domingo, 18 de dezembro de 2011

Prefácio

(O texto abaixo trata-se do prefácio que escrevi para um recente livro - Crônicas do Nova Natal - publicado por jovens cronistas, alunos da professora Amanda Gurgel, sobre situações vividas no bairro em que eles moram e estudam: o Nova Natal, na Zona Norte da capital do Rio Grande do Norte. Foi um grande prazer escrevê-lo. Agora, é um grande prazer publicá-lo aqui em meu blog.)

O escritor Ariano Suassuna costuma dizer que “a literatura é uma forma de protestar contra a morte”. Gosto de citar essa frase sempre que me perguntam por que escrevo. Se existir é doloroso, abandonar a vida sem deixar registros deve ser ainda mais. Há outras razões que levam as pessoas a escreverem, claro. Mas, ao que me parece, o escritor também escreve para ser lembrado. Não necessariamente por um exercício de vaidade, e sim porque acredita que todo mundo deve passar pela vida e marcar suas digitais na história. Na verdade, quem escreve tem medo do esquecimento. E a morte não deixa de ser uma forma de ser esquecido. Por isso, escrever e fazer literatura, além de serem artes, são também maneiras de impedirmos que as pessoas se esqueçam de nós e do mundo que as cerca.

É isso que faz o cronista. Esse é seu ofício, sua missão. A crônica é a possibilidade textual de evitar que os acontecimentos sejam esquecidos com o tempo. Ela, por si só, é um recorte de uma determinada época. Registra e impede que o tempo devore aquilo que os outros não puderam ver ou não olharam com a devida atenção. Neste livro, leitor, que você tem agora em suas mãos, os jovens cronistas da Escola Estadual Myriam Coeli, sob a orientação primorosa da professora Amanda Gurgel, apresentam seus retratos crônicos sobre a vida e o universo do bairro de Nova Natal.

Aqui, você vai encontrar o absurdo, o incrível, o terrivelmente engraçado e o lamentável. Tudo através dos olhares juvenis e atentos daqueles que vivem e sofrem, no dia a dia, a ausência do poder público. A matéria-prima dos jovens escritores da professora Amanda não poderia ser outra: o próprio cotidiano. O cenário, claro, ônibus lotados, um bairro esquecido, esquinas perigosas, uma escola abandonada pelos políticos. Nestas pequenas histórias, a graça e a desgraça desfilam juntas com o divertimento e a indignação. Afinal, o riso, quando consciente, também é um protesto.

Historiadores do cotidiano, fotógrafos daquilo que nos alegra e apavora todos os dias. Os cronistas do Nova Natal são motivo de orgulho. E de inveja também, já que estão publicando um livro de crônicas primeiro do que eu. Mas a vida é dura e bela, e quem escreve não pede licença. Escreve logo e pronto! Nestas páginas, estão os primeiros passos para a eternidade e, em cada linha, há um protesto contra o esquecimento.



Dezembro de 2011

Um comentário:

Adriano Espíndola Cavalheiro disse...

João, quero o livro, como eu faço para adquiri-lo?