quarta-feira, 25 de junho de 2008

Na ponta do fuzil

Por João Paulo da Silva

Tem uma frase do Eduardo Galeano que diz: “Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.”. O massacre ocorrido no último dia 14 de junho, no Morro da Providência, Rio de Janeiro, nos permite incluir o Exército na frase do escritor uruguaio.

A polícia e o Exército são os dois braços armados do Estado. E, ao contrário do que é dito, não existem para “servir e proteger” ou para “garantir a segurança do Brasil”. Quer dizer, desculpem. Cometi um engano. Existem pra isso sim. O problema é que nenhuma dessas duas forças está a serviço dos trabalhadores. E muito menos dos negros e pobres deste país. Um exemplo para ilustrar o fato: Quando os trabalhadores, a população miserável e os movimentos sociais saem às ruas exigindo melhores salários ou melhores condições de vida, são recebidos justamente pela polícia e – a depender da situação – pelo Exército. E esta recepção não vem na forma de boas-vindas. Vem no formato de tiros e cassetetes. Entretanto, não vemos nem a polícia nem o Exército baterem nas portas dos patrões quando estes reduzem salários ou cortam direitos dos trabalhadores. Portanto, o “servir e proteger” ou o “garantir a segurança” não pertencem ao povo negro e pobre.

A participação de soldados do Exército na execução dos três jovens negros por traficantes do Morro da Minerva demonstrou a verdadeira face das Forças Armadas. Deixou tão visível quanto uma fratura exposta. No entanto, alguém – por incrível que pareça! – pode argumentar: “Mas não foram os soldados que mataram os rapazes. Foram os traficantes.”. Ora, e desde quando existe diferença entre aquele que puxa o gatilho e o que manda puxar? A corrupção e o papel nefasto da polícia, agindo em conjunto com os traficantes, subindo o morro para deixar corpo no chão ou formando milícias que aterrorizam a população das favelas, não são novidades. Agora, com o Exército sendo colaborador de extermínios como este em questão, podemos estar diante do último sopro de confiança depositado nestas forças. A fala de um operário e morador do Morro da Providência deixa claro: “Ninguém os quer mais na comunidade. Não temos mais confiança na roupa verde do Exército.”.

Os três jovens voltavam de um baile funk quando encararam a ponta dos fuzis dos soldados. Eram estudantes e trabalhadores. Um deles, inclusive, iria começar a trabalhar nas obras que estavam sendo realizadas no morro. Não deu tempo. Depois de espancar, os boinas-verdes entregaram os garotos aos traficantes por seis mil reais. Três vidas, três estudantes, três trabalhadores, três pobres, três negros. A participação do Exército nessa higienização social é a consolidação da política de segurança fascista do governo de Sérgio Cabral, com o apoio de César Maia e Lula. E não adianta o presidente demonstrar indignação com o ocorrido. Ele mesmo, após um outro massacre realizado pela polícia do Rio no Complexo do Alemão em junho do ano passado, apoiou a ação criminosa do governador Sérgio Cabral dizendo que “a polícia não estava diante de nenhuma pessoa santa”. E as desculpas e indenizações não serão redentoras de ninguém.

Não bastando o circo de hipocrisia montado após a tragédia, os governos, o ministro Nelson Jobim e a imprensa burguesa saíram desesperados para apagar a chama que se acendeu na Providência. Todos querendo convencer a população de que o “incidente foi um caso isolado”. Claro que foi! O Complexo do Alemão e tantas outras chacinas promovidas pela polícia e pela Força de Segurança Nacional também foram casos isolados. Tal argumentação me faz concluir o destino de parte da madeira devastada na Amazônia. Serve para montar o grande número de caras-de-pau deste país. E aqui cabe um detalhe interessante: a imprensa que, após o crime dos soldados, se mostrou consternada com os assassinatos foi a mesma imprensa que aplaudiu de pé as ações fascistas do Bope no filme Tropa de Elite. Não tenho dúvidas de que os homens do Exército e da polícia são treinados com base na máxima política do Washington Luís: “a questão social é um caso de polícia”. E do Exército também.

Mas talvez a maior de todas as verdades seja aquela que todos nós já sabemos: os grandes isolados são os negros, pobres e miseráveis dos guetos e favelas deste país. São eles que vivem cercados por um verdadeiro Eixo do Mal. De um lado, o governo. Com sua política neoliberal de geração de desemprego e miséria. Do outro, o narcotráfico, que recruta a juventude miserável e sem perspectivas para a criminalidade. Por fim, na outra ponta estão a polícia e o Exército, exercendo a força e a violência com critérios racistas.

Em outro texto argumentei que não se resolverá o problema da criminalidade aumentando a repressão contra os grandes bolsões de miséria. Não precisamos de balas e terror. Precisamos de empregos, melhores salários e gigantescos investimentos nas áreas sociais. Lula sabe disso. Mas não está disposto a fazer. A conclusão é cruel: o máximo que se pode esperar de César Maia, Sérgio Cabral e Lula são mais e mais corpos. E, infelizmente, eles serão de trabalhadores, negros e pobres.

3 comentários:

kiki disse...

Esse foi um dos poucos textos sérios queli seu.. ão que você naõ tenha ou que você não seja sério! mas que consegui abarcar várias questões. li numa tacada só, porque essa discussão as vezes é meio difíil de se fazer, violência estado, criminalidade... as vezes não é fácil de pegar qual a essência. mas acho que aqui você mostra sem muitas voltas e dando o devido peso a cada fator: mídia, senso comum, estado, política neoliberal... e o trabalhador como sempre pagando bem caro: é a classe quem sempre perde a vida e a possibilidade de desenvolver nossas potencialidades..ser..
... mas nós sabemos qual a solução né camarada!

o/

lari disse...

vc não imagina a falta que esse seu posicionamente sempre crítico diante da sociedade me faz.

me fazia tão bem viver perto de vc..

:/

beijo

Anônimo disse...

vai lá, viver no meio dos "meninos de bem" que voltavam do baile funk, seu filha da puta. tu nao sabe porra nenhuma de nada, fica com esse teu cuzinho na cadeira escrevendo bosta. Vai lá e vivencia o dia a dia desses marginais, tomara que uma dia eles estuprem tua mãe, comam a tua filha de cinco aninhos, matem o teu pai com uma bala perdida, aí vc muda de opinião seu almofadinha do caralho