De dentro dos
palácios do poder, parece que havia uma torcida organizada. Talvez em função do
clima de Copa do Mundo, eu acho. Governos, setores da imprensa e um Congresso
Nacional com vocação para a canalhice cruzaram todos os dedos, das mãos e dos
pés, à espera de uma “justificativa” que respaldasse a histeria da mídia e o “balé
quebra nós” do Estado contra as manifestações populares. domingo, 16 de fevereiro de 2014
O espetáculo do absurdo e a apoteose da canalhice
De dentro dos
palácios do poder, parece que havia uma torcida organizada. Talvez em função do
clima de Copa do Mundo, eu acho. Governos, setores da imprensa e um Congresso
Nacional com vocação para a canalhice cruzaram todos os dedos, das mãos e dos
pés, à espera de uma “justificativa” que respaldasse a histeria da mídia e o “balé
quebra nós” do Estado contra as manifestações populares. domingo, 26 de janeiro de 2014
Quem é mesmo que faz o jogo da direita?
Gente... na boa,
já tá ficando feio isso. Constrangedor, até. Mais falso do que os sorrisos do José
Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves juntos. Se é pra mentir, convém mentir
direito, né?! Ninguém mais pode criticar os governos do PT, Lula e Dilma, sem
ser imediatamente acusado de “fazer o jogo da direita”, “querer o retorno do
PSDB”, ou “reproduzir o discurso da mídia golpista”. Assim fica difícil,
pessoal!(...)
domingo, 11 de novembro de 2012
Amadores
domingo, 1 de abril de 2012
E o humor ficou órfão...
Tudo o que ele fez foi sucesso de crítica e público. Em mais de 70 anos de carreira, usou sua inteligência corrosiva e seu humor fulminante para escrever, “sem borracha”, o próprio nome entre os maiores intelectuais e artistas do Brasil. Foi jornalista, desenhista, cartunista, humorista, dramaturgo, escritor, fabulista, frasista, tradutor e inventor. Foi dele a ideia do frescobol. A única prática esportiva sem vencedores ou perdedores. Era dono de um gênio tão inquieto quanto brilhante. Uma daquelas cabeças que não veremos nunca mais. Millôr Fernandes era um homem múltiplo, de múltiplos talentos, de múltiplas facetas. E foi assim até na hora do adeus definitivo. Morreu aos 88 anos de falência múltipla dos órgãos.domingo, 29 de maio de 2011
As coisas e o que fazemos com elas
Ceará-Mirim, Rio Grande do Norte. Maio de 2011. Eu tinha ido cobrir um protesto de 200 trabalhadores rurais sem terra naquele município. Com suas camisas e bandeiras vermelhas, eles deslizavam pela principal avenida do centro da cidade como um rio de sangue, som e fúria. Era o sangue dos companheiros mortos em Eldorado dos Carajás, o som das reivindicações urgentes e a fúria da necessidade de viver. A caminhada ia em direção à sede da Prefeitura, onde o MST exigiria do chefe do executivo municipal a construção de uma escola nas proximidades de seus assentamentos na região.A exigência dos sem terra era apenas para ter o direito à educação, mas a polícia foi chamada e os supermercados fecharam as portas. Aglomerados em frente à Prefeitura, homens, mulheres e crianças cantavam e pediam para ser recebidos. Entre eles e o prefeito, um cordão de policiais armados. Entre os pobres e a educação, as armas. Entre o povo e o futuro, o descaso. Historicamente, sempre foi assim. A violência sempre chegou primeiro do que os direitos.
Mas o impasse estava posto. Os trabalhadores não sairiam dali enquanto não fossem recebidos pela Prefeitura. E a polícia não sairia da frente enquanto não recebesse a ordem. Provavelmente para evitar desgaste político, o prefeito resolveu atender uma comissão de sem terras. Por alguma razão que até hoje desconheço, eu acabei indo junto com o grupo de negociação. Naquela euforia toda, ainda pude ouvir um trabalhador dizer: “Ele é jornalista. Ele é jornalista. Bota ele na comissão também.”. Talvez fosse pela possibilidade de registrar tudo. Não sei.
Acompanhei toda a conversa entre o prefeito e os trabalhadores. Horas depois, ficou a promessa de atender a reivindicação do MST. Educação nos assentamentos. Simples assim. Mas a lição dessa história é outra. Não é sobre como podemos conseguir nossos direitos exercendo pressão sobre os governantes. Muito embora esta seja uma boa lição. A aula mesmo é sobre as coisas e o que fazemos com elas.
Dentro do prédio da Prefeitura, na ante-sala do gabinete do prefeito, eu aguardava a comissão ser recebida. Do lado de fora, com a rua fechada, o restante dos trabalhadores cantava hinos de luta. Como quem não quer nada, um policial se aproximou de mim e perguntou:
- Você está com eles?
- Só acompanhando a negociação. Sou jornalista.
- Hum... Queria ver uma coisa com você.
- Pois não.
- Veja, lá fora tem muita gente armada com facões e foices. E nós não queremos que nenhuma confusão aconteça. Não poderíamos ver a possibilidade desse pessoal aí entregar essas armas? Nós recolhemos e depois devolvemos. Só por segurança. – argumentou ele.
- Acho muito difícil, policial. Mesmo porque não há ameaça de nada lá fora.
- E aquelas armas?
- Que armas?
- Aqueles facões e foices.
- Não são armas, policial. São instrumentos de trabalho. Foram feitos para o serviço no campo. Não têm como finalidade ferir ninguém.
- Sim, eu sei. Também tenho meus instrumentos de trabalho. – disse ele, batendo de leve em sua pistola presa ao coldre.
- É diferente. Não é a mesma coisa. O seu instrumento de trabalho foi feito com o objetivo específico de matar. – respondi eu.
domingo, 22 de maio de 2011
O Censo e a nova classe média

domingo, 1 de maio de 2011
O ladrão intelectual
Quando um amigo me contou, eu não acreditei.- Fala sério! Cê tá de brincadeira, né?!
Não. Não estava. Existia realmente um ladrão diferente a solta pelas ruas de Maceió. Já havia assaltado cerca de trinta pessoas em menos de um mês. Mais impressionante do que isso, só o fato de que o sujeito não roubava dinheiro, relógios ou celulares. Roubava livros! Isso mesmo. Livros!
Quando eu era mais novo, minha mãe costumava dizer (e ainda diz!) que meu futuro estava nos livros. Dizia que eu tinha de comer os livros pra virar gente de verdade. “Um homem só cresce na vida através dos livros!” – declarava. Era um claro exagero, não tenho dúvidas. E um pouco de ingenuidade também. Mas não pude deixar de lembrar dos conselhos de minha mãe ao saber da existência de um ladrão intelectual. “Ai, meus clássicos! Ai, meus clássicos!”. – pensei.
Também não tive como não lembrar dos cuidados que minha sábia mãezinha exigia de mim.
- Menino, cuidado com os assaltos! Se o ladrão pedir, entregue tudo!
- Tá, mãe. Tá. Mas eu só tenho livros na bolsa. A senhora já viu algum ladrão roubar livros?
O fato é que o caso havia me intrigado. Procurei pensar no lado positivo da coisa. Se a moda pegasse, o Brasil poderia até deixar de ser um país de analfabetos. Resolvi, então, conversar com algumas pessoas que tinham sido atacadas pelo tal ladrão intelectual. Queria saber como o sujeito agia. Estava na hora de exercitar meu jornalismo investigativo.
Como a maioria dos gatunos, ele também tinha hábitos noturnos e um local preferido para atacar. Todos os assaltos ocorreram dentro da universidade por volta das 20 horas. Uma das vítimas, uma estudante de pedagogia, afirmou que não se tratava de um ladrão como outro qualquer.
- Ele não roubou meu dinheiro. Roubou meus livros! Levou o meu Pedagogia do Oprimido!
- Certo. Isso eu já sei. Além de roubar livros, você percebeu mais alguma coisa de incomum? – perguntei.
- Ele usava uma máscara.
- Mas isso não tem nada de incomum. Muitos ladrões usam máscaras. – retruquei.
- Com o rosto do Paulo Freire?
De fato era um caso estranho.
Seu método se diferenciava pouco dos outros. Se houvesse resistência ao roubo dos livros, ele ameaçava as vítimas com um canivete. Tudo bem que era um canivete suíço, mas ainda assim era um canivete. Demonstrava total frieza e indiferença na hora da ação. Mas não aparentava seguir um padrão único. Às vezes agia com muita cordialidade. Nem parecia que era um assalto. Foi assim com um estudante de letras num ponto de ônibus escuro e vazio.
- Boa noite. – disse o sujeito com uma máscara do Jorge Amado.
- Ai, meu Deus! – assustou-se a vítima – Mas o que é isso? Tem alguma festa à fantasia hoje?
- Não é nada. Só uma comemoração boba. – disfarçou – Escuta, posso dar uma olhada nesses livros?
- Claro. Fique à vontade.
- Hum...
- Que foi?
- Tolstoi, Joyce, Machado de Assis. Muito bom. Boas leituras. Vou levá-los.
- Ahn? Como assim “vou levá-los”?
- Ah, desculpe. Esqueci de avisar. Isso é um assalto.
Mas o larápio de livros também já demonstrou alguns lapsos de descontrole emocional. A vigésima vítima, um estudante de filosofia, me deu um relato interessantíssimo. O rapaz contou como se dera o ocorrido.
- Boa noite. – disse uma voz calma e educada no meio da penumbra.
- Quem está aí?
- “O homem é condenado a ser livre”. – afirmou a voz.
- Sócrates?
- Não, seu burro! – disse a voz alterada – É Sartre!
O rapaz sentiu uma forte dor na cabeça e caiu desacordado. Quando recobrou a consciência, seus livros tinham sumido. Tudo indica que tenha sido uma paulada. Parece que o gatuno não suporta burrice. Um pouco intolerante, eu acho. Mas também com uma jeguice dessas, quem não seria?!
A situação começou a se agravar ainda mais. O ladrão intelectual já havia surrupiado Sartre, Piaget, Freud, Poe, Marx e muitos outros. A comunidade acadêmica estava apavorada e ninguém sabia exatamente o que fazer.
Foi aí que, recentemente, as idas e vindas da história apontaram um possível caminho. Foi com uma menina do curso de administração. Ela saía da aula quando viu se aproximar o Graciliano Ramos.
- Muito bem. Sem muitas delongas. Isso é um assalto!
A moça começou a abrir a carteira.
- Não. Não é isso que eu quero. Quero os livros.
- O quê?
- É o que você ouviu. Passa os livros.
A menina entregou-os sem se queixar. Momentos depois, o ladrão explodiu:
- Mas o que é isso?! Você tá de sacanagem, né?! Que palhaçada é essa?!
- Ora! Eu gosto, ué?!
Os livros eram Brida e Diário de um Mago.
- Como assim? Você gosta de Paulo Coelho?! Você tá lendo Paulo Coelho?!
- Tô. Qualé o problema?
- Você não tem vergonha na cara não, menina! Ai, meu Deus do céu! Sidney Sheldon eu até aceito. Mas Paulo Coelho já é apelação! Aí já é demais!
Largou os livros da moça no chão e fugiu indignado.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Me contaram
“Não sei se é verdade, mas me contaram uma...”. Normalmente, é assim que começam os relatos duvidosos. O fofoqueiro – espécie de jornalista sem critérios de apuração nem código de ética – é o responsável por essas narrativas audaciosas. Para ele, uma boa história não precisa ser necessariamente verdadeira. Precisa ser apenas atraente e, de preferência, escandalosa. Eu tenho pena do jornalista, esse fofoqueiro com código de ética e critérios de apuração. Quantos jornalistas já deixaram de contar boas histórias só porque elas não eram totalmente verdadeiras? O fofoqueiro é que é feliz. Pode aumentar uma coisinha aqui, inventar outra acolá. Melhor: se quiser, pode até inventar tudo e ficar com a consciência tranquila. Ninguém vai punir o fofoqueiro. Mesmo porque, depois de feita a fofoca, é muito difícil provar que fulano de tal é responsável pela história. O fofoqueiro sempre nega.
Não sei se é verdade, mas outro dia também me contaram uma. No início dos anos 90, durante uma viagem aos EUA, um embaraçoso acontecimento envolveu o então presidente da República, Fernando Collor de Mello, e a primeira-dama, dona Rosane. Dizem as más línguas que ela nunca foi uma pessoa, digamos, “esperta” demais. É como falam por aí: o cérebro é uma coisa maravilhosa. Todos deveriam ter um. Ao que tudo indica, dona Rosane Collor não tinha. Ou, na melhor das hipóteses, se esqueceu de levar no dia da viagem.
Assim que o presidente e a primeira-dama desembarcaram no aeroporto, foram recebidos com todas as honras a que tinham direito. Inclusive, na ocasião, havia uma enorme faixa na entrada do saguão com os seguintes dizeres: Welcome, Collor! Dona Rosane, um poço de sagacidade, olhou com atenção a frase e rapidamente se deu conta do que estava escrito. Com cara de mulher que exige explicações do marido, a primeira-dama lascou pra cima do presidente:
- Mas que história é essa, Fernando?! Quem é esse tal de Wel?!
Bom, foi o que me contaram.
domingo, 30 de janeiro de 2011
“Pai, afasta de mim esse cálice!”
O refrão da música de Chico Buarque ficou imortalizado como uma das marcas da luta contra a ditadura. A ambiguidade da expressão “cálice” era a representação criativa do anseio de afastar o silêncio que atordoava muita gente. Passados os anos de chumbo, o silêncio ainda permanece. Frequentemente, somos obrigados a nos calar, ou, para usar um eufemismo, não nos é permitido responder. O que na prática é mesma coisa. A televisão é uma das muitas maneiras de impor o silêncio. Em 1996, o sociólogo francês Pierre Bourdieu, em entrevista ao Jornal do Brasil, afirmou: “A televisão é uma lavagem cerebral, uma despolitização trágica, um instrumento antidemocrático.”. Dando o exemplo da TV norte-americana, Bourdieu caracterizou o ato de ver televisão como uma “experiência terrível”. Para o pensador francês, a caixa mágica resume-se a uma avalanche de propaganda, propaganda e mais propaganda. Numa clara demonstração dos interesses mercadológicos por trás da telinha. De fato, Bourdieu tem razão. Se levarmos em conta – e acho que devemos – algumas reflexões feitas por Muniz Sodré em seu livro O monopólio da fala, chegaremos a uma conclusão perigosa sobre a função da TV.
Trilhando, de certa maneira, o mesmo caminho que Bourdieu, Sodré diz ser a televisão uma “violência” ao processo comunicativo. Comunicação é, primeiramente, diálogo. Deve haver reciprocidade entre falante e ouvinte. A televisão não permite a troca plena da comunicação, não há possibilidade de resposta para o interlocutor. É nisto que consiste o monopólio do discurso, na eliminação da possibilidade de resposta, na hegemonia do falante sobre o ouvinte.
Penso que Bourdieu e Sodré estão certos. A TV “castra” o interlocutor. Antes que os cínicos façam gracinhas, devo advertir que resmungar discordâncias, sentado na poltrona de casa, não vale como resposta. Quem vê TV, não faz TV. O conteúdo veiculado impede a compreensão do mundo como ele de fato é, criando falsas ideologias. A televisão, sob a perspectiva de uma sociedade cindida em classes e voltada aos interesses do mercado, torna-se um poderoso instrumento de homogeneização do grotesco e do vazio. A TV apresenta um mundo diferente do real com a desculpa de que as pessoas estão cansadas de realidade. Faltou dizer que, entre produzir obras de ficção e mascarar a verdade, existe um abismo imenso.
Não estamos mais nos anos de chumbo, é verdade. Mas a enorme ambição de afastar o “cálice” ainda persiste.
domingo, 12 de setembro de 2010
O Brasil que eu não conheço
Estas eleições estão particularmente muito chatas. “Nunca antes na história desse país” a cara de um foi tão semelhante ao focinho do outro. Mesmo com nove candidatos disputando a Presidência da República, embora a grande imprensa não mostre todos, os que estão liderando as pesquisas não passam de trigêmeos da mesma política dos últimos vinte anos. Enquanto isso, os demais candidatos, principalmente os da esquerda, precisam se virar nos cinqüenta segundos que dispõem na TV para fazer a diferença. Isso porque entre o PT de Lula e Dilma e o PSDB de FHC e Serra, não há distinções quanto ao programa de governo. Eles mesmos admitem o fato ao defenderem um modelo econômico idêntico. segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Democracia? Onde?! Onde?!
“A liberdade de eleição permite que você
escolha o molho com o qual será devorado.”
Na democracia, dizem também que qualquer um pode ser candidato e que os eleitores têm o direito de conhecer as ideias e as propostas de todos aqueles que se candidatam. Agora, claro, que se um determinado candidato tem dez minutos de propaganda na TV, durante o horário eleitoral gratuito, e os outros têm apenas um minuto ou menos para apresentarem suas opiniões, isso já não é problema da democracia. Tem a ver com o posicionamento dos astros, as fases da lua e o ciclo de menstruação dos galináceos. Mas não com os direitos democráticos ou coisa parecida. O mesmo vale para as regras dos debates.
A legislação eleitoral, que também faz parte da democracia, obriga as emissoras a convocarem para os debates todos os candidatos dos partidos que possuem representação na Câmara Federal, mas não obriga a convocação dos que não possuem nenhum representante. De modo que convocar os párias das eleições fica a critério de cada emissora. TVs e rádios recebem concessões públicas para funcionar, mas decidem sozinhas quem participa ou não dos debates. É claro que se essa decisão diminui as chances dos partidos que não possuem representação alcançarem uma cadeira na Câmara Federal, isso também não é problema da democracia.
Desde o período da redemocratização, nunca tivemos tantos candidatos à Presidência da República como temos nestas eleições. Ao todo, são nove os que disputam o comando do país. Entretanto, você não conhecerá o que pensam e o que propõem cada um deles. Não porque três meses sejam insuficientes para isso. Mas porque já escolheram os candidatos em que você pode votar. São os que estão liderando as pesquisas, os que vão aos debates e os que possuem mais tempo na propaganda eleitoral gratuita. E, curiosamente, são exatamente estes que recebem as pomposas “doações” dos donos do jogo democrático.
Esta coisa que os homens do poder chamam de democracia é tão estranha e complexa que não consegue nem mesmo garantir o que se propõe a garantir. Em todas as épocas da história da humanidade, quando algo não funcionava mais como deveria funcionar, precisou ser substituído. Em nosso caso, o que necessita ser trocado já está fedendo. Seja porque é sujo ou porque é podre demais.
domingo, 18 de abril de 2010
O preço do abandono
- Porque eu quis, ora. O governo até me ofereceu uma casa em um condomínio de luxo, mas eu recusei. Bom mesmo é morar em casa de lona, no meio das encostas.
- Mas o senhor não sabe que tudo pode desabar a qualquer momento?! Ainda mais com essas chuvas.
- Sei sim. Claro que sei.
- E então, meu senhor?! Por que você não sai daqui?
- Porque eu gosto de viver perigosamente, entende? Aqui a adrenalina é constante, praticamente um esporte radical. Sempre que chove, vem aquela tensão, sabe? Muito maneiro, cara! É uma sensação incrível saber que sua casa pode desabar enquanto você e sua família dormem.
- Mas isso é uma loucura!
- Loucura? Você não viu nada, cumpade! Bom é quando começa a chover e a entrar água e lama dentro de casa. A gente, que já não tinha nada, perde tudo. E a correria? Radical! Todo mundo tem que sair correndo de dentro de suas casas. Aí já viu, né? Os mais lentos... babau. A gente vive assim, em encostas e morros, porque a gente gosta. O nosso negócio é o perigo, é o desafio. Sabe como é, né? Brasileiro não desiste nunca.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Aquele estranho bilhão que nunca chega
Em março, a revista americana Forbes divulgou a sua tradicional lista anual de bilionários, aquela minoria absurda da qual você e eu nunca faremos parte. O Brasil, graças ao empenho e à política econômica do presidente Lula, possui o maior número de ricaços da América Latina. São 18 brasileiros com fortunas acima de US$ 1 bilhão, reinando absolutos sobre quase 190 milhões de homens e mulheres comuns, cheios de dívidas e contas atrasadas.
Segundo a revista, o brasileiro mais rico é o empresário Eike Batista, que acumula uma bobagem monetária de US$ 27 bilhões. E o mais absurdo: em apenas um ano, o patrimônio de Batista aumentou US$ 19,5 bilhões. Nem nos melhores sonhos os trabalhadores brasileiros imaginaram seus salários subindo nessa proporção. O povo deve agradecer a Lula pelos R$ 510 do salário mínimo e pelos R$ 120 do Bolsa Família. Enquanto isso, Batista também agradece ao presidente, só que pelos bilhões. Nunca antes na história desse país a distribuição de renda foi tão bem feita.
A lista da Forbes aponta, ainda, o mexicano Carlos Slim, do ramo das telecomunicações, como o homem mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 53,5 bilhões. Agora, o detalhe mais importante dessa festa toda. Dos quase sete bilhões de habitantes do planeta, apenas 1.011 concentram uma riqueza bilionária. Destes, somente os dez mais ricos possuem juntos a bagatela de US$ 342 bilhões. Quer dizer, ou aquela história de que o capitalismo dá oportunidades iguais a todos é conversa pra boi dormir ou o mundo está repleto de incompetentes que não sabem aproveitar as chances da vida. Fico com a primeira opção. De uma forma ou de outra, você e eu continuamos contemplando aquele estranho bilhão que nunca chega.
Obviamente que estas cifras estratosféricas não surgiram do nada. Alguém precisou gerar toda essa riqueza. E, claro, quem a gerou sequer foi convidado a tirar uma lasquinha, visto que nunca tivemos tantos famintos, desempregados e mal pagos como hoje. Se você ainda não sacou quem criou toda essa riqueza da qual estou falando, vou dar uma dica: vivem de salários e são a maioria da população.
Quando eu era mais jovem, me disseram que enriquecer licitamente sob o capitalismo era impossível. Agora entendo o porquê.
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Obs.: Em decorrência do excesso de ovos de Páscoa, este cronista só pode postar sua crônica hoje, e não no domingo como de costume.
domingo, 28 de março de 2010
Mata de orgulho

Há algum tempo o Brasil é motivo de orgulho. Para os ricos, é claro. A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, por exemplo, a serem realizados em terras tupiniquins vão encher de ilusões os olhos do povo, e de “money” os bolsos dos magnatas. A entrega, feita por Lula, de R$ 300 bilhões dos cofres públicos para salvar empresários e banqueiros da crise econômica também foi motivo para morrer de orgulho. Só quem perdeu o emprego e continua na rua da amargura sabe do que estou falando. Entretanto, o país já tem outra grande razão para se orgulhar. O nobre deputado federal Paulo Maluf entrou para uma importante lista internacional: a de procurados pela Interpol.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Adeus ao Ponto G
Por João Paulo da Silva sábado, 2 de janeiro de 2010
E agora?
Não sei o que faz as pessoas acharem que 2010 vai ser melhor do que 2009. É impressionante como uma certa magia toma conta da gente na hora da passagem do ano, fazendo todo mundo acreditar que da noite pro dia – literalmente – as coisas vão mudar. Não estou dizendo que não acredito em mudanças. Ao contrário. Penso, sim, que é possível mudar o mundo. O problema é que, nas mãos em que ele está hoje, as mudanças não virão. Pelo menos não as boas.Não sei quem é o autor, mas tem uma frase que diz: “um pessimista é só um otimista bem informado”. É duro, porém tenho de concordar. Vejamos um dos assuntos mais comentados dos nossos dias: o aquecimento global e as alterações climáticas, por exemplo. Mesmo aqueles extremistas da esperança sabem que a situação é mais feia do que briga de foice. As consequências do aquecimento já podem ser sentidas por qualquer um, e não estou falando apenas do calor que aumentou. Eventos catastróficos estão se tornando recorrentes demais. Daqui a pouco, estaremos falando de tsunamis como quem fala da chuvinha das cinco. Assim, com naturalidade. Até que venha uma onda gigante e leve a casa da gente, claro.
Com o fracasso da Conferência de Copenhague (para alguns, já esperado), veio também o desespero certo de que, caso não mudemos radicalmente nossa relação com a natureza, estaremos empurrando o planeta cada vez mais para as cucuias. E, obviamente, a gente vai junto. Especialistas afirmam que o atraso nas decisões sobre as mudanças climáticas pode levar a humanidade para uma situação do tipo “agora é tarde demais”.
É possível que até o fim do século a temperatura da Terra suba uns 4 graus Celsius, trazendo consequências dramáticas, como a savanização da Amazônia e o aumento do poder destrutivo de tempestades, furacões e tornados. Além disso, o rápido degelo da Groelândia e da Antártica Ocidental pode elevar o nível do mar em 8 metros. Ainda não entendeu o que isso significa? Por exemplo: se o mar subir um metro, desaparecem Jacarepaguá e a Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Sentiu o drama? Pois é. E, mesmo assim, as grandes potências industriais não abrem mão do CO2 na atmosfera.
É claro que os responsáveis pelo problema querem dividir a culpa do aquecimento global entre todos os habitantes do planeta, numa tentativa de relativizar a pena pelo próprio delito. Cansei de ler matérias afirmando que cada um de nós libera no ar, por ano, uma média de 4,3 toneladas de gás carbônico. Isso sem fazer nada demais, só comendo e dormindo. Agora querem que a gente acredite que todo ser humano tem sua parcela de culpa na catástrofe iminente. Sacanagem, hein! Até já ouvi uma história sobre os efeitos da flatulência na atmosfera. Parece que a cada 100 puns que soltamos no planeta a temperatura dá uma esquentadinha, piorando o tal do aquecimento. Quer dizer, agora nem peidar a gente pode mais.
Bom, de qualquer forma, pensando na possibilidade de que nós não vamos conseguir salvar o mundo, eu fiz um pedido especial ao Papai Noel nesse Natal. Se o planeta for mesmo engolido por grandes tsunamis, então que a primeira onda de 1,5 km atinja em cheio a Casa Branca. Pô, nada mais justo, não é não?!
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
2000inove: retrospectiva do ano que não inovou
Esse foi um ano daqueles. Daqueles de dar dor de cabeça, daqueles de dar desgosto e raiva de saber que o próximo pode ser muito pior. A julgar pelos fatos de 2009, não há nada que aponte – pelo menos até agora – para qualquer melhora, mínima que seja. Até o salário mínimo, que vai para R$ 510 agora em janeiro, vai continuar mínimo. Caso você não lembre o que aconteceu de mais importante em 2009, não precisa ficar preocupado. Fiz um resumo, mês a mês, dos principais acontecimentos do ano. Recordar é viver. Haja paciência!Bom 2010 pra todo mundo.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Ter ou não ter diploma? Eis a questão!
Vou entrar na polêmica. E não é apenas porque diz respeito a minha profissão. Escrevo porque o assunto tem mais relevância do que aparenta. Estou opinando com um pouco de atraso, é verdade. Mas ainda em tempo de pegar os patrões e o STF pelo pescoço e dizer umas verdades. A discussão da obrigatoriedade do diploma não é recente, já tem um tempo. Entretanto, ganhou um importante destaque nos últimos anos, fazendo muita gente opinar sobre o assunto. Do meu canto, eu acompanhava todo tipo de argumento utilizado para defender o fim da obrigatoriedade.
A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 17 de junho deste ano, motivada por uma ação protocolada pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo, veio coroar uma verdadeira rasteira nos trabalhadores da área.
O Cláudio Abramo tem uma frase interessante: “A liberdade de imprensa é a liberdade do dono do jornal”. É verdade. Não é a exigência do diploma que impossibilita alguém de escrever e expressar suas opiniões, e sim os interesses econômicos. É aquela velha história: negócios são negócios. Até há espaços nos jornais dedicados a pessoas que não são jornalistas, onde é possível escrever sobre o assunto de sua preferência. Desde que não fira os... bem, você sabe.
Pegando carona nos devaneios do Gilmar Mendes, o ministro Cezar Peluso alegou que o diploma em jornalismo não garante a eliminação do mau exercício da profissão, da deficiência de caráter e da falta de ética. Na hora pensei que ele estivesse brincando. Mas acho que alguém deveria ter perguntado ao ministro qual o curso que assegura toda essa moralidade no trabalho. Não conheço nenhum.
Me impressionou, também, o argumento de que nos EUA, na Alemanha e na França o diploma não é obrigatório. Sobre este ponto, direi apenas o que mamãe dizia quando queria me ensinar a pensar por minha própria cabeça. “Se alguém mandar você comer cocô, você vai comer, infeliz?!”.
Outra questão do debate, que cheguei a ouvir e ler em alguns lugares, é a seguinte: já que as escolas de jornalismo são ruins e não formam um profissional qualificado, então por que cargas d’água é preciso um diploma? Não há nenhum problema em discutir o nível dos cursos que formam um sem-número de jornalistas todos os anos. Mas este não é o X da questão. A culpa não é do diploma. No caso das universidades públicas, é do governo. Já nas privadas a culpa é do dono, que fez da educação um negócio.
Entretanto, talvez nada seja tão irritante quanto a ladainha que insiste em reduzir o jornalismo a um punhado de técnicas e a um amplo conhecimento geral. Basta escrever bem e ler bastante para ser um excelente jornalista. Isso, sim, é de um reducionismo vergonhoso. Golpe baixo.
Não tenho dúvidas de que o desenvolvimento dos meios técnicos, das forças produtivas e o aumento da complexidade social exigem do jornalista uma capacitação de nível superior. Assim como outras áreas do conhecimento humano, o jornalismo não é estático e necessita de um tratamento científico em sua elaboração. Ninguém vai à universidade só para aprender técnicas. Quem já foi a uma sabe do que estou falando.
Enfim, não há nada capaz de justificar a sentença do STF. A não ser, claro, os interesses escusos. A questão, aqui, não é de fetiche com o diploma, muito menos da vontade de colocá-lo numa moldura na parede. Trata-se “apenas” da defesa de uma categoria de trabalhadores e da sua qualidade de formação.
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
"Entre a presa e o dragão"
Foi Shakespeare quem disse a frase acima. Esse dilema esteve muitas vezes presente em suas obras. O poeta inglês sabia que o ato de escolher seria para o homem sua salvação ou sua perdição. Mas nunca disse que não deveríamos escolher. Numa sociedade onde há lutas entre desiguais, permanecer calado é sempre apoiar o mais forte. Quando escolhi cursar jornalismo, eu já sabia que a imparcialidade era um mito, uma grande falácia. A neutralidade é impossível por um motivo muito simples: não há discurso desprovido de ideologia. Toda escolha é uma escolha política. Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, disse certa vez que “a palavra é uma arma”. Se estiver correto – acredito que esteja – então todos nós temos um bom motivo para fazer a escolha certa. Numa situação em que os meios de comunicação de massa estão nas mãos de uma única classe, escolher se torna doloroso e angustiante. A liberdade de imprensa é tão falsa quanto a idéia de imparcialidade. Só um tolo não percebe que os grandes meios estão sempre a serviço de quem detém o poder. A liberdade de imprensa é na verdade um eufemismo burguês. Antes de serem meios de informação, o jornal, o rádio e a TV são primeiramente empresas. Isso significa dizer que têm um dono, ou seja, um patrão. Há nesse aspecto uma relação de poder, de opressão e, mais especificamente, de monopólio da informação. Sendo assim, quando me decidi por jornalismo eu compreendia que se quisesse escrever nos grandes meios teria de me moldar a eles. Essa idéia não me agradou nem um pouco. Mas há sempre uma segunda escolha.
Se o jornalismo é realmente uma guerra pela conquista das mentes e corações, então é preciso definir bem de que lado da trincheira nós estamos. Sei exatamente por que escrevo, para quem escrevo e contra quem escrevo. Estar entre a presa e o dragão não é um decreto de morte nem uma rua sem saída. Para todo beco, existe um muro a ser saltado. Para toda prisão, existe uma brecha entre as grades. Bom, se não houver, então cavamos um buraco.
