provavelmente, o Moacyr abusou da simpatia nas respostas. Mas para um fã isso não faz a menor diferença. Meus textos sempre foram muito influenciados por autores gaúchos, como Érico Veríssimo, Luis Fernando Veríssimo e o Moacyr Scliar. Eu os conheci nesta mesma ordem. De uma forma ou de outra, é como se a obra deles fizesse parte da minha história literária. O desfalque do Moacyr fará com que eu não tenha mais o mesmo prazer de antes ao abrir os jornais. Quer dizer, uma indelicadeza da parte dele.

Por isso, gostaria de fazer uma sincera proposta ao Sarney. Com o objetivo de atenuar os pecados que possui e realizar ao menos uma boa ação nesta existência, proponho que o presidente do Senado ofereça a própria vida em sacrifício para que o Moacyr Scliar retorne a este mundo. Já conversei com a bancada da Providência Divina e há acordo com a proposta. Inclusive, Deus argumentou que se o Sarney aceitar, ele pode até ficar no purgatório, ao invés de ir direto para o inferno. E aí, Sarney? É pegar ou largar. Lembre-se que você ainda pode sair no lucro.