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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Paciência

Por João Paulo da Silva

Na porta do banheiro, o pai tenta convencer o filho de dois anos a tomar banho.

- Vamos, filho. Hora de ir pro chuveiro.
- Não, papai. Não quero.
- Mas tem que ir, filho.
- Por quê?
- Porque você está sujo.
- Por quê?
- Porque está suado.
- Por quê?
- Porque você estava correndo, brincando na rua...
- Por quê?
- Ai, meu Deus... Filho, vai pro chuveiro.

domingo, 25 de novembro de 2012

Broxadas 2

Por João Paulo da Silva

Quase todo mundo já broxou. E quem ainda não broxou não precisa se preocupar. Um dia a sua broxada chegará. Implacável, irremediável, inacreditável. Mais cedo ou mais tarde. É melhor que seja mais tarde. Aí dá até pra usar aquela desculpa da idade etc. e tal. Mas é isso. Desencane. Perder o tesão na hora em que você mais precisa dele pode acontecer com qualquer um. Homens e mulheres. É claro que a broxada não é uma “prerrogativa” meramente masculina. Mulheres também broxam, mesmo sem ter um pênis. Nós, seres humanos, somos criaturas hipersensíveis, muito vulneráveis a influências de fatores físicos e psicológicos.

domingo, 9 de setembro de 2012

Primeiros passos

Por João Paulo da Silva

Outro dia, li na internet que cientistas da Universidade de Liverpool resolveram olhar novamente antigas pegadas na Tanzânia e descobriram que um dos nossos ancestrais mais primitivos, o Australopithecus afarensis, já andava de pé, completamente ereto, assim como o homem moderno. Pesquisas anteriores mostravam que essa característica teria surgido apenas nos primeiros Homos, há 1,9 milhões de anos. Agora, já se sabe que a história não caminhou bem por aí. Ok. E que importância tem essa descoberta? Bom, tem muita, porque os pesquisadores acreditam que a forma ereta de caminhar foi determinante para que nossa espécie saísse da África e ganhasse o mundo. “Sebo nas canelas! Pernas para que te quero!”, devem ter dito na época. Ao modo deles, é claro.

domingo, 12 de agosto de 2012

Dia do “papá...”

Por João Paulo da Silva

Aos 27 anos, meu primeiro dia dos pais... como papai, é claro. Até dizem que já tenho cara de pai. Aliás, cara e corpo de pai. Há quem afirme que eu dei uma engordada e que estou caminhando para o cultivo daquela barriguinha saliente, presente na vida de todo pai que se preze (ou se despreze). Mas isso não passa de futrica alheia. Ainda não estou nestas condições, muito embora a calvície, que também é uma aflição paterna, já avance as fronteiras do aceitável. Minha aparência não me incomoda, da mesma forma que não me incomodaria se eu fosse um pai parecido com o Hugh Jackman. Fisicamente falando. A verdade, porém, é que a chegada do pequeno João Gabriel mudou para sempre os meus dias. Agora, além de comemorar o dia dos pais do lado daqueles que ganham presentes, também sou acordado todas as manhãs ao som das sílabas mais bonitas da língua portuguesa. Cinco e tanta da madrugada, vem a voz do berço me chamar: “papá, papá...”. Ser pai é viver em completo estado de abestalhamento.

domingo, 22 de julho de 2012

Confissões

Por João Paulo da Silva

Fui criado sob a égide do catolicismo. É claro que meus pais não perguntaram se eu gostaria de ser católico. E nem poderiam. Na época eu ainda nem falava. E mesmo que falasse não seria ouvido. Já cheguei até a imaginar a cena. Minha mãe perguntaria:
- O bebê da mamãe vai ser católico, não vai?

E eu, com poucos meses de vida, responderia:
- Nada disso! Sou um ateu convicto! Deus não existe.

domingo, 24 de junho de 2012

O ronco

Por João Paulo da Silva

Chamar o ronco do Osvaldo de ronco era eufemismo. Ronco é o ruído que você e eu fazemos dormindo. Não era o caso do Osvaldo. O dele estava mais para aquele barulho que motor de caminhão velho faz. Não, minto. Era pior. Sabe o som que vem de dentro das cavernas nos filmes de dragão? Pronto. Algo semelhante. Uma coisa horrorosa. De tão alto, ouvia-se até do lado de fora da casa. Dava a impressão de que iria derrubar as paredes. Com exceção da dona Margarida, casada com o Osvaldo há 40 anos, ninguém agüentava o ronco estrondoso. Os filhos, assim que puderam, casaram e saíram de casa. Dona Margarida não tinha essa opção. Quer dizer, até tinha, porém o amor foi maior do que o ronco. Por mais incrível que isso possa parecer nos dias de hoje. De certa forma, a esposa acabou se acostumando com a sinfonia apocalíptica do marido. A resignação, evidentemente, veio com o tempo, como quase tudo na vida. Os anos se encarregaram de tornar habitual a poluição sonora do Osvaldo. Chegou uma época, inclusive, em que dona Margarida era capaz de acordar com uma buzina na rua, mas não mais com os rugidos do marido. E ainda há gente que diz que a rotina não tem seu lado bom...

domingo, 3 de junho de 2012

Paternidade

Por João Paulo da Silva

Dizem que ser mãe é padecer no paraíso. É uma imagem curiosa, intrigante, metafórica e repleta de significados, para o bem ou para o mal. Mas se isso é verdade, ser pai é o quê, então?! Qual a função da figura paterna na vida de um filho? No que consiste a essência da paternidade? Afinal de contas, pra quê serve um pai? Essas foram algumas das perguntas que brotaram na minha cabeça logo depois que o pequeno João Gabriel inundou os meus dias. A resposta para estas questões é uma só, e eu estou descobrindo-a aos poucos, no dia a dia, passo a passo, pedacinho por pedacinho, como num quebra-cabeça de um trilhão de peças. Embora existam muitos manuais ensinando “como ser um bom pai”, o que apenas demonstra a obsessão da humanidade por manuais, nenhum livro é capaz de decifrar aquilo que só se conhece por inteiro na prática. É verdade que se aprende um macete ou outro com algumas pesquisas no Google, mas nada substitui as primeiras descobertas, o espanto diante do desconhecido, ou até mesmo a epifania de uma fralda suja de cocô. Como se sabe, a prática é o critério da verdade.

domingo, 4 de março de 2012

As maiores lições da vida

Por João Paulo da Silva

Ao contrário do que muitas pessoas podem achar, as grandes lições da vida não são aprendidas nos bancos das escolas ou das universidades. Aquilo que muitas vezes é imponderável, que nos decifra intimamente e nos ensina a viver, não está nos livros de física, química ou biologia. Não estou menosprezando o conhecimento acumulado pela humanidade. Longe de mim! Que Marx me livre de dizer um absurdo desses. Conhecimento é fundamental para entender o mundo e o que há nele. Mas não é disso que estou falando.

A ciência pode explicar a razão de estarmos aqui, como o universo funciona, por que os animais evoluem e o que havia no planeta antes de nós nos tornarmos a espécie dominante. A ciência pode esclarecer quase tudo, e o que ainda não foi esclarecido é só uma questão de tempo. Entretanto, as grandes lições da vida não são ensinadas dentro das salas de aula. É nas ruas que elas são aprendidas. Nos pontos de ônibus, nas mesas de bar, nas praças, na padaria da esquina. A rua é a maior escola para as maiores lições.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O charlatão

Por João Paulo da Silva

Tenho uma admiração especial pela charlatanice. Calma. Não me interpretem mal. É a técnica que me atrai. Uma espécie de teoria popular do fingimento, da artimanha. Quando bem dominada e desenvolvida, a charlatanice é capaz, inclusive, de produzir um certo glamour. Dependendo, claro, de quem a emprega. Acho até – de verdade mesmo – que ela deveria ser considerada uma arte. Não deve ser nada fácil dominar o método da enganação. O sujeito precisa ter desenvoltura, ser escorregadio, habilidoso e saber a hora exata de fingir. É uma atividade que exige muito sangue frio. Além disso, um bom charlatão deve passar confiança. A charlatanice não é para qualquer um.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O primeiro beijo

Por João Paulo da Silva

Eu devia ter uns oito anos, acho. Na rua em que eu morava havia uma garota linda. A casa dela ficava umas duas ou três depois da minha. Eu gostava de tudo nela. Do cabelo, dos olhos, do jeito de andar, da boca. Ah, a boca. Meu Deus, que boca! Ok. Tudo bem. Eu sei que era só uma paixonite de criança, daquelas que todo mundo tem na infância. Mas a verdade é que essas coisas costumam deixar estragos na vida da gente se não forem concretizadas. Eu sonhava em beijar aquela garota. Seria meu primeiro beijo e minha chance de começar em grande estilo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Amigo íntimo

Por João Paulo da Silva

O meu melhor amigo é um homem que vejo todos os dias no espelho do banheiro da minha casa. Suas características físicas são estranhamente parecidas com as minhas. Tem uns olhos tristes, um sorriso tímido, sobrancelhas e lábios grossos, nariz delgado, uma calvície levemente acentuada e um corpo quase franzino. É um profundo conhecedor dos meus segredos mais íntimos e o único para quem posso confidenciar as minhas desilusões amorosas. Sinto-me à vontade com ele. É como se estivéssemos juntos desde o dia em que nascemos. Às vezes, ele se aventura como meu analista, vasculhando os vários cantos escuros e empoeirados do meu subconsciente. Procuramos conversar todas as manhãs em frente ao espelho. São diálogos abertos e naturalmente silenciosos. Ele tem um lado moralista que eu não valorizo muito, pois usa-o constantemente para reprimir algumas de minhas atitudes. Mas é apenas com ele que me vejo suficientemente bem para abrir meu baú secreto, onde guardo minhas ações mais nobres e os meus sonhos mais soberbos. Estamos misteriosamente presos um ao outro.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Dois Brasis

Por João Paulo da Silva

Não sei se você sabe. Mas existem dois Brasis. Parafraseando um autor cujo nome não lembro, posso dizer que nos dividimos em dois grupos. Aqueles que têm mais jantares do que apetite e os que têm mais apetite do que jantares. Pode até parecer uma definição simplista demais. No entanto, isso não faz dela uma mentira. É claro que existe um evidente confronto de classes nisso tudo. Tratemos desses dois Brasis de maneira metafórica. Até mesmo porque – “nunca na história deste país” – uma metáfora foi tão real.


domingo, 18 de dezembro de 2011

Prefácio

(O texto abaixo trata-se do prefácio que escrevi para um recente livro - Crônicas do Nova Natal - publicado por jovens cronistas, alunos da professora Amanda Gurgel, sobre situações vividas no bairro em que eles moram e estudam: o Nova Natal, na Zona Norte da capital do Rio Grande do Norte. Foi um grande prazer escrevê-lo. Agora, é um grande prazer publicá-lo aqui em meu blog.)

O escritor Ariano Suassuna costuma dizer que “a literatura é uma forma de protestar contra a morte”. Gosto de citar essa frase sempre que me perguntam por que escrevo. Se existir é doloroso, abandonar a vida sem deixar registros deve ser ainda mais. Há outras razões que levam as pessoas a escreverem, claro. Mas, ao que me parece, o escritor também escreve para ser lembrado. Não necessariamente por um exercício de vaidade, e sim porque acredita que todo mundo deve passar pela vida e marcar suas digitais na história. Na verdade, quem escreve tem medo do esquecimento. E a morte não deixa de ser uma forma de ser esquecido. Por isso, escrever e fazer literatura, além de serem artes, são também maneiras de impedirmos que as pessoas se esqueçam de nós e do mundo que as cerca.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Dando corda ao relógio do mundo

Por João Paulo da Silva

Tem uma frase do poeta Mário Quintana que diz: “Os que fazem amor não estão fazendo apenas amor: estão dando corda ao relógio do mundo.”. A chegada do pequeno João Gabriel na minha vida me fez pensar bastante sobre a questão. Quem deixa uma vida nestas terras deixa mais do que simplesmente um ser com identidade genética e semelhanças físicas. Deixa uma marca. Um desígnio de humanidade. Ter um filho é ter a chance de ser alguém melhor. Mas criar um filho é mais bonito. É experimentar a possibilidade de continuar existindo nos sonhos das gerações seguintes. Por inúmeras razões, muitas crianças são geradas sem nenhum tipo de sentimento de amor. Vem ao mundo e pronto. Na adoção, não. É um pouco diferente. Gerar não é o que define. Cuidar, criar e formar. Isso é o que basta. Adotar um filho é necessariamente um ato de amor. O pequeno João Gabriel é o meu.

domingo, 13 de novembro de 2011

Coçadinha

Por João Paulo da Silva

Quando temos febre, é sinal de que as coisas não andam muito bem. Podemos estar doentes. Há em nossa sociedade uma febre. Você já deve ter notado (se ainda não notou é porque é um tapado!) que somos vigiados em todos os lugares. As câmeras estão por toda parte. Quer dizer, por quase toda parte. O banheiro ainda é a última trincheira da privacidade. Mas o fato é que tem sempre alguém bisbilhotando a gente através das lentes das câmeras. Aquela história de que estão nos filmando para a nossa própria segurança é pior do que conto da carochinha. A única segurança que importa não é a nossa, é a das mercadorias que não podem ser roubadas. Nossa sociedade aprofundou de tal forma a desigualdade entre os homens que precisa vigiar a si mesma, em praticamente todas as situações. Este é apenas um dos sinais de nossa doença, os outros são ainda mais cruéis.

domingo, 6 de novembro de 2011

Profissão

Por João Paulo da Silva

- O que o filhinho do papai vai ser quando crescer?

Praticamente todas as crianças escutaram ou escutam essa pergunta de seus pais. O problema é que não se trata de uma mera pergunta. É um pacote completo. Já vem até com a respo
sta. Parece haver uma vontade tácita em alguns pais de se verem realizados nos próprios filhos. Desejam que seus filhos tenham a vida profissional que eles não tiveram. E nisso consiste parte de nossas frustrações.

domingo, 23 de outubro de 2011

Sobre cheiros, músicas e outras coisas

Por João Paulo da Silva

É engraçado como um sentimento nostálgico vai tomando conta da gente com o passar do tempo. À medida que nos afastamos do passado, começamos a sentir saudades de uma porção de coisas. Os amigos, o primeiro carrinho, a primeira namorada, os pais que se foram... Tudo. Tudo um dia faz falta.

As melhores definições sempre foram dadas pelos poetas. Mario Quintana definiu bem aquele aperto no peito que sentimos diante do passado: “A recordação é uma cadeira de balanço embalando sozinha”. A tecnologia nos permitiu registrar o tempo em pixels, mas não conseguiu evitar que ele nos escapasse por entre os dedos. Afinal, não podemos voltar.

domingo, 9 de outubro de 2011

Por um sorvete

Por João Paulo da Silva

A hostilidade do mundo quase sempre nos obriga a viver numa sufocante solidão. Vivemos como a última gota de uma cachaça barata na garrafa de um Deus mendigo, onde constantemente nos encontramos perdidos e sós, mesmo cercados por algumas centenas de pessoas.

É com tristeza que percebo o quanto o homem se afasta de si mesmo, se distanciando da essência da condição humana, numa crise de identidade que o levará para o vácuo das gargantas dos próprios demônios. Dia desses, contra minha vontade, pude comprovar o que digo hoje.

domingo, 21 de agosto de 2011

Sinal de Deus

Por João Paulo da Silva

Histórias existem aos montes. Relatos de que Deus envia mensagens cifradas para alertar os humanos sobre coisas que estão prestes a acontecer são muito comuns. Gente que diz, por exemplo, que o atraso por causa de um pneu furado a caminho do aeroporto foi um sinal de Deus para não entrar no avião, que cairia pouco depois de decolar. Coisas desse tipo alimentam os mitos da existência de forças incontroláveis que governam o mundo. Mas o fato é que estes “sinais” nem sempre são muito claros, o que dificulta muitas vezes a compreensão. Um amigo meu, mistura de cético com gozador, tem uma tia beata que acredita nessas crendices. Na oportunidade certa, ele não perdeu a chance de sacaneá-la.

domingo, 3 de julho de 2011

Seu Neco e o Apocalipse

Por João Paulo da Silva

Conheci o Seu Neco quando eu ainda era menino. Ninguém sabe ao certo o dia ou o ano em que o homem chegou ao lugar – uma periferia lá pelas bandas de Maceió. Todo mundo diz a mesma coisa:
- Sei não. Quando cheguei, ele já morava aqui.

Até a Dona Zefa, que vive há oitenta e oito anos na região, chegou ao bairro e o Seu Neco já estava pelas redondezas. E – pasmem! – já era homem feito. A idade do sujeito permanece uma incógnita, nunca descobriram. Seu Neco é bastante conhecido entre as pessoas da comunidade, os moradores admiram a sua sabedoria popular e encontram nele resposta para qualquer problema.