domingo, 6 de maio de 2012

O padeiro

Por João Paulo da Silva

Quando chegou em casa, a mulher o recebeu com um beijo e uma notícia:
- Querido, estou grávida!
- O quê?!
- Isso mesmo! Estou esperando um filho.
- Mas que maravilha! Isso é ótimo, meu amor!

Emílio sempre foi um sujeito trabalhador, o melhor funcionário da repartição. Rita, sua esposa, trabalhava em casa e era uma mulher de beleza notória, extremamente atraente. O casal vivia um momento mágico. Seus rostos esbanjavam contentamento. A chegada de um filho abriria uma nova etapa em suas vidas. Emílio não queria perder tempo e tratou logo de contar a novidade para os amigos do trabalho.
- Sabem da nova? Vou ser papai!

A felicidade do casal era indescritível. Foi uma questão de dias para que toda a vizinhança tomasse conhecimento do fato. Emílio acompanhava os estágios da gravidez com bastante alegria. Não havia nada mais emocionante no mundo do que observar o crescimento da barriga de Rita. As primeiras mexidinhas, os primeiros chutes. O júbilo de Emílio aumentou ainda mais quando o exame de ultrassom revelou que o bebê era um menino. A vida era boa.

Os meses passavam e o casal se apressava na preparação do enxoval. Emílio encarregou-se de providenciar o nome da criança. Achou que Júlio seria perfeito. Rita cuidava da mobília do novo quarto com um imenso carinho e Emílio passou a comprar brinquedos aos montes. A vida lhe parecia ser realmente maravilhosa.

Finalmente, o grande dia chegou. Rita foi levada às pressas para a maternidade. Emílio não teve coragem de presenciar o parto e resolveu esperar fora da sala de operações. Tinha as mãos trêmulas e a boca ressequida. Andava aflitivamente de um lado para o outro. Estava visivelmente ansioso. Sabia que precisava se acalmar. Afinal, o que poderia dar errado?

Algum tempo depois, uma enfermeira lhe comunicou que o bebê havia nascido. Emílio perguntou, nervosamente, onde estava a criança. A enfermeira o levou até o berçário. Por trás de um vidro de proteção, ela apontou o recém-nascido. Emílio sentiu um baque no coração, um desfalecimento. Segurou-se para não cair. O suor lhe empapava a camisa. Não quis acreditar no que estava vendo. A criança era negra.

Achou melhor não comentar nada com a mulher. Não era hora para criar caso. Tentou agir naturalmente. Passou-se uma semana. A aflição lhe corroia o juízo. Decidiu, então, procurar o médico que acompanhou o período de gestação de Rita.
- Eu não entendo, doutor. Como é que isso pode acontecer?
- É simples, rapaz. Provavelmente, você ou sua esposa tem um parente negro na família.
- Eu não tenho nenhum parente negro, doutor.
- Mas sua mulher deve ter, meu caro.
- Ainda não entra na minha cabeça, doutor. Rita e eu somos brancos, e o moleque nasceu preto! Não consigo entender! Aí tem coisa!
- Ouça, as circunstâncias genéticas explicam facilmente o fato. Não é muito comum, é verdade. Mas acontece. E isso não é motivo para tirar conclusões precipitadas. Veja, se você quiser uma prova maior, basta fazer um exame de DNA. Pronto.
- E funciona?
- Sim. A margem de erro é mínima. Mas eu acho que você deveria conversar primeiro com sua esposa sobre o assunto. Ela pode ficar ofendida.
- Não se preocupe, doutor, eu falarei com ela. Muito obrigado.

Emílio chegou em casa taciturno, parecia carregar um continente inteiro nas costas. Não sabia como falar. Meio encabulado, começou:
- Querida, você...você me ama?
- Que pergunta besta, Emílio. Você sabe que eu te amo.
- É. Eu sei. Mas... é que...
- Escuta, o que é que você tem? Qual é o problema? Você está tão esquisito. Aconteceu alguma coisa?

Emílio sentia-se inquieto. Parecia haver um revoar de abelhas em seu estômago. Aquela era uma situação nova e constrangedora. Passou as mãos pelos cabelos, encheu o peito de ar e disparou:
- Rita, você já me traiu? Você tem outro?

A mulher o olhou de uma forma inexprimível e, secamente, disse:
- Por que está me perguntando isso, Emílio? Que história é essa agora? Já sei! É porque a criança é negra, não é? Você acha que por sermos brancos...
- Não. Não é nada disso, querida. Quer dizer...
- Olhe aqui, nunca houve outro homem em minha vida além de você! Assim você me ofende.
- Me desculpe, meu bem. É tudo tão novo e estranho pra mim. Eu não sei o que pensar. Conversei com o seu médico hoje. Ele me indicou um exame de DNA.
- Negativo! De jeito nenhum, Emílio! O que você pensa que eu sou? Seria uma ofensa bem maior. Se você insistir no exame, nosso casamento está acabado!

Emílio sempre foi desvairadamente apaixonado pela mulher. Não queria perder a Rita por nada nesse mundo. Acuado e sem palavras, acabou aceitando a decisão da esposa. Resolveu que, dali por diante, não tocaria mais no assunto. Iria tentar viver com o fardo da dúvida. E, quem sabe, poderia até esquecê-la.

Os dias, as semanas e os meses passavam e aos poucos Emílio se aproximava mais do filho. Começava a se convencer de que realmente era o pai. A vida parecia estar voltando ao normal e ele sentia a alegria do passado ser retomada. A incerteza estava assumindo um caráter relativo. O tempo, de fato, fazia milagres. Júlio tinha agora não mais do que cinco meses de idade.

Numa segunda-feira de céu nublado, ao voltar do trabalho, Emílio viu sair de sua casa um homem. Negro, alto e corpulento. Era Gilmar, o padeiro. Sentiu uma sensação esquisita no corpo, um incômodo que ele não sabia dizer exatamente de onde vinha. Enfim, feito uma flecha, uma pergunta lhe atravessou a cabeça. “O que estaria fazendo o padeiro em minha casa?”. Entrou e foi logo perguntando:
- O que queria o Gilmar?

Rita respondeu com serenidade.
- Ele veio trazer o pão que pedi. O Julinho estava dormindo. Eu não queria sair e deixá-lo sozinho. Aí telefonei para a padaria e o Gilmar trouxe o pão. Muito gentil da parte dele. Você não acha?
- É, acho sim. – disse vagamente.

Emílio sentia um cisco no entendimento. Era algo lhe cutucando as ideias, uma desconfiança profunda a lhe povoar a cabeça. Uma espécie de presságio. Foi até o quarto do filho. Devagar, como quem teme alguma coisa, Emílio debruçou-se sobre o berço. E olhando a criança com uma atenção que jamais desprendera, julgou reconhecer no rosto do bebê os traços do padeiro Gilmar.

A desconfiança voltou mais forte e passou a lhe consumir a vida. Era-lhe um punhal cravado ao peito. Um punhal que se afundava ainda mais com o passar do tempo. Os anos corriam e Julinho ficava cada vez mais parecido com o padeiro, pelo menos aos olhos de Emílio. A semelhança estava se tornando insuportável. O cabelo duro, os olhos fundos e os lábios grossos denunciavam o negro corpulento. A situação causava-lhe dor física.

Mas suportava tal desconforto como um bravo. Não deixava que o filho, aquele pobre inocente, percebesse nada. Tratava-o com naturalidade. O pior de tudo era cruzar com o Gilmar na rua. Emílio evitava lhe dirigir a palavra. Mal olhava o padeiro nos olhos. No fundo, entretanto, desejava esbofetear-lhe a cara, enfiar-lhe uma faca no bucho, meter-lhe uma bala no peito. Quanto à Rita, por estar cego de amor, não lhe sentia ódio. E ainda que a odiasse, ele não tinha provas contra a fidelidade da mulher.

No trabalho, os amigos nada comentavam. O filho de Emílio nunca foi assunto. Não queriam magoá-lo. Mas os vizinhos não poupavam olhares enviesados. O silêncio fingido dos amigos e o descaramento dos vizinhos estavam deixando Emílio louco. Chegou a pensar que morreria de desgosto. Precisava fazer alguma coisa. Mas o quê? O exame de DNA estava fora de questão. Quanto ao Gilmar, nada podia fazer. Forçar uma confissão? A troco de quê? E como? Com violência? Até tinha vontade, mas não era disso. Estava numa encruzilhada. As circunstâncias haviam lhe pregado uma peça.

Entretanto, da mesma forma que a vida ata seus nós, ela também um dia os desata. Assim, numa bela manhã de domingo, durante o café, com a família reunida, Emílio fez uma despretensiosa pergunta ao filho:
- O que você pretende ser quando crescer, meu rapaz?

Julinho – agora com sete anos de idade – olhou para o pai intrigado. A reposta veio tão pesada quanto uma bigorna.
- Ora, papai, quero ser padeiro.

Emílio pensou que tinham lhe aberto no meio com um único golpe. Foi como perder, subitamente, todo o ar dos pulmões. Sentiu uma leve vertigem e a vista escurecer. Ficou assim por alguns segundos, até recuperar-se e colocar as ideias no lugar. Ergueu-se brusco da mesa e foi para o quarto, nem mesmo ouviu as perguntas da mulher e do filho. Vestiu-se, pôs o revólver na cintura e saiu. Entrou na padaria com uma expressão furiosa, quase espumando. Estava cego pela certeza. Apontou o revólver para o padeiro e puxou o gatilho duas vezes. O pobre negro Gilmar morreu ali mesmo, por cima de alguns pães, com dois buracos nas costas e sem nunca saber quem o matou.

3 comentários:

Tadeu disse...

Sem nunca saber quem o matou. Mas pelo menos ele teria noção de porque morreu?

Israel Goulart disse...

Dúvida cruel para Emílio e para nós, leitores, afinal quem é o pai de Júlio?

Bárbara Suellen disse...

Tem um "continua"? rs