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domingo, 12 de maio de 2013

Superstições

Por João Paulo da Silva

A mãe do Rodrigo era supersticiosa, cheia dessas crendices populares que habitam o imaginário de muita gente. Aí já viu, né? Qualquer coisinha era motivo para um “Deus nos acuda”, literalmente. O pobre do garoto fora criado em meio a um mundo que parecia ser governado por forças ocultas e implacáveis. Era como se determinadas ações acarretassem, inexplicavelmente, consequências irremediáveis. “Pisar em rabo de gato atrai malefícios”, “deixar tesoura aberta por muito tempo dá azar”, “coruja que crocita em cima da casa, à noite, é sinal de morte na família”. Isso só para ficar em alguns exemplos. Mas a mãe do Rodrigo não mencionava apenas superstições ruins. Por vezes, quando o filho tinha soluços, ela aconselhava:
- Põe um palito de fósforo atrás da orelha que isso passa, menino!

domingo, 24 de março de 2013

Coisas do sexo

Por João Paulo da Silva

Tem um versinho cômico do Luis Fernando Veríssimo que diz: “O homem não é o único animal que faz sexo, mas é o único que precisa de manual de instrução.”. Essa é uma daquelas verdades incômodas. Daquelas que nos deixam um pouco envergonhados enquanto espécie. Ninguém precisa, por exemplo, dizer a um leão ou a um macaco como é que se faz a “coisa”. O bicho vai lá e faz, instintivamente. Não pergunta aos amigos, não consulta o Kama Sutra, nem pesquisa na internet. Com a gente é mais complicado. Tem que aprender todos os dias. Do contrário, não faz bem feito. É a incessante busca pelo know-how. É isso.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Broxadas 3

Por João Paulo da Silva

Isso nunca me aconteceu antes.”. Mentira. Já aconteceu, sim. É o clichê de todo broxa. Todo homem que costuma broxar diz essa frase quando falha. É como se ele quisesse se redimir do próprio fracasso apelando para a indulgência tácita do primeiro erro. Mas o que o broxa ignora é a perspicácia da mulher. A mulher odeia desonestidade. Ela sente o cheiro da mentira no ar. Talvez não exista nada mais broxante para uma mulher do que um homem mentiroso. Ela quer cumplicidade, e não um contador de vantagem. Por isso, meu amigo, se broxou, fale a verdade. É melhor abrir o jogo. Dizer que ficou ansioso; que ela é muito linda; que você esperou tanto por aquele momento e que acabou ficando um pouco tenso. Ela vai entender. Mulheres são compreensivas com a verdade. Posso até apostar que ela irá procurar fazer você relaxar, vai afagar seus cabelos, chamar você de fofo e sussurrar pequenas safadezas no seu ouvido, até a dita (dura) comparecer.

domingo, 25 de novembro de 2012

Broxadas 2

Por João Paulo da Silva

Quase todo mundo já broxou. E quem ainda não broxou não precisa se preocupar. Um dia a sua broxada chegará. Implacável, irremediável, inacreditável. Mais cedo ou mais tarde. É melhor que seja mais tarde. Aí dá até pra usar aquela desculpa da idade etc. e tal. Mas é isso. Desencane. Perder o tesão na hora em que você mais precisa dele pode acontecer com qualquer um. Homens e mulheres. É claro que a broxada não é uma “prerrogativa” meramente masculina. Mulheres também broxam, mesmo sem ter um pênis. Nós, seres humanos, somos criaturas hipersensíveis, muito vulneráveis a influências de fatores físicos e psicológicos.

domingo, 18 de novembro de 2012

Broxadas

Por João Paulo da Silva

Broxar é normal. Acontece. Quer dizer, desde que não aconteça sempre ou na maioria das vezes. Mas se esse é o seu caso, sugiro que procure um médico rapidinho. Existem muitos tratamentos eficazes contra a disfunção erétil (é feio falar impotência sexual). Entretanto, se você já ficou sozinho com a Scarlett Johansson dentro de um elevador, ela te dando o maior mole, e mesmo assim o tesão não veio, então desista. É melhor aposentar o “falecido” e ir criar passarinho no interior de Minas. Não insista. Vai ser vexame atrás de vexame. De todo modo, dar uma broxada ou outra na vida não é motivo para tanto desespero assim. Acontece com os melhores pintos.

domingo, 23 de setembro de 2012

O apartamento


Por João Paulo da Silva

Ele passava por ali todos os dias. Desde que ela fora embora, aquilo se tornara uma constante em sua vida. Era parte de seus dias e noites. Uma necessidade inabalável, como comprar o pão todas as manhãs ou tomar um banho todas as noites, mais para limpar a alma do que o corpo. Ficava ali, em frente ao antigo prédio dela, com os olhos presos à janela do apartamento. Esperava um sinal qualquer, um aceno, uma lâmpada acesa. Qualquer coisa que lhe permitisse compreender que podia subir, tocar a campainha, entrar no apartamento e beijar-lhe a boca pela primeira vez. Mas não. Não haveria luz acesa, nem aceno, nem qualquer tipo de sinal. Há meses ela não vivia mais ali.

domingo, 24 de junho de 2012

O ronco

Por João Paulo da Silva

Chamar o ronco do Osvaldo de ronco era eufemismo. Ronco é o ruído que você e eu fazemos dormindo. Não era o caso do Osvaldo. O dele estava mais para aquele barulho que motor de caminhão velho faz. Não, minto. Era pior. Sabe o som que vem de dentro das cavernas nos filmes de dragão? Pronto. Algo semelhante. Uma coisa horrorosa. De tão alto, ouvia-se até do lado de fora da casa. Dava a impressão de que iria derrubar as paredes. Com exceção da dona Margarida, casada com o Osvaldo há 40 anos, ninguém agüentava o ronco estrondoso. Os filhos, assim que puderam, casaram e saíram de casa. Dona Margarida não tinha essa opção. Quer dizer, até tinha, porém o amor foi maior do que o ronco. Por mais incrível que isso possa parecer nos dias de hoje. De certa forma, a esposa acabou se acostumando com a sinfonia apocalíptica do marido. A resignação, evidentemente, veio com o tempo, como quase tudo na vida. Os anos se encarregaram de tornar habitual a poluição sonora do Osvaldo. Chegou uma época, inclusive, em que dona Margarida era capaz de acordar com uma buzina na rua, mas não mais com os rugidos do marido. E ainda há gente que diz que a rotina não tem seu lado bom...

domingo, 10 de junho de 2012

10 coisas para fazer antes do fim

Por João Paulo da Silva

Todo mundo vai morrer um dia, independente da forma. Tiro, facada, acidente, infarto, câncer, atropelamento, queda de avião, intoxicação alimentar ou mesmo falência múltipla de órgãos, que é bem mais chique. Se o sistema público de saúde funcionasse direito, é verdade que não morreriam tantas pessoas como morrem atualmente, com certeza não bateriam as botas por falta de assistência médica. Mas ainda assim elas morreriam, porque morrer é o curso natural da vida, pelo menos por enquanto. Obviamente, não descarto outras possibilidades para o nosso fim, como a destruição completa do planeta, seja por uma guerra nuclear, invasão alienígena, impacto de um meteoro gigante ou a continuidade do capitalismo. Esta última, inclusive, sendo a hipótese mais provável, caso os trabalhadores não consigam fazer o mundo mudar de sistema. Bom, o certo é que vamos virar poeira em algum momento. Pode ser amanhã ou daqui a bilhões de anos. Sem dúvida, a segunda opção é melhor.

domingo, 20 de maio de 2012

O casamento

Por João Paulo da Silva

Por que é mesmo que os casamentos acabam, hein? Uma amiga minha costuma dizer que o casamento é uma instituição social falida. Não sei. Talvez até seja mesmo. Mas imagino que ela esteja se referindo àquela tradicional e conservadora forma de casamento, surgida de uma das costelas da propriedade privada, lá nos primórdios da humanidade. Um tipo de matrimônio que previa a união entre um homem e uma mulher com o objetivo principal de garantir um herdeiro ao marido para que este não perdesse suas propriedades para o vizinho. No fim das contas, uma espécie de negócio. Vale lembrar, ainda, que essa era a única razão para que as mulheres fossem obrigadas a casar virgens (algo hoje bem mais fraco, é verdade). A história de manter a pureza do corpo até as núpcias e todo o blábláblá as religiões idealizaram depois. A exigência da virgindade era só para que o homem tivesse a certeza de que ao menos o primeiro filho seria seu. Quer dizer, quando inventaram a propriedade privada e o casamento monogâmico (este só para a mulher, é claro), inventaram também, de quebra, o machismo. Bom, mas a julgar pelo positivo avanço das atuais formas de união, inclusive homossexuais, talvez seja aquele casório démodé que tenha se tornado, sim, uma instituição social falida e com os dias contados.

domingo, 6 de maio de 2012

O padeiro

Por João Paulo da Silva

Quando chegou em casa, a mulher o recebeu com um beijo e uma notícia:
- Querido, estou grávida!
- O quê?!
- Isso mesmo! Estou esperando um filho.
- Mas que maravilha! Isso é ótimo, meu amor!

Emílio sempre foi um sujeito trabalhador, o melhor funcionário da repartição. Rita, sua esposa, trabalhava em casa e era uma mulher de beleza notória, extremamente atraente. O casal vivia um momento mágico. Seus rostos esbanjavam contentamento. A chegada de um filho abriria uma nova etapa em suas vidas. Emílio não queria perder tempo e tratou logo de contar a novidade para os amigos do trabalho.
- Sabem da nova? Vou ser papai!

domingo, 4 de março de 2012

As maiores lições da vida

Por João Paulo da Silva

Ao contrário do que muitas pessoas podem achar, as grandes lições da vida não são aprendidas nos bancos das escolas ou das universidades. Aquilo que muitas vezes é imponderável, que nos decifra intimamente e nos ensina a viver, não está nos livros de física, química ou biologia. Não estou menosprezando o conhecimento acumulado pela humanidade. Longe de mim! Que Marx me livre de dizer um absurdo desses. Conhecimento é fundamental para entender o mundo e o que há nele. Mas não é disso que estou falando.

A ciência pode explicar a razão de estarmos aqui, como o universo funciona, por que os animais evoluem e o que havia no planeta antes de nós nos tornarmos a espécie dominante. A ciência pode esclarecer quase tudo, e o que ainda não foi esclarecido é só uma questão de tempo. Entretanto, as grandes lições da vida não são ensinadas dentro das salas de aula. É nas ruas que elas são aprendidas. Nos pontos de ônibus, nas mesas de bar, nas praças, na padaria da esquina. A rua é a maior escola para as maiores lições.

domingo, 18 de setembro de 2011

Canibal

Por João Paulo da Silva

Você não sabe o que é voltar para casa todos os dias com uma dúvida lhe devorando o juízo.

Ele sobe as escadas sentindo o cheiro forte do alho que vem da cozinha. Da cozinha do seu apartamento. Para diante da porta, gira a chave, torce a maçaneta e, antes de abrir, pensa meio perturbado:
- É hoje. Só pode ser hoje.

domingo, 19 de junho de 2011

Obsoletos

Por João Paulo da Silva

Uma pesquisa publicada recentemente na revista Nature trouxe uma revelação importante sobre o papel social das mulheres na pré-história e em nossos dias atuais. A análise de paleontólogos da Colorado University Boulder, nos Estados Unidos, indica que as fêmeas das espécies Australopithecus africanus e Paranthropus robustus, que viveram há mais de um milhão de anos, no sul da savana africana, passavam a maior parte do tempo caçando, enquanto os machos ficavam em casa lavando os pratos. Os pesquisadores chegaram a esta conclusão graças a um estudo realizado com 19 dentes que pertenceram a estes nossos parentes mais peludos. A observação aponta que mais da metade dos dentes femininos foi encontrado longe do local onde viviam as espécies, contra apenas 10% dos dentes dos homens, o que sugere que a macharada vivia cuidando do lar e as fêmeas saiam para conseguir comida.

Todas as pesquisas honestas que se debruçam sobre existência da vida humana na Terra caminham no sentido de mostrar que, antes da civilização, da propriedade privada e do casamento monogâmico, não havia essa conversa mole de “trabalho de homem” ou “trabalho de mulher”. As mulheres nem sempre dependeram dos homens, como gostam de afirmar os defensores do machismo. Mesmo porque essa propalada dependência foi imposta logo depois que os homens surrupiaram boa parte das invenções e descobertas das mulheres. Se observarmos atentamente a história, perceberemos um fato: em casa ou na rua, foram elas que começaram a longa jornada que arrastou a humanidade até aqui.

Eu já sabia que tinham sido as mulheres as responsáveis pelo desenvolvimento da cerâmica, da curtição de peles, da tecelagem e da construção de habitações. Até as primeiras experiências da botânica, da química e da medicina começaram com elas. A mesma coisa com a colheita de frutos, o cultivo da terra e a domesticação de animais, entre eles o próprio homem. Entretanto, agora, com esta novidade sobre as mulheres caçadoras, estou ainda mais convicto de que elas possuem condições de atuar em todas as áreas de atividades humanas. Mesmo com o capitalismo barateando a mão de obra feminina para nos explorar cada vez mais, é inegável que as mulheres estão ocupando profissões e espaços antes dedicados exclusivamente ao sexo masculino. Inclusive, o número de famílias chefiadas por elas tem aumentado bastante.

Mas por que estou fazendo todo esse preâmbulo? Já me explico. Considerando que as mulheres assinam a obra social de praticamente toda a pré-história e que, nas últimas décadas, depois de milênios de opressão e exclusão, elas reiniciam sua jornada em busca da igualdade, eu sou obrigado a aceitar que nós, homens, estamos obsoletos. Nem mesmo para ter filhos e prazer as mulheres precisam mais de nós. Hoje, a ciência e uma infinidade de “brinquedinhos” sexuais já dão um jeito nisso. Durante muito tempo, acreditamos cegamente que elas sempre necessitariam de nossas habilidades para realizar as tarefas mais pesadas, como matar baratas e instalar a antena parabólica. Entretanto, acabei descobrindo, da pior forma possível, que perdemos totalmente a utilidade.

Era domingo. Em casa, eu e minha companheira aproveitávamos o dia de folga. Estávamos deitados no sofá vendo TV, quando ela falou:
- Tô com um pouco de fome. Acho que vou pegar alguma coisa pra comer na cozinha.

Instantes depois, ela voltou com um pote de azeitonas aberto. Espantado, perguntei:
- Você abriu isso sozinha?!
- Abri.
- Como assim “abri”?! Por que não me chamou?!
- Porque não foi preciso. Eu mesma abri, ué! Pode ser?!

Aquilo me deixou abatido e me fez pensar seriamente no futuro sombrio que nos espera. O que será do gênero masculino se, por exemplo, não pudermos mais abrir potes de azeitonas?! É uma triste constatação, eu sei. Estamos ficando cada vez mais obsoletos. Mulheres, eu vos imploro! Tomem o mundo, mas nos deixem ao menos trocar as lâmpadas.

domingo, 20 de junho de 2010

Ninguém se importa com Luciene

Por João Paulo da Silva

Luciene tem 30 anos, duas filhas e uma infecção hospitalar, contraída após a cesariana que trouxe sua segunda filha ao mundo. Luciene mora na zona rural de uma cidade pequena, não tem emprego, é pobre e infeliz. No hospital em que está internada, com a recém-nascida no colo, ela contou sua história para a enfermeira da maternidade. Nada de novo, nada que não já se conheça. A história de Luciene é igual a de milhões de outras pessoas, um plágio da miséria e do abandono cotidiano, diferente apenas em seus detalhes de tristeza particular. Luciene, assim como várias Marias, Joanas, Ritas e Denises, é o retrato amarelado e subnutrido da ausência de qualquer vestígio de dignidade.

Despojada do mínimo de afeto humano, Luciene é refém de um chantagista emocional, a quem ela chama de “amor”. “Ele sempre diz que vai me abandonar se eu não voltar logo pra casa.”, diz ela, angustiada por ainda não poder receber alta. A filha mais velha, de cinco anos, uma vez ligou para reclamar a ausência da mãe. “Ela me disse que vai acabar perdendo o ano na escola porque eu não estou lá pra levar ela.”, diz Luciene, que não tem família nenhuma. A mãe morreu. E o pai nem merece ser chamado assim. Depois de uma briga com a filha, ele parou de pagar a água da casa em que ela mora.

Luciene não vive nem sobrevive. Ela apenas recebe o Bolsa Família. São R$ 90 destinados a garantir o impossível. Com esta quantia, nem se come direito. O próprio presidente, que se orgulha desta institucionalização da miséria, gasta bem mais do que R$ 90 consigo mesmo em um único dia. As pessoas que recebem o Bolsa Família, assim como Luciene, não continuam vivas por causa deste dinheiro, pois isto é na verdade impraticável. Permanecem respirando apenas por insistência própria, talvez por obra de alguma espécie de pacto misterioso com seus estômagos.

Há bem mais tristezas na história de Luciene. Mas que não continuarão a ser ditas por uma razão muito óbvia. Luciene não quer ser literatura, não quer ser notícia, muito menos crônica. Luciene quer apenas que alguém se importe com ela. O que até agora ainda não aconteceu.

domingo, 9 de maio de 2010

A mulher amada

Por João Paulo da Silva

Para a mulher amada fazemos de tudo. Reservamos o que há de melhor em nós mesmos e amamos ao extremo. Porque se não for assim não vale a pena. Um homem não pode passar pela vida e não amar uma mulher, não dar a ela sua cota de humanidade. A mulher amada é aquela que se inscreve em nosso sangue com a força de uma queimadura. É a essa mulher que entregamos nossos olhos, mãos, boca, sexo, sonhos e coração.

Para a mulher amada, cedemos o peito todas as noites para que durma tranquila, sempre garantindo a ela que estaremos vigiando seu sono a fim de que não haja sobressaltos. Para a mulher amada só se fala a verdade, pois mentir é constatar a ausência de amor. A ela, dizemos “eu te amo” em todas as línguas, ainda que com erros de ortografia. Fazemos cafuné e massagem no pé. Antes, durante e depois do café. Mesmo para as que têm caspa e frieira. Para a mulher amada, é preciso fazer um poema a cada amanhecer, porque só com a literatura é possível registrar os amores.

Para a mulher amada, levamos flores e bombons, como faziam os sábios antigos. Só para ela mandamos cartões de amor com corações vermelhos e abobalhados. É só para esta mulher que ao homem é permitido transforma-se em menino, correr nu pela praia e subir na mesa do bar para gritar eu te amo. Pela mulher amada fazemos sacrifícios. Saímos para comprar jaca de madrugada, aprendemos a comer linhaça e a gostar do Paulo Coelho. Em casos extremos, até deixamos de torcer pelo Flamengo. Mas isso pode ser negociado.

Pela mulher amada, nós nos rendemos à pieguice, criamos apelidos cômicos e fazemos todo tipo de dengo para cativá-la. Mandamos inúmeras cartas perfumadas, mesmo morando uma rua depois dela. Porque só o ridículo salva o amor da frieza do mundo. Pela mulher amada, invadimos a casa do vizinho para roubar as mais belas flores, que dinheiro nenhum seria capaz de pagar. Trocamos o dia pela noite, só para ficar horas observando o jeitinho bonito que ela tem de dormir, e aceitamos todos os cutucões durante a noite para pararmos de roncar. Por fim, pela mulher amada, esperamos o tempo que for preciso. Sem vacilar.

domingo, 7 de março de 2010

O lugar da mulher

Por João Paulo da Silva

Como prova de que este cronista odeia ver injustiças, hoje pretendo esclarecer algumas mentiras a respeito das mulheres. Você, obviamente, já escutou (ou até mesmo já disse) que “lugar de mulher é em casa, cuidando dos filhos e do marido”. Ou ainda que determinada ocupação “não é trabalho para uma mulher”. Ou talvez muito pior: “por natureza, a mulher é um sexo inferior ao homem”.

Durante vários séculos, milênios até, bravatas como essas foram difundidas mundo afora. Na verdade, foram tão espalhadas que mesmo algumas mulheres acreditaram nessas lorotas. Entretanto, nada mais justo do que mostrar os fatos e revelar o real lugar das mulheres na sociedade. E eu dou oitenta chibatadas naquele que disser que é a cozinha.

Para não me acusarem de leviano, tudo o que eu disser aqui estará amparado por estudos antropológicos de gente importante, como Lewis Morgan, J.J Bachofen, Robert Briffault, Gordon Childe e Tufton Mason. Bom, é só um aviso para os machistas de plantão.

A vida humana na Terra tem mais ou menos 1 milhão de anos. Deste tempo, quase 99% diz respeito ao período da pré-história, na qual as sociedades primitivas reinavam absolutas, sem nenhuma forma de desigualdade social e sem qualquer tipo de abuso sobre as mulheres. A civilização, como nós a conhecemos, com a divisão em classes sociais, o casamento monogâmico e o machismo, é praticamente um bebê na história da humanidade. Tem pouco mais que 5 mil anos. Isto significa dizer que nem sempre a sociedade foi como é hoje. E, claro, nem sempre foram os homens que deram as ordens. Não fossem as mulheres, os homens ainda estariam se balançando em galhos e a humanidade não teria chegado aonde chegou.

Nas sociedades primitivas, a economia era comunitária e ninguém era dono de nada. Tudo o que fosse colhido ou produzido pertencia a toda a tribo. Essa forma de organização social garantia a igualdade entre todos, sob todos os aspectos. Neste período, por exemplo, as mulheres gozavam de prestígio, respeito e eram sexualmente livres. Não precisavam casar para ter o sustento do dia a dia.

Em nossa sociedade de classes, costuma-se dizer que por causa de suas funções reprodutoras a mulher é um ser frágil e inferior. Antigamente, porém, as coisas não funcionavam assim. Era justamente em razão de sua maternidade que a mulher era tão importante na sociedade primitiva. Era o famoso matriarcado.

A responsabilidade pela perpetuação da espécie estava nas mãos dela. Se morressem vários homens, isso não representava um grave problema. Entretanto, se morressem muitas mulheres, aí o negócio complicava. Exatamente por isso que em várias tribos a caça era uma atividade masculina. Não por uma questão de vigor físico e habilidade, mas de importância.

Foi o fato de ficarem nas aldeias para cuidarem da tribo que transformou as mulheres em produtoras e organizadoras da vida social. Você não faz ideia do que nós devemos às mulheres. Mas vou resumir.

Como os homens passavam dias caçando e correndo atrás de mamutes, as mulheres começaram a desenvolver a colheita de frutos. Afinal, não dava pra confiar que os machos voltariam com comida para a tribo. Às vezes, nem eles mesmos voltavam. Assim, a colheita era uma garantia maior.

Depois, as mulheres passaram para uma horticultura bem rudimentar até chegarem ao cultivo mais especializado da terra com a agricultura. Isso permitiu que elas desenvolvessem a maior parte dos instrumentos, conhecimentos e técnicas de conservação de alimentos que temos notícia. Mas não pararam por aí.

Enquanto a gente corria atrás dos mamutes, elas criavam utensílios e galpões para armazenar a comida produzida. Desenvolveram a cerâmica, a curtição de peles, a tecelagem e a construção de habitações. As primeiras descobertas e experiências da botânica, da química e da medicina também foram obras das mulheres. “Ficando em casa”, elas edificaram o progresso social.

Foram elas as primeiras agricultoras, trabalhadoras industriais, engenheiras e professoras, já que era necessário desenvolver a inteligência para passar toda a herança cultural para as outras gerações. Até o domínio do fogo e a domesticação de animais são responsabilidades delas, que aprenderam com isso a caçar pequenos roedores. As mulheres fizeram tudo. E nós, homens, onde estávamos? Correndo atrás de mamutes, claro.

As primeiras mulheres passaram quase 1 milhão de anos trabalhando no desenvolvimento da base de tudo que conhecemos. Entre descobertas e experiências, as mulheres fizeram a humanidade avançar. Garantiram, inclusive, a emancipação dos homens, que pegaram uma baita de uma carona em todo o trabalho feito pelas mulheres. Até mesmo o mérito da criação de nossa linguagem articulada pertence a elas. Como estavam sempre juntas trabalhando e nós, homens, precisávamos ficar em silêncio para caçar, as mulheres acabaram por desenvolver a fala. Não é por acaso que hoje elas são as melhores oradoras e escritoras.

Um último exemplo, muito emblemático por sinal. Aquela história de que, por natureza, as mulheres são fisicamente inferiores aos homens também é lorota. Como trabalhavam duro, elas desenvolveram os músculos e muitas vezes carregavam pesos que nenhum outro homem da tribo conseguia carregar.

Só há um aspecto da evolução humana, na época das sociedades primitivas, em que as mulheres falharam: a depilação. Segundo alguns estudos, o hábito feminino de se depilar surgiu apenas no período da civilização e Cleópatra teria sido a primeira mulher no mundo a fazer depilação. Quer dizer, por quase 1 milhão de anos as mulheres foram seres peludos.

Bobagens a parte, resta dizer que toda essa organização social regida pelas mulheres primitivas foi usurpada e deturpada pelos próprios homens, que se apoderaram de tudo o que foi desenvolvido e fundaram a propriedade privada, as classes sociais, o machismo, o casamento monogâmico e toda essa porcaria de sociedade que temos hoje.
Enfim, o verdadeiro lugar da mulher é no comando do mundo. Hora de devolvê-lo a elas. Às trabalhadoras, claro.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Jurassic Park

Por João Paulo da Silva

Parece que, por mais que o tempo avance, ainda existem situações e setores sociais que insistem em nos puxar para o buraco, para o retrocesso. Algo como um retorno a épocas remotas, medievais, jurássicas até. Acho, inclusive, que há pessoas que adorariam voltar para dentro das cavernas. O caso da estudante de Turismo da Uniban, Geisy Arruda, agredida por usar um vestido curto dentro da universidade, é um daqueles exemplos que nos faz reviver os tempos do “uga-buga”. Mas não é só isso. Lamentavelmente, a barbárie de São Bernardo do Campo revelou – da pior forma possível – que a violência machista segue nos perseguindo e perturbando, como uma espécie de sombra do grotesco.

Quando vi, pela primeira vez, as cenas que mostram a estudante sendo assediada por uma multidão enlouquecida, juro que pensei estar vendo o Animal Planet, da Discovery Channel. Sim, porque não eram pessoas naquele vídeo. Eram animais, gritando, uivando, subindo pelas paredes. Os diversos e medonhos xingamentos, recebidos pela moça, mostraram quanto atraso nós ainda temos nesta sociedade. E o pior: demonstraram, também, que o machismo não é um problema dos séculos passados, já que esta mesma sociedade não pode viver sem transformar mulheres em objetos consumíveis e descartáveis.

Mas, se a selvageria daqueles estudantes já era um ato de violência inconcebível, muito pior foi a legitimidade que a direção da universidade deu àquelas ações bestiais, quando expulsou a vítima do caso. A decisão da Uniban se iguala ao crime de culpar uma mulher estuprada pela violência sofrida, alegando que suas roupas teriam provocado os instintos do estuprador. Uma agressão imensurável. E mesmo com a universidade revogando a expulsão da estudante, por conta das pressões recebidas, o mal já está feito. Cabe, agora, uma reflexão sobre o tipo de sociedade que temos e aquela que queremos.

Geralmente, quando digo que mazelas como estas da Uniban são alimentadas pelo capitalismo, algumas pessoas dizem que sou um ultrapassado, que isso é coisa lá do século 19. Entretanto, ironicamente, os fatos insistem em me dar razão. Não é o tipo de sociedade que defendo que não tem mais espaço na História. É exatamente esta em que vivemos que não nos serve mais. Ora, o que esperar de um sistema social que vende mulheres em bancas de jornal, em filmes pornográficos, em programas de TV e campanhas publicitárias? Só desrespeito e violência, obviamente.

Eu não sei vocês, mas não me agrada nenhum pouco a ideia de voltar à Era dos tacapes e do “uga-buga”.
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Obs.: Por problemas técnicos, o blog As Crônicas do João fez sua postagem hoje, e não ontem como esperado. Obrigado.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Detalhes

Por João Paulo da Silva

Oportunidades são perdidas, casamentos se desfazem, amizades terminam e amores são abortados antes mesmo de começarem. Tudo isso por causa dos detalhes. Por menores e mais insignificantes que pareçam, os detalhes podem decidir os rumos de nossas vidas. Pense quanta coisa deixou de acontecer porque você simplesmente não deu a devida atenção aos detalhes. Ou, ainda, fatos que poderiam ter sido evitados caso você tivesse percebido o papel decisivo dos detalhes nas relações humanas.

A maioria de nós – muitas vezes de forma inconsciente – está sempre querendo se convencer de que os pormenores da vida não têm lá essa importância toda. A verdade, entretanto, é que os pequenos aspectos de nossa existência acabam realmente ocupando um grande espaço na hora das definições, ainda que muitos não percebam isso. Eu, por exemplo, em várias ocasiões da vida subestimei a força dos detalhes. E foi justamente por esta razão que acabei perdendo alguns dos amores que me apareceram. Detalhe é fogo.

Primeiro foi a Jéssica, quando eu tinha uns 7 ou 8 anos. Loira, cabelos encaracolados, magra, rostinho de anjo, linda. Parecia uma modelo gaúcha. E o melhor: na 2ª série do primário, sentava ao meu lado na escola. Era uma companhia inseparável, fazíamos tudo juntos. Aí foi pintando aquela paixãozinha de infância, de ambas as partes. E eu teria conseguido namorar a Jéssica se ela um dia não tivesse notado uma verruga que eu tinha no indicador da mão direita. Foi o fim. Dali em diante, a Jéssica não podia olhar para a minha verruga que tinha logo ânsias de vômito. Aí mudou tudo. Bastava eu chegar perto para ela gritar: “Sai daqui, João! Não chega perto com essa coisa!”. Maldito detalhe.

Depois veio a Pâmela, aos 11 anos. Também na escola. E também loira e linda. Chegamos até a trocar cartinhas carinhosas e a dividir o lanche no recreio. Parecia coisa séria mesmo. Apostei todas as minhas fichas. Estava convicto. Nada impediria aquela iniciante história de dar certo. No dia em que eu havia decidido pedi-la em namoro, ocorreu a tragédia. Durante o intervalo das aulas, no pátio da escola, em meio a outros colegas, eu e a Pâmela conversávamos. Não lembro exatamente o quê, mas alguém na hora contou um caso que me fez rir bastante. Graças à crise de riso, acabei deixando escapar um sonoro pum. Ficou todo mundo me olhando estranho, principalmente a Pâmela que fez logo uma careta. Pronto. Não deu outra. Estava claro que a relação não se sustentaria diante daquele pum. E não adiantou eu argumentar que tinha sido apenas um punzinho e tal. Um pum era sempre um pum. Perdi a Pâmela e ainda ganhei um apelido, que obviamente não revelarei aqui.

Com a Luana, minha vizinha, tinha tudo para ser diferente. Mesmo porque, aos 12 anos, eu era praticamente um homem. Já tinha até bigode. Bem fininho, é verdade. Mas ainda assim um bigode. E um verdadeiro homem jamais se submeteria a vexames como os que eu tinha passado. Afinal, o momento era outro. A Luana apertava as minhas bochechas, me dava bitoquinhas (selinhos) e dizia que se casaria comigo quando eu crescesse. Mas eu não estava disposto a esperar e sempre respondia prontamente:

- Não é melhor a gente casar primeiro?! Aí você me espera sem perigo nenhum, porque já vamos estar casados mesmo.
Ela sorria e dizia para a minha mãe:
- Uma graça esse seu filho, né?!


Um dia resolvi dar um ultimato naquela história. Arrumei uma bolsa, coloquei umas roupas e fui para a porta da casa da Luana, esperá-la voltar do trabalho. Quando ela chegou à noite e me viu cochilando, ficou toda compadecida. Falei que estava ali pronto para me casar e que não aceitaria um “não” como resposta. Mas aí a Luana veio com uma conversa de que havia um pequeno detalhe que impediria nosso casamento.

- Qual? – eu quis saber.
Ela riu, provavelmente achando graça da postura de homem que eu estava querendo assumir.
- Nossa idade, querido.
- Mas por quê? Só por que você tem 22 anos e eu tenho 12?! Isso é só um detalhe, Luana.

Eu, porém, ainda não compreendia a força decisiva que possuem os detalhes. Só depois o tempo faria o favor de me ensinar. É como me disseram uma vez: “No amor e na guerra, o importante são os detalhes”.

Você duvida? Eu não.
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Obs.: Por motivos de trabalho acumulado, excepcionalmente desta vez o blog As Crônicas do João está fazendo sua postagem na segunda-feira. No próximo domingo, tudo voltará ao normal. A mesma justificativa vale para as duas semanas em que não houve postagem. Abraços.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Dona Ritinha

Por João Paulo da Silva

Dona Ritinha mora em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Vive sozinha em sua casa e deve estar hoje na casa dos oitenta anos. Eu não a conheço pessoalmente, e o pouco que sei me chegou aos ouvidos através de um amigo. Fisicamente, só posso imaginá-la. Provavelmente tem longos cabelos grisalhos, o rosto cortado de rugas e um andar encurvado. Não sei ao certo. Sei apenas que sua única companhia é a presença incômoda da solidão. Acho que dona Ritinha é uma mulher infeliz.

Teve três filhos. Dois meninos e uma menina. De seu marido, não sei nada. Não sei se está vivo, morto ou entrevado. Já dos filhos, sei que os criou com todo o afeto que as mães possuem, mesmo as piores e mais desatentas. O amigo que me falou de dona Ritinha me disse que ela é uma pessoa muito amável e faladeira. Adora contar histórias. Registra tudo que pode em sua memória idosa. É a resistência da tradição das narrativas orais, muito comuns entre os velhos de tempos mais velhos ainda.

Outro dia, o tal amigo me fez conhecer uma história sobre a própria dona Ritinha. Depois de criados, os filhos desta velha senhora se foram. Tomaram seus rumos. Cada qual seguiu seu caminho. Um a um, foram deixando a casa onde cresceram sob os cuidados da mãe. E dona Ritinha os viu partir como se fossem pedaços que se desprendem do corpo com o tempo. Quando deu por si, estava só, cheia de ausência numa casa que parecia dobrar de tamanho com o passar dos anos. É verdade que os filhos mandavam notícias, apareciam de vez quando. Mas não era a mesma coisa.

Um dia, dona Ritinha resolveu pôr a casa para vender, com plaquinha de “vende-se” e tudo na porta. Começaram a aparecer interessados. Gente querendo olhar a casa, saber das condições e do preço. Dona Ritinha mostrava tudo. Falava dos cômodos, das instalações, do encanamento e da excelente fiação elétrica da casa. A velha senhora havia cuidado de seu lar como cuidara dos filhos e passava horas conversando com os possíveis compradores sobre as maravilhas do lugar. Entretanto, o negócio sempre esbarrava no preço.

Dona Ritinha cobrava uma fortuna pela casa. Os anos passavam e ninguém comprava o imóvel, embora quase toda semana aparecessem compradores interessados. Mas o alto valor sempre impediu a venda. Até hoje a plaquinha de “vende-se” continua na fachada da casa. Dia desses, porém, o tal amigo que me contou a história quis saber quanto dona Ritinha pedia pela casa. Ficou abismado.

- Mas também com um preço desses a senhora não vai conseguir vender nunca.
- E quem disse que eu quero vender esta casa, meu filho?
- Então por que diabos a senhora pôs essa placa de “vende-se”?
- Porque, graças a ela, de vez em quando aparecem pessoas para conversar comigo e me fazer companhia, mesmo que por algumas horas.

Sei que não há leis para isso, mas acho que deveria ser proibido ficar sozinho nessa vida.

domingo, 26 de abril de 2009

Meu encontro com Maitê

Por João Paulo da Silva

Há sempre o risco de uma decepção quando criamos muitas expectativas sobre as pessoas. Você pensa uma coisa, aí chega na hora e... pimba! É outra. Sei que é difícil não criar expectativas, mas imagino que o melhor ainda seja não idealizar nada. Embora eu mesmo não consiga seguir essa dica, acredito que o tombo é menor quando se está com os pés no chão. É claro que para quem não se abate com decepções tudo o que eu disse até agora não faz o menor sentido. Enfim, deixa pra lá.

Não posso dizer que meu primeiro encontro com Maitê Proença foi uma completa decepção. Seria injusto da minha parte. Porém, sei lá, fiquei com a sensação de que poderia ter sido melhor. Não unicamente por causa dela, claro. Mas por causa das circunstâncias. Se no lugar daquele auditório lotado, estivéssemos só nós dois num jantar à luz de velas... ai, ai, ai. Calma. Tudo bem. Foi apenas uma brincadeira infame.

Obviamente, não foi o que aconteceu. Na última sexta-feira, 24 de abril, fui assistir a uma palestra da Maitê, seguida do lançamento de seu livro: Uma Vida Inventada. No caso da Maitê–atriz, talento inquestionável. Mas sobre a escritora ainda não tenho opinião formada. Não li muita coisa.

Durante pouco mais de uma hora, ela falou sobre um tema espinhoso: mulheres. Manias, defeitos, qualidades, lugares que ocupam na sociedade contemporânea etc. Ao final, tive a impressão de que ela tinha falado de um mundo que não existia ou, na melhor das hipóteses, de mulheres que eu não conhecia.

Maitê falou que as mulheres começavam a conquistar espaço na sociedade e que, futuramente, o mundo governado por elas seria mais pacífico, como se a essência das guerras se reduzisse a níveis de testosterona ou de estrogênio. Na hora, pensei: Condoleezza Rice e Hillary Clinton adorariam a palestra. Não é que eu tenha me decepcionado, mas não esperava ouvir da Maitê o discurso da High Society.

Em todo o caso, o evento foi divertido. Principalmente quando a platéia pode fazer perguntas. É impressionante como em qualquer lugar sempre há um panaca. Duas filas depois de mim, um sujeito pediu para fazer uma pergunta e acabou ficando uns dez minutos elogiando a beleza da Maitê. Do meu canto, eu quase gritei: “Pede logo o telefone dela, rapá! Quer que a gente saia pra nao atrapalhar?”.

De fato, era uma palestra para a alta sociedade. De pobre mesmo, acho que só eu, meu irmão e a namorada dele. Até a ex-prefeita de Maceió, Kátia Born, apareceu. Achando que o microfone era para um discurso, ela quase esqueceu de fazer a pergunta e aproveitou para falar da própria carreira política.

Kátia Born fez questão de lembrar dos seus dois mandatos como prefeita de Maceió. Novamente, do meu canto, eu tive que me segurar para não gritar: “Todo mundo lembra, Kátia! E, por acaso, dá pra esquecer os estragos?!”. Só me contive porque estava em território inimigo e em menor número.

Depois da palestra, fomos todos para os autógrafos e os “comes e bebes”. Alguns mais para os comes e bebes do que para os autógrafos. Não pude deixar de notar a falta de educação da própria High Society. Flagrei uma senhora, num vestido impecável, enfiando uns cinco ou seis docinhos na boca, um atrás do outro. Pela voracidade com que comia, a fera provavelmente estava há dias sem se alimentar. Terminado o banquete, a mulher ainda limpou a mão gordurosa na toalha branca da mesa. Por pouco eu não atirei um canapé na cabeça da velha.

Após esperar quase uma hora numa fila, tive meus segundos de proximidade com a Maitê. E não perdi tempo. Além do autógrafo e da foto, consegui uma troca de olhares que só nós dois sabemos o que significou. De perto ninguém é normal, diz Caetano Veloso. Eu digo que de longe Maitê Proença é linda. De pertinho, uma deusa. Sei que isso não redime ninguém, mas na hora não lembrei desse detalhe.

Antes de sair, entreguei a ela um bilhete com umas poucas palavras. Coisa simples. Algo sobre um jantarzinho à luz de velas e tal...
Estou otimista.