terça-feira, 3 de novembro de 2009

O padeiro

Por João Paulo da Silva

Quando chegou em casa, a mulher o recebeu com um beijo e uma notícia:
- Querido, estou grávida!
- O quê?!
- Isso mesmo! Estou esperando um filho.
- Mas que maravilha! Isso é ótimo, meu amor!

Emílio sempre foi um sujeito trabalhador, o melhor funcionário da repartição. Rita, sua esposa, trabalhava em casa e era uma mulher de beleza notória, extremamente atraente. O casal vivia um momento mágico. Seus rostos esbanjavam contentamento. A chegada de um filho abriria uma nova etapa em suas vidas. Emílio não queria perder tempo e tratou logo de contar a novidade para os amigos do trabalho.
- Sabem da nova? Vou ser papai!

A felicidade do casal era indescritível. Foi uma questão de dias para que toda a vizinhança tomasse conhecimento do fato. Emílio acompanhava os estágios da gravidez com bastante alegria. Não havia nada mais emocionante no mundo do que observar o crescimento da barriga de Rita. As primeiras mexidinhas, os primeiros chutes. O júbilo de Emílio aumentou ainda mais quando o exame de ultra-som revelou que o bebê era um menino. A vida era boa.

Os meses passavam e o casal se apressava na preparação do enxoval. Emílio encarregou-se de providenciar o nome da criança. Achou que Júlio seria perfeito. Rita cuidava da mobília do novo quarto com um imenso carinho e Emílio passou a comprar brinquedos aos montes. A vida lhe parecia ser realmente maravilhosa.

Finalmente o grande dia chegou. Rita foi levada às pressas para a maternidade. Emílio não teve coragem de presenciar o parto e resolveu esperar fora da sala de operações. Tinha as mãos trêmulas e a boca ressequida. Andava aflitivamente de um lado para o outro. Estava visivelmente ansioso. Sabia que precisava se acalmar. Afinal, o que poderia dar errado?

Algum tempo depois, uma enfermeira lhe comunicou que o bebê havia nascido. Emílio perguntou, nervosamente, onde estava a criança. A enfermeira o levou até o berçário. Por trás de um vidro de proteção, ela apontou o recém-nascido. Emílio sentiu um baque no coração, um desfalecimento. Segurou-se para não cair. O suor lhe empapava a camisa. Não quis acreditar no que estava vendo. A criança era negra.

Achou melhor não comentar nada com a mulher. Não era hora para criar caso. Tentou agir naturalmente. Passou-se uma semana. A aflição lhe corroia o juízo. Decidiu, então, procurar o médico que acompanhou o período de gestação de Rita.
- Eu não entendo, doutor. Como é que isso pode acontecer?
- É simples, meu rapaz. Provavelmente você ou sua esposa tem um parente negro na família.
- Eu não tenho nenhum parente negro, doutor.
- Mas sua mulher deve ter. meu caro.
- Ainda não entra na minha cabeça, doutor. Rita e eu somos brancos, e o moleque nasceu preto! Não consigo entender! Aí tem coisa!
- Ouça, as circunstâncias genéticas explicam facilmente o fato. Não é muito comum, é verdade. Mas acontece. E isso não é motivo para tirar conclusões precipitadas. Veja, se você quiser uma prova maior, basta fazer um exame de DNA. Pronto.
- E funciona?
- Completamente. A margem de erro é mínima. Mas eu acho que você deveria conversar primeiro com sua esposa sobre o assunto. Ela pode ficar ofendida.
- Não se preocupe, doutor, eu falarei com ela. Muito obrigado.

Emílio chegou em casa taciturno, parecia carregar um continente inteiro nas costas. Não sabia como falar. Meio encabulado, começou:
- Querida, você...você me ama?
- Que pergunta besta, Emílio! Você sabe que eu te amo.
- É. Eu sei. Mas... é que...
- Escuta, o que é que você tem? Qual é o problema? Você está tão esquisito. Aconteceu alguma coisa?
Emílio sentia-se inquieto. Parecia haver um revoar de abelhas em seu estômago. Aquela era uma situação nova e constrangedora. Passou as mãos pelos cabelos, encheu o peito de ar e disparou:
- Rita, você já me traiu? Você tem outro?
A mulher o olhou de uma forma inexprimível e, secamente, disse:
- Por que está me perguntando isso, Emílio? Que história é essa agora? Já sei! É porque a criança é negra, não é? Você acha que por sermos brancos...
- Não. Não é nada disso, querida. Quer dizer...
- Olhe aqui, nunca houve outro homem em minha vida além de você! Assim você me ofende.
- Me desculpe, meu bem. É tudo tão novo e estranho pra mim. Eu não sei o que pensar. Conversei com o seu médico hoje. Ele me indicou um exame de DNA.
- Negativo! De jeito nenhum, Emílio! O que você pensa que eu sou? Seria uma ofensa bem maior. Se você insistir no exame, nosso casamento está acabado!

Emílio sempre foi desvairadamente apaixonado pela mulher. Não queria perder a Rita por nada nesse mundo. Acuado e sem palavras, acabou aceitando a decisão da esposa. Resolveu que, dali por diante, não tocaria mais no assunto. Iria tentar viver com o fardo da dúvida. E, quem sabe, poderia até esquecê-la.

Os dias, as semanas e os meses passavam e aos poucos Emílio se aproximava mais do filho. Começava a se convencer de que realmente era o pai. A vida parecia estar voltando ao normal e ele sentia a alegria do passado ser retomada. A incerteza estava assumindo um caráter relativo. O tempo, de fato, fazia milagres. Júlio tinha agora não mais do que cinco meses de idade.

Numa segunda-feira de céu nublado, ao voltar do trabalho, Emílio viu sair de sua casa um homem. Negro, alto e corpulento. Era Gilmar, o padeiro. Sentiu uma sensação esquisita no corpo, um incômodo que ele não sabia dizer exatamente de onde vinha. Enfim, feito uma flecha, uma pergunta lhe atravessou a cabeça. “O que estaria fazendo o padeiro em minha casa?” Entrou e foi logo perguntando:
- O que queria o Gilmar?
Rita respondeu com serenidade.
- Ele veio trazer o pão que pedi. O Julinho estava dormindo. Eu não queria sair e deixá-lo sozinho. Aí telefonei para a padaria e o Gilmar trouxe o pão. Muito gentil da parte dele. Você não acha?
- É, acho sim. – disse vagamente.

Emílio sentia um cisco no entendimento. Era algo lhe cutucando as idéias, uma desconfiança profunda a lhe povoar a cabeça. Uma espécie de presságio. Foi até o quarto do filho. Devagar, como quem teme alguma coisa, Emílio debruçou-se sobre o berço. E olhando a criança com uma atenção que jamais desprendera, julgou reconhecer no rosto do bebê os traços do padeiro Gilmar.
A desconfiança voltou mais forte e passou a lhe consumir a vida. Era-lhe um punhal cravado ao peito. Um punhal que se afundava ainda mais com o passar do tempo. Os anos corriam e Julinho ficava cada vez mais parecido com o padeiro, pelo menos aos olhos de Emílio. A semelhança estava se tornando insuportável. O cabelo duro, os olhos fundos e os lábios grossos denunciavam o negro corpulento. A situação causava-lhe dor física.

Mas suportava tal desconforto como um bravo. Não deixava que o filho, aquele pobre inocente, percebesse nada. Tratava-o com naturalidade. O pior de tudo era cruzar com Gilmar na rua. Emílio evitava lhe dirigir a palavra. Mal olhava o padeiro nos olhos. No fundo, entretanto, desejava esbofetear-lhe a cara, enfiar-lhe uma faca no bucho, meter-lhe uma bala no peito. Quanto à Rita, por estar cego de amor, não lhe sentia ódio. E ainda que a odiasse, ele não tinha provas contra a fidelidade da mulher.

No trabalho, os amigos não comentavam sobre o assunto. O filho de Emílio nunca foi assunto. Não queriam magoá-lo. Mas os vizinhos não poupavam olhares enviesados. O silêncio fingido dos amigos e o descaramento dos vizinhos estavam deixando Emílio louco. Chegou a pensar que morreria de desgosto. Precisava fazer alguma coisa. Mas o quê? O exame de DNA estava fora de questão. Quanto ao Gilmar, nada podia fazer. Forçar uma confissão? A troco de quê? E como? Com violência? Até tinha vontade, mas não era disso. Estava numa encruzilhada. As circunstâncias haviam lhe pregado uma peça.

Entretanto, da mesma forma que a vida ata seus nós, ela também um dia os desata. Assim, numa bela manhã de domingo, durante o café, com a família reunida, Emílio fez uma despretensiosa pergunta ao filho:
- O que você pretende ser quando crescer, meu rapaz?
Julinho – agora com sete anos de idade – olhou para o pai intrigado. A reposta veio tão pesada quanto uma bigorna.
- Ora, papai, quero ser padeiro.
Emílio pensou que tinham lhe aberto no meio com um único golpe. Foi como perder, subitamente, todo o ar dos pulmões. Sentiu uma leve vertigem e a vista escurecer. Ficou assim por alguns segundos, até recuperar-se e colocar as ideias no lugar. Ergueu-se brusco da mesa e foi para o quarto, nem mesmo ouviu as perguntas da mulher e do filho. Vestiu-se, pôs o revólver na cintura e saiu. Entrou na padaria com uma expressão furiosa, quase espumando. Estava cego pela certeza. Apontou o revólver para o padeiro e puxou o gatilho duas vezes. O pobre negro Gilmar morreu ali mesmo, por cima de alguns pães, com dois buracos nas costas e sem nunca saber quem o matou.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O morro veio nos chamar...

Por João Paulo da Silva

Dia e noite, a fúria dos grandes centros urbanos nos persegue como se fosse uma sombra eterna, dando a entender que, por mais que a gente se vire, ela sempre vai estar no nosso encalço. Parece com aquele pesadelo inacabável que insiste em nos interromper o sono, cotidianamente. Um sono que, via de regra, já é sobressaltado. Um sono de quem sabe que não pode dormir.

O caos que estourou – mais uma vez! – no Rio de Janeiro nestes últimos dias não guarda muitos mistérios. A sombra e o pesadelo da “cidade maravilhosa” revelam-se claros e cruéis, mesmo com os governos e a mídia tentando maquiar o espetáculo. Parafraseando Chico e Tom, o que houve na capital fluminense foi o seguinte: o morro veio nos chamar. Os graves problemas sociais desse país, geradores diretos da violência, deram seu recado. Ou acabamos com a miséria e o desemprego ou a barbárie acaba conosco.

A imprensa falou em guerra de policiais e bandidos. De fato, é uma guerra. Mas uma guerra dos famintos, dos sem emprego, dos sem educação, dos miseráveis. Daqueles que o governo Lula empurra todos os dias para o narcotráfico, porque nas favelas brasileiras o Estado só sobe o morro na forma de chumbo grosso. No meio das balas da polícia corrupta e dos traficantes, estão os trabalhadores, negros e pobres. Ao que parece, as Olimpíadas do Rio já começaram. E a modalidade preferida pelos governos é o tiro ao alvo.

Bastou o circo pegar fogo para Lula e o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmarem que vão aumentar os investimentos na segurança pública do Rio em 2010. Traduzindo: mais armas, viaturas, helicópteros e pólvora nas favelas. Do jeitinho que os fascistas do Palácio Laranjeiras querem. Para o governador do Estado, Sérgio Cabral, e seu secretário de segurança, José Beltrame, nos morros do Rio, a única linguagem é a das metralhadoras.

Dessa forma, chegaremos em 2016 com várias estatísticas impressionantes, dignas de recordes olímpicos. Mas nenhuma delas nos dará orgulho.

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É triste, mas poderia ser pior...

Enquanto o Rio de Janeiro guerreava, o Rio Grande do Sul brincava. Calma. Vou explicar.

É que alunos da 4ª série de uma escola pública gaúcha, em Sapucaia do Sul, foram flagrados pela professora brincando de traficantes. Os garotos quebraram o giz da lousa, moeram até virar pó e embalaram em plásticos. Assim como na vida real, na brincadeira o objetivo era atrair mais usuários e ganhar outras bocas de fumo. Tudo ocorreu dentro da sala de aula, envolvendo crianças entre nove e dez anos.

Obviamente que isto é um reflexo da realidade pobre desses alunos, completamente entregues ao violento mundo da falta de saídas. Um mundo de absoluta responsabilidade dos governos. Mas, analisando com atenção e sem querer necessariamente menosprezar o fato, a verdade é que o caso poderia ser pior. Como?

Imagine se essas crianças estivessem brincando, por exemplo, de serem deputados e senadores. Já parou pra pensar como seria? Alunos desviando verbas públicas, empregando parentes, negociando cargos, criando funcionários fantasmas, corrompendo a tudo e a todos, votando projetos contra os mais pobres e beneficiando ricos e poderosos. Imaginou? Pois é. Um terror, não?

No meio da aula, crianças gritam:
- Eu quero ser o Arthur Virgílio!
- E eu o Collor!
- Ah, eu posso ser o Sarney? Deixa, vai, deixa!
Ai, ai... me dá até náuseas.
Enquanto no Rio Grande do Sul crianças brincam de traficantes, no Rio de Janeiro Sérgio Cabral e José Beltrame brincam de Hitler e Mussolini. A diferença é que a brincadeira dos governantes mata de verdade. E, na maioria esmagadora das vezes, não são os bandidos que morrem.

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OUÇA A MÚSICA ZEROVINTEUM, DA BANDA PLANET HEMP. UM RETRATO DO RIO DE JANEIRO.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Pobre Yurinho

Por João Paulo da Silva

Quando era criança, lá pelos doze anos, eu costumava jogar bola com meu irmão no terraço da nossa casa. Ficávamos horas brincando de chute ao gol. Como não tínhamos autorização para jogar na rua, aquela acabava sendo a nossa diversão. Mas a gente até que gostava. Só não gostávamos mesmo era do Yurinho, o vizinho da frente. Ô moleque chato.

Ele sempre aparecia no portão lá de casa, pedindo pra jogar com a gente. Ficava um tempão implorando e enchendo o saco. Foram poucas as vezes em que permitimos. Eu e meu irmão tínhamos um motivo para não deixá-lo jogar. Qualquer coisinha o Yurinho chorava. Se levava um frango, chorava. Se perdia um pênalti, chorava. Se tomava uma bolada mais forte, chorava. E o pior: saía correndo e gritando que a gente tinha batido nele. Quer dizer, além de frouxo, o Yurinho também era mau-caráter.

Depois que passamos a impedi-lo de jogar com a gente, o safado começou a apelar para a deslealdade. Chegava no portão,todo malicioso, e falava:
- Oi. Posso jogar com vocês?
- Sai fora, Yurinho. Você só sabe chorar e mentir. – dizia eu.
- Mas eu quero!
- E você tem o que querer aqui, seu cagão?!
- É isso mesmo. Sai fora, Yurinho. – meu irmão completava.

Ele corria chorando para casa e contava para a avó que a gente não queria deixá-lo jogar e que, ainda por cima, tínhamos batido nele. Não demorava muito e a velha aparecia para reclamar. Ficava um tempão nos esculhambando, dizendo que não tínhamos coração, que éramos seres abomináveis etc. Com medo, eu e meu irmão corríamos para nos esconder. Só voltávamos depois que a vó do Yurinho saía. O mau-caráter fez isso várias vezes. Até que um dia resolvemos nos vingar.
Aí mudamos de tática. Se o Yurinho queria jogar sujo, então nós iríamos entrar no jogo dele. E, naquela época, sujo era literalmente sujo mesmo.
Um dia, como de costume, ele apareceu no portão.
- Posso jogar com vocês?
- Claro que pode, Yurinho. – falei.
- Sério?! Jura?! – surpreendeu-se o chato.
- É sério, sim. – disse meu irmão.
Aí o Yurinho se animou e já ia abrindo o portão quando eu o interrompi:
- Epa! Peraí. Aonde você pensa que vai com essa pressa toda?
- Jogar com vocês, ué.
- Calminha aí, Yurinho. Calminha aí. Você pode jogar, mas com uma condição.
- Que condição?
Era chegada a hora da vingança.
- Se quiser brincar, você vai ter que chupar uma pedra aí da rua.
- Hã?? Mas isso é muito sujo.
- Pois é. – disse eu.
- É pegar ou largar. – sentenciou meu irmão.

A rua da minha casa era cheia de pedras, de todos os tipos. Grandes, médias, pequenas. E sujas também. Da lama ao cocô do cachorro. Uma imundice só. Mas era isso. Se o Yurinho quisesse jogar bola com a gente, teria que aceitar o desafio. Essa era a condição.
- Tá bom. Eu aceito.

E assim começou a nossa vingança. Todas as vezes que ele aparecia no portão querendo brincar nós pedíamos para ele chupar uma pedrinha. Escolhíamos sempre as mais sujas, que era pra ver o sofrimento do infeliz. Ainda assim, depois da penitência do Yurinho, nós só brincávamos por alguns minutos, para não dar muito gosto ao chato. Afinal, o bom mesmo era assistir ao sacrifício do Yurinho ao chupar as mais nojentas pedras da rua.
- Tá bom, Yurinho. A gente não quer mais jogar.
- Mas já?! Não foram nem cinco minutos?!
- É, eu sei. Mas já estamos cansados. Amanhã brincamos mais. Tchau.

Mantivemos o plano durante muito tempo. Tanto que cheguei a pensar que o Yurinho já havia lambido uma quantidade de pedras suficiente para fazer uma calçada inteira. Mas meu irmão e eu não tínhamos a menor pena do mau-caráter. Ele estava tendo o que merecia. Foi quando um “pequeno” detalhe começou a mudar os rumos da história.

À medida que os dias e as pedras chupadas passavam, uma notável alteração foi se dando no rosto do Yurinho. Ele estava ficando amarelo. Mas muito amarelo mesmo. E tínhamos a impressão de que, após uma nova pedra, o Yurinho ia ficando cada vez mais amarelo. Lembro, inclusive, que em sua última aparição em tons de amarelo ele parecia molho de mostarda. Isso mesmo. Última aparição. Porque teve um dia que o Yurinho não apareceu mais no portão. Passou-se uma semana. Duas. Três. E nada.

Até que um dia vimos a vó do Yurinho, vestida de preto, saindo de casa. Com o rosto vermelho de choro, ela parou para conversar na porta da Dona Neide. Da conversa, meu irmão e eu só conseguimos ouvir duas frases.
- Ele se foi, Dona Neide. Meu Deus, o Yurinho me faz tanta falta. – disse a vó do moleque, desatando no choro.
Pronto. Foi o suficiente.
- Puta que o pariu, João! A gente matou o Yurinho! – desesperou-se meu irmão.
- A gente quem? Eu vou negar até o fim. Quero falar com o meu advogado! Cadê o meu advogado?!

Ficamos naquela paranóia por uma semana. Não podíamos revelar nosso crime para ninguém, havia o risco de sermos punidos severamente, mas também não podíamos suportar a dor na consciência. Tínhamos matado uma pessoa. Tudo bem que era o Yurinho, mas ainda assim era uma pessoa. Pelo menos em tese. O que fazer, então? Contar toda a verdade e rezar para sermos condenados, no máximo, por homicídio culposo? Ou não contar nada e continuar insistindo no nosso próprio convencimento de que, afinal de contas, era só o Yurinho mesmo?

- Bolívia! – disse eu.
- O quê?
- Vamos fugir para a Bolívia! – repeti.
- Tá doido?! E dizer o que para a mamãe? “Oi mãe. Estamos indo para a Bolívia porque matamos o Yurinho.”.
- Tem razão. Tô doido.
De fato, não sabíamos o que fazer. Estávamos numa encruzilhada.

Após um mês do sumiço do Yurinho, jogávamos bola no terraço de casa. Ainda muito preocupados, brincávamos sem entusiasmo nenhum. Foi quando ouvimos uma voz no portão:
- Oi. Posso jogar com vocês?
Meu Deus do Céu! Era o Yurinho.
- Yurinho! É você mesmo?! Não pode ser! – eu gritei.
- Como não pode ser, João?! Cala essa boca! Graças a Deus que é ele! Yurinho! – gritou também o meu irmão.
O Yurinho nunca entendeu por que nós o abraçamos e o beijamos tanto naquele dia. E a gente mesmo nem quis falar. Ninguém precisava saber.
- Poxa. Não sabia que vocês gostavam tanto assim de mim.
- Ah, você realmente não sabe o quanto. – falei.
Depois da recepção emocionada, o Yurinho explicou o próprio sumiço.
- Fiquei doente. Vermes, sabe? Sério mesmo.
- Verdade? Que coisa estranha, hein?! – argumentei.
- Pois é. Comecei a ficar amarelo.
- Jura? A gente nem notou. – disse meu irmão.
Aí o Yurinho falou que sua mãe achou melhor ele passar o resto das férias com ela lá no sítio. Seria bom para se recuperar e coisa e tal. Depois que estivesse bem, poderia voltar a morar com a avó. Ela ficaria triste e sozinha, mas seria só por um mês. Logo tudo voltaria ao normal. E o Yurinho se mandou pra casa da mãe.
- Sabe, fiquei tão doente que quase morri.
- Mas não morreu! Vira essa boca pra lá, Yurinho! O importante é que você não morreu! – falei com toda convicção.
- Isso mesmo. Que bom que o Yurinho não morreu. E a gente nem precisa mais falar disso. É hora de jogar bola. Vamos jogar bola. – propôs meu irmão.
Aí o Yurinho já estava indo pegar uma pedra quando eu gritei:
- Ei! O que pensa que vai fazer?!
- Ué, chupar uma pedra pra poder jogar.
- Yurinho, larga já essa pedra! Pelo amor de Deus! Larga isso já!

Hoje, alguns anos depois, faço outra interpretação de nossa atitude. Na verdade, não estávamos castigando nem nos vingando do Yurinho. Estávamos, inconscientemente, ensinando uma lição aquele pequeno mau-caráter, que gostava de caluniar os outros. Queríamos mesmo era mostrar ao Yurinho o quanto a vida era dura e suja, assim como as pedras lá da rua. Sabe, era uma metáfora. Uma metáfora sobre as muitas pedras que ele ainda encontraria pelo caminho. Era, na verdade, aquela história da pedra do Drummond, sabe? Aquela do meio do caminho. Era isso que a gente queria ensinar pro Yurinho. Mostrar pra ele que só um homem de bom coração passaria pelas adversidades da vida. Não havia espaço para o mau-caráter, entende? Bom, era isso. Estou convicto de que a História nos absolverá. E agora espero que o Yurinho também. Era pro bem dele.

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OBS.: Caros leitores e leitoras, por motivos de correria no trabalho, os textos do blog As Crônicas do João serão publicados às terças-feiras, e não mais aos domingos como antes. Entretanto, a periodicidade semanal permanece. Forte abraço.