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domingo, 16 de fevereiro de 2014

O espetáculo do absurdo e a apoteose da canalhice

Por João Paulo da Silva

De dentro dos palácios do poder, parece que havia uma torcida organizada. Talvez em função do clima de Copa do Mundo, eu acho. Governos, setores da imprensa e um Congresso Nacional com vocação para a canalhice cruzaram todos os dedos, das mãos e dos pés, à espera de uma “justificativa” que respaldasse a histeria da mídia e o “balé quebra nós” do Estado contra as manifestações populares.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Quem é mesmo que faz o jogo da direita?

Por João Paulo da Silva

Gente... na boa, já tá ficando feio isso. Constrangedor, até. Mais falso do que os sorrisos do José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves juntos. Se é pra mentir, convém mentir direito, né?! Ninguém mais pode criticar os governos do PT, Lula e Dilma, sem ser imediatamente acusado de “fazer o jogo da direita”, “querer o retorno do PSDB”, ou “reproduzir o discurso da mídia golpista”. Assim fica difícil, pessoal!
(...)

domingo, 11 de novembro de 2012

Amadores

Por João Paulo da Silva

Aconteceu um dia desses em Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte. Eu tinha viajado a trabalho, como de costume. Talvez você não saiba, mas sou jornalista, embora isso não queira dizer muita coisa. Bom, era noite. E eu tinha acabado de fechar algumas matérias para o jornal. Estava cansado. Precisava relaxar. Foi aí que resolvi dar um pulo no bar da esquina pra tomar uma cerveja e arejar um pouco as ideias. Mas não pretendia demorar muito. Afinal, queria voltar a tempo para ver a minha novela das nove. Por isso, pedi apenas uma gelada e um pequeno aperitivo. Iscas de peixe. Adoro iscas de peixe, ainda mais com um limãozinho por cima. Enfim, eu estava querendo aliviar as tensões. Ficar tranquilo. Nada de estresse. Mas a vida é dura e às vezes o pastel vem estragado.

domingo, 1 de abril de 2012

E o humor ficou órfão...

Por João Paulo da Silva

Tudo o que ele fez foi sucesso de crítica e público. Em mais de 70 anos de carreira, usou sua inteligência corrosiva e seu humor fulminante para escrever, “sem borracha”, o próprio nome entre os maiores intelectuais e artistas do Brasil. Foi jornalista, desenhista, cartunista, humorista, dramaturgo, escritor, fabulista, frasista, tradutor e inventor. Foi dele a ideia do frescobol. A única prática esportiva sem vencedores ou perdedores. Era dono de um gênio tão inquieto quanto brilhante. Uma daquelas cabeças que não veremos nunca mais. Millôr Fernandes era um homem múltiplo, de múltiplos talentos, de múltiplas facetas. E foi assim até na hora do adeus definitivo. Morreu aos 88 anos de falência múltipla dos órgãos.

domingo, 29 de maio de 2011

As coisas e o que fazemos com elas

Por João Paulo da Silva

Ceará-Mirim, Rio Grande do Norte. Maio de 2011. Eu tinha ido cobrir um protesto de 200 trabalhadores rurais sem terra naquele município. Com suas camisas e bandeiras vermelhas, eles deslizavam pela principal avenida do centro da cidade como um rio de sangue, som e fúria. Era o sangue dos companheiros mortos em Eldorado dos Carajás, o som das reivindicações urgentes e a fúria da necessidade de viver. A caminhada ia em direção à sede da Prefeitura, onde o MST exigiria do chefe do executivo municipal a construção de uma escola nas proximidades de seus assentamentos na região.

A exigência dos sem terra era apenas para ter o direito à educação, mas a polícia foi chamada e os supermercados fecharam as portas. Aglomerados em frente à Prefeitura, homens, mulheres e crianças cantavam e pediam para ser recebidos. Entre eles e o prefeito, um cordão de policiais armados. Entre os pobres e a educação, as armas. Entre o povo e o futuro, o descaso. Historicamente, sempre foi assim. A violência sempre chegou primeiro do que os direitos.

Mas o impasse estava posto. Os trabalhadores não sairiam dali enquanto não fossem recebidos pela Prefeitura. E a polícia não sairia da frente enquanto não recebesse a ordem. Provavelmente para evitar desgaste político, o prefeito resolveu atender uma comissão de sem terras. Por alguma razão que até hoje desconheço, eu acabei indo junto com o grupo de negociação. Naquela euforia toda, ainda pude ouvir um trabalhador dizer: “Ele é jornalista. Ele é jornalista. Bota ele na comissão também.”. Talvez fosse pela possibilidade de registrar tudo. Não sei.

Acompanhei toda a conversa entre o prefeito e os trabalhadores. Horas depois, ficou a promessa de atender a reivindicação do MST. Educação nos assentamentos. Simples assim. Mas a lição dessa história é outra. Não é sobre como podemos conseguir nossos direitos exercendo pressão sobre os governantes. Muito embora esta seja uma boa lição. A aula mesmo é sobre as coisas e o que fazemos com elas.

Dentro do prédio da Prefeitura, na ante-sala do gabinete do prefeito, eu aguardava a comissão ser recebida. Do lado de fora, com a rua fechada, o restante dos trabalhadores cantava hinos de luta. Como quem não quer nada, um policial se aproximou de mim e perguntou:
- Você está com eles?
- Só acompanhando a negociação. Sou jornalista.
- Hum... Queria ver uma coisa com você.
- Pois não.
- Veja, lá fora tem muita gente armada com facões e foices. E nós não queremos que nenhuma confusão aconteça. Não poderíamos ver a possibilidade desse pessoal aí entregar essas armas? Nós recolhemos e depois devolvemos. Só por segurança. – argumentou ele.
- Acho muito difícil, policial. Mesmo porque não há ameaça de nada lá fora.
- E aquelas armas?
- Que armas?
- Aqueles facões e foices.
- Não são armas, policial. São instrumentos de trabalho. Foram feitos para o serviço no campo. Não têm como finalidade ferir ninguém.
- Sim, eu sei. Também tenho meus instrumentos de trabalho. – disse ele, batendo de leve em sua pistola presa ao coldre.
- É diferente. Não é a mesma coisa. O seu instrumento de trabalho foi feito com o objetivo específico de matar. – respondi eu.

Mas o policial já estava se afastando com um riso no canto da boca.

domingo, 22 de maio de 2011

O Censo e a nova classe média

Por João Paulo da Silva

Foi só depois que o IBGE divulgou os resultados finais do novo Censo que eu consegui descobrir quem é a nova classe média da qual o governo tanto fala. Estou abismado. Como não pude vê-la?! Como não pude encontrá-la, esbarrar com ela por aí?! Dizer um “Olá! Olha, parabéns, viu?! Isso é que é ascensão social, hein!”. Estava tão próxima a mim, e eu não consegui distingui-la. Santa Desatenção! Ela estava praticamente embaixo do meu nariz. Aliás, para minha completa e absoluta surpresa, eu também faço parte dessa nova classe média! Meu Deus, preciso urgentemente visitar o oftalmologista e trocar esses óculos. Francamente. Vai vendo aí.

Pobreza? Que pobreza?

Nos últimos 10 anos, a pobreza caiu 50,64%. Isso porque, no Brasil, o pobre é o sujeito que possui uma renda mensal menor que R$ 151, segundo as pesquisas. Já na extrema pobreza encontra-se o sujeito que possui renda mensal de até R$ 70. Em geral é menos, não se chega nem a isso, mas até setenta você é extremamente pobre. Quer dizer, bastou ganhar R$ 1 a mais e já saiu da pobreza ou da extrema pobreza. Entretanto, eu entendo a intenção do governo e dos institutos de pesquisa ao apresentarem os cálculos com base nesse critério. É para levantar o moral dos brasileiros. Convenhamos, ser pobre é deprimente e não ajuda a viver bem. Por isso, o melhor é acreditar que fazemos parte de uma nova classe média. Ou, como diria Millôr Fernandes, “classe mérdia”.

Sendo assim, é só através do critério dessa nova classe média que é possível compreender um diálogo entre dois desempregados numa esquina qualquer do país.

- Rapaz, esse mês, se Deus quiser, eu entro pra essa tal de nova classe média.
- É mesmo?
- Com certeza. Andei fazendo minhas contas. Tudo indica que com mais alguns bicos que já acertei pra fazer essa semana vou apurar uns R$ 160 esse mês.
- Mas olha só! Que coisa boa, hein! Parabéns, meu amigo.
- Pois é, rapaz. Vai dar até pra pagar um Chicabom pra patroa lá em casa.

O mistério do banheiro em casa

No país do futuro, o banheiro ainda é um mistério para os brasileiros alojados em 3,5 milhões de casas. Isso significa que nem na Idade Média essas pessoas se encontram, uma vez que neste período da história havia ao menos um lugarzinho com buracos no chão para lá deixarmos as “necessidades”. Inclusive, penso eu, que essa parte da população sem banheiro também deve estar enquadrada na nova classe média. Bom, na mérdia eles já vivem e acho que até o penico é um mistério.

Fico imaginando os moradores destas mais de três milhões de residências (estou sendo generoso) passeando pelas orlas de algumas de nossas cidades. Quando menos se espera, pimba! Dão de cara com um desses banheiros químicos. Emocionados, entram e saem diversas vezes do pequeno recinto. Não acreditam nos próprios olhos. Nem mesmo o Sílvio Santos e sua Porta da Esperança seriam capazes de proporcionar aquele momento. Ainda que a necessidade fisiológica não venha, passam horas sentados no vaso. A Maria, esposa do Zé, até pergunta ao marido:

- Será que deixam a gente levar um desses pra casa, meu filho? A cor combina direitinho com os tamboretes da sala.

O Censo é ainda mais terrível quando revela que 55,5%, das pessoas vivem sem saneamento básico. Ou seja, quase metade da população nunca viu água tratada, coleta de lixo e rede de esgoto. Mas o governo também deve ter uma justificativa para isso. Afinal de contas, para quê serve saneamento básico quando não se tem nem mesmo banheiro?

Incentivando jantares à luz de vela

O Censo também revelou uma preocupação dos governos em fazer com que a nova classe média seja mais romântica. Não é à toa que mais de 700 mil famílias não possuem energia elétrica em casa. Isso só pode ter uma explicação. Tanto o FHC quanto o Lula, e agora a dona Dilma, incentivam os jantares à luz de velas. Compulsoriamente, é claro. Mas não se pode negar que os governos querem salvar casamentos, ver os casais mais felizes, impulsionar o romantismo e fazer do Brasil o país do amor.

- Querida, você não vai acreditar no que eu preparei pra você.
- O que foi, Josimar?
- Vem por aqui que eu te mostro. Cuidado aí que tá escuro. Tcharam! Olha só o que fiz pra você.
- O que é isso, Josimar?
- Ué, um jantar à luz de velas. Não tá vendo as velas?
- As velas eu tô vendo. Não tô vendo é o jantar!
- Bom, a gente não tem energia e o dinheiro só deu pra comprar as velas. Mas já é um começo, não acha?

Joãozinho, o pai de família

Depois de um dia inteiro de trabalho, guardando carros e limpando pára-brisas nos semáforos, Joãozinho, um guri de nove anos, chega em casa exausto.

- Mãe, cheguei! Cadê o rango?
- Oi meu filho. Já tá saindo. Como foi no serviço?
- Foi duro, mãe. A vida tá ficando cada vez mais difícil. Hoje o dia foi brabo. Peguei um monte de cliente unha de fome. Quase não apurei o suficiente para o almoço. Coisa séria essa inflação, hein! Se continuar assim, o que eu ganho não vai dar nem pro café. Imagine pagar luz, água, aluguel e alimentação.
- Mas meu filho, eu também posso arrumar um emprego...
- Nem pensar! A obrigação de sustentar a casa é minha. O pai de família aqui sou eu.

Da mesma forma que o Joãozinho, mais de 130 mil crianças brasileiras são responsáveis por chefiar famílias. Elas, provavelmente, também fazem parte da nova classe média do governo. Como se pode ver, a ascensão social no Brasil é realmente coisa de país do futuro. Futuro sombrio, verdade seja dita. Nos últimos vinte anos, a classe que reúne pobres e miseráveis não deixou de existir. Apenas mudou de nome.

domingo, 1 de maio de 2011

O ladrão intelectual

Por João Paulo da Silva

Quando um amigo me contou, eu não acreditei.
- Fala sério! Cê tá de brincadeira, né?!

Não. Não estava. Existia realmente um ladrão diferente a solta pelas ruas de Maceió. Já havia assaltado cerca de trinta pessoas em menos de um mês. Mais impressionante do que isso, só o fato de que o sujeito não roubava dinheiro, relógios ou celulares. Roubava livros! Isso mesmo. Livros!

Quando eu era mais novo, minha mãe costumava dizer (e ainda diz!) que meu futuro estava nos livros. Dizia que eu tinha de comer os livros pra virar gente de verdade. “Um homem só cresce na vida através dos livros!” – declarava. Era um claro exagero, não tenho dúvidas. E um pouco de ingenuidade também. Mas não pude deixar de lembrar dos conselhos de minha mãe ao saber da existência de um ladrão intelectual. “Ai, meus clássicos! Ai, meus clássicos!”. – pensei.

Também não tive como não lembrar dos cuidados que minha sábia mãezinha exigia de mim.
- Menino, cuidado com os assaltos! Se o ladrão pedir, entregue tudo!
- Tá, mãe. Tá. Mas eu só tenho livros na bolsa. A senhora já viu algum ladrão roubar livros?

O fato é que o caso havia me intrigado. Procurei pensar no lado positivo da coisa. Se a moda pegasse, o Brasil poderia até deixar de ser um país de analfabetos. Resolvi, então, conversar com algumas pessoas que tinham sido atacadas pelo tal ladrão intelectual. Queria saber como o sujeito agia. Estava na hora de exercitar meu jornalismo investigativo.

Como a maioria dos gatunos, ele também tinha hábitos noturnos e um local preferido para atacar. Todos os assaltos ocorreram dentro da universidade por volta das 20 horas. Uma das vítimas, uma estudante de pedagogia, afirmou que não se tratava de um ladrão como outro qualquer.
- Ele não roubou meu dinheiro. Roubou meus livros! Levou o meu Pedagogia do Oprimido!
- Certo. Isso eu já sei. Além de roubar livros, você percebeu mais alguma coisa de incomum? – perguntei.
- Ele usava uma máscara.
- Mas isso não tem nada de incomum. Muitos ladrões usam máscaras. – retruquei.
- Com o rosto do Paulo Freire?
De fato era um caso estranho.

Seu método se diferenciava pouco dos outros. Se houvesse resistência ao roubo dos livros, ele ameaçava as vítimas com um canivete. Tudo bem que era um canivete suíço, mas ainda assim era um canivete. Demonstrava total frieza e indiferença na hora da ação. Mas não aparentava seguir um padrão único. Às vezes agia com muita cordialidade. Nem parecia que era um assalto. Foi assim com um estudante de letras num ponto de ônibus escuro e vazio.
- Boa noite. – disse o sujeito com uma máscara do Jorge Amado.
- Ai, meu Deus! – assustou-se a vítima – Mas o que é isso? Tem alguma festa à fantasia hoje?
- Não é nada. Só uma comemoração boba. – disfarçou – Escuta, posso dar uma olhada nesses livros?
- Claro. Fique à vontade.
- Hum...
- Que foi?
- Tolstoi, Joyce, Machado de Assis. Muito bom. Boas leituras. Vou levá-los.
- Ahn? Como assim “vou levá-los”?
- Ah, desculpe. Esqueci de avisar. Isso é um assalto.

Mas o larápio de livros também já demonstrou alguns lapsos de descontrole emocional. A vigésima vítima, um estudante de filosofia, me deu um relato interessantíssimo. O rapaz contou como se dera o ocorrido.
- Boa noite. – disse uma voz calma e educada no meio da penumbra.
- Quem está aí?
- “O homem é condenado a ser livre”. – afirmou a voz.
- Sócrates?
- Não, seu burro! – disse a voz alterada – É Sartre!

O rapaz sentiu uma forte dor na cabeça e caiu desacordado. Quando recobrou a consciência, seus livros tinham sumido. Tudo indica que tenha sido uma paulada. Parece que o gatuno não suporta burrice. Um pouco intolerante, eu acho. Mas também com uma jeguice dessas, quem não seria?!

A situação começou a se agravar ainda mais. O ladrão intelectual já havia surrupiado Sartre, Piaget, Freud, Poe, Marx e muitos outros. A comunidade acadêmica estava apavorada e ninguém sabia exatamente o que fazer.

Foi aí que, recentemente, as idas e vindas da história apontaram um possível caminho. Foi com uma menina do curso de administração. Ela saía da aula quando viu se aproximar o Graciliano Ramos.
- Muito bem. Sem muitas delongas. Isso é um assalto!
A moça começou a abrir a carteira.
- Não. Não é isso que eu quero. Quero os livros.
- O quê?
- É o que você ouviu. Passa os livros.

A menina entregou-os sem se queixar. Momentos depois, o ladrão explodiu:
- Mas o que é isso?! Você tá de sacanagem, né?! Que palhaçada é essa?!
- Ora! Eu gosto, ué?!

Os livros eram Brida e Diário de um Mago.
- Como assim? Você gosta de Paulo Coelho?! Você tá lendo Paulo Coelho?!
- Tô. Qualé o problema?
- Você não tem vergonha na cara não, menina! Ai, meu Deus do céu! Sidney Sheldon eu até aceito. Mas Paulo Coelho já é apelação! Aí já é demais!

Largou os livros da moça no chão e fugiu indignado.
Foi como um antídoto. Todo mundo começou a andar com livros do Paulo Coelho embaixo do braço. Parece que deu certo. Até o momento não houve mais registros de incidentes com o gatuno intelectual. Finalmente encontraram uma solução para o problema dos roubos. E uma finalidade para o Paulo Coelho. Mas já tem gente preocupada, achando que só o Paulo Coelho talvez não resolva. Tão querendo andar com livros da Zíbia Gaspareto. Não sei, não. Aí eu já acho sacanagem. Com o ladrão, claro.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Me contaram

Por João Paulo da Silva

“Não sei se é verdade, mas me contaram uma...”. Normalmente, é assim que começam os relatos duvidosos. O fofoqueiro – espécie de jornalista sem critérios de apuração nem código de ética – é o responsável por essas narrativas audaciosas. Para ele, uma boa história não precisa ser necessariamente verdadeira. Precisa ser apenas atraente e, de preferência, escandalosa.

Eu tenho pena do jornalista, esse fofoqueiro com código de ética e critérios de apuração. Quantos jornalistas já deixaram de contar boas histórias só porque elas não eram totalmente verdadeiras? O fofoqueiro é que é feliz. Pode aumentar uma coisinha aqui, inventar outra acolá. Melhor: se quiser, pode até inventar tudo e ficar com a consciência tranquila. Ninguém vai punir o fofoqueiro. Mesmo porque, depois de feita a fofoca, é muito difícil provar que fulano de tal é responsável pela história. O fofoqueiro sempre nega.

Não sei se é verdade, mas outro dia também me contaram uma. No início dos anos 90, durante uma viagem aos EUA, um embaraçoso acontecimento envolveu o então presidente da República, Fernando Collor de Mello, e a primeira-dama, dona Rosane. Dizem as más línguas que ela nunca foi uma pessoa, digamos, “esperta” demais. É como falam por aí: o cérebro é uma coisa maravilhosa. Todos deveriam ter um. Ao que tudo indica, dona Rosane Collor não tinha. Ou, na melhor das hipóteses, se esqueceu de levar no dia da viagem.

Assim que o presidente e a primeira-dama desembarcaram no aeroporto, foram recebidos com todas as honras a que tinham direito. Inclusive, na ocasião, havia uma enorme faixa na entrada do saguão com os seguintes dizeres: Welcome, Collor! Dona Rosane, um poço de sagacidade, olhou com atenção a frase e rapidamente se deu conta do que estava escrito. Com cara de mulher que exige explicações do marido, a primeira-dama lascou pra cima do presidente:
- Mas que história é essa, Fernando?! Quem é esse tal de Wel?!

Bom, foi o que me contaram.

domingo, 30 de janeiro de 2011

“Pai, afasta de mim esse cálice!”

Por João Paulo da Silva

O refrão da música de Chico Buarque ficou imortalizado como uma das marcas da luta contra a ditadura. A ambiguidade da expressão “cálice” era a representação criativa do anseio de afastar o silêncio que atordoava muita gente. Passados os anos de chumbo, o silêncio ainda permanece. Frequentemente, somos obrigados a nos calar, ou, para usar um eufemismo, não nos é permitido responder. O que na prática é mesma coisa.

A televisão é uma das muitas maneiras de impor o silêncio. Em 1996, o sociólogo francês Pierre Bourdieu, em entrevista ao Jornal do Brasil, afirmou: “A televisão é uma lavagem cerebral, uma despolitização trágica, um instrumento antidemocrático.”. Dando o exemplo da TV norte-americana, Bourdieu caracterizou o ato de ver televisão como uma “experiência terrível”. Para o pensador francês, a caixa mágica resume-se a uma avalanche de propaganda, propaganda e mais propaganda. Numa clara demonstração dos interesses mercadológicos por trás da telinha. De fato, Bourdieu tem razão. Se levarmos em conta – e acho que devemos – algumas reflexões feitas por Muniz Sodré em seu livro O monopólio da fala, chegaremos a uma conclusão perigosa sobre a função da TV.

Trilhando, de certa maneira, o mesmo caminho que Bourdieu, Sodré diz ser a televisão uma “violência” ao processo comunicativo. Comunicação é, primeiramente, diálogo. Deve haver reciprocidade entre falante e ouvinte. A televisão não permite a troca plena da comunicação, não há possibilidade de resposta para o interlocutor. É nisto que consiste o monopólio do discurso, na eliminação da possibilidade de resposta, na hegemonia do falante sobre o ouvinte.

Penso que Bourdieu e Sodré estão certos. A TV “castra” o interlocutor. Antes que os cínicos façam gracinhas, devo advertir que resmungar discordâncias, sentado na poltrona de casa, não vale como resposta. Quem vê TV, não faz TV. O conteúdo veiculado impede a compreensão do mundo como ele de fato é, criando falsas ideologias. A televisão, sob a perspectiva de uma sociedade cindida em classes e voltada aos interesses do mercado, torna-se um poderoso instrumento de homogeneização do grotesco e do vazio. A TV apresenta um mundo diferente do real com a desculpa de que as pessoas estão cansadas de realidade. Faltou dizer que, entre produzir obras de ficção e mascarar a verdade, existe um abismo imenso.

Não estamos mais nos anos de chumbo, é verdade. Mas a enorme ambição de afastar o “cálice” ainda persiste.

domingo, 12 de setembro de 2010

O Brasil que eu não conheço

Por João Paulo da Silva

Estas eleições estão particularmente muito chatas. “Nunca antes na história desse país” a cara de um foi tão semelhante ao focinho do outro. Mesmo com nove candidatos disputando a Presidência da República, embora a grande imprensa não mostre todos, os que estão liderando as pesquisas não passam de trigêmeos da mesma política dos últimos vinte anos. Enquanto isso, os demais candidatos, principalmente os da esquerda, precisam se virar nos cinqüenta segundos que dispõem na TV para fazer a diferença. Isso porque entre o PT de Lula e Dilma e o PSDB de FHC e Serra, não há distinções quanto ao programa de governo. Eles mesmos admitem o fato ao defenderem um modelo econômico idêntico.

Pior do que isso talvez só Marina Silva, que sem constrangimento algum reivindica Lula e FHC ao mesmo tempo. Dessa forma, fica difícil acreditar em disputa. Em democracia, então, nem se fala. De todo modo, estou convencido de que o correto deveria ter sido a união de Dilma, Serra e Marina em torno de uma única candidatura. É claro que ainda assim não haveria qualquer mudança para o Brasil, até porque o projeto defendido pelos três já foi aplicado antes e não mudou o país. Mas pelo menos seria mais honesto politicamente.

Além das semelhanças siamesas entre Dilma e Serra, outro aspecto dessa campanha vem despertando minha inquietação. Os programas de TV do horário eleitoral estão apresentando um Brasil que eu não conheço. São hospitais, escolas, universidades, estradas, postos de saúde, remédios para todos, geração de empregos, distribuição de renda, salário digno, construção de moradias etc, etc, etc. Tudo funcionando na mais tranqüila e absoluta perfeição. Como assim?! Transformaram o Brasil num país escandinavo e ninguém me disse nada?! Quer dizer que o Haiti não é mais aqui? Agora é a Noruega que é aqui?! Onde estão as favelas e os 52 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza? E as 40 mil crianças que morrem de fome todos os anos? E os mais de 8 milhões de desempregados? Para onde foi todo mundo? Para onde foram os mais de 14 milhões de analfabetos? E os baixos salários? O que fizeram com as filas e as macas nos corredores dos hospitais? E a falta de merenda nas escolas? Onde cargas d’água enfiaram a metade da população brasileira que vive sem tratamento de esgoto? Não há mais pobres nesse lugar? Nem miseráveis? Que país é esse?!

Instigado pelo instinto da investigação jornalística, decidi ir às ruas para ver de perto se o Brasil havia mesmo se transformado na Noruega. Mas nem foi preciso ir muito longe. Bastou dar uma volta no bairro e alguns telefonemas para retornar ao subdesenvolvimento e à tragédia social. Nas proximidades de onde moro, a realidade não havia mudado. As escolas caindo aos pedaços, os postos de saúde sem médicos, o esgoto a céu aberto. Estava tudo lá, do jeito que os brasileiros conhecem. Até o Google Earth eu usei para confirmar se as favelas ainda estavam no mesmo lugar. É claro que estavam. Só senti falta mesmo das condições dignas de vida, que continuam tão distantes quanto a Noruega. Pelo telefone, fontes seguras me informaram que a situação permanecia a mesma em todas as regiões do país. Mamãe, por exemplo, que mora em Maceió, me ligou pedindo dinheiro, já que o salário sempre acaba antes do fim do mês.

O Brasil mostrado nos programas de TV de Dilma e Serra não existe. Aquilo só pode ser Hollywood. Eu não ficaria surpreso se depois das eleições descobrissem que todas as cenas foram gravadas em estúdios da Warner Brothers e que os marqueteiros do PT e do PSDB foram assessorados pelo James Cameron. Efeitos especiais não faltam.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Democracia? Onde?! Onde?!

Por João Paulo da Silva

“A liberdade de eleição permite que você
escolha o molho com o qual será devorado.”
(Eduardo Galeano)

Como é estranha e complexa esta coisa que os homens do poder chamam de democracia. Dizem que em nossa sociedade, a cada dois anos, somos chamados a exercitar o tão proclamado e inalienável direito de votar. Tão inalienável que mesmo aquele que não deseja votar é obrigado a fazê-lo. Essa obrigação, que de tempos em tempos os donos da bola decidem proibir, faz parte do jogo da democracia, já que é através dela que elegemos nossos representantes. Ou não. Bom, pelo menos é o que dizem.

Na democracia, dizem também que qualquer um pode ser candidato e que os eleitores têm o direito de conhecer as ideias e as propostas de todos aqueles que se candidatam. Agora, claro, que se um determinado candidato tem dez minutos de propaganda na TV, durante o horário eleitoral gratuito, e os outros têm apenas um minuto ou menos para apresentarem suas opiniões, isso já não é problema da democracia. Tem a ver com o posicionamento dos astros, as fases da lua e o ciclo de menstruação dos galináceos. Mas não com os direitos democráticos ou coisa parecida. O mesmo vale para as regras dos debates.

A legislação eleitoral, que também faz parte da democracia, obriga as emissoras a convocarem para os debates todos os candidatos dos partidos que possuem representação na Câmara Federal, mas não obriga a convocação dos que não possuem nenhum representante. De modo que convocar os párias das eleições fica a critério de cada emissora. TVs e rádios recebem concessões públicas para funcionar, mas decidem sozinhas quem participa ou não dos debates. É claro que se essa decisão diminui as chances dos partidos que não possuem representação alcançarem uma cadeira na Câmara Federal, isso também não é problema da democracia.

Desde o período da redemocratização, nunca tivemos tantos candidatos à Presidência da República como temos nestas eleições. Ao todo, são nove os que disputam o comando do país. Entretanto, você não conhecerá o que pensam e o que propõem cada um deles. Não porque três meses sejam insuficientes para isso. Mas porque já escolheram os candidatos em que você pode votar. São os que estão liderando as pesquisas, os que vão aos debates e os que possuem mais tempo na propaganda eleitoral gratuita. E, curiosamente, são exatamente estes que recebem as pomposas “doações” dos donos do jogo democrático.

Esta coisa que os homens do poder chamam de democracia é tão estranha e complexa que não consegue nem mesmo garantir o que se propõe a garantir. Em todas as épocas da história da humanidade, quando algo não funcionava mais como deveria funcionar, precisou ser substituído. Em nosso caso, o que necessita ser trocado já está fedendo. Seja porque é sujo ou porque é podre demais.

domingo, 18 de abril de 2010

O preço do abandono

Por João Paulo da Silva

Centenas de mortos, milhares de desabrigados, não sei quantos desaparecidos ou soterrados. Você e eu já vimos esse filme. Ele se repete todos os anos, numa espécie de déjà vu do caos anunciado. Irresponsavelmente, as autoridades continuam com a mesma política de sempre: só aparecem para recolher os corpos e jogar os sobreviventes em ginásios de esporte. Neste país, entretanto, a catástrofe humana que é morar em áreas de risco ou não ter onde morar não é um problema novo. É mais antigo do que a posição de... Bom, vocês sabem.

Não pretendo usar aqui os números reais das recentes tragédias do Rio de Janeiro e de outros estados brasileiros. Por uma razão muito simples. Mesmo se “apenas” uma única família tivesse morrido nos deslizamentos, nós já teríamos uma perda irreparável e injustificável, além de motivos suficientes para uma revolta armada. O número assustador de vítimas revela, tão somente, o quão pesado é o preço do abandono. Contudo, a conta do descaso nunca é paga por quem abandona, mas por quem é abandonado. E como mostrou emblematicamente o Rio, paga-se da pior forma possível.


Agora, como mais um requinte de sadismo, as autoridades responsáveis pelas tragédias – me refiro aos três patetas: Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes – resolveram culpar os que moram nos morros pelas desgraças. Quer dizer, as pessoas que vivem em encostas, favelas e áreas de risco em geral fazem isso por vontade própria.


- Por que o senhor decidiu construir o seu barraco aqui nesse morro?

- Porque eu quis, ora. O governo até me ofereceu uma casa em um condomínio de luxo, mas eu recusei. Bom mesmo é morar em casa de lona, no meio das encostas.

- Mas o senhor não sabe que tudo pode desabar a qualquer momento?! Ainda mais com essas chuvas.

- Sei sim. Claro que sei.

- E então, meu senhor?! Por que você não sai daqui?

- Porque eu gosto de viver perigosamente, entende? Aqui a adrenalina é constante, praticamente um esporte radical. Sempre que chove, vem aquela tensão, sabe? Muito maneiro, cara! É uma sensação incrível saber que sua casa pode desabar enquanto você e sua família dormem.

- Mas isso é uma loucura!

- Loucura? Você não viu nada, cumpade! Bom é quando começa a chover e a entrar água e lama dentro de casa. A gente, que já não tinha nada, perde tudo. E a correria? Radical! Todo mundo tem que sair correndo de dentro de suas casas. Aí já viu, né? Os mais lentos... babau. A gente vive assim, em encostas e morros, porque a gente gosta. O nosso negócio é o perigo, é o desafio. Sabe como é, né? Brasileiro não desiste nunca.


Agora, responda você aí, que está lendo esse texto. O que impede o governo de retirar a população pobre das casas localizadas em áreas de risco? Falta de dinheiro? Parece que não. Pelo menos não faltou dinheiro quando Lula entregou R$ 370 bilhões a empresários e banqueiros durante a crise econômica.


Recentemente, Dilma Rousseff afirmou que, em uma década, seria possível acabar com a pobreza e o déficit habitacional do país. O PT de Lula e Dilma e o PSDB de FHC e Serra passaram quase duas décadas no comando do Brasil. E não resolveram. Sobre Marina e Ciro Gomes eu nem falo, que é pra não ter dor de cabeça.


Karl Marx costumava dizer que a História se repete. A primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Mais um ponto para o alemão.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Aquele estranho bilhão que nunca chega

Por João Paulo da Silva

Em março, a revista americana Forbes divulgou a sua tradicional lista anual de bilionários, aquela minoria absurda da qual você e eu nunca faremos parte. O Brasil, graças ao empenho e à política econômica do presidente Lula, possui o maior número de ricaços da América Latina. São 18 brasileiros com fortunas acima de US$ 1 bilhão, reinando absolutos sobre quase 190 milhões de homens e mulheres comuns, cheios de dívidas e contas atrasadas.

Segundo a revista, o brasileiro mais rico é o empresário Eike Batista, que acumula uma bobagem monetária de US$ 27 bilhões. E o mais absurdo: em apenas um ano, o patrimônio de Batista aumentou US$ 19,5 bilhões. Nem nos melhores sonhos os trabalhadores brasileiros imaginaram seus salários subindo nessa proporção. O povo deve agradecer a Lula pelos R$ 510 do salário mínimo e pelos R$ 120 do Bolsa Família. Enquanto isso, Batista também agradece ao presidente, só que pelos bilhões. Nunca antes na história desse país a distribuição de renda foi tão bem feita.

A lista da Forbes aponta, ainda, o mexicano Carlos Slim, do ramo das telecomunicações, como o homem mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 53,5 bilhões. Agora, o detalhe mais importante dessa festa toda. Dos quase sete bilhões de habitantes do planeta, apenas 1.011 concentram uma riqueza bilionária. Destes, somente os dez mais ricos possuem juntos a bagatela de US$ 342 bilhões. Quer dizer, ou aquela história de que o capitalismo dá oportunidades iguais a todos é conversa pra boi dormir ou o mundo está repleto de incompetentes que não sabem aproveitar as chances da vida. Fico com a primeira opção. De uma forma ou de outra, você e eu continuamos contemplando aquele estranho bilhão que nunca chega.

Obviamente que estas cifras estratosféricas não surgiram do nada. Alguém precisou gerar toda essa riqueza. E, claro, quem a gerou sequer foi convidado a tirar uma lasquinha, visto que nunca tivemos tantos famintos, desempregados e mal pagos como hoje. Se você ainda não sacou quem criou toda essa riqueza da qual estou falando, vou dar uma dica: vivem de salários e são a maioria da população.

Quando eu era mais jovem, me disseram que enriquecer licitamente sob o capitalismo era impossível. Agora entendo o porquê.

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Obs.: Em decorrência do excesso de ovos de Páscoa, este cronista só pode postar sua crônica hoje, e não no domingo como de costume.

domingo, 28 de março de 2010

Mata de orgulho

Por João Paulo da Silva

Há algum tempo o Brasil é motivo de orgulho. Para os ricos, é claro. A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, por exemplo, a serem realizados em terras tupiniquins vão encher de ilusões os olhos do povo, e de “money” os bolsos dos magnatas. A entrega, feita por Lula, de R$ 300 bilhões dos cofres públicos para salvar empresários e banqueiros da crise econômica também foi motivo para morrer de orgulho. Só quem perdeu o emprego e continua na rua da amargura sabe do que estou falando. Entretanto, o país já tem outra grande razão para se orgulhar. O nobre deputado federal Paulo Maluf entrou para uma importante lista internacional: a de procurados pela Interpol.

Maluf foi incluído na lista a pedido da Promotoria de Nova York. Há três anos, a Justiça americana determinou a prisão do nosso medalha de ouro em corrupção pelos crimes de conspiração, auxílio na remessa de dinheiro ilegal e roubo de dinheiro público em São Paulo. O malandro é acusado de desviar recursos de obras e remetê-los para Nova York. Depois, para a Suíça, Inglaterra e Ilha de Jersey, outro paraíso fiscal. Uma parte do dinheiro roubado pelo recordista olímpico Maluf ainda foi investida na Eucatex, uma empresa do ex-prefeito de São Paulo. Ah, já ia esquecendo. O filho do deputado, Flávio Maluf, também é acusado pelos mesmos crimes. Estima-se que o roubo chegue a mais de US$ 11 milhões. Me mata de orgulho esse rapaz. E de fome e na porta dos hospitais o restante do Brasil.

Foi pensando nessa nova razão para nos orgulharmos que eu resolvi propor uma homenagem ao Maluf. Afinal, um homem que já nos deu tantas alegrias merece um pouco de reconhecimento na vida. Minha proposta é a seguinte: quando o Maluf morrer – que isso não demore, pelo amor de Deus – penso que ele não deve ser cremado ou sepultado. Defendo que o Maluf seja empalhado e exposto no MASP (Museu de Arte de São Paulo), numa sessão especial que receberá o título de “Grandes Mestres da Corrupção Mundial". Acho, inclusive, que esta obra-prima da bandidagem deve viajar em exposição pelos principais museus da Europa e da América do Norte. Convenhamos, meter a mão no dinheiro público é uma arte que exige muito talento, possível apenas em democracias como a nossa.

Mas isso não é tudo. Também vou defender que o Maluf se torne patrimônio da cultura nacional. E que a biografia do notório ladrão seja disciplina obrigatória em todas as escolas do país, com o objetivo de que as futuras gerações saibam exatamente que tipo de exemplo não seguir. Outra importante proposta é instituir o Dia do Tomate no Maluf. A ideia é criar um feriado nacional, no qual todos os brasileiros teriam a oportunidade de acertar um tomate na cara do Maluf. Bom, ideias não me faltam. Até ele morrer, eu já terei acumulado uma Bíblia de propostas.

Ah, uma última coisa. Agora que é sócio de uma das mais importantes listas de procurados do mundo, Paulo Maluf pode ser preso a qualquer momento, basta entrar em um dos 181 países que são membros da Interpol. Tá aí. Essa eu pago pra ver.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Adeus ao Ponto G

Por João Paulo da Silva

2010 começou com uma novidade “sexualmente avassaladora”, capaz de mudar nosso ângulo de visão sobre o sexo ou de, pelo menos, tirar um peso das costas de homens e mulheres. Pesquisadores da King's College London, na Inglaterra, após acompanharem a vida sexual de 1.800 britânicas, concluíram que o tão famoso Ponto G não existe. Segundo os cientistas, não há evidências biológicas de que a zona erógena exista e tudo, na verdade, não passa de uma invenção cultural. Fisiologicamente, não há como provar a área.

Estranho isso, sabe. Eu até cheguei a ler artigos que informavam a localização do Ponto G (pequena área atrás do osso púbico, perto do canal da uretra), embora nunca tenha conhecido ninguém que tivesse encontrado o lugarzinho. Agora, a revelação sobre o desejado ponto muda tudo. Sim, porque desde 1950, quando o ginecologista alemão Ernst Gräfenberg (por isso o G) apresentou a hipótese da existência da tal zona, que as pessoas realmente buscam o Ponto G. Quer dizer, mais de meio século de uma expedição sexual improdutiva.

Em minha opinião, isso merece uma indenização. Pensem nas décadas que bilhões de homens e, principalmente, mulheres perderam em busca daquilo que seria – literalmente – uma “fantasia sexual”. Pensem em todo o tempo perdido que poderia ter sido usado na procura de outras zonas erógenas, de preferência que existissem. Quantos relacionamentos não acabaram justamente por que inúmeros parceiros não conseguiram encontrar o Ponto G de suas parceiras? Quantas mulheres não se sentiram frustradas e infelizes por acharem que, diferente de algumas “abençoadas”, jamais localizariam o desgraçado do ponto? Entendem? A questão é séria, pô.

Tudo bem que talvez agora a vida sexual de muitas pessoas se tranquilize e a pressão diminua um pouco, visto que não há mais a obrigação de encontrar uma zona inexistente. Entretanto, isso não tira a responsabilidade de seja lá quem for o responsável por esse tempo todo de enganação. Alguém precisa pagar por isso. E, obviamente, em dinheiro, que é pra pagar os anos de terapia. Pode até ser o governo, através de um programa social de ressarcimento pelo prazer perdido ou alguma coisa do tipo. Não sei.

Enfim, independente das polêmicas, a conclusão da inexistência do Ponto G talvez nos leve, finalmente, até a compreensão de que o corpo inteiro é uma imensa zona erógena e que, para ter prazer, basta apenas ter a manha de fazer a coisa. Eu até poderia ensinar algumas dicas e toques, mas isso já é assunto para outra crônica.

sábado, 2 de janeiro de 2010

E agora?

Por João Paulo da Silva

Não sei o que faz as pessoas acharem que 2010 vai ser melhor do que 2009. É impressionante como uma certa magia toma conta da gente na hora da passagem do ano, fazendo todo mundo acreditar que da noite pro dia – literalmente – as coisas vão mudar. Não estou dizendo que não acredito em mudanças. Ao contrário. Penso, sim, que é possível mudar o mundo. O problema é que, nas mãos em que ele está hoje, as mudanças não virão. Pelo menos não as boas.

Não sei quem é o autor, mas tem uma frase que diz: “um pessimista é só um otimista bem informado”. É duro, porém tenho de concordar. Vejamos um dos assuntos mais comentados dos nossos dias: o aquecimento global e as alterações climáticas, por exemplo. Mesmo aqueles extremistas da esperança sabem que a situação é mais feia do que briga de foice. As consequências do aquecimento já podem ser sentidas por qualquer um, e não estou falando apenas do calor que aumentou. Eventos catastróficos estão se tornando recorrentes demais. Daqui a pouco, estaremos falando de tsunamis como quem fala da chuvinha das cinco. Assim, com naturalidade. Até que venha uma onda gigante e leve a casa da gente, claro.

Com o fracasso da Conferência de Copenhague (para alguns, já esperado), veio também o desespero certo de que, caso não mudemos radicalmente nossa relação com a natureza, estaremos empurrando o planeta cada vez mais para as cucuias. E, obviamente, a gente vai junto. Especialistas afirmam que o atraso nas decisões sobre as mudanças climáticas pode levar a humanidade para uma situação do tipo “agora é tarde demais”.

É possível que até o fim do século a temperatura da Terra suba uns 4 graus Celsius, trazendo consequências dramáticas, como a savanização da Amazônia e o aumento do poder destrutivo de tempestades, furacões e tornados. Além disso, o rápido degelo da Groelândia e da Antártica Ocidental pode elevar o nível do mar em 8 metros. Ainda não entendeu o que isso significa? Por exemplo: se o mar subir um metro, desaparecem Jacarepaguá e a Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Sentiu o drama? Pois é. E, mesmo assim, as grandes potências industriais não abrem mão do CO2 na atmosfera.

É claro que os responsáveis pelo problema querem dividir a culpa do aquecimento global entre todos os habitantes do planeta, numa tentativa de relativizar a pena pelo próprio delito. Cansei de ler matérias afirmando que cada um de nós libera no ar, por ano, uma média de 4,3 toneladas de gás carbônico. Isso sem fazer nada demais, só comendo e dormindo. Agora querem que a gente acredite que todo ser humano tem sua parcela de culpa na catástrofe iminente. Sacanagem, hein! Até já ouvi uma história sobre os efeitos da flatulência na atmosfera. Parece que a cada 100 puns que soltamos no planeta a temperatura dá uma esquentadinha, piorando o tal do aquecimento. Quer dizer, agora nem peidar a gente pode mais.

Bom, de qualquer forma, pensando na possibilidade de que nós não vamos conseguir salvar o mundo, eu fiz um pedido especial ao Papai Noel nesse Natal. Se o planeta for mesmo engolido por grandes tsunamis, então que a primeira onda de 1,5 km atinja em cheio a Casa Branca. Pô, nada mais justo, não é não?!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

2000inove: retrospectiva do ano que não inovou

Por João Paulo da Silva

Esse foi um ano daqueles. Daqueles de dar dor de cabeça, daqueles de dar desgosto e raiva de saber que o próximo pode ser muito pior. A julgar pelos fatos de 2009, não há nada que aponte – pelo menos até agora – para qualquer melhora, mínima que seja. Até o salário mínimo, que vai para R$ 510 agora em janeiro, vai continuar mínimo. Caso você não lembre o que aconteceu de mais importante em 2009, não precisa ficar preocupado. Fiz um resumo, mês a mês, dos principais acontecimentos do ano. Recordar é viver. Haja paciência!

Janeiro – Barack Obama toma posse como o primeiro presidente negro da história dos EUA. E é, também, o primeiro negro a ficar branco politicamente em tão pouco tempo. O negão já tá a cara do Bush. Entra em vigor o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa, uma espécie de reforma neoliberal da gramática. Passaram a tesoura no trema e em outros acentos. Agora ideia não tem mais o agudo. Péssima ideia por sinal. Nos estados do RS, MG, ES, RJ e SP as chuvas deixam milhares desabrigados e causam dezenas de mortes.

Fevereiro – O PMDB passa a controlar o Congresso, elegendo José Sarney para presidir o Senado e Michel Temer a Câmara dos Deputados. Era o prenúncio do caos. A produção industrial cai 12,4% em relação a novembro de 2008 e 14,5% em relação a dezembro de 2008, as maiores quedas desde 1991. O caos bate à porta e o índice de aprovação de Lula bate recorde de 84%. A Embraer decide demitir cerca de 20% do seu efetivo de 21.362 empregados. O caos se instala no sofá. Vítima de enfarte, morre na Bahia o ex-deputado Sérgio Naya. Enfim, uma boa notícia.

Março – O anúncio da queda de 3,6% no PIB brasileiro do último trimestre de 2008 mostra a “marolinha” de Lula. A crise existe e é grande. O caos abre a geladeira do povo. Governo prorroga por mais três meses a redução de IPI para carros e José Sarney começa a dar explicações sobre Agaciel Maia e os Atos Secretos. Após o aborto da menina de nove anos que engravidou do padrasto e corria risco de morte, o Arcebispo nanico de Olinda e Recife excomunga os médicos e a mãe da garota. Dieese anuncia que a crise financeira internacional eliminou aproximadamente 750 mil empregos formais no País entre novembro e fevereiro. O caos até já deita na cama com os trabalhadores brasileiros.

Abril – Confirmada a primeira morte por Gripe Suína no México. No Brasil, enquanto os casos da gripe A se confirmam e crescem, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirma: "Fiquem tranquilos. A situação está sob controle.". Aí é que bate o desespero. Na reunião do G-20, Obama diz que Lula é “o cara”. E a gente fica de cara. A Argentina perde por 6 a 1 para a Bolívia, em La Paz, pelas Eliminatórias da Copa. Em meio ao caos, um fugaz momento de felicidade para os brasileiros. Que pena, hermanos.

Maio – Perdigão e Sadia anunciam fusão e criam a Brasil Foods. O Teatro do Oprimido perde seu criador. Morre de leucemia Augusto Boal, aos 78 anos. Flamengo contrata Adriano, o Imperador. É a retomada do caminho ao título. STF livra Genoino, Delúbio e Marcos Valério de acusação de gestão fraudulenta. IBGE informa que o índice de desemprego apurado nas seis principais regiões metropolitanas do País chegou a 8,9%, no maior nível registrado para o mês desde abril de 2007. Nesse momento, o caos já Foods a gente.

Junho – Morre Michael Jackson, o Rei do Pop, vítima de uma parada cardíaca. É a prova de que ele era humano. A descoberta de 300 atos secretos coloca Sarney contra a parede, mas ninguém atira. Não para acertar, claro. Sarney diz que a crise não é dele, é do Senado e cria uma comissão para investigar os atos secretos (vê se pode?!). STF detona diploma para jornalistas (Morte ao Gilmar Mendes!). Presidente de Honduras é deposto por golpe de Estado. GM pede concordata e governo dos EUA segura 60% da empresa. Capitalismo balança, mas não cai. E o caos vendo TV na sala.

Julho – Romário abre o jogo e diz que não matou Michael Jackson nem trouxe a gripe suína para o Brasil. Só está falido e com problemas na Justiça. Parentes fazem funeral de Michael Jackson virar show, reunindo 20 mil pessoas. Todo mundo cantando ao redor do caixão. Saravá!

Agosto – O jamaicano Usain Bolt prova mais uma vez que não é deste planeta. No Mundial de Berlim, ele correu 100 metros em 9s58, quebrando o próprio recorde de 9s69, feito nas Olimpíadas de Pequim. O bispo Edir Macedo e mais nove pessoas, ligadas à Igreja Universal do Reino de Deus, se tornam réus em processo por lavagem de dinheiro, que já subiu aos céus. Lula lança marco regulatório do pré-sal e entrega petróleo brasileiro a multinacionais. Todas as denúncias e representações contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AC), são arquivadas no Conselho de Ética. O caos mexe na dispensa, já se sente de casa.

Setembro – 70 dias depois de sua morte, Michael Jackson é sepultado (Porra! Finalmente, né?!). Mesmo sem nunca ter publicado um livro, o ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) é eleito membro da Academia Alagoana de Letras, provando vocês sabem o quê. Comentando o crescimento de 1,9% do PIB no 2º trimestre em comparação com o 1º, Lula diz que o Brasil estava preparado porque “o povo fez sacrifícios”. Meu bolso que o diga. O caos toma sol na laje.

Outubro – Morre a Voz da América Latina, Mercedes Sosa, em Buenos Aires aos 74 anos. Rio de Janeiro se torna sede da Olimpíada de 2016, para a felicidade das empreiteiras e da corrupção. Em São Bernardo do Campo, a estudante de Turismo Geysa Arruda é assediada por alunos da Uniban por usar um vestido curto, registrando o retorno da Idade Média. Para economizar energia, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pede ao povo que reduza a duração dos banhos para três minutos. Agora os venezuelanos só lavam as orelhas. Agindo de forma chiquérrima, Brasil oficializa empréstimo de US$ 10 bilhões para o FMI. E a gente se Foods de novo. Mantendo duas guerras contra povos oprimidos, Barack Obama recebe o Prêmio Nobel da Paz. Até ele se surpreende. A essa altura do campeonato, o caos já dá risada da nossa cara.

Novembro – Apagão deixa mais da metade do País sem luz. O blecaute atingiu 18 estados brasileiros por cerca de quatro horas. Segundo o governo, as causas do problema foram os raios, ventos e chuvas muito fortes na região de Itaberá, no interior de São Paulo. O governo também investiga a possibilidade de sabotagem, talvez pelo Coelhinho da Páscoa. Guido Mantega anuncia que com a redução do IPI o total de desonerações chega a R$ 25 bilhões. Ou seja, os empresários não pagam impostos e nós se Foods outra vez. Em São Paulo, morre aos 63 anos o ex-prefeito Celso Pitta. Pelo menos uma boa notícia.

Dezembro – Vítima de enfarte, morre aos 69 anos o famoso locutor Lombardi, que ninguém nunca tinha visto a cara antes de ele morrer. O Flamengo conquista seu sexto título do campeonato brasileiro, as massas entram em êxtase e o Brasil não dorme por uma semana. O Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, anuncia o envio de mais 30 mil soldados ao Afeganistão. A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), ocorrida em Copenhague (Dinamarca), é um fracasso. As potências industriais não querem reduzir seus lucros e não vão parar de jogar CO2 na atmosfera. As coisas esquentarão ainda mais, o clima mudará pra cacete e o planeta inteiro vai se Foods, assim como a gente. Até o caos abandona o barco.

Bom 2010 pra todo mundo.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Ter ou não ter diploma? Eis a questão!

Por João Paulo da Silva

Vou entrar na polêmica. E não é apenas porque diz respeito a minha profissão. Escrevo porque o assunto tem mais relevância do que aparenta. Estou opinando com um pouco de atraso, é verdade. Mas ainda em tempo de pegar os patrões e o STF pelo pescoço e dizer umas verdades.

A discussão da obrigatoriedade do diploma não é recente, já tem um tempo. Entretanto, ganhou um importante destaque nos últimos anos, fazendo muita gente opinar sobre o assunto. Do meu canto, eu acompanhava todo tipo de argumento utilizado para defender o fim da obrigatoriedade.

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 17 de junho deste ano, motivada por uma ação protocolada pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo, veio coroar uma verdadeira rasteira nos trabalhadores da área.

O ponto chave da resolução é que agora as empresas têm o caminho livre para fazer o que quiserem. Isto significa, necessariamente, demitir e rebaixar salários sem ter que dar satisfações a ninguém, nem mesmo aos sindicatos. Tudo o que os patrões sempre desejaram. E, coincidentemente, o ataque ocorre durante a maior crise econômica desde 1929. Intrigante, não?

Para esconder os reais motivos da determinação e legitimar a trapaça, as empresas, o STF e uma porção de jornalistas picaretas inventaram todo tipo de argumento fajuto. O espertalhão do Gilmar Mendes, por exemplo, afirmou, assim como tantos outros, que a exigência do diploma era um obstáculo à liberdade de expressão. Eis aqui um aspecto curioso.

Aqueles que dizem que o diploma fere a liberdade de expressão deveriam, então, em primeiro lugar, enfrentar o capitalismo. Este, sim, impede os indivíduos de expressarem suas ideias em qualquer lugar. É preciso ser muito mau-caráter para afirmar que os jornalistas podem escrever o que bem entendem nos jornais.

O Cláudio Abramo tem uma frase interessante: “A liberdade de imprensa é a liberdade do dono do jornal”. É verdade. Não é a exigência do diploma que impossibilita alguém de escrever e expressar suas opiniões, e sim os interesses econômicos. É aquela velha história: negócios são negócios. Até há espaços nos jornais dedicados a pessoas que não são jornalistas, onde é possível escrever sobre o assunto de sua preferência. Desde que não fira os... bem, você sabe.

Pegando carona nos devaneios do Gilmar Mendes, o ministro Cezar Peluso alegou que o diploma em jornalismo não garante a eliminação do mau exercício da profissão, da deficiência de caráter e da falta de ética. Na hora pensei que ele estivesse brincando. Mas acho que alguém deveria ter perguntado ao ministro qual o curso que assegura toda essa moralidade no trabalho. Não conheço nenhum.

Me impressionou, também, o argumento de que nos EUA, na Alemanha e na França o diploma não é obrigatório. Sobre este ponto, direi apenas o que mamãe dizia quando queria me ensinar a pensar por minha própria cabeça. “Se alguém mandar você comer cocô, você vai comer, infeliz?!”.

Outra questão do debate, que cheguei a ouvir e ler em alguns lugares, é a seguinte: já que as escolas de jornalismo são ruins e não formam um profissional qualificado, então por que cargas d’água é preciso um diploma? Não há nenhum problema em discutir o nível dos cursos que formam um sem-número de jornalistas todos os anos. Mas este não é o X da questão. A culpa não é do diploma. No caso das universidades públicas, é do governo. Já nas privadas a culpa é do dono, que fez da educação um negócio.

Entretanto, talvez nada seja tão irritante quanto a ladainha que insiste em reduzir o jornalismo a um punhado de técnicas e a um amplo conhecimento geral. Basta escrever bem e ler bastante para ser um excelente jornalista. Isso, sim, é de um reducionismo vergonhoso. Golpe baixo.

Não tenho dúvidas de que o desenvolvimento dos meios técnicos, das forças produtivas e o aumento da complexidade social exigem do jornalista uma capacitação de nível superior. Assim como outras áreas do conhecimento humano, o jornalismo não é estático e necessita de um tratamento científico em sua elaboração. Ninguém vai à universidade só para aprender técnicas. Quem já foi a uma sabe do que estou falando.

Enfim, não há nada capaz de justificar a sentença do STF. A não ser, claro, os interesses escusos. A questão, aqui, não é de fetiche com o diploma, muito menos da vontade de colocá-lo numa moldura na parede. Trata-se “apenas” da defesa de uma categoria de trabalhadores e da sua qualidade de formação.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

"Entre a presa e o dragão"

Por João Paulo da Silva

Foi Shakespeare quem disse a frase acima. Esse dilema esteve muitas vezes presente em suas obras. O poeta inglês sabia que o ato de escolher seria para o homem sua salvação ou sua perdição. Mas nunca disse que não deveríamos escolher. Numa sociedade onde há lutas entre desiguais, permanecer calado é sempre apoiar o mais forte. Quando escolhi cursar jornalismo, eu já sabia que a imparcialidade era um mito, uma grande falácia. A neutralidade é impossível por um motivo muito simples: não há discurso desprovido de ideologia. Toda escolha é uma escolha política. Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, disse certa vez que “a palavra é uma arma”. Se estiver correto – acredito que esteja – então todos nós temos um bom motivo para fazer a escolha certa.

Numa situação em que os meios de comunicação de massa estão nas mãos de uma única classe, escolher se torna doloroso e angustiante. A liberdade de imprensa é tão falsa quanto a idéia de imparcialidade. Só um tolo não percebe que os grandes meios estão sempre a serviço de quem detém o poder. A liberdade de imprensa é na verdade um eufemismo burguês. Antes de serem meios de informação, o jornal, o rádio e a TV são primeiramente empresas. Isso significa dizer que têm um dono, ou seja, um patrão. Há nesse aspecto uma relação de poder, de opressão e, mais especificamente, de monopólio da informação. Sendo assim, quando me decidi por jornalismo eu compreendia que se quisesse escrever nos grandes meios teria de me moldar a eles. Essa idéia não me agradou nem um pouco. Mas há sempre uma segunda escolha.

Se o jornalismo é realmente uma guerra pela conquista das mentes e corações, então é preciso definir bem de que lado da trincheira nós estamos. Sei exatamente por que escrevo, para quem escrevo e contra quem escrevo. Estar entre a presa e o dragão não é um decreto de morte nem uma rua sem saída. Para todo beco, existe um muro a ser saltado. Para toda prisão, existe uma brecha entre as grades. Bom, se não houver, então cavamos um buraco.