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terça-feira, 4 de março de 2014

O pavor cega

Por João Paulo da Silva

A violência urbana tem causas sociais profundas. Ela não dá em árvore. Ninguém nasce bandido. Assaltos, agressões e homicídios aterrorizam as pessoas, é verdade. A revolta é compreensível e justa. Mas é impossível discutir uma solução para o problema sem questionar o modelo de sociedade que temos. Uma pergunta inescapável: aonde poderia nos levar uma sociedade cuja natureza é gerar exclusão social, miséria e a mais absoluta desassistência dos direitos mais básicos?

domingo, 26 de janeiro de 2014

Quem é mesmo que faz o jogo da direita?

Por João Paulo da Silva

Gente... na boa, já tá ficando feio isso. Constrangedor, até. Mais falso do que os sorrisos do José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves juntos. Se é pra mentir, convém mentir direito, né?! Ninguém mais pode criticar os governos do PT, Lula e Dilma, sem ser imediatamente acusado de “fazer o jogo da direita”, “querer o retorno do PSDB”, ou “reproduzir o discurso da mídia golpista”. Assim fica difícil, pessoal!
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terça-feira, 9 de julho de 2013

Explicações...

Por João Paulo da Silva

- E agora no nosso programa “Alô, Seu Otário!” a gente conversa ao vivo com o prefeito Armando Cilada. Ele vai falar um pouco sobre as providências que estão sendo tomadas pela Prefeitura para resolver os principais problemas da cidade. Boa tarde, prefeito. Muito obrigado por aceitar nosso convite para dar alguns esclarecimentos à população.
- Boa tarde a você, Rogenildo, e a todos os telespectadores do seu programa. Eu é que agradeço o espaço para mostrar o trabalho que estamos desenvolvendo.
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domingo, 19 de agosto de 2012

Os símbolos da decadência

Por João Paulo da Silva

A propaganda eleitoral gratuita na TV me diverte e desespera ao mesmo tempo, embora me pareça que quando a inventaram a função não fosse exatamente a de garantir entretenimento ou desânimo para milhões de brasileiros. Há algo de errado nisso tudo, eu sei. Quer dizer, algo não. Tudo mesmo. Da política econômica à falsa democracia. Mas não se pode negar que muitos candidatos estão mais para personagens folclóricos do que para postulantes a um cargo público. Parte da disputa eleitoral oscila entre o cômico e o absurdo, numa caricatura teatral da decadência.

domingo, 27 de maio de 2012

O pesadelo

Por João Paulo da Silva

Numa noite dessas, tive um pesadelo terrível. Muito pior do que a derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa de 1950, em pleno Maracanã. Mais absurdo do que ver o Flamengo perder um campeonato carioca diante do Vasco. Mais torturante do que ser obrigado a comer quiabo e maxixe todos os dias. Não, não, não. Estou sendo generoso demais. Isso é muito pouco. Tive um sonho tão bizarro quanto saber que alguém pagou US$ 18 mil por uma calcinha da rainha da Inglaterra, aquela velhota que não faz outra coisa a não ser comer e bufar. Um sonho mais desesperador do que nadar à noite com tubarões em mar aberto ou ser perseguido pelo Freddy Krueger. Pensando bem, acho que não há precedentes piores para o meu mais recente pesadelo. Nele, eu chego em casa do trabalho e encontro meu filho, já com uns sete anos, às voltas com um brinquedo que não foi dado por mim, nem pela mãe ou por qualquer outro parente. Intrigado, eu digo: “Oi, filho. Brinquedo novo, é? Quem te deu?”. Ao que ele me responde sem constrangimento: “Foi o Carlinhos Cachoeira, papai.”. Nesse instante, eu acordo assustado e lavado de suor, desejando do fundo do coração estar no meio do Maracanã, nadando com tubarões vascaínos que não comem maxixe e ainda com a rainha da Inglaterra pendurada no meu pescoço, só de calcinha, chamando pelo Freddy Krueger.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A dignidade que nos roubam

Por João Paulo da Silva

Todas as noites eu deito minha cabeça num travesseiro confortável, me espalho numa cama bem quentinha e durmo tranquilo, embaixo de um teto erguido com muito suor. É por ter uma casa que não estou sob as marquises ou ao relento no centro da cidade. É por ter onde morar que não preciso me cobrir com papelões ou fazer uma fogueira para me proteger do frio. É por ter um lar que acho bonito a chuva batendo na janela. É para este lugar que eu sempre retorno, ao final de cada dia de trabalho, desejando apenas o mesmo descanso daqueles que lutam para ganhar a vida honestamente. Minha casa não é nenhum palácio, não ocupa uma rua inteira do quarteirão, não possui ostentações desnecessárias. No entanto, é nela que abrigo o meu sossego, a minha paz. A casa de um homem, de uma mulher ou de uma família é um templo inviolável. É o local onde nos encontramos protegidos, seguros de que ali ninguém irá nos incomodar. A casa da gente, na verdade, é a última trincheira da nossa dignidade. Foi isso que roubaram dos moradores do Pinheirinho.

domingo, 26 de junho de 2011

Quem te viu, quem te vê!

Por João Paulo da Silva

Tudo começou na Antiguidade. Para os povos desse período, junho era um mês especial. A primavera chegava ao fim e o verão se aproximava. E, com a nova estação, dias mais longos e quentes. Provavelmente eles não sabiam, mas era o solstício de verão: época ideal para o plantio. Sem ciência que explicasse o funcionamento do universo, os antigos atribuíam as alterações climáticas (dias quentes e ensolarados etc.) aos deuses. Daí o costume de promover festejos para “garantir” a boa vontade das divindades pelos próximos períodos. Os antigos também não sabiam. Mas provavelmente foram os primeiros puxa-sacos da História.

A festa junina só ficou mesmo mais parecida com o que nós conhecemos hoje quando a Igreja Católica meteu o bedelho. A antiga comemoração relacionada ao solstício de verão, celebrada no dia 24 de junho, era uma celebração pagã. Durante a Idade Média, a Igreja, estendendo ainda mais seus tentáculos sobre as pessoas, caçou os festejos pagãos e os transformou em rituais e mitos cristãos, tratando logo de meter um de seus santos no meio disso tudo. São João Batista era o nome do sujeito. E a comemoração ficou conhecida como festa joanina, o famoso São João. Quando os portugueses chegaram aqui com essa história, a geografia do local, o calor dos trópicos e a mistura que deu origem ao povo brasileiro se encarregaram dos últimos retoques. Inclusive a mudança do nome para festa junina.

Hoje também já não é como antes. Nas cidades, já não é mais tão comum encontrar comemorações juninas tradicionais. As bandas de forró eletrônico, estilizadas ou de plástico, com letras machistas e homofóbicas, estão cada vez mais presentes nas festas organizadas para o povão dos bairros periféricos. Isso para não falar dos outros “gêneros musicais” que aparecem de penetras. Embora algumas coisas permaneçam iguais, como as comidas típicas, por exemplo, outras começam a se perder. São poucos os trios de forró nas grandes festas. Sinto falta do zabumba, do triângulo e da sanfona. O palhoção mesmo está desaparecendo. Esse ano a comunidade do meu bairro não fez nenhum. Tá. Tudo bem. Ainda soltam fogos de artifício e acendem fogueiras. Mas não é a mesma coisa. Sei que algumas comunidades resistem. Mas... sei lá. Algo de mágico se foi. Devem ser os efeitos da pós-modernidade.

Êita, festa junina. Quem te viu, quem te vê. Até as quadrilhas perderam fôlego. Atualmente, as que ganham mais notoriedade são as existentes no Congresso Nacional. É outro tipo de quadrilha, claro. Mas com direito até a forrobodó. Forrobodó como sinônimo de desordem, evidentemente.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Psicopatas

Por João Paulo da Silva

Horrores inimagináveis como os que foram cometidos por Josef Fritzl, o “Monstro da Áustria”, condenado em 2009 à prisão perpétua pelos crimes de incesto, estupro, cárcere privado e homicídio, estarrecem a humanidade pelo grau de barbárie e reacendem, de tempos em tempos, um medo imensurável em todos nós: o de que qualquer um ao nosso lado pode ser um psicopata. Inclusive o próprio pai. É claro que viver num clima desses só pode nos levar a uma paranoia coletiva, algo muito comum numa sociedade doente como a nossa.

É terrível, verdade seja dita. Como podemos saber se estamos diante de um psicopata? Como reconhecer alguém que pode cometer as piores insanidades sem o menor remorso, já que psicopatas não andam com placas de aviso nem rótulos no peito? Fica difícil. Quer dizer, ficava.

Recentemente, li uma entrevista com o psicólogo canadense Robert Hare, famoso por ter criado uma escala usada mundialmente para medir os graus de psicopatia de cada um. Na escala, o número máximo que a insanidade pode atingir é 40. A dificuldade de reconhecimento de um maníaco pode ser ilustrada com uma simples analogia.

Imagine um jogo de gato e rato. Para Hare, o psicopata é como o gato, que não pensa no que o rato sente. Ele só pensa em comida, em satisfazer a si mesmo. A vantagem do rato sobre as vítimas do psicopata é que ele sempre sabe quem é o gato. Com a gente é diferente. Às vezes não dá tempo de reconhecer o gato.

Mas os critérios de avaliação adotados por Hare podem ajudar a identificar um comportamento psicótico. Ele estabeleceu alguns, como extrema facilidade para mentir, grande capacidade de manipulação e mania de dizer que está sendo mal interpretado quando é pego fazendo coisas erradas.

Juro – e nem sempre faço isso – que quando li que estes seriam os indicadores de psicopatia pensei: se o psicólogo canadense estiver certo, nosso problema é bem maior do que imaginamos. Por quê? Observe o cenário político brasileiro. Agora, responda: em que as atitudes dos políticos se diferenciam dos comportamentos indicados pelo psicólogo?

Eu sei, não é uma conclusão tranquila. Eles mentem, manipulam e ainda se dizem mal interpretados quando são pegos com a boca na botija. Estou inclinado a acreditar que nosso país e estados são governados por astutos psicopatas, classificados nos graus 12, 13, 15, 22, 25, 40, 43, 45, 65, conforme número do partido. Terrível, não?

Mas isso não é tudo. Pior é quando, em tempos de crise econômica ou não, eles aumentam os próprios salários, culpam a natureza por tragédias em que eles são os responsáveis e ainda reduzem o orçamento de serviços essenciais, como a saúde, por exemplo. Aí deixam de ser apenas psicopatas. E, sem remorso nenhum, se tornam verdadeiros serial killers, responsáveis por todos os mortos nas filas dos hospitais e enchentes da vida.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Lista de presentes

Por João Paulo da Silva

Natal e réveillon são tempos de festa, paz, alegria e solidariedade. Tudo bem que no resto do ano o mundo tenha sido violento, desigual, triste, cheio de sofrimento e egoísta pra diabo. Mas no Natal e no réveillon, não né?! Aí não pode. O clima deve ser outro, entende? Esses são momentos de renovar as esperanças e o espírito de humanidade (dá pra acreditar nisso?!). O Natal e o réveillon, inclusive, são as épocas mais importantes e especiais para presentear as pessoas. Uma espécie de ritual alegórico, cujo objetivo, além da obviedade de oferecer algo que se esteja precisando, é demonstrar nosso apreço pelo outro. Por isso, resolvi fazer minha listinha de presentes de Natal e fim de ano, com os nomes das figuras para quem eu gostaria de revelar toda a minha consideração. Por motivos logísticos, não cheguei a concretizar a entrega das “oferendas”, mas acredito que já valeu pelo exercício de solidariedade. Confira aí.

1) Presidente Lula – Ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eu daria a chance de voltar no tempo uns 20 ou 25 anos e desistir da ideia de se juntar aos grandes empresários para governar o país. Essa história de “unir um sindicalista com um grande empresário” não resolveu os problemas do Brasil. Ao contrário, manteve a mesma política do passado e ainda trouxe mais confusão.

2) Parlamentares – Aos espertalhões do Congresso Nacional, meu presente seria a troca de seus “baixos” salários pelo valor do nosso mínimo. Todos os trabalhadores do país passariam a ganhar R$ 26 mil, enquanto os parlamentares receberiam R$ 510, talvez R$ 540. Não sei ainda. Poderíamos negociar.

3) Vice-Presidente José Alencar – Para o empresário têxtil e ainda vice-presidente da República, decidi ser mais humano. De minha parte, José Alencar receberia um tratamento completo e especializado contra o câncer que enfrenta há mais de 10 anos. O tratamento seria pelo SUS, claro. Com direito a espera de um ou dois anos para marcar uma cirurgia.

4) Dilma Rousseff – Já que a presidenta eleita está preparando um presentinho de grego para o povo brasileiro logo no início de 2011, nada mais justo do que retribuir na mesma moeda. Para Dilma Rousseff, eu daria uma aposentadoria pelo INSS nos moldes de sua nova reforma da previdência.

5) José Serra – Sem sombra de dúvidas, ao Serra eu daria um Super Capacete Protector Tabajara, muito eficiente contra ataques de bolinhas de papel. Afinal, num país com atentados terroristas de tamanha magnitude, ninguém está seguro sem um capacete desses.

6) José Roberto Arruda – Para o ex-governador de Brasília, meu presente não poderia deixar de ser um grande panetone, da marca Panetonegate, fabricado exclusivamente no Distrito Federal e recheado com você sabe o quê.

7) José Beltrame – Para um homem de ideias arejadas, bom gosto e de intelecto refinado, como o Secretário de Segurança do Rio de Janeiro José Beltrame, eu daria o Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler, além de um pôster em tamanho natural do autor do livro. Eu sei que ele adoraria.

8) Sarney, Renan Calheiros e Maluf – Aqui, o presente é triplo. Aos baluartes da corrupção brasileira, inspiração para tantos parlamentares, eu ofereceria a mesma camisa que veste os Irmãos Metralha. Traje que os três, inclusive, deveriam usar em todas as sessões no Congresso.

9) Silvio Berlusconi – O primeiro-ministro da Itália não merece outro presente que não seja um medieval cinto de castidade. Berlusconi ainda precisa de um legítimo sapato de couro italiano. Não para calçar, mas para enfiar na boca.


10) Papa Bento 16 – Este, sim, merece um bom presente. Um kit completo de sexo seguro, com camisinhas, pílulas do dia seguinte, anticoncepcionais e tudo mais que tiver direito. Obs.: deveria dividir o presente com padres católicos e com o ex-bispo Fernando Lugo, atual presidente do Paraguai.

11) Programa Pânico na TV – A todos os integrantes do programa Pânico na TV, da Rede TV, eu daria um cérebro. Penso que esta é uma ferramenta maravilhosa e que todos deveriam ter um, até mesmo esse pessoal.

12) Vanusa – Este não seria um presente só para a cantora Vanusa, e sim para todo o povo brasileiro. A ela, eu ofereceria, antecipadamente, cópias de todas as músicas que se proponha a cantar em qualquer parte do território nacional, principalmente se for o hino do país. É só para evitar constrangimentos. Na gente, claro. Não nela.

13) Mick Jagger – Para o líder dos Rolling Stones, meu presente seria um kit “xô pé frio”, contendo um trevo de quatro folhas, uma ferradura, uma carranca (além da dele!), dois pés de coelho, três figas, um galhinho de arruda, um olho grego e uma dezena de escapulários. Além, é claro, de um banho com sal grosso. Para quem não lembra, durante a Copa do Mundo de 2010, Mick Jagger consagrou-se como o maior pé frio de todos os tempos. Todas as seleções para quem ele torceu foram desclassificadas, incluindo a nossa.

14) Sílvio Santos – Ao Sílvio Santos, eu daria um joguinho do Banco Imobiliário, só pra ele ir treinando.

15) Deputado Tiririca – Bom, ao Tiririca meu presente seria educativo. Para o deputado mais votado em 2010, eu daria uma cartilha do programa Brasil Alfabetizado, do governo federal. Assim, ele poderia justificar que não aprendeu a ler pela mesma razão que os mais de 14 milhões de analfabetos do país também não aprenderam.

Feliz ano novo, abestado!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Presidente ou presidenta?

Por João Paulo da Silva

Eu poderia ter feito duas crônicas diferentes, uma para cada resultado da eleição. Mas me poupei do trabalho inútil e desgastante, já que é difícil escrever sobre diferenças entre iguais. Com Dilma ou Serra, os vencedores não seriam muitos. Nada mais do que um punhado de grandes empresários e alguns investidores de Nova Iorque. Aliás, estes têm sido os vencedores há muito tempo. A eleição de Dilma não impediu o retorno da direita ao poder. Por um motivo muito simples: a direita nunca saiu do poder. No Brasil, há oito anos a burguesia descobriu a melhor maneira de manter os trabalhadores quietos e continuar controlando o país. Trouxe o PT e sua principal liderança para o governo. Em troca, pediu que aquela história de esquerda, socialismo e luta de classes fosse deixada de lado. E foi.

Em oito anos, Lula foi um replay de Fernando Henrique. Só que mais “eficiente”. Fez os bancos e as empresas lucrarem mais do que na época dos tucanos, algo que o próprio presidente admite sem o menor constrangimento. Enquanto os lucros dos donos da festa cresciam quatro vezes mais com Lula do que com FHC, o salário mínimo crescia no mesmo ritmo daquele personagem dos Trapalhões, o Ananias. Ou, se preferirem, como gostam de fazer os trapaceiros na hora de repartir a riqueza: “quatro pra mim, meio pra você.”. Governar para todos onde as classes sociais têm interesses contrários só poderia dar nisso. Alguém tem que sair perdendo, ainda que pareça estar ganhando.

Os petistas dizem que a vitória de Dilma impediu a volta ao passado, que a vitória da ex-ministra fortalece o projeto da esquerda, que favorece a continuação das mudanças de Lula. Palavras e conceitos confundem, mas fatos e ações esclarecem. Governos de esquerda (ou dos trabalhadores, como quiserem) não enviam tropas militares para massacrar um povo de outro país, principalmente se este for o povo mais miserável das Américas. Governos de esquerda não pagam dívidas com banqueiros enquanto pessoas morrem em filas de hospitais públicos, sobretudo quando as dívidas já foram pagas uma dezena de vezes. Governos de trabalhadores não permitem demissões durante crises econômicas, não reduzem impostos para empresários e não doam R$ 370 bilhões para meia-dúzia de ricos em falência. Governos de trabalhadores não fazem reformas da previdência para dificultar a aposentadoria de quem passou a vida inteira trabalhando, muito menos vetam o fim de fatores previdenciários. Governos de esquerda não chamam latifundiários e usineiros de heróis, tampouco reprimem ocupações de terra e não fazem reforma agrária. Governos de esquerda não organizam mensalão nem mensalinho e não governam com corruptos, principalmente se eles forem Sarney, Collor e Renan Calheiros. Governos de trabalhadores não aceitam privatizações do patrimônio público, não fazem leilões de petróleo, nem dividem o pré-sal com empresas privadas. Governos de trabalhadores não permitem que um milhão de mulheres realizem abortos clandestinos e sem segurança todos os anos, correndo o risco de morrer ou ficar com seqüelas, ainda que isso incomode católicos e evangélicos. Governos de esquerda não chamam de distribuição de renda um programa que oferece apenas R$ 130,00 por mês para uma família inteira sobreviver. Governos de esquerda, depois de oito anos, não permitiriam a existência de mais de 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, sobretudo num país que é a oitava maior economia do mundo.

Bom, de fato existe, sim, uma diferença entre Dilma e Serra. Ele seria presidente, ela será presidenta. E é só.

Obs.: Por problemas de preguiça crônica, o blog As Crônicas do João só fez sua postagem hoje, e não no domingo como de costume. Próximo domingo tudo volta ao normal.

domingo, 28 de março de 2010

Mata de orgulho

Por João Paulo da Silva

Há algum tempo o Brasil é motivo de orgulho. Para os ricos, é claro. A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, por exemplo, a serem realizados em terras tupiniquins vão encher de ilusões os olhos do povo, e de “money” os bolsos dos magnatas. A entrega, feita por Lula, de R$ 300 bilhões dos cofres públicos para salvar empresários e banqueiros da crise econômica também foi motivo para morrer de orgulho. Só quem perdeu o emprego e continua na rua da amargura sabe do que estou falando. Entretanto, o país já tem outra grande razão para se orgulhar. O nobre deputado federal Paulo Maluf entrou para uma importante lista internacional: a de procurados pela Interpol.

Maluf foi incluído na lista a pedido da Promotoria de Nova York. Há três anos, a Justiça americana determinou a prisão do nosso medalha de ouro em corrupção pelos crimes de conspiração, auxílio na remessa de dinheiro ilegal e roubo de dinheiro público em São Paulo. O malandro é acusado de desviar recursos de obras e remetê-los para Nova York. Depois, para a Suíça, Inglaterra e Ilha de Jersey, outro paraíso fiscal. Uma parte do dinheiro roubado pelo recordista olímpico Maluf ainda foi investida na Eucatex, uma empresa do ex-prefeito de São Paulo. Ah, já ia esquecendo. O filho do deputado, Flávio Maluf, também é acusado pelos mesmos crimes. Estima-se que o roubo chegue a mais de US$ 11 milhões. Me mata de orgulho esse rapaz. E de fome e na porta dos hospitais o restante do Brasil.

Foi pensando nessa nova razão para nos orgulharmos que eu resolvi propor uma homenagem ao Maluf. Afinal, um homem que já nos deu tantas alegrias merece um pouco de reconhecimento na vida. Minha proposta é a seguinte: quando o Maluf morrer – que isso não demore, pelo amor de Deus – penso que ele não deve ser cremado ou sepultado. Defendo que o Maluf seja empalhado e exposto no MASP (Museu de Arte de São Paulo), numa sessão especial que receberá o título de “Grandes Mestres da Corrupção Mundial". Acho, inclusive, que esta obra-prima da bandidagem deve viajar em exposição pelos principais museus da Europa e da América do Norte. Convenhamos, meter a mão no dinheiro público é uma arte que exige muito talento, possível apenas em democracias como a nossa.

Mas isso não é tudo. Também vou defender que o Maluf se torne patrimônio da cultura nacional. E que a biografia do notório ladrão seja disciplina obrigatória em todas as escolas do país, com o objetivo de que as futuras gerações saibam exatamente que tipo de exemplo não seguir. Outra importante proposta é instituir o Dia do Tomate no Maluf. A ideia é criar um feriado nacional, no qual todos os brasileiros teriam a oportunidade de acertar um tomate na cara do Maluf. Bom, ideias não me faltam. Até ele morrer, eu já terei acumulado uma Bíblia de propostas.

Ah, uma última coisa. Agora que é sócio de uma das mais importantes listas de procurados do mundo, Paulo Maluf pode ser preso a qualquer momento, basta entrar em um dos 181 países que são membros da Interpol. Tá aí. Essa eu pago pra ver.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

2000inove: retrospectiva do ano que não inovou

Por João Paulo da Silva

Esse foi um ano daqueles. Daqueles de dar dor de cabeça, daqueles de dar desgosto e raiva de saber que o próximo pode ser muito pior. A julgar pelos fatos de 2009, não há nada que aponte – pelo menos até agora – para qualquer melhora, mínima que seja. Até o salário mínimo, que vai para R$ 510 agora em janeiro, vai continuar mínimo. Caso você não lembre o que aconteceu de mais importante em 2009, não precisa ficar preocupado. Fiz um resumo, mês a mês, dos principais acontecimentos do ano. Recordar é viver. Haja paciência!

Janeiro – Barack Obama toma posse como o primeiro presidente negro da história dos EUA. E é, também, o primeiro negro a ficar branco politicamente em tão pouco tempo. O negão já tá a cara do Bush. Entra em vigor o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa, uma espécie de reforma neoliberal da gramática. Passaram a tesoura no trema e em outros acentos. Agora ideia não tem mais o agudo. Péssima ideia por sinal. Nos estados do RS, MG, ES, RJ e SP as chuvas deixam milhares desabrigados e causam dezenas de mortes.

Fevereiro – O PMDB passa a controlar o Congresso, elegendo José Sarney para presidir o Senado e Michel Temer a Câmara dos Deputados. Era o prenúncio do caos. A produção industrial cai 12,4% em relação a novembro de 2008 e 14,5% em relação a dezembro de 2008, as maiores quedas desde 1991. O caos bate à porta e o índice de aprovação de Lula bate recorde de 84%. A Embraer decide demitir cerca de 20% do seu efetivo de 21.362 empregados. O caos se instala no sofá. Vítima de enfarte, morre na Bahia o ex-deputado Sérgio Naya. Enfim, uma boa notícia.

Março – O anúncio da queda de 3,6% no PIB brasileiro do último trimestre de 2008 mostra a “marolinha” de Lula. A crise existe e é grande. O caos abre a geladeira do povo. Governo prorroga por mais três meses a redução de IPI para carros e José Sarney começa a dar explicações sobre Agaciel Maia e os Atos Secretos. Após o aborto da menina de nove anos que engravidou do padrasto e corria risco de morte, o Arcebispo nanico de Olinda e Recife excomunga os médicos e a mãe da garota. Dieese anuncia que a crise financeira internacional eliminou aproximadamente 750 mil empregos formais no País entre novembro e fevereiro. O caos até já deita na cama com os trabalhadores brasileiros.

Abril – Confirmada a primeira morte por Gripe Suína no México. No Brasil, enquanto os casos da gripe A se confirmam e crescem, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirma: "Fiquem tranquilos. A situação está sob controle.". Aí é que bate o desespero. Na reunião do G-20, Obama diz que Lula é “o cara”. E a gente fica de cara. A Argentina perde por 6 a 1 para a Bolívia, em La Paz, pelas Eliminatórias da Copa. Em meio ao caos, um fugaz momento de felicidade para os brasileiros. Que pena, hermanos.

Maio – Perdigão e Sadia anunciam fusão e criam a Brasil Foods. O Teatro do Oprimido perde seu criador. Morre de leucemia Augusto Boal, aos 78 anos. Flamengo contrata Adriano, o Imperador. É a retomada do caminho ao título. STF livra Genoino, Delúbio e Marcos Valério de acusação de gestão fraudulenta. IBGE informa que o índice de desemprego apurado nas seis principais regiões metropolitanas do País chegou a 8,9%, no maior nível registrado para o mês desde abril de 2007. Nesse momento, o caos já Foods a gente.

Junho – Morre Michael Jackson, o Rei do Pop, vítima de uma parada cardíaca. É a prova de que ele era humano. A descoberta de 300 atos secretos coloca Sarney contra a parede, mas ninguém atira. Não para acertar, claro. Sarney diz que a crise não é dele, é do Senado e cria uma comissão para investigar os atos secretos (vê se pode?!). STF detona diploma para jornalistas (Morte ao Gilmar Mendes!). Presidente de Honduras é deposto por golpe de Estado. GM pede concordata e governo dos EUA segura 60% da empresa. Capitalismo balança, mas não cai. E o caos vendo TV na sala.

Julho – Romário abre o jogo e diz que não matou Michael Jackson nem trouxe a gripe suína para o Brasil. Só está falido e com problemas na Justiça. Parentes fazem funeral de Michael Jackson virar show, reunindo 20 mil pessoas. Todo mundo cantando ao redor do caixão. Saravá!

Agosto – O jamaicano Usain Bolt prova mais uma vez que não é deste planeta. No Mundial de Berlim, ele correu 100 metros em 9s58, quebrando o próprio recorde de 9s69, feito nas Olimpíadas de Pequim. O bispo Edir Macedo e mais nove pessoas, ligadas à Igreja Universal do Reino de Deus, se tornam réus em processo por lavagem de dinheiro, que já subiu aos céus. Lula lança marco regulatório do pré-sal e entrega petróleo brasileiro a multinacionais. Todas as denúncias e representações contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AC), são arquivadas no Conselho de Ética. O caos mexe na dispensa, já se sente de casa.

Setembro – 70 dias depois de sua morte, Michael Jackson é sepultado (Porra! Finalmente, né?!). Mesmo sem nunca ter publicado um livro, o ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) é eleito membro da Academia Alagoana de Letras, provando vocês sabem o quê. Comentando o crescimento de 1,9% do PIB no 2º trimestre em comparação com o 1º, Lula diz que o Brasil estava preparado porque “o povo fez sacrifícios”. Meu bolso que o diga. O caos toma sol na laje.

Outubro – Morre a Voz da América Latina, Mercedes Sosa, em Buenos Aires aos 74 anos. Rio de Janeiro se torna sede da Olimpíada de 2016, para a felicidade das empreiteiras e da corrupção. Em São Bernardo do Campo, a estudante de Turismo Geysa Arruda é assediada por alunos da Uniban por usar um vestido curto, registrando o retorno da Idade Média. Para economizar energia, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pede ao povo que reduza a duração dos banhos para três minutos. Agora os venezuelanos só lavam as orelhas. Agindo de forma chiquérrima, Brasil oficializa empréstimo de US$ 10 bilhões para o FMI. E a gente se Foods de novo. Mantendo duas guerras contra povos oprimidos, Barack Obama recebe o Prêmio Nobel da Paz. Até ele se surpreende. A essa altura do campeonato, o caos já dá risada da nossa cara.

Novembro – Apagão deixa mais da metade do País sem luz. O blecaute atingiu 18 estados brasileiros por cerca de quatro horas. Segundo o governo, as causas do problema foram os raios, ventos e chuvas muito fortes na região de Itaberá, no interior de São Paulo. O governo também investiga a possibilidade de sabotagem, talvez pelo Coelhinho da Páscoa. Guido Mantega anuncia que com a redução do IPI o total de desonerações chega a R$ 25 bilhões. Ou seja, os empresários não pagam impostos e nós se Foods outra vez. Em São Paulo, morre aos 63 anos o ex-prefeito Celso Pitta. Pelo menos uma boa notícia.

Dezembro – Vítima de enfarte, morre aos 69 anos o famoso locutor Lombardi, que ninguém nunca tinha visto a cara antes de ele morrer. O Flamengo conquista seu sexto título do campeonato brasileiro, as massas entram em êxtase e o Brasil não dorme por uma semana. O Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, anuncia o envio de mais 30 mil soldados ao Afeganistão. A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), ocorrida em Copenhague (Dinamarca), é um fracasso. As potências industriais não querem reduzir seus lucros e não vão parar de jogar CO2 na atmosfera. As coisas esquentarão ainda mais, o clima mudará pra cacete e o planeta inteiro vai se Foods, assim como a gente. Até o caos abandona o barco.

Bom 2010 pra todo mundo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O morro veio nos chamar...

Por João Paulo da Silva

Dia e noite, a fúria dos grandes centros urbanos nos persegue como se fosse uma sombra eterna, dando a entender que, por mais que a gente se vire, ela sempre vai estar no nosso encalço. Parece com aquele pesadelo inacabável que insiste em nos interromper o sono, cotidianamente. Um sono que, via de regra, já é sobressaltado. Um sono de quem sabe que não pode dormir.

O caos que estourou – mais uma vez! – no Rio de Janeiro nestes últimos dias não guarda muitos mistérios. A sombra e o pesadelo da “cidade maravilhosa” revelam-se claros e cruéis, mesmo com os governos e a mídia tentando maquiar o espetáculo. Parafraseando Chico e Tom, o que houve na capital fluminense foi o seguinte: o morro veio nos chamar. Os graves problemas sociais desse país, geradores diretos da violência, deram seu recado. Ou acabamos com a miséria e o desemprego ou a barbárie acaba conosco.

A imprensa falou em guerra de policiais e bandidos. De fato, é uma guerra. Mas uma guerra dos famintos, dos sem emprego, dos sem educação, dos miseráveis. Daqueles que o governo Lula empurra todos os dias para o narcotráfico, porque nas favelas brasileiras o Estado só sobe o morro na forma de chumbo grosso. No meio das balas da polícia corrupta e dos traficantes, estão os trabalhadores, negros e pobres. Ao que parece, as Olimpíadas do Rio já começaram. E a modalidade preferida pelos governos é o tiro ao alvo.

Bastou o circo pegar fogo para Lula e o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmarem que vão aumentar os investimentos na segurança pública do Rio em 2010. Traduzindo: mais armas, viaturas, helicópteros e pólvora nas favelas. Do jeitinho que os fascistas do Palácio Laranjeiras querem. Para o governador do Estado, Sérgio Cabral, e seu secretário de segurança, José Beltrame, nos morros do Rio, a única linguagem é a das metralhadoras.

Dessa forma, chegaremos em 2016 com várias estatísticas impressionantes, dignas de recordes olímpicos. Mas nenhuma delas nos dará orgulho.

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É triste, mas poderia ser pior...

Enquanto o Rio de Janeiro guerreava, o Rio Grande do Sul brincava. Calma. Vou explicar.

É que alunos da 4ª série de uma escola pública gaúcha, em Sapucaia do Sul, foram flagrados pela professora brincando de traficantes. Os garotos quebraram o giz da lousa, moeram até virar pó e embalaram em plásticos. Assim como na vida real, na brincadeira o objetivo era atrair mais usuários e ganhar outras bocas de fumo. Tudo ocorreu dentro da sala de aula, envolvendo crianças entre nove e dez anos.

Obviamente que isto é um reflexo da realidade pobre desses alunos, completamente entregues ao violento mundo da falta de saídas. Um mundo de absoluta responsabilidade dos governos. Mas, analisando com atenção e sem querer necessariamente menosprezar o fato, a verdade é que o caso poderia ser pior. Como?

Imagine se essas crianças estivessem brincando, por exemplo, de serem deputados e senadores. Já parou pra pensar como seria? Alunos desviando verbas públicas, empregando parentes, negociando cargos, criando funcionários fantasmas, corrompendo a tudo e a todos, votando projetos contra os mais pobres e beneficiando ricos e poderosos. Imaginou? Pois é. Um terror, não?

No meio da aula, crianças gritam:
- Eu quero ser o Arthur Virgílio!
- E eu o Collor!
- Ah, eu posso ser o Sarney? Deixa, vai, deixa!
Ai, ai... me dá até náuseas.
Enquanto no Rio Grande do Sul crianças brincam de traficantes, no Rio de Janeiro Sérgio Cabral e José Beltrame brincam de Hitler e Mussolini. A diferença é que a brincadeira dos governantes mata de verdade. E, na maioria esmagadora das vezes, não são os bandidos que morrem.
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OUÇA A MÚSICA ZEROVINTEUM, DA BANDA PLANET HEMP. UM RETRATO DO RIO DE JANEIRO.


domingo, 6 de setembro de 2009

O mercado das almas

Por João Paulo da Silva

Eu respeito a fé das pessoas. Penso que cada um pode acreditar no que quiser. Contudo, o mundo está tão à beira do caos que não basta apenas crer para ser salvo. Hoje, mais descaradamente do que nunca, é preciso pagar caro para ir ao “paraíso”. Um investimento sem retorno garantido e que custa os olhos da cara.

Os escândalos envolvendo as falcatruas financeiras do bispo Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus e da Rede Record, me levaram a uma instigante reflexão: a de que Deus, talvez, seja a invenção humana que mais deu (e dá) lucros ao longo da história. Sabe, eu fico até na dúvida. Para fazer dinheiro fácil, é melhor fundar um banco ou uma igreja?

Cotidianamente, nos templos e nas TVs, ocorre uma acirrada disputa de mercado. São diversas facções religiosas concorrendo entre si para ver qual delas engana o maior número de fiéis. As promessas mais absurdas são feitas em troca de exigências financeiras cada vez mais imorais. Em nome de Deus, se pede de tudo: dinheiro, casas, carros, vale transportes e até tickets alimentação. A Igreja Universal, por exemplo, defende uma Teologia da Prosperidade. Prosperidade do bispo Edir Macedo e de seus pastores, claro. Ao que parece, o mercado das almas é tão lucrativo quanto o mercado financeiro.

Entretanto, arrancar dinheiro de bilhões de seres humanos infelizes e desesperados não é privilégio apenas do protestantismo, que encontrou no capitalismo sua verdadeira alma gêmea. A Igreja Católica não deixa nada barato. Durante séculos, a grande senhora da Idade Média condenou a usura. Dos outros, evidentemente. Na época, porém, ela vendia de tudo: desde indulgências até incontáveis ossos do corpo de Cristo, o que me fez chegar à conclusão de que Jesus, por causa do grande número de fêmures, não era um homem, e sim uma centopéia.

Hoje a Igreja Católica vende padres cantores e uma infinidade de quinquilharias da fé. Além, é claro, de possuir um 1/5 de todo o patrimônio imobiliário da Itália, o que fez o Vaticano lucrar 1,47 bilhões de euros com a especulação entre os anos de 2004 e 2005. Para as igrejas, semear ilusões sobre uma vida melhor após a morte não é suficiente. Sem o menor pudor, os profetas oferecem uma esdrúxula modalidade de credo: a “fé pegue e pague”.

Quando eu era garoto, sempre me disseram que Deus morava no céu, nas nuvens ou até mesmo no coração dos homens. Atualmente, sei que isso não é verdade. Ao que tudo indica, Deus vive em Nova Iorque, mais precisamente em Wall Street.

Guerra de TVs

Impossível não comentar a guerra midiática entra a Rede Globo e a Rede Record. Não é somente uma disputa pelo Ibope, é necessariamente um confronto por cifras estratosféricas. Em busca do monopólio, cada uma delas revela as sujas verdades da outra. As emissoras utilizam a concessão pública que receberam para fazerem fortunas, levando, assim, o privado para o público e o público para a privada.

Tão real quanto o desvio das doações dos fiéis para aumentar o patrimônio televisivo de Edir Macedo, é a ligação da Rede Globo com os episódios mais obscuros do poder. Seja no apoio à ditadura militar ou na “mãozinha” dada a Collor em 1989 (para citar alguns exemplos), o grupo da família Marinho sempre cumpriu o papel de enganar os milhões de brasileiros ligados no plim-plim. Ah, e não esqueçamos, por favor, o senhor Silvio Santos, que não foi citado nessa história toda, mas possui um cassino disfarçado de canal de TV.

O conflito Globo X Record não se trata de uma guerra entre mocinhos e bandidos. Não há diferenças entre os barões da comunicação, apenas semelhanças. Aqui, vale tudo para encher o cofre. Na verdade, não há televisão no Brasil. O que existe são grandes caça-níqueis. Nada mais.

domingo, 30 de agosto de 2009

A hora do cartão vermelho

Por João Paulo da Silva

Gostei dessa história do cartão vermelho. Foi uma boa sacada do Suplicy. Eu deveria ter pensado nisso antes. Entretanto, meu cartão vermelho não é apenas para José Sarney. É para todo o Senado. Para o Suplicy, inclusive. Por mim, iriam todos mais cedo para o chuveiro (quer dizer, já iriam tarde). E chuveiro, aqui, é só um eufemismo. Para os senadores, o termo correto é cadeia mesmo.

O arquivamento das acusações contra Sarney já era esperado, assim como o engavetamento das denúncias contra o tucano Arthur Virgílio. Costurando o velho toma lá, dá cá, Lula provou mais uma vez que, de fato, é um pizzaiolo de mão cheia. Ninguém investiga ninguém e todo mundo fica na moita. Sabe como é, né? É preciso ter cautela. Se o povo resolve ir às ruas... já viu!

Mas eu espero, honestamente, que ninguém no Brasil tenha apostado que, dessa vez, o Conselho de Ética iria ser, digamos, ético. Se alguém apostou, quebrou a cara. E se apostou dinheiro então... ui. Enfim, que justiça pode haver quando os bandidos são os próprios juízes? Afinal, corrupto que é corrupto tem seu próprio código de ética.

Confesso que desde que a crise política do Senado começou, há mais ou menos seis meses, passei a assistir a TV Senado com maior frenquência. Não vou esconder que os emocionantes bate-bocas se tornaram, para mim, atrações irresistíveis. Até pipoca com refrigerante eu pego na hora das sessões. Esses dias, porém, fiquei pensando em como tornar mais divertida a brincadeira. Aí tive uma ideia.

Lembrei que uma das possibilidades da TV Digital diz respeito a uma interatividade entre o espectador e o programa jamais vista antes. Na mesma hora, pensei como seria bacana poder interagir com os senadores durante as sessões. Já pensou nisso? Qualquer safadeza que as excelências dissessem ou fizessem, você, do outro lado da tela, no conforto do lar, apertaria uma tecla no controle remoto e o senador escolhido receberia um choque elétrico na cadeira. Ou ainda: ao apertar uma outra tecla, uma enorme mão-robô desceria do teto do Senado e acertaria um safanão na cabeça do senador de sua escolha. Ou, quem sabe, fosse até possível acertar uns tomates e ovos podres também. Bom, as possibilidades seriam ilimitadas.

Mas, provavelmente, o projeto não daria certo. O divertimento não compensaria os custos. Além do mais, muitas pessoas – assim como eu – não fariam outra coisa da vida a não ser dar choques e safanões biônicos em senadores. Enfim, o melhor mesmo é fechar aquela espelunca. Cartão vermelho neles!

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E tem aquela do cara que ligou para a Rádio Senado, querendo pedir uma música.
- Alô? É da Rádio Senado?
- É sim, senhor.
- Pô, toca aí a mais pedida.
- A mais pedida?
- É, cara. Aquela que começa assim: “se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”.
Taí. Poderia até virar uma campanha nacional.
Ligue você também para a Rádio Senado e peça a mais tocada da semana!
Bom, é só uma ideia.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Rei, o Príncipe e o Bobo

Por João Paulo da Silva

Não há nada de tão surpreendente na atual crise política do país. São novos escândalos, mas velhas maracutaias. Talvez com uma diferença: agora os bate-bocas estão cada vez melhores e mais emocionantes. Intrigas, revelações sórdidas, mentiras, traições. Assistimos pelos noticiários a um verdadeiro reality show. O único problema é que a gente não pode eliminar ninguém pelo telefone.

As recentes cenas de xingamentos envolvendo alguns senadores, como Renan Calheiros, Tasso Jereissati, Pedro Simon, e Fernando Collor, são expressões da existência de uma crise do cobertor curto na política nacional. Se cobre a cabeça, descobre os pés. Se cobre os pés, descobre a cabeça. Não há como esconder a sujeira.

A desgraça, porém, é que neste tipo de regime a corrupção é irmã da impunidade. Quer dizer, continua valendo o nepotismo. Tudo em família. No Brasil, a Justiça não faz o menor esforço para disfarçar sua cumplicidade. Ninguém é processado, representações são arquivadas e quanto maior é o número de provas, menor é a chance de se provar alguma coisa.

Atualmente o símbolo das maracutais é José Sarney, um verdadeiro obelisco da corrupção nacional e um estandarte do conservadorismo. Tão antigo no cenário político que até poderia ser chamado de “Corruptossauro Rex”. O sujeito esteve, literalmente, em todas. Foi da Arena durante a ditadura, passou pela redemocratização, foi presidente da república, senador e presidente do Senado. Sua bandeira sempre foi a da conveniência. Sarney é tão imoral quanto o próprio bigode.
A crise do Senado é a paisagem de um jogo palaciano. De olho nas eleições de 2010, Lula não quer ver José Sarney fora do troninho, pois precisa do apoio do PMDB. O PSDB e o DEM fazem uma pequena algazarra para desgastar o governo, mas não querem a cabeça de ninguém para também não perderem as suas. Enfim, o imbróglio segue sem uma definição, ao melhor estilo “deixa como tá pra ver como é que fica”.

Em 2000, após uma vitória do Vasco, Romário soltou uma de suas frases antológicas, referindo-se a Eurico Miranda, a ele próprio e ao desafeto Edmundo. “Agora a corte está completa. O rei, o príncipe e o bobo”. No Brasil também existe uma corte sendo montada, na qual Lula é o rei e Sarney é o príncipe. E, neste momento, os dois estão prestes a escolher o bobo.
Hora de fazer alguma coisa para que não sejamos nós.

domingo, 22 de março de 2009

Sobre o Monstro do Armário e a Assembleia Legislativa

Por João Paulo da Silva

Sala de aula. O professor de Língua Portuguesa questiona seus alunos sobre substantivos coletivos.
- Então, queridos alunos, vamos ver se vocês conhecem os substantivos coletivos. Qual é o coletivo de camelos?
- Cáfila! – respondem todos.
- Muito bem. E o de lobos?
- Alcateia!
- Perfeito, turma! E o de abelhas?
- Enxame, professor!
- Maravilha! Vocês estudaram, hein! Agora eu quero ver se vocês sabem este. Qual é o coletivo de ladrões?
A resposta foi unânime.
- Assembleia Legislativa!

A história me fez refletir sobre a atual política alagoana. Desde que a Operação Taturana revelou que deputados desviaram quase 300 milhões dos cofres públicos, o parlamento alagoano se transformou numa novela ruim com capítulos cada vez mais grotescos. É um tal de entra-e-sai, fica ou não fica, abre-e-fecha. Um horror. No embalo do novo acordo ortográfico, a Assembleia Legislativa resolveu adotar um novo verbo: malufar. Eu malufo, tu mafulas, ele malufa, nós malufamos etc. Teve gente que adorou.

Seja na esfera nacional, estadual ou municipal, a corrupção é a mesma. E são sempre os mesmos partidos. Em que, por exemplo, o mensalão do PT é diferente das maracutaias das siglas dos Taturanas? Mas a impunidade dos crimes na política tem a sua utilidade pública. Serve para mostrar que a Justiça trabalha com dois pesos e duas medidas e que de cega ela não tem nada. Sabe exatamente quem deve ou não prender. Para a população marginalizada das favelas, o remédio é pânico e pólvora. Para políticos corruptos, regalias e impunidade. Receio que a Força de Segurança Nacional esteja procurando criminosos no lugar errado.

O escandaloso caso da Assembleia parece ser a apoteose da falência daquilo que chamam de “instituições democráticas”. Fico imaginado o que aconteceria com a política se colocássemos em prática apenas duas medidas: prisão e confisco dos bens dos corruptos e a instituição de mandatos revogáveis a qualquer momento. Pensem: na primeira pisada na jaca, o povo poderia destituir o político na hora. Fica aí a sugestão.

Minha geração – assim como tantas outras – foi educada por pais que utilizavam o Monstro do Armário para obrigar seus filhos a comerem legumes, por exemplo. Hoje é diferente. Já sei de pais que preferem métodos mais radicais. Ao menor sinal de desobediência dos filhos, disparam: “Olha aqui, garoto. Se não comer essas verduras, te tranco na Assembleia, ouviu?!”.
Uma malvadeza.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Para as próprias cabeças

Por João Paulo da Silva

Nos dias que antecederam o 5 de outubro, vi muitos artigos nos jornais exaltando as eleições como a “festa da democracia, a festa do povo”. De fato, é uma festa. Mas não do povo. Numa sociedade dividida entre espoliados e espoliadores, a democracia é na verdade uma ditadura do grande capital. A única diferença é que passou por uma cirurgia plástica. Provavelmente com o Ivo Pitanguy.

A festa é mesmo das grandes empresas, que controlam a economia, o Estado e os meios de comunicação. Assim, com campanhas endinheiradas, falsas promessas e mais tempo de TV, os candidatos dos exploradores do povo se esbaldam nessa democracia de meia dúzia de grandes empresários que segue o mesmo funcionamento de um jogo com roleta viciada. Na tentativa desesperada de esconder a existência das classes, a Justiça Eleitoral também fez a sua parte. Chamou a lindíssima atriz Lavínia Vlasak para dizer que “nas eleições não existem patrões e empregados”. Uma piada de muito mau gosto.

A verdade é que a burguesia paga a festa, a banda e ainda escolhe a música. De dois em dois anos, o povo é chamado apenas para legitimar um processo que favorece os patrocinadores. Business, baby. Business. Há algum tempo, o escritor uruguaio Eduardo Galeano fez uma provocante ponderação: “A liberdade de eleição permite que você escolha o molho com o qual será devorado.”. E depois dessa crise dos alimentos, desconfio que tenham cortado até o bechamel.

Cícero Almeida foi reeleito porque navegou em sua tsunami de demagogia, mentiras escandalosas e obras de fachada. E por mais que afirme ser o prefeito do povo, Cícero não pode esconder a felicidade da vitória nas urnas estampada no rosto de seu principal aliado de classe. O próprio usineiro João Lyra, depois de votar, chegou a dizer que “não houve disputa eleitoral. O que houve foi a força da candidatura de Cícero Almeida”. O resultado da eleição para prefeito de Maceió estava escrito no viaduto do bairro de Mangabeiras. A força da candidatura de Almeida tem a marca suja do dinheiro de gente como João Lyra.

Judson Cabral e Solange Jurema, que chegaram a se abraçar como velhos compadres depois da votação, não eram diferentes. Seus partidos estão maculados pela alegoria do “Robin Hood neoliberal”. O PSDB possui uma vasta experiência em tirar dos pobres para dar aos ricos. E o PT, bom aluno que é, aprendeu rapidinho a lição. Recentemente, o cronista Luis Fernando Veríssimo afirmou – referindo-se à política econômica de Lula – que “o PT é o PSDB de barba”. Na capital alagoana, a metáfora é com o cavanhaque do Judson.

Na manhã de segunda-feira, após a divulgação do saldo do estelionato eleitoral, os jornais estampavam a lista dos “escolhidos”. As manchetes traziam: “Câmara Municipal tem renovação de 60%”. Resta saber onde houve renovação. Ora, são os mesmos partidos que estão lá. Trocaram seis bandidos por meia dúzia de ladrões. É claro que meus números são imprecisos. Os verdadeiros são bem maiores.

Cícero ganhou a corrida eleitoral. Mas com Judson ou Solange o resultado seria o mesmo. Haveria apenas um vencedor: o lucro dos empresários. Nestas eleições, enganados pelos representantes dos donos da economia, os trabalhadores e o povo pobre acabaram colocando munição nas armas que estão apontadas para suas próprias cabeças. Os demônios do capitalismo, diante da crise econômica que sacode o planeta, vão exigir oferendas para que possam salvar a si mesmos. E os vencedores das eleições já escolheram aqueles que serão jogados às feras.

A História é uma rígida e severa professora. Ela já nos ensinou que as verdadeiras e profundas mudanças não são conseguidas com o voto. São retiradas à força. Primeiro se arranca os anéis. Depois, os dedos e a mão inteira. É claro que não haverá um mundo melhor se os espoliados não passarem por cima das eleições como um trator, assumindo os rumos das próprias vidas e fustigando a carroça da história. Porém, enquanto os trabalhadores ainda forem às ruas apenas para votar, abandoná-los a própria sorte será sempre um crime.

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Pequena Parábola Sobre a Democracia dos Ricos

A democracia dos ricos diz ao povo:
- Você pode votar, escolher os representantes.
- Mas eu quero votar e decidir os rumos da minha vida. – argumenta o povo.
- Bem, votar pode. Agora decidir os rumos da própria vida já é outra história, entende?

domingo, 5 de outubro de 2008

Hoje é dia de dizer não aos patrões!

Por João Paulo da Silva

Durante semanas, nos bares, locais de trabalho, casas, esquinas, o assunto foi um só: eleições. É o momento em que as pessoas discutem e conversam mais sobre os problemas da cidade, do estado, do país. Mas existe entre os trabalhadores e os ativistas honestos uma grande desconfiança em relação ao processo eleitoral. E com toda razão. Desde o fim da ditadura militar, já se passaram mais de vinte anos de democracia. De lá pra cá, a vida da classe trabalhadora só piorou. Tudo isso porque vivemos a democracia dos ricos, dos patrões. Os salários são baixos, o desemprego é alto e a comida é cara. O povo vota, mas não decide. Essa democracia não ajuda a comer, a vestir, a morar. Pelo menos não para os pobres.

Isto tem uma explicação: a democracia dos ricos é um jogo de cartas marcadas. Só são eleitos os candidatos dos partidos que representam os interesses dos patrões, pois recebem verdadeiras fortunas para fazer campanhas milionárias. Quando estes partidos chegam ao poder, governam para os empresários e usineiros que os financiaram. Enquanto isso, o povo é esquecido. A falsa disputa entre PT, PP, PSDB, PMDB, PDT, PCdoB e DEM é apenas uma briga pelo controle do Estado burguês e de suas verbas, pois são exatamente estes partidos que aplicam o mesmo plano econômico e a mesma corrupção.

Nestas eleições, as candidaturas de Cícero Almeida (PP), Judson Cabral (PT) e Solange Jurema (PSDB) representam os mesmos interesses. Vão governar contra os trabalhadores e o povo pobre das periferias, em benefício dos empresários e usineiros de Alagoas.

Cícero Almeida governa com as mãos sujas de João Lyra. A construção de viadutos, homenageando os ricos, não resolveu o problema dos trabalhadores sem acesso à saúde, educação e saneamento. O compromisso de Cícero não é com o povo. É com o lucro dos empresários! A prova disso é que o atual prefeito acha melhor comprar remédios dos grandes laboratórios privados do que do Laboratório Industrial Farmacêutico de Alagoas (LIFAL), que produz 23 tipos de medicamentos por um preço bem menor. Sem falar dos três aumentos de passagem de ônibus.

O candidato do PT, Judson Cabral, se for eleito vai aplicar a mesma política do governo Lula, favorecendo empresários e banqueiros com milhões enquanto os trabalhadores seguirão com salários achatados e perdendo direitos. Judson não pode falar em honestidade e ética, porque representa o partido do mensalão.

Solange Jurema, do PSDB, dispensa até comentários. A candidata foi ministra no governo de Fernando Henrique Cardoso, aquele que chamou trabalhador de vagabundo e privatizou muitas estatais, como a antiga Vale do Rio Doce.

Diante disso, você pode perguntar: então o que se pode fazer em uma eleição? A verdade é que precisamos de uma mudança profunda em nossas vidas, que só virá com o socialismo. Não virá com as eleições. Mas não podemos deixar o povo ser enganado pelos representantes dos patrões. É preciso uma alternativa dos trabalhadores, uma alternativa socialista, que mostre durante a campanha eleitoral que só a luta pode mudar a vida. Só através de greves e mobilizações da classe trabalhadora é possível conquistar vitórias.

Uma candidatura comprometida com a luta dos trabalhadores e com o socialismo não dará a você “brindes”, nem dinheiro, nem cargos. Este é o tipo de campanha dos partidos que estão no poder: oferecem migalhas para que eles continuem mandando em tudo e roubando o povo. Uma campanha da classe trabalhadora é modesta e se orgulha disso, pois não tem o dinheiro dos patrões e da corrupção. Portanto, nestas eleições defenda uma candidatura operária e socialista! Diga não aos patrões! Vote no PSTU!

domingo, 27 de abril de 2008

O Múmia

Por João Paulo da Silva

Há anos faço a barba e o cabelo com o Múmia. Não gosto de ficar trocando de barbeiro. Já me acostumei com ele. Sempre caladão, sério, com aquele olhar bovino, inofensivo. Deve ser por isso que o chamam de Múmia. Nunca descobri o seu verdadeiro nome. Também acho que nunca tive muito interesse. Ninguém o chamava pelo nome real. Todo mundo o conhecia mesmo era por Múmia.

A gente se entendia bem. Eu chegava no salão e ia logo dizendo:
- O de sempre, ô Múmia.
As pessoas até tentavam puxar conversa com ele, mas era uma dureza fazê-lo falar. O máximo que podia sair daquela boca, escondida atrás de um bigodão, era um grunhido ou qualquer coisa que o valha. Às vezes um ruído de aprovação ou desaprovação, dependendo do assunto. Na maioria das ocasiões, o Múmia se comunicava mesmo era por meio gestos e meneios de cabeça. Mas todos sabiam que ele não era mudo.
A reviravolta veio há algum tempo, quando ele resolveu se manifestar.
Vou contar do começo. Assim como milhões de trabalhadores, o Múmia também votou no Lula. Esperava grandes mudanças, sonhava com uma vida melhor, saúde, educação, emprego, um salário digno. Achava mesmo que tudo seria diferente. Quando o Lula chegou à presidência, dava pra ver a esperança na cara do Múmia.
- Ô Múmia! E esse governo, hein?! Será que agora vai?
Com um sorriso que não cabia no rosto, ele balançou a cabeça com firmeza e soltou um ruído parecido com um “oh, se vai!”. Alguns meses depois, já tinha gente provocando o Múmia.
- Olha aí! Tá vendo só?! Ainda não mudou foi nada! O Lula nem mexe no salário. Fica só falando nesse negócio de Alca. Sei não... Boa coisa não é.
O Múmia ficava ouvindo, sempre calado. De vez em quando encolhia os ombros e fazia cara de “calma aí, pessoal. Deixa o homem trabalhar”.
A verdade é que o tempo passava e as mudanças não vinham. Não veio reforma agrária, nem saúde, nem emprego. O que se via mesmo era rico ficando mais rico e pobre ficando mais pobre. Mesmo com uma pontinha de decepção, o Múmia se mantinha firme. Afinal, era um dos “nossos” que estava lá.
- E agora, ô Múmia? Mais de um ano de governo e nada! Tão matando sem-terra e a política econômica ainda é mesma dos tempos do Fernando Henrique. – diziam no salão.
E o Múmia sempre na dele. Mas já não tinha aquele sorriso do começo. Sabia que tinha alguma coisa errada.
Aí veio a história do mensalão.
- Eu não falei?! Não disse?! É tudo igual, Múmia. Todos eles roubam o povo. A gente aqui, dando um duro danado e esses caras do PT batendo a nossa carteira. E o Lula dizendo que não sabe de nada. Tu acredita nisso?!
O Múmia era só decepção. Parecia não saber o que dizer. E mesmo que soubesse não diria. O PT e o Lula eram iguais aos outros. Disso talvez ele soubesse.
Quase quatro anos depois, já perto das eleições, o Múmia não tinha sentido nem mesmo o cheiro das mudanças. Só algumas migalhas.
- Vai votar no Lula de novo, Múmia? – perguntaram no salão.
Meio receoso, hesitante e sem jeito, o Múmia fez uma cara onde se podia ler “mas ele veio do povo”. Assim como milhões de trabalhadores, o Múmia também votou de novo no Lula. Mas as caras e suspiros que ele deixava escapar demonstravam que aquela antiga esperança já não existia mais. O que havia era uma vontade de não perder as migalhas concedidas. A economia estava crescendo. Pouquinho, mas estava. No rosto do Múmia, via-se a expressão de “deixa como tá pra ver como é que fica”.
O segundo mandato começou como uma reprise do primeiro. Só com uma diferença: o que o Lula não conseguiu fazer de ruim com os trabalhadores no primeiro governo começou a fazer no início do segundo. E isso o Múmia sentia na pele e via pela TV.
No salão diziam:
- Ele agora vai mexer na nossa aposentadoria, não quer que ninguém faça greve, anda dizendo que usineiro é herói. Sei não, Múmia. Tá ficando pior.
O Múmia agora só balançava a cabeça em sinal de desaprovação. No rosto, a expressão de “na década de 80 não era assim”.
Esse ano começou ruim para o Múmia e milhões de trabalhadores. Começou mais caro. A cesta básica disparou. E o feijão? Este nem se fala. Assim como tantos outros milhões, o Múmia ia ter de apertar o cinto.
Foi aí que tudo aconteceu.
Eu tinha ido cortar o cabelo e fazer a barba. O Múmia estava passando a navalha no meu pescoço quando a TV deu a notícia. “Novo mínimo de Lula é de R$ 415,00”.
O Múmia arregalou os olhos e, com a navalha ainda no meu pescoço, disse:
- Isso é uma palhaçada! Um absurdo! O que que eu vou fazer com trinta e cinco reais de aumento?! Isso não dá nem pra cobrir o aumento do ônibus!
- Calma aí, Múmia. Espera um pouco. Olha essa navalha. – falei.
- Calma uma ova, seu João! – deu um salto pra trás e começou a sacudir a navalha no ar. – Eu esperei vinte anos da minha vida por um governo do povo. Votei muitas vezes no Lula e confiei no PT. E agora?! O que foi que eu ganhei?! Nada! Nesse governo, os ricos lucram fortunas! E os pobres pagam a conta, seu João. Esperei vinte anos por emprego, reforma agrária, educação, saúde, salário digno. Eu e milhões de trabalhadores!
Depois do desabafo, o Múmia sumiu do salão. Não voltou mais pro trabalho. E levou a navalha. Na barbearia até já tem outro no lugar dele. Está um clima diferente, todo mundo apreensivo, cheio de expectativas, como se algo estivesse prestes a acontecer. Todos achavam que ele ficaria sempre assim. Mudo. Mas até mesmo os mais calados uma hora acabam botando a boca no mundo.