domingo, 28 de dezembro de 2008

2008: o ano que não pode acabar

Por João Paulo da Silva

Você, provavelmente, já deve ter visto nestes últimos dias várias retrospectivas do ano de 2008. Todos os meios de comunicação costumam organizar e relembrar os fatos que marcaram estes 365 dias. Se cada um de nós fosse fazer sua própria retrospectiva, destacando o que de mais importante aconteceu no mundo, com certeza teríamos inúmeros resultados diferentes. Mas, possivelmente, os retrospectos seriam iguais num ponto: o das tragédias.

Destacaríamos, de forma esmagadora, mais tragédias do que benignidades em 2008. Mas e as Olimpíadas da China? – alguém pode argumentar. Ok. Foi um espetáculo belíssimo, concordo. Entretanto, por trás de toda aquela beleza estava escondida a exploração de milhões de trabalhadores chineses. Evidentemente uma tragédia. Mas isso nem todos colocariam em suas retrospectivas.

Ei! Espere aí. – outra pessoa pode reclamar – E a eleição do primeiro presidente negro dos EUA?! Também é uma tragédia?! Não exatamente, eu diria. Quando um país historicamente racista elege um negro, é preciso reconhecer que houve importantes avanços. O problema com Barack Obama é que ele é uma tragédia em potencial. Não por ser negro, claro. Mas por representar uma esperança que vai acabar em decepção, basta olhar o programa de governo do novo presidente. E as decepções geralmente são prelúdios de tragédias.

Não há o que discutir. 2008 foi um ano trágico. Assistimos a catástrofes ambientais inimagináveis. E olha que o planeta só deu umas sacudidelas. Nos escandalizamos bastante também. O sinistro é que o escândalo da impunidade dos corruptos é maior do que os próprios escândalos de corrupção. O caso do Daniel Dantas não é só emblemático. É também extravagante. É a falência das falências.

O retorno da dengue e o resultado das eleições municipais foram tragédias com sensação de déjà vu. Você, tragicamente, olha e diz: eu já vi isso antes. Só não achava que podia ficar pior, não é verdade? E há, também, a crise econômica, que é uma espécie de tragédia em aberto. Alguém precisa pagar a conta do crack. Espero que não seja o trabalhador. Porque aí a tragédia será completa.

Em 2008 fomos de desgraças individuais a tragédias coletivas com uma intensidade descomunal. E elas já provaram que não podem ser resolvidas em apenas 365 dias. 2008 é um ano que não pode acabar. Não enquanto não acertarmos as contas com ele. Gostaria de fazer um pedido aos deuses do tempo, mas, se não for possível, o pessoal que organiza os calendários pode dar uma forcinha. Precisamos de mais tempo. Nos dêem mais 365 dias neste ano para resolvermos nossas pendências. 2008 não pode passar imune ao nosso castigo. Do contrário, corremos o risco de 2009 já nascer velho.

Ok. Tudo bem. Entendo que talvez eu esteja pedindo tempo demais. Mas, por favor, concedam pelo menos mais um mês. Alguém precisa acertar aquela sapatada no Bush antes do ano acabar. Essa é a minha condição para entrar em 2009. E eu não abro mão!

domingo, 21 de dezembro de 2008

Feliz Natal?

Por João Paulo da Silva

Papai Noel é o personagem mais famoso do Natal. O velhinho de barbas brancas foi inspirado na figura de São Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mira, na Turquia do século IV. Nicolau ficou conhecido por ajudar, anonimamente, os que estivessem passando por apertos financeiros. Lalau, que depois foi declarado santo, costumava deixar uma sacolinha de moedas de ouro na chaminé das casas.

Como acontece com maioria das histórias antigas, a lenda do velho Noel também sofreu modificações ao longo dos séculos. A consolidação do capitalismo e a globalização da economia também mexeram com o espírito natalino. Parece que a crise econômica e a aproximação do Natal ajudaram a revelar o lado Papai Noel dos principais governos do mundo.

Uma enxurrada de cifras astronômicas foi (e continua sendo!) liberada para salvar banqueiros e empresários da anarquia capitalista. Entre deixar os magnatas se quebrarem ou quebrar os trabalhadores, os governos escolheram a segunda opção. É verdade que não há nada de novo na preferência daqueles que hoje comandam os países, mas esperava-se pelo menos um pouco de discrição na hora de meter a mão no dinheiro público para salvar capitalistas.

Há duas importantes diferenças entre São Nicolau e os governantes do capitalismo. Nicolau deixava uma sacolinha de moedas de ouro na chaminé das casas e fazia questão de preservar seu anonimato. Os governantes do capitalismo não. Despejam trilhões nos bolsos dos ricos e ainda posam para as fotos, com as caras mais cínicas do mundo.

Por conta da crise, os líderes mundiais anteciparam seus presentes de Natal. Para aqueles que lucraram muito com a exploração de milhões, a recompensa vem na forma de pacotes econômicos bilionários. Para os que trabalharam muitas horas por um mísero salário, o prêmio é mais desemprego e pobreza.

Agora, para ser um Natal daqueles, só está faltando mesmo é dizerem que o critério usado na escolha dos presentes foi o bom ou o mau comportamento durante o ano de 2008.

****

Idéia para uma história de Natal.

É noite. E Papai Noel viaja em seu trenó da Lapônia até o Brasil, puxado por suas renas. Pousa com segurança no telhado de uma casa e, cuidadosamente, entra pela janela. Uma vez dentro, dá de cara com o Robertinho e a Jandira.
- Papai Noel! Você veio de verdade. – falam as crianças magricelas.
- Pois é, garotada. Mas não posso demorar muito. Agora deixa eu ver aqui o que foi que vocês me pediram.
E o velho Noel começa a remexer nas cartas enviadas.
- Você, Robertinho, me pediu uma cesta básica, não foi?
- Isso mesmo.
- Bom, filho, você deve ter percebido que esse ano a comida aumentou demais. Sendo assim, nesse Natal só vou poder te dar esta caixinha de chicletes. Toma aí.
- E o meu presente, Papai Noel? – falou a Jandira.
- Bem, o seu foi... deixar ver... um emprego pro seu pai, certo?
- Foi isso sim, Papai Noel.
- Mas vocês hein?! Só me pedem presentes difíceis, ora bolas! Olha, Jandira, não vai ter emprego pro teu pai não. A crise econômica está aí, a recessão também. E o cenário é de demissões em massa. Eu mesmo já demiti metade dos meus duendes e dei férias coletivas pra seis renas.
- Mas Papai Noel...
- A gente não pode ter prejuízo nos negócios, entende? Alguém precisa pagar o pato. Mas faz o seguinte, Jandira. Pede pro seu pai pegar a caixa de chicletes que eu dei ao teu irmão e fala pra ele ir vender lá no sinal da esquina. Ok?
- Mas Papai Noel...
- Não tem “mas” nem meio “mas”. Agora deixem eu ir que já estou atrasado. Preciso entregar os presentes de alguns banqueiros e empresários. Feliz Natal pra vocês e até o ano que vem.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Cenas da crise

Por João Paulo da Silva

O Luis e o Elias tinham acabado de receber seus salários. Aí o Luis notou o Elias todo murchinho, meio pra baixo.
- O que foi Elias? Algum problema?
- Luis, me responde uma coisa.
- Claro. Pode falar.
- O teu salário dá pra satisfazer todas as tuas necessidades?
- Mas é claro, Elias.
- Eu não acredito nisso. Não é possível. Como é que você consegue?
- Muito simples, Luis. Eu satisfaço uma necessidade a cada mês. Num mês eu compro comida. No outro eu pago o aluguel. Aí no seguinte eu nem compro comida e nem pago o aluguel. Gasto com médico e remédios. Porque a essa altura já fiquei doente. Você achava que eu satisfazia todas no mesmo mês?
- Era.
- Como você é ingênuo, Elias.

******
Era final de tarde. Em pé no ônibus, eu voltava pra casa. Numa das paradas do coletivo, subiu um moleque com uma caixinha de chicletes.
- Boa tarde, pessoal! Desculpe estar interrompendo a viagem de todos vocês. – começou ele, com aquele discurso já conhecido dos passageiros – Estou aqui vendendo esses deliciosos chicletes para comprar comida para os meus irmãos, pessoal. Um pacote é R$ 0,50. Dois é R$ 1,00. Três eu troco por um vale-transporte, pessoal. Aqueles que puderem me ajudar eu agradeço. Aqueles que não puderem eu agradeço da mesma forma. Fiquem com Deus e tenham todos uma boa viagem, pessoal.
Antes mesmo de a crise econômica estourar, cenas como essa já eram bastante comuns. E tendiam a se multiplicar. Mas, naquela tarde, aconteceu algo que eu nunca tinha visto. Era algo novo.

Assim que terminou seu discurso, o garoto saiu oferecendo os chicletes entre os passageiros. Uma senhora comprou um pacote.
- Obrigado. – respondeu o moleque.
Alguns minutos depois, a mulher começou a gritar:
- Ei menino! Esse chiclete tá vencido! Tá fora da validade! Me dê meu dinheiro de volta! Ei menino!
Mas já era tarde. O garoto tinha decido no ponto anterior.
- Que peste! Me vendeu o chiclete vencido! – resmungava a senhora.
Um homem da cadeira de trás tentou amenizar a situação.
- O que não mata engorda, dona. Pior é na guerra.

Ou na crise. – pensei.

******
Quando a Maria chegou em casa, o Gilmar estava na mesa com lápis e papel na mão.
- Tá fazendo o quê, Gil?
- Contas, mulher. Contas.
O Gilmar ganha um salário mínimo. E isso, por si só, já é motivo pra entrar em depressão. Mas o desespero maior do Gil era ver seu minúsculo ordenado encolher ainda mais com o novo aumento dos alimentos.
- A comida subiu outra vez, Maria. Só a cesta básica leva quase metade do dinheiro.
Silêncio.
- Maria, sabe aquele “sifu” que o Lula disse?
- O que que tem?
- Era pra gente.

domingo, 30 de novembro de 2008

O dia em que me tornei amigo do Moacyr Scliar

Por João Paulo da Silva

Foi com “O Exército de Um Homem Só” que tive meu primeiro contato com a literatura de Moacyr Scliar. Mesmo sendo ainda um moleque, achei o livro fabuloso, cheio de pequenas e grandes revelações. Mas o fato é que esta obra me permitiu conhecer muitos outros livros do Moacyr, como “Mês de Cães Danados” e “A Guerra no Bom Fim”. A admiração pela prosa humana e reveladora do Scliar me levou a assistir, na noite de sexta-feira, 28 de novembro de 2008, sua palestra sobre Graciliano Ramos e os 70 anos de Vidas Secas. É claro que Graciliano sozinho já é um espetáculo, entretanto, naquela noite, fiquei com a sensação de que o Velho Graça não era a estrela absoluta.

A palestra do Moacyr em Maceió estava marcada para as 19h30, mas só foi começar mesmo depois das 20 horas. Eufórico como uma tiéte, me sentei na terceira fileira das cadeiras do auditório. Nas mãos, eu segurava apenas minha caneta e meu exemplar de “Mãe Judia, 1964”, pronto para conseguir um autógrafo. Quando vi o Moacyr Scliar entrar no auditório, virei para um amigo e falei extasiado:
- Lá vem ele! É o Moacyr! Lá vem o Moacyr, caramba!
- Sossega o fogo aí, rapaz! – repreendeu o amigo.

Minha tietagem só não foi maior porque não levei pompons e não fiquei gritando: Moacyr, Moacyr, Moacyr! O que por um lado foi bom, me fez evitar o ridículo. Mas devo confessar que uma forte emoção me assaltou naquele momento. Era a primeira vez que eu estava diante de um dos meus escritores prediletos. Além disso, também era a primeira vez que eu estava vendo de perto um gaúcho, que só conhecia das histórias que contam por aí. Fiquei esperando o momento em que ele usaria o “tu” ao invés do “você”. E ele usou. Após a palestra, fiz uma observação sobre Graciliano Ramos. Aí o Scliar respondeu: “Tu tens toda razão no que tu falas”. Achei muito engraçado aquilo. O Moacyr usou o “tu” com aquele sotaque gaúcho, mas ficou devendo um “barbaridade, tchê”.

Durante toda a palestra, fiquei atento ao que o Moacyr Scliar falava. Por quase duas horas, ele falou da vida do Graciliano, da força de Vidas Secas, revelou algumas fofocas do meio literário e contou anedotas da literatura em geral. Mas duas coisas me chamaram a atenção no palestrante. A primeira é que o Moacyr parece um bom velhinho, com aquela cara de vovô bonachão. Um pouco mais de barba e cabelo fariam dele um simpático Papai Noel. A segunda, e mais engraçada, é que ele é bem rosadinho, o que acabou me dando a impressão de estar vendo um desenho animado.

Terminada a palestra, começou a sessão tietagem. E eu estava no meio, claro. Para onde ia o Moacyr, eu ia atrás. Não sairia dali sem meu autógrafo e pelo menos uma foto. Se, por acaso, ele esboçasse qualquer movimento de fuga, eu não hesitaria em pular em seu pescoço.

Depois de ficar na cola dele por um tempo, finalmente consegui. Não tirei uma foto, tirei três. Sempre muito simpático, ele autografou meu livro com os seguintes dizeres: “Para João Paulo, leitor brilhante. Abraço do Moacyr.”. Foi o primeiro autógrafo que recebi na minha vida. E isso não é qualquer coisa. Eu até ganhei um elogio do cara, pô!

Agora, depois de ter conhecido o Moacyr Scliar, ter tirado três fotos e ter ganhado um autógrafo, vou exigir mais respeito em todos os lugares. Tão pensando o quê?! Agora eu sou amigo do Moacyr, rapá!

Na escola, durante as aulas de literatura, quando um aluno estiver bagunçando, vou dizer:
- Ô rapazinho! Você sabe com quem está assistindo aula? Com o amigo do Moacyr Scliar! Então, por favor, mais respeito, hein!

Na hora de reivindicar um salário melhor:
- Não vou aceitar essa ninharia não. Vocês sabem quem eu sou? Sabem? Sou amigo do Moacyr Scliar. Quantos amigos do Moacyr vocês conhecem, hein?! Vamos, respondam!
Bom, tudo bem que o Moacyr ainda não sabe que somos amigos. Mas nisso eu penso depois.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Quando o latido é maior do que o cachorro

Por João Paulo da Silva

Ainda não sei dizer exatamente quanto tempo vai durar a euforia mundial em torno da eleição de Barack Obama. Talvez dure o suficiente para causar muitos estragos e desenganos entre os milhões que votaram desejando mudança. Ou não. Talvez, quem sabe, nem dure tanto tempo assim, pois as principais peças do tabuleiro de xadrez já começaram a se mexer.

Com seu neoliberalismo afiado e suas guerras assassinas, a Era Bush deixou na história uma enorme mancha de sangue, um déficit fiscal gigantesco e um recorde de impopularidade. Amargando uma rejeição de mais de 70%, o xerife texano acabou sujando demais a imagem da espoliação imperialista. Os milhões que disseram “sim” ao Barack estavam, na verdade, dizendo “não” à política representada por Bush. Não foi à toa que a campanha de Obama se apoiou no slogan de “mudança”.

Tudo o que a grande burguesia norte-americana desejava era um novo rosto para camuflar sua política de rapina pelo mundo. Precisava de alguém que pudesse segurar a crescente onda de insatisfação no planeta, alguém que criasse esperanças de dias melhores nos corações de uma infinidade de pessoas. Era preciso alguém que fizesse tudo isso, e que continuasse com os saques do imperialismo. A burguesia norte-americana encontrou no jovem, negro e carismático senador de Illinois o rosto ideal.

Entretanto, muitos podem argumentar: “Ora, mas você vai negar que a eleição do primeiro presidente negro dos EUA é um marco na história desse país?”. Não, de modo algum. Isto é inegável, sobretudo em um lugar que tem a história marcada pela desgraça do racismo. Mas o fato é que, em alguns momentos da vida, é preciso ceder um pouco para não perder tudo. O imperialismo fez uma concessão histórica ao permitir que um negro chegasse à presidência. No entanto, só o fez porque estava em jogo algo mais importante do que a cor da pele. “Negócios são negócios. E não se pode fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos.”, imagino que estejam dizendo agora os magnatas.

De todo modo, Obama sofreu bem menos do que a maioria dos negros pobres de seu país. Formou-se em Direito em Harvard e se tornou um patrício. É um fiel defensor dos interesses capitalistas. E isso também não se pode negar. Ele e McCain foram financiados pelos mesmos senhores. O setor financeiro, por exemplo, agraciou os dois candidatos com quantias semelhantes. Os bancos, seguradoras e imobiliárias deram a McCain cerca de US$ 15 milhões. Obama recebeu US$ 16 milhões.

O que há ao redor de Obama é uma grande ilusão, em especial por parte dos trabalhadores negros e latinos. E isso é outra coisa inegável. O problema com as ilusões é que elas, além de atrasar as vidas, costumam deixar profundas decepções entre as pessoas. Obama passou toda a campanha ligando seu nome à palavra mudança. No discurso da vitória, reforçou a idéia com a frase “a mudança chegou à América”. Não há o que estranhar até aqui. Esquisito seria se ele ganhasse as eleições dizendo a verdade. Algo como “Olhem, eu sou o continuísmo! Atenção! Vou salvar os capitalistas e deixar os pobres e negros a ver navios!”. Isso, sim, seria estranho. Obama é a representação típica daquela imagem na qual o latido é maior do que o cachorro. Com promessas mentirosas e apoiado num discurso de transformação, o democrata latiu muito alto e acabou gerando ilusões. Mas, definitivamente, não é o cachorro grande que os povos oprimidos pensam que ele é.

Bush vai sair e deixar um pepino para Obama descascar. O aprofundamento da crise econômica não irá permitir titubeações. Ou se estará de um lado ou se estará do outro. E o presidente eleito nem de longe se assemelha a um vacilante. Antes mesmo de assumir a Casa Branca, já deu demonstrações do lado que escolheu. Ainda durante a campanha, enquanto milhões de famílias perdiam suas casas, Obama aprovou o plano de Bush de US$ 700 bilhões para socorrer os bancos. No que diz respeito às guerras, falou em tirar tropas do Iraque e colocar no Afeganistão, o que na prática não muda nada. Também já engrossou o discurso pra cima do Paquistão e do Irã, prometendo apontar os canhões de sua “democracia” para este último se continuar insistindo com essa história de pesquisa nuclear.

Já eleito, Obama começou a montar sua equipe de governo. Em meio aos escolhidos, alguns republicanos estão cotados para o governo. É pra acabar com essa conversa de que há diferenças entre democratas e republicanos. A confusão vai ficar mesmo é na cabeça de quem achou que a mudança havia chegado.

Mundo afora, as revistas estampam manchetes nas quais ponderam: seria Barack Obama um messias? Talvez. Mas um messias que veio para salvar apenas um dos lados, pois a história dos homens já mostrou a impossibilidade de salvar os dois. O mundo adora Obama. E o capitalismo também.

domingo, 9 de novembro de 2008

Doadores

Por João Paulo da Silva

“Você desmaia quando vê sangue? Tem gente que morre porque não vê.” Jurandir tinha visto este anúncio publicitário não sabia onde. Numa revista, talvez. Mas já fazia um tempo. Era uma dessas campanhas de incentivo à doação. Achou criativa. Ele nunca tinha doado sangue na vida. Pelo menos até a semana passada. Não que fosse um sujeito egoísta, mas é que sempre foi um daqueles que desmaia quando vê sangue. Principalmente se for o próprio sangue.

O fato é que o sogro do Jurandir arrebentou-se numa queda. Ia fazer uma cirurgia e precisava de uma transfusão.
- Você vai sim! Ora essa!
- Não, mozinho. Por favor. Olha, você sabe que tenho medo de agulha. Que não posso ver sangue. Ai, meu Deus!
- O que foi?
- Já estou com vertigens. Tá vendo só?! Pense direito, minha filha.
- Deixa de frescura, Jurandir! Você vai e ponto final!
Intimado pela mulher, o Jurandir foi. Mas levou também o irmão.
Chegaram ao laboratório especulando sobre o procedimento.
- E a agulha? Como deve ser a agulha? – perguntou o Jurandir ao irmão.
- Sei lá. Deve ser maior.
- Maior?! Cacete! Vou embora! Tu fica aí e diz eu que passei mal.
- Nada disso! Não vou doar sozinho não!
- Ai, meu Deus do céu!

Entraram no laboratório. Após terem feito o cadastro de doadores, ficaram esperando na recepção. Depois de alguns minutos, apareceu uma moça de branco na porta:
- Senhor Jurandir da Silva?
O frouxo fingiu não ouvir.
- Senhor Jurandir da Silva? – repetiu a moça.
- É tu, porra. Vai ser o primeiro. – falou o irmão, cochichando e rindo.
- O senhor é Jurandir da Silva? – disse a moça.
- Sou. Quer dizer, não agora.
- Me acompanhe, por favor.
Quando Jurandir já estava na porta praguejando, a enfermeira voltou-se e disse:
- Ah, o senhor Adalberto da Silva?
- Sou eu. – disse o irmão do Jurandir.
- Venha também.
O Jurandir, triunfante, olhou para ele e murmurou:
- Otário.

Foram encaminhados para uma sala menor. Havia uma balança, uma pia e um balcão com alguns equipamentos. A enfermeira disse:
- Vamos primeiro fazer um furinho no seu dedo pra ver se tá tudo ok com seu sangue.
- Eu vou morrer? – perguntou o Jurandir, querendo descontrair o ambiente.
- Vai. Mas não por isso. – respondeu a enfermeira, sem sorrir.
Beleza. Um a zero pra você, infeliz. – pensou o Jurandir.

Após os exames preliminares, os dois se dirigiram para uma cantina. Lá, perguntaram se eles queriam tomar um suco. Tomaram. Depois, outra enfermeira chamou o Jurandir para uma salinha com os seguintes dizeres: triagem clínica. Ele sentiu que a hora se aproximava.
Entrou na sala e sentou numa cadeira. Do outro lado de uma mesa, mexendo num computador, estava a enfermeira.
- O senhor é professor, certo?
- Isso.
- Já teve alguma doença infectocontagiosa?
- Olha, não que eu me lembre.
- Está tomando algum medicamento?
- Não.
- O senhor já tomou as vacinas contra o tétano e a hepatite?
- Acho que sim. Mas faz tempo.
- Bebeu ontem?
O Jurandir começou a estranhar as perguntas. Mesmo assim respondeu:
- Não, não bebi.
- O senhor usa drogas?
Hesitou um momento. Pensou em confessar que tomo uns refrescos vagabundos desde os dez anos. Mas desistiu.
- Não. Nunca usei.
- É casado?
- Sou.
- Tem relacionamentos fora do casamento?
Aí o Jurandir ficou nervoso.
- Como assim?! Aonde a senhora quer chegar com essas perguntas?! Tá insinuando o quê?! Isso aqui é algum tipo de pegadinha? Algum teste de fidelidade? Cadê a câmera? Cadê a câmera?
- Calma, senhor. Calma. Essas perguntas fazem parte do procedimento. É pra saber se o sangue não está contaminado.
- É?
- É.
- Ah, tá. Desculpe. Sendo assim, tudo bem. É claro que não tenho nada fora do casamento. Ora essa.

Levaram o Jurandir para a sala de doação. Seu irmão já estava deitado numa espécie de cama. Ele deitou numa outra e aguardou. Foi quando entrou aquela primeira enfermeira.
- Vamos começar? – disse ela.
- Não senhora! Me deixa ver o tamanho dessa agulha!
- Não. É melhor que o senhor não veja. Não agora.
- Ai, meu Deus!
- Calma. Não vai doer nada.
- É?! Então vem pra cá e deixa eu tirar o teu sangue.
Ela olhou para o Jurandir, séria novamente, sem sorrir. Amarrou seu braço com um elástico e se preparou para introduzir a agulha. Foi quando ele viu o tamanho da coisa.
- Epa! Afasta esse negócio de mim! Olha só a espessura dessa coisa, minha filha! Deve ter uns cinco centímetros de diâmetro!
Não adiantou protestar. O Jurandir acabou cedendo. Mas não deixou de gritar quando sentiu a picada da agulha.
- Ui, ui, ui. Ai, ai, ai.
- O que foi, rapaz? É só uma picadinha de formiga.
- Só se for uma formiga do tamanho de um javali! – berrou.
O irmão do Jurandir assistia a tudo isso rindo. Canalha. A enfermeira deu aos dois uma bolinha de borracha pra ficar apertando. Era pra ajudar a bombear melhor.
- Escuta, minha filha. – falou o Jurandir – Vai demorar muito?
- Só um pouquinho. Até encher aquela sacolinha.
- O quê?! Aquele saco todo?! Mas assim vai embora meu sangue! Ai, meu Deus do céu!

Os minutos passavam, o sangue ia embora e o Jurandir pensando no sogro. “Velho filho da mãe! Tinha nada que cair! Ao invés de se lascar sozinho, lasca os outros também! Ai, meu Deus! Meu sanguinho.”
Enquanto se doa sangue, ficam perguntando direto se está tudo bem. Se as pessoas não estão sentindo nada estranho. Essas coisas. Perto do final da doação, o Jurandir resolveu fazer uma brincadeirinha com a enfermeira.
- Enfermeira, me ajude! – ele falou.
- O que foi?
- Não sei. Tô ficando tonto! Minha vista tá escurecendo! Socorro! Ai minha nossa Senhora! Me acuda, moça, que eu tô morrendo!
Fechou os olhos.
- Moço! Moço! Fale comigo! O que é que tá havendo?
- Brincadeirinha!
Ela fechou a cara de novo. Dessa vez numa expressão de fúria.
- Idiota. – disse.
Agora o Jurandir tinha ido longe demais.
Terminada a doação, ele perguntou se podia tomar mais um suco.
- Vão servir um lanche pra vocês lá fora. – disse a enfermeira sem olhar para ele.
Serviram um sanduíche de queijo com suco de cajá.
- Ei, será que podemos doar sangue os três horários? Manhã, tarde e noite. Assim a gente já garante as três refeições. – perguntou o Jurandir para a moça da cantina.
Ela ficou séria. Não deve ter achado graça da piada.
Não sei se você já doou sangue. Mas, para o Jurandir, a pior coisa não foi a agulha. Foi o mau humor do pessoal. Ô povinho ranzinza!

domingo, 12 de outubro de 2008

Especialistas

Por João Paulo da Silva

Eu havia parado para tomar a vacina contra a rubéola, num posto improvisado na frente de um supermercado de Maceió. Enquanto aguardava na fila a minha vez, vi sair do estabelecimento uma senhora imensa, gorda mesmo, daquelas que andam com dificuldade. Ela vinha no seu passo miúdo e pesado quando escorregou na rampa de descida dos carrinhos de compra. Na queda, estatelou-se no chão feito uma jaca.
- Ai meu Deus do céu! Me acuda, meu Jesus Santíssimo! Quebrei meu braço! Quebrei meu braço! Socorro!

A mulher tinha caído por cima do braço. E o pior: com todo aquele peso! O pessoal da vacina correu logo pra ajudar. Gemendo de dor, a acidentada pediu para que ligassem para seu marido. Rapidamente, muitas pessoas apareceram para ver o que tinha acontecido. Em pouco tempo, a mulher estendida no chão estava cercada – para usar um termo “jornalístico” – de populares. O curioso é que estes curiosos param tudo o que estão fazendo só para assistir ao “espetáculo”. É claro que também parei pra ver (do contrário, não estaria aqui contando), mas prefiro acreditar que eu estava ali por causa do faro de jornalista. Em cima do fato, literalmente. Quer dizer, não tão em cima pra não sufocar a mulher.

O pessoal da vacina que socorreu a acidentada pedia constantemente para que as pessoas se afastassem.
- Se afastem, assim ela não pode respirar. Por favor, abram espaço.
É impressionante como nessas horas todo mundo vira perito em alguma coisa. Enquanto eu acompanhava a agonia daquela senhora na espera da ambulância, pude ouvir os sagazes comentários de verdadeiros especialistas.

Ao meu lado, dois homens discutiam qual teria sido a parte do corpo fraturada pela senhora.
- Foi a cravícula! Eu vi quando ela caiu.
- Foi nada, rapaz. Num foi o braço não?
- Não, não. Foi cravícula mesmo. Eu vi quando invergou tudo.
Do meu canto, eu pensava: “Xii!! Quebrou mesmo foi a gramática.”
Um outro sujeito, vindo não sei de onde, aproximou-se:
- Ela tá emborcada. É ruim assim. Tem que virar ela. Alguém vire aí.
- Oxe, moço. Pode não. Tem que esperar a ambulância. Se a gente mexer nela, pode aleijar. - respondeu uma mocinha.
- Mas ela não quebrou só o braço? - rebateu o homem.
- Mesmo assim. Não pode não. Lá perto de casa tem um senhor que quebrou o braço no mês passado. O povo foi inventar de mexer nele pra levar pro hospital terminou foi aleijando o homem. Deram um jeito na coluna dele pra lá que o véio deixou de andar.
A cada comentário, um novo diagnóstico. A confusão era tanta que até um aspirante a vampiro apareceu.
- Cadê? Cadê? Saiu sangue? Saiu sangue?
Antes de a ambulância chegar, eu ainda pude ouvir mais um comentário especializado. Uma desavisada que estava passando pelo local se aproximou pra ver que tumulto era aquele. Vendo a gorda espalhada no chão, ela não quis nem saber e lascou pra cima:
- Meu Deus, alguém já mediu a pressão dela?
Ninguém deu ouvidos. A desavisada foi mais enfática:
- Gente! Tem que medir a pressão dela!
Aí eu não me agüentei.
- Moça, ela só quebrou o braço. Mas se você quiser me arranje uma régua que eu meço a pressão dela pra senhora.
- Ah. Foi só o braço, foi? – disse ela, toda sem graça.
- É. Foi só o braço.
Ela calou-se por um instante. Depois concluiu:
- Mas de qualquer jeito é bom medir, né? Nunca se sabe.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Para as próprias cabeças

Por João Paulo da Silva

Nos dias que antecederam o 5 de outubro, vi muitos artigos nos jornais exaltando as eleições como a “festa da democracia, a festa do povo”. De fato, é uma festa. Mas não do povo. Numa sociedade dividida entre espoliados e espoliadores, a democracia é na verdade uma ditadura do grande capital. A única diferença é que passou por uma cirurgia plástica. Provavelmente com o Ivo Pitanguy.

A festa é mesmo das grandes empresas, que controlam a economia, o Estado e os meios de comunicação. Assim, com campanhas endinheiradas, falsas promessas e mais tempo de TV, os candidatos dos exploradores do povo se esbaldam nessa democracia de meia dúzia de grandes empresários que segue o mesmo funcionamento de um jogo com roleta viciada. Na tentativa desesperada de esconder a existência das classes, a Justiça Eleitoral também fez a sua parte. Chamou a lindíssima atriz Lavínia Vlasak para dizer que “nas eleições não existem patrões e empregados”. Uma piada de muito mau gosto.

A verdade é que a burguesia paga a festa, a banda e ainda escolhe a música. De dois em dois anos, o povo é chamado apenas para legitimar um processo que favorece os patrocinadores. Business, baby. Business. Há algum tempo, o escritor uruguaio Eduardo Galeano fez uma provocante ponderação: “A liberdade de eleição permite que você escolha o molho com o qual será devorado.”. E depois dessa crise dos alimentos, desconfio que tenham cortado até o bechamel.

Cícero Almeida foi reeleito porque navegou em sua tsunami de demagogia, mentiras escandalosas e obras de fachada. E por mais que afirme ser o prefeito do povo, Cícero não pode esconder a felicidade da vitória nas urnas estampada no rosto de seu principal aliado de classe. O próprio usineiro João Lyra, depois de votar, chegou a dizer que “não houve disputa eleitoral. O que houve foi a força da candidatura de Cícero Almeida”. O resultado da eleição para prefeito de Maceió estava escrito no viaduto do bairro de Mangabeiras. A força da candidatura de Almeida tem a marca suja do dinheiro de gente como João Lyra.

Judson Cabral e Solange Jurema, que chegaram a se abraçar como velhos compadres depois da votação, não eram diferentes. Seus partidos estão maculados pela alegoria do “Robin Hood neoliberal”. O PSDB possui uma vasta experiência em tirar dos pobres para dar aos ricos. E o PT, bom aluno que é, aprendeu rapidinho a lição. Recentemente, o cronista Luis Fernando Veríssimo afirmou – referindo-se à política econômica de Lula – que “o PT é o PSDB de barba”. Na capital alagoana, a metáfora é com o cavanhaque do Judson.

Na manhã de segunda-feira, após a divulgação do saldo do estelionato eleitoral, os jornais estampavam a lista dos “escolhidos”. As manchetes traziam: “Câmara Municipal tem renovação de 60%”. Resta saber onde houve renovação. Ora, são os mesmos partidos que estão lá. Trocaram seis bandidos por meia dúzia de ladrões. É claro que meus números são imprecisos. Os verdadeiros são bem maiores.

Cícero ganhou a corrida eleitoral. Mas com Judson ou Solange o resultado seria o mesmo. Haveria apenas um vencedor: o lucro dos empresários. Nestas eleições, enganados pelos representantes dos donos da economia, os trabalhadores e o povo pobre acabaram colocando munição nas armas que estão apontadas para suas próprias cabeças. Os demônios do capitalismo, diante da crise econômica que sacode o planeta, vão exigir oferendas para que possam salvar a si mesmos. E os vencedores das eleições já escolheram aqueles que serão jogados às feras.

A História é uma rígida e severa professora. Ela já nos ensinou que as verdadeiras e profundas mudanças não são conseguidas com o voto. São retiradas à força. Primeiro se arranca os anéis. Depois, os dedos e a mão inteira. É claro que não haverá um mundo melhor se os espoliados não passarem por cima das eleições como um trator, assumindo os rumos das próprias vidas e fustigando a carroça da história. Porém, enquanto os trabalhadores ainda forem às ruas apenas para votar, abandoná-los a própria sorte será sempre um crime.

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Pequena Parábola Sobre a Democracia dos Ricos

A democracia dos ricos diz ao povo:
- Você pode votar, escolher os representantes.
- Mas eu quero votar e decidir os rumos da minha vida. – argumenta o povo.
- Bem, votar pode. Agora decidir os rumos da própria vida já é outra história, entende?

domingo, 5 de outubro de 2008

Hoje é dia de dizer não aos patrões!

Por João Paulo da Silva

Durante semanas, nos bares, locais de trabalho, casas, esquinas, o assunto foi um só: eleições. É o momento em que as pessoas discutem e conversam mais sobre os problemas da cidade, do estado, do país. Mas existe entre os trabalhadores e os ativistas honestos uma grande desconfiança em relação ao processo eleitoral. E com toda razão. Desde o fim da ditadura militar, já se passaram mais de vinte anos de democracia. De lá pra cá, a vida da classe trabalhadora só piorou. Tudo isso porque vivemos a democracia dos ricos, dos patrões. Os salários são baixos, o desemprego é alto e a comida é cara. O povo vota, mas não decide. Essa democracia não ajuda a comer, a vestir, a morar. Pelo menos não para os pobres.

Isto tem uma explicação: a democracia dos ricos é um jogo de cartas marcadas. Só são eleitos os candidatos dos partidos que representam os interesses dos patrões, pois recebem verdadeiras fortunas para fazer campanhas milionárias. Quando estes partidos chegam ao poder, governam para os empresários e usineiros que os financiaram. Enquanto isso, o povo é esquecido. A falsa disputa entre PT, PP, PSDB, PMDB, PDT, PCdoB e DEM é apenas uma briga pelo controle do Estado burguês e de suas verbas, pois são exatamente estes partidos que aplicam o mesmo plano econômico e a mesma corrupção.

Nestas eleições, as candidaturas de Cícero Almeida (PP), Judson Cabral (PT) e Solange Jurema (PSDB) representam os mesmos interesses. Vão governar contra os trabalhadores e o povo pobre das periferias, em benefício dos empresários e usineiros de Alagoas.

Cícero Almeida governa com as mãos sujas de João Lyra. A construção de viadutos, homenageando os ricos, não resolveu o problema dos trabalhadores sem acesso à saúde, educação e saneamento. O compromisso de Cícero não é com o povo. É com o lucro dos empresários! A prova disso é que o atual prefeito acha melhor comprar remédios dos grandes laboratórios privados do que do Laboratório Industrial Farmacêutico de Alagoas (LIFAL), que produz 23 tipos de medicamentos por um preço bem menor. Sem falar dos três aumentos de passagem de ônibus.

O candidato do PT, Judson Cabral, se for eleito vai aplicar a mesma política do governo Lula, favorecendo empresários e banqueiros com milhões enquanto os trabalhadores seguirão com salários achatados e perdendo direitos. Judson não pode falar em honestidade e ética, porque representa o partido do mensalão.

Solange Jurema, do PSDB, dispensa até comentários. A candidata foi ministra no governo de Fernando Henrique Cardoso, aquele que chamou trabalhador de vagabundo e privatizou muitas estatais, como a antiga Vale do Rio Doce.

Diante disso, você pode perguntar: então o que se pode fazer em uma eleição? A verdade é que precisamos de uma mudança profunda em nossas vidas, que só virá com o socialismo. Não virá com as eleições. Mas não podemos deixar o povo ser enganado pelos representantes dos patrões. É preciso uma alternativa dos trabalhadores, uma alternativa socialista, que mostre durante a campanha eleitoral que só a luta pode mudar a vida. Só através de greves e mobilizações da classe trabalhadora é possível conquistar vitórias.

Uma candidatura comprometida com a luta dos trabalhadores e com o socialismo não dará a você “brindes”, nem dinheiro, nem cargos. Este é o tipo de campanha dos partidos que estão no poder: oferecem migalhas para que eles continuem mandando em tudo e roubando o povo. Uma campanha da classe trabalhadora é modesta e se orgulha disso, pois não tem o dinheiro dos patrões e da corrupção. Portanto, nestas eleições defenda uma candidatura operária e socialista! Diga não aos patrões! Vote no PSTU!

domingo, 27 de julho de 2008

O banqueiro e o ladrão de galinha

Por João Paulo da Silva

Eu cheguei até a pensar que jamais o encontraria. Pensei mesmo que ele fosse parte do folclore nacional. Uma lenda e coisa e tal. Eu estava enganado. Você deve conhecê-lo. Ele é a prova de que a Justiça condena os pobres e deixa livre os ricos. Ora, vamos. Você com certeza já ouviu falar dele. O tão mencionado ladrão de galinha. Sua existência é a comprovação de que a Justiça não é cega e de que sabe muito bem para onde está olhando. Nestes últimos dias, tive a oportunidade de encontrá-lo. Lá na redação do jornal me pediram pra fazer uma reportagem sobre o que anda pensando o ladrão de galinha a respeito da prisão do banqueiro Daniel Dantas.
- Você tá de brincadeira? – falei para meu editor.
- Não tô não, João. Vai lá e procura saber o que ele acha disso tudo.
Eu fui. E, para minha surpresa, ele existia. Dentro do presídio, atrás das grades, espremido numa cela superlotada, estava um genuíno ladrão de galinha. Bom, depois descobri que ele havia roubado mesmo era um galo. Mas isto é apenas um detalhe. O fato é que Everaldo já estava ali há três anos. Trabalhou muito tempo como auxiliar de limpeza. Um dia foi demitido e nunca mais encontrou emprego. O resto da história todos já sabem.

Fui ao presídio na terça, 8 de julho, algumas horas depois de decretada a prisão de Dantas. Everaldo ainda não sabia muito bem o que estava acontecendo. Tinha ouvido pouca coisa a respeito.
- Bom, seu Everaldo. Acabaram de prender o banqueiro Daniel Dantas.
- Mentira?! Sério? Prenderam um banqueiro? Tá de brincadeira comigo, rapaz?!
- De jeito nenhum, seu Everaldo. Falo sério. Te juro. Prenderam o sujeito por desvio de verbas públicas e lavagem de dinheiro.
- E isso lá dá cadeia, meu filho?! No dia que isso for crime, vão ter que prender o Congresso e tudo que é presidente da República!
- É verdade. Prenderam hoje, seu Everaldo.
- Humm... Algemaram o “homi”?
- Sim, sim. O banqueiro e mais tantos outros envolvidos. Até aquele ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, tá no meio.
- É mesmo? Que esquisito.
- Então, seu Everaldo, eu vim aqui pra saber o que o senhor acha disso tudo.
- Meu filho, se isso for verdade mesmo parece ser um bom sinal. Deixa a gente até feliz de saber. Eu, por exemplo, roubei pra comer. Esses aí não. Roubam por safadeza mesmo.
- Na sua opinião, o senhor acha que essa prisão pode significar uma mudança na Justiça?
- Olhe, acho que sim. Pode ser que agora as coisas se ajeitem, né? Tem mais é que botar esses caras na cadeia mesmo.
Saí do presídio com uma imagem na cabeça: o rosto do seu Everaldo na expressão de “agora esse país toma jeito”.
Mas não durou muito. Na noite de quarta-feira, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, mandou soltar o banqueiro Daniel Dantas. Na quinta pela manhã, fui novamente ao presídio.
- Seu Everaldo! Péssimas notícias. Soltaram o banqueiro.
- O quê?! Já soltaram o “homi”?! Mas isso é uma esculhambação mesmo! Quem foi que soltou o infeliz?
- Foi o presidente do Supremo Tribunal Federal, o ministro Gilmar Mendes.
- Eu sabia. Eu sabia que ia dar nisso. Rico, preso?! Onde já se viu isso?! Agora comigo não! Comigo é essa safadeza toda. Esses caras roubam milhões e não vão em cana! Eu peguei uma galinha pra comer e tô preso! Palhaçada! Depois vem aquela conversa mole de que a Justiça é cega. Uma banana!
- O ministro concedeu um habeas corpus na noite de ontem.
- Habeas corpus? Que diabo é isso?
- É uma garantia constitucional em favor de quem sofre violência ou ameaça de constrangimento ilegal na sua liberdade de locomoção, seu Everaldo.
- Violência?! Constrangimento?! Vê se eu posso me locomover aqui dentro com esse monte de gente. Eu é que sei o que é isso! Quando fui preso, não me deram nada de habeas corpus não! Me deram foi um porradeas corpus! Isso sim.
Saí de lá com a imagem de desiludido do seu Everaldo. Mas horas depois eu estaria de volta ao presídio. Na tarde do mesmo dia, dez horas após a libertação, a Polícia Federal recebeu ordem para prender novamente o banqueiro Daniel Dantas.
- Seu Everaldo, trago boas notícias.
- Vão me dar também um daqueles habeas corpus?
- Bom, não é bem isso.
- E o que é?
- Prenderam de novo o banqueiro.
- Mentira?!
- Verdade. E dessa vez ele foi acusado de corrupção ativa. Tentou subornar o delegado pra que seu nome fosse tirado da investigação. Filmaram tudo!
- Ahhhh! Dessa vez esse tal de Daniel tá lascado. Quero só ver soltarem o bicho agora que tem tudo filmado.
Mas não deu tempo nem do seu Everaldo se animar direito. Na tarde da sexta-feira, o ministro Gilmar Mendes mandou soltar pela segunda vez o desgraçado do banqueiro. A história se repetiu. Agora, combinando a tragédia e a farsa. Eu já não tinha nem mais cara para olhar pro seu Everaldo.
- Seu Everaldo...
- Nem precisa me dizer, rapaz. Já sei. Soltaram de novo o pilantra do banqueiro.
- Pois é. Essa Justiça... não sei pra que que serve.
- Mas eu sei! Serve só pra prender pobre e acobertar rico. Você, por exemplo, já viu algum desses poderosos ir pra cadeia?!
- E o que é que o senhor acha que deve ser feito, seu Everaldo?
- Meu filho, agora tem que prender também a Justiça, começando por esse tal de Gilmar Mendes.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Pelos olhos murchos de uma vida seca

Por João Paulo da Silva

Desde 1988, dona Marlene dos Santos acorda todos os dias às 5h30 da manhã. De estatura baixa, negra e com fortes marcas da ação do tempo no rosto, ela diz já estar acostumada a levantar cedo. Durante estes últimos 20 anos, não houve nenhuma grande mudança em sua vida. Seus dias de vendedora de macaxeira se repetem miseravelmente iguais, como uma espécie de condenação sem a qual seria impossível sobreviver. Aos 49 anos de idade, dona Marlene empurra seu carrinho de macaxeira até o início da Avenida Maceió, no Tabuleiro dos Martins. Há duas décadas, a Feirinha do Tabuleiro é o lugar onde ela encontra o sustento para não morrer de fome.

Nascida em Pernambuco, ex-costureira e mãe solteira de duas filhas, Marlene vive hoje com um sobrinho numa casa simples, localizada algumas ruas depois do seu ponto de trabalho. Quando veio para Maceió, capital de Alagoas, a vendedora de macaxeira – que estudou só até a 2ª série do Ensino Fundamental – ainda tentou encontrar emprego. Mas, assim como milhões de outros brasileiros, não conseguiu. “Eu não tinha estudo. Não tinha leitura de nada. Por isso vim pra cá.”, ela explica. Semi-analfabeta, não encontrou outra maneira para sobreviver. Era a informalidade ou a fome e a miséria absoluta. Numa tarde de sexta-feira, num 4 de julho, dona Marlene, entre um freguês e outro, contou um pouco de sua vida. Na ocasião, usava uma blusa azul, uma saia verde e sandálias. No rosto, estava estampada a expressão daqueles para os quais o mundo nunca sorriu.

Marlene dos Santos chega à Feirinha do Tabuleiro todos os dias às 6h e só recolhe a mercadoria por volta das 19h30. Comprando o saco de macaxeira com 60 quilos por R$ 40,00, dona Marlene afirma que a melhor época para faturar é o verão. De domingo a domingo, vendendo o quilo do produto por R$ 1,00, a ex-costureira precisa trabalhar cerca de 14 horas por dia para que, no final do mês, possa apurar em média R$ 400,00. “A gente não tem outro meio de viver, não dá nem pra pagar os pregos da gente”, ela confessa. Dona Marlene é uma mulher que vive no século XXI, mas trabalha como um operário do século XIX. Ao voltar para casa, às 20h, ainda tem de enfrentar, depois de um cansativo dia de trabalho, os mortificantes serviços domésticos. Uma dura realidade de dupla jornada que não atinge apenas esta pernambucana, mas a vida de milhares de outras mulheres brasileiras.

Como se já não fossem muitas as adversidades do trabalho de dona Marlene, o juiz Emanuel Dórea notificou e estabeleceu um prazo para que a prefeitura transferisse a Feirinha do Tabuleiro para um terreno adquirido pelo município, localizado atrás de um supermercado da região. Em janeiro deste ano, a transferência foi concluída e dona Marlene, assim como os outros feirantes, teve uma diminuição nas suas vendas. “Nem trabalhar nas pistas a gente pode mais, porque eles não querem. Ficou muito ruim”, ela reclama. Mas mesmo com essa medida dona Marlene insiste: “Eu fico aqui, na beira da pista, de segunda a sexta. Só vou pro terreno da prefeitura no final de semana”, argumenta.

Talvez esta vendedora de macaxeira, negra e pobre desconheça o fato de que, diante do descaso de tantos governos, ela representa apenas mais um daqueles números que engrossam as estatísticas de desemprego. De acordo com um estudo divulgado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) no final do ano passado, observa-se que o desemprego é sistematicamente mais elevado entre a população negra, qualquer que seja o nível de escolaridade pesquisado. As taxas de desemprego entre os negros chegam a ser 46% mais altas que a dos brancos. Dona Marlene não é apenas uma vítima da falta de trabalho, tendo de recorrer à informalidade para se sustentar, ela é também uma vítima do racismo.

Com quase meio século de vida, Marlene já começa a sentir no corpo o peso de 20 anos de trabalho com a macaxeira. As mãos secas e calejadas retratam uma pessoa que não passou a vida contando dinheiro. Os fios de cabelo branco e o rosto fincado de rugas são reflexos de uma velhice que chegou antes do tempo. As enormes varizes que marcam suas pernas e as fortes dores de coluna mostram a imagem de um corpo necessitado de descanso. Descanso que, talvez, não venha em vida. Comentando as eleições municipais de outubro deste ano, dona Marlene demonstra não ter mais confiança. “A gente já foi enganado um bocado de tempo”, desabafa.

Dona Marlene dos Santos, vendedora de macaxeira na Feirinha do Tabuleiro, bem que poderia ser parte de um dos romances do escritor alagoano Graciliano Ramos. Uma daquelas personagens que observam o mundo pelos olhos murchos de uma vida seca. Sinhá Vitória, mulher do personagem Fabiano na obra Vidas Secas, possui um grande sonho: ter uma cama de lastro de couro, onde pudesse dormir como gente de verdade. Dona Marlene também possui um sonho. Perguntada sobre isso, ela confessou: “Meu sonho é um salão. Nunca fiz curso, mas tenho muita fé em fazer um. Queria ter um salão de cortar cabelo.”.

domingo, 29 de junho de 2008

Terror!

Por João Paulo da Silva

Um casal de amigos meus tem um filhinho. O moleque era os pés do cão. Travesso e desobediente, aos cinco anos já queria mandar no próprio nariz. Não gostava de tomar banho nem de comer verduras e legumes. As tarefinhas da escola – meu Deus! – nem se fala. Um terror!
- Julinho, venha fazer a tarefinha.
- Não. Não quelo!
- Oh meu filho. Se você não estudar, vai acabar ficando burrinho.
O moleque, ignorando o apelo da mãe, balançava os ombros em sinal de desdém. Quando ela ameaçava pegá-lo na marra, o pestinha corria pra debaixo da cama. E nem adiantava o pai aumentar o tom da voz ou usar os métodos mais comuns:
- Júlio Roberto da Silva! – os pais quando estão com raiva dizem o nome completo da criança – Já para o banho, rapaz!
E nada do menino sair do esconderijo. O pai tentava de novo:
- Olha, Júlio. É melhor você sair daí. Tem uma cobra embaixo da cama.
- Tem não. E eu não tenho medo.
“Putz!” – pensou o pai. E agora?
- Escuta aqui, seu moleque! Se você não sair imediatamente, eu vou chamar o Velho do Saco pra te levar.
- Chame. Num tenho medo mermo.
- E vou trazer também o Bicho Papão! Ouviu?!
- Lero-lero! Lero-lero!
Estavam perdendo a autoridade. Precisavam fazer alguma coisa. Bater? Não. Nunca tinham dado uma palmadinha sequer. Nada de violência física. Procuraram um psicólogo.
- Do que é que o Julinho tem medo?
- De nada. Eu e minha mulher já tentamos de tudo, doutor. Bicho Papão, Velho do saco, monstros de filmes de terror. Sabe aquele do Exorcista?
- Sim.
- Ele deu risada.
O caso era sério.
O psicólogo disse que os pais precisavam buscar inspiração na realidade. Nada de fantasias ou coisas do tipo. As crianças não acreditam mais nisso. Era preciso encontrar no mundo real algo que motivasse o garoto.
Estavam os três na mesa do jantar. E o Julinho, como de costume, se recusava a comer as verduras e os legumes. Aí a TV começou a exibir uma matéria sobre a guerra no Iraque. Naquele mês, fazia três anos da famigerada ocupação do governo norte-americano. O pai não pensou duas vezes. Lascou pra cima do Julinho:
- Olha o Bush! Olha o Bush!
O pobre do moleque arregalou os olhos e começou a tremer descontroladamente. Ficou completamente assustado. Não deu outra. Raspou todo o prato. Não sobrou verdura sobre verdura. Sei que não é um dos melhores métodos. Mas... Agora, ao menor sinal de desobediência do Julinho, os pais ameaçam:
- Ah! Não quer tomar banho não?! Vou chamar o Bush! Olha o Bush!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Na ponta do fuzil

Por João Paulo da Silva

Tem uma frase do Eduardo Galeano que diz: “Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.”. O massacre ocorrido no último dia 14 de junho, no Morro da Providência, Rio de Janeiro, nos permite incluir o Exército na frase do escritor uruguaio.

A polícia e o Exército são os dois braços armados do Estado. E, ao contrário do que é dito, não existem para “servir e proteger” ou para “garantir a segurança do Brasil”. Quer dizer, desculpem. Cometi um engano. Existem pra isso sim. O problema é que nenhuma dessas duas forças está a serviço dos trabalhadores. E muito menos dos negros e pobres deste país. Um exemplo para ilustrar o fato: Quando os trabalhadores, a população miserável e os movimentos sociais saem às ruas exigindo melhores salários ou melhores condições de vida, são recebidos justamente pela polícia e – a depender da situação – pelo Exército. E esta recepção não vem na forma de boas-vindas. Vem no formato de tiros e cassetetes. Entretanto, não vemos nem a polícia nem o Exército baterem nas portas dos patrões quando estes reduzem salários ou cortam direitos dos trabalhadores. Portanto, o “servir e proteger” ou o “garantir a segurança” não pertencem ao povo negro e pobre.

A participação de soldados do Exército na execução dos três jovens negros por traficantes do Morro da Minerva demonstrou a verdadeira face das Forças Armadas. Deixou tão visível quanto uma fratura exposta. No entanto, alguém – por incrível que pareça! – pode argumentar: “Mas não foram os soldados que mataram os rapazes. Foram os traficantes.”. Ora, e desde quando existe diferença entre aquele que puxa o gatilho e o que manda puxar? A corrupção e o papel nefasto da polícia, agindo em conjunto com os traficantes, subindo o morro para deixar corpo no chão ou formando milícias que aterrorizam a população das favelas, não são novidades. Agora, com o Exército sendo colaborador de extermínios como este em questão, podemos estar diante do último sopro de confiança depositado nestas forças. A fala de um operário e morador do Morro da Providência deixa claro: “Ninguém os quer mais na comunidade. Não temos mais confiança na roupa verde do Exército.”.

Os três jovens voltavam de um baile funk quando encararam a ponta dos fuzis dos soldados. Eram estudantes e trabalhadores. Um deles, inclusive, iria começar a trabalhar nas obras que estavam sendo realizadas no morro. Não deu tempo. Depois de espancar, os boinas-verdes entregaram os garotos aos traficantes por seis mil reais. Três vidas, três estudantes, três trabalhadores, três pobres, três negros. A participação do Exército nessa higienização social é a consolidação da política de segurança fascista do governo de Sérgio Cabral, com o apoio de César Maia e Lula. E não adianta o presidente demonstrar indignação com o ocorrido. Ele mesmo, após um outro massacre realizado pela polícia do Rio no Complexo do Alemão em junho do ano passado, apoiou a ação criminosa do governador Sérgio Cabral dizendo que “a polícia não estava diante de nenhuma pessoa santa”. E as desculpas e indenizações não serão redentoras de ninguém.

Não bastando o circo de hipocrisia montado após a tragédia, os governos, o ministro Nelson Jobim e a imprensa burguesa saíram desesperados para apagar a chama que se acendeu na Providência. Todos querendo convencer a população de que o “incidente foi um caso isolado”. Claro que foi! O Complexo do Alemão e tantas outras chacinas promovidas pela polícia e pela Força de Segurança Nacional também foram casos isolados. Tal argumentação me faz concluir o destino de parte da madeira devastada na Amazônia. Serve para montar o grande número de caras-de-pau deste país. E aqui cabe um detalhe interessante: a imprensa que, após o crime dos soldados, se mostrou consternada com os assassinatos foi a mesma imprensa que aplaudiu de pé as ações fascistas do Bope no filme Tropa de Elite. Não tenho dúvidas de que os homens do Exército e da polícia são treinados com base na máxima política do Washington Luís: “a questão social é um caso de polícia”. E do Exército também.

Mas talvez a maior de todas as verdades seja aquela que todos nós já sabemos: os grandes isolados são os negros, pobres e miseráveis dos guetos e favelas deste país. São eles que vivem cercados por um verdadeiro Eixo do Mal. De um lado, o governo. Com sua política neoliberal de geração de desemprego e miséria. Do outro, o narcotráfico, que recruta a juventude miserável e sem perspectivas para a criminalidade. Por fim, na outra ponta estão a polícia e o Exército, exercendo a força e a violência com critérios racistas.

Em outro texto argumentei que não se resolverá o problema da criminalidade aumentando a repressão contra os grandes bolsões de miséria. Não precisamos de balas e terror. Precisamos de empregos, melhores salários e gigantescos investimentos nas áreas sociais. Lula sabe disso. Mas não está disposto a fazer. A conclusão é cruel: o máximo que se pode esperar de César Maia, Sérgio Cabral e Lula são mais e mais corpos. E, infelizmente, eles serão de trabalhadores, negros e pobres.

domingo, 15 de junho de 2008

Mistério

Por João Paulo da Silva

Há mais ou menos vinte anos um ex-sindicalista desapareceu. Os seus mais destacados sinais característicos eram uma barba preta, uma voz rouca e a ausência do mindinho da mão esquerda. Tudo que se sabe é que o sujeito sumiu sem deixar vestígios. Ao que tudo indica, nunca mais foi visto. Mas talvez este mistério esteja próximo de ser solucionado.

É noite. Dois homens conversam num ponto de ônibus deserto enquanto esperam a condução que os levará para casa. Na verdade, são dois velhos operários. Quer dizer, não tão velhos assim, é verdade. Mas com idade suficiente para lembrar os estranhos acontecimentos do final dos anos 80.
- Você lembra?
- Do quê?
- Da última vez que ele deu as caras?!
- Lembro sim. Foi em 89. Talvez também em 94, eu acho. Não tenho certeza. Faz tanto tempo.
- Pois é. Quase vinte anos. Daquele período pra cá, nunca mais a gente teve notícia do sujeito.
- É. Sumiu do mapa mesmo. Se escafedeu.
- Que coisa, né? Escuta, você se lembra do que ele defendia naquele tempo? A reforma agrária, por exemplo.
- Claro que sim. Como é que eu ia esquecer. Ele dizia: “Nós não vamos fazer reforma agrária, companheiros, nas terras devolutas que querem nos dar na beira das estradas. Nós vamos fazer reforma agrária é na terra dos latifundiários!”.
- Minha nossa! Chega dava gosto de ver.
- Como dava!
- E aquela história de romper com o FMI?! Você lembra quando ele falava de não pagar a dívida externa?
- Ôôôô! Se lembro! Nada de dinheiro do povo pra banqueiro internacional!
- E nas eleições?! E nas eleições?! “Trabalhador vota em trabalhador”. Era o lema.
- Ou então: “Quem vota em peão, não vota em patrão”.
- Ali parecia ser um dos nossos. Você lembra aquela que ele soltou sobre os patrões terem lucros do século XX e pagarem salários do século XIX?! Que tirada, hein!
- Outros tempos aqueles. Outros tempos.
- Mas tinha também a questão de ser contra as privatizações das estatais!
- E de fazer valer o salário mínimo da constituição! Lembra?
- Nem me fale! Aquilo sim era política de valorização do mínimo.
- Pois é. Me lembro bem dele surgindo naquelas greves do ABC.
- Por onde será que ele anda hoje em dia, hein?
- Dizem que fugiu, morreu, rasgou a própria história. Sei lá.
- Mas logo ele?! Logo ele em quem eu depositei todas as minhas esperanças?!
- Pra você ver. Tanto trabalhador confiou no sujeito e ele sumiu assim de repente. E ainda deixou o tal do Luiz Inácio governando, que inclusive se parece muito com ele. Bom, é verdade que a barba é branca. Mas... ele também não tem o mindinho da mão esquerda. E digo mais: vem fazendo justamente o contrário do que o outro defendia. Agora taí essa festa toda dos bancos, com esse Luiz Inácio tirando dinheiro da saúde e da educação pra pagar dívida que não foi o trabalhador que fez. Sem falar também que ele tá vendendo o Brasil inteirinho. A Amazônia, as estradas, os poços de petróleo. Tudo já tem dono. Mas se eu fosse você não alimentaria ilusões nesse governo não.
- Eu? Alimentando ilusões?! De jeito nenhum. Com essa crise dos alimentos, eu não tô nem alimentando minha família direito. Que dirá alimentar minhas ilusões.
- É. Eu sei. Tá brabo o negócio.
- Mas vem cá. Voltando ao assunto do Luiz Inácio. Eu tava pensando aqui: será que ele e o outro não são a mesma pessoa? Tô achando muito esquisito esse sumiço.
- Ora, o que é isso?! Seria muita sacanagem com os trabalhadores brasileiros que os dois fossem a mesma pessoa. Depois de ter confiado numa história de luta a vida inteira, descobrir que ele e o Luiz Inácio são um só seria uma grande decepção. Não, não. Acho que não. Ele deve ter sido raptado por extraterrestres ainda em 89.
- Mas digamos que existisse a possibilidade do Lula e do Luiz Inácio ser a mesma pessoa.
- Bom, dessa forma estaríamos diante do maior caso de falsidade ideológica da história desse país.

domingo, 4 de maio de 2008

A culpa é do pobre

Por João Paulo da Silva

É noite. Jurandir, auxiliar de serviços gerais, chega em casa depois de um dia de trabalho. Pretende jantar e ir dormir. Pois amanhã vai levantar cedo de novo para trabalhar. Já estão todos ao redor da mesa. A mulher, os dois filhos e o Jurandir. No centro, uma panela fumegante. Uma só.
- O que temos pra comer? – pergunta o marido.
Antes mesmo da resposta da mulher, vem o espanto do Jurandir ao destampar a panela.
- O quê?! Mas o que é isso? Arroz? Só arroz? Onde estão o feijão e a carne?!
- A comida tá muito cara, Jurandir. Esse mês nem deu pra comprar tudo. O dinheiro foi embora rapidinho.
- Mas essa situação já tá ficando insuportável. Aonde é que nós vamos parar desse jeito, meu Deus?!
- E eu é que sei, Jurandir?! Tá tudo subindo de preço. É a carne, o feijão, o óleo, o leite. Uma loucura. A Maria mesmo, aquela da casa da frente, me contou hoje que os meninos dela ficam brincando de caça ao feijão no almoço. Tá difícil pra todo mundo, amor.
- Pra todo mundo não! Vê se tá essa pindaíba na casa do meu patrão. Coisa nenhuma! O sujeito não faz nada nessa vida, num bate um prego numa barra de sabão. Só sabe explorar os outros. Agora vê só a gente. Se mata de trabalhar pra não ter dinheiro nem pra comer direito. Aquele aumento miserável no salário mínimo que o Lula deu não serviu pra nada. Um absurdo!

Quando o Jurandir calou-se, ficou suspensa no ar aquela já conhecida sensação de que “não estamos sozinhos”. Havia mais alguém na mesa além da família. Uma visitante bastante ingrata. Sim, era ela. A inflação! Que desgraçadamente come melhor do que todos nós.
O rápido silêncio foi quebrado pela mulher.
- Tudo bem. Vamos tentar relaxar e comer. Filho, liga a televisão que já deve tá na hora do jornal.

Assim que o menino ligou o aparelho, Jurandir se engasgou com um punhado de arroz. A manchete do jornal dizia: “Brasil bate recorde na produção de alimentos.”.
- Recorde?! E pra onde diabos vai essa comida toda que não chega na mesa do povo?! – indignou-se Jurandir.
- Vai pra fora do país, pai. – disse um dos meninos – O Brasil vende quase tudo pro estrangeiro e fica com o resto.
- Quem foi que te disse isso, menino? – quis saber a mãe.
- A professora. Ela disse que é por isso que a comida tá tão cara. E falou também que a culpa é de uma tal de multinacional.
O Jurandir mal se recuperara da engasgada quando o jornal pôs no ar o Lula falando sobre a inflação dos alimentos. “Isso tem uma razão: os pobres do mundo estão começando a comer mais.”.
Aí o jurandir não se aguentou:
- Agora danou-se tudo de vez! Quer dizer que a culpa é nossa?! A gente não come direito porque os preços estão altos. E quando come os preços sobem mais?! Que que é isso, meu Deus?! Sei não, hein! Tem alguma coisa errada nessa história. Mas por via das dúvidas vamos fazer o seguinte: parem de comer! Ninguém come mais!
- Mas, Jurandir, os meninos estão com fome. Precisam comer!
- Nada disso! Se a gente comer mais desse arroz, o preço vai subir e aí não vamos poder comprar nem mesmo o arroz. Ninguém toca nesses pratos!
- Jurandir! – revoltou-se a mulher – Mas o que é isso?! Ficou doido?! Deixe os meninos comerem!

Estavam numa encruzilhada.
- Tá. Tudo bem. Mas só alguns grãos, hein!
Depois de algum tempo, a mulher se levantou pra ir até a cozinha. E de lá mesmo perguntou, suspirando:
- Ai, meu amor. Será que vamos voltar a comer carne de novo algum dia?
Não houve resposta. Quando voltou da cozinha, encontrou o Jurandir olhando de maneira esquisita pros meninos. E o pior: estava apertando a perna de um e a costela de outro, com jeito de quem verifica as provisões.

domingo, 27 de abril de 2008

O Múmia

Por João Paulo da Silva

Há anos faço a barba e o cabelo com o Múmia. Não gosto de ficar trocando de barbeiro. Já me acostumei com ele. Sempre caladão, sério, com aquele olhar bovino, inofensivo. Deve ser por isso que o chamam de Múmia. Nunca descobri o seu verdadeiro nome. Também acho que nunca tive muito interesse. Ninguém o chamava pelo nome real. Todo mundo o conhecia mesmo era por Múmia.

A gente se entendia bem. Eu chegava no salão e ia logo dizendo:
- O de sempre, ô Múmia.
As pessoas até tentavam puxar conversa com ele, mas era uma dureza fazê-lo falar. O máximo que podia sair daquela boca, escondida atrás de um bigodão, era um grunhido ou qualquer coisa que o valha. Às vezes um ruído de aprovação ou desaprovação, dependendo do assunto. Na maioria das ocasiões, o Múmia se comunicava mesmo era por meio gestos e meneios de cabeça. Mas todos sabiam que ele não era mudo.
A reviravolta veio há algum tempo, quando ele resolveu se manifestar.
Vou contar do começo. Assim como milhões de trabalhadores, o Múmia também votou no Lula. Esperava grandes mudanças, sonhava com uma vida melhor, saúde, educação, emprego, um salário digno. Achava mesmo que tudo seria diferente. Quando o Lula chegou à presidência, dava pra ver a esperança na cara do Múmia.
- Ô Múmia! E esse governo, hein?! Será que agora vai?
Com um sorriso que não cabia no rosto, ele balançou a cabeça com firmeza e soltou um ruído parecido com um “oh, se vai!”. Alguns meses depois, já tinha gente provocando o Múmia.
- Olha aí! Tá vendo só?! Ainda não mudou foi nada! O Lula nem mexe no salário. Fica só falando nesse negócio de Alca. Sei não... Boa coisa não é.
O Múmia ficava ouvindo, sempre calado. De vez em quando encolhia os ombros e fazia cara de “calma aí, pessoal. Deixa o homem trabalhar”.
A verdade é que o tempo passava e as mudanças não vinham. Não veio reforma agrária, nem saúde, nem emprego. O que se via mesmo era rico ficando mais rico e pobre ficando mais pobre. Mesmo com uma pontinha de decepção, o Múmia se mantinha firme. Afinal, era um dos “nossos” que estava lá.
- E agora, ô Múmia? Mais de um ano de governo e nada! Tão matando sem-terra e a política econômica ainda é mesma dos tempos do Fernando Henrique. – diziam no salão.
E o Múmia sempre na dele. Mas já não tinha aquele sorriso do começo. Sabia que tinha alguma coisa errada.
Aí veio a história do mensalão.
- Eu não falei?! Não disse?! É tudo igual, Múmia. Todos eles roubam o povo. A gente aqui, dando um duro danado e esses caras do PT batendo a nossa carteira. E o Lula dizendo que não sabe de nada. Tu acredita nisso?!
O Múmia era só decepção. Parecia não saber o que dizer. E mesmo que soubesse não diria. O PT e o Lula eram iguais aos outros. Disso talvez ele soubesse.
Quase quatro anos depois, já perto das eleições, o Múmia não tinha sentido nem mesmo o cheiro das mudanças. Só algumas migalhas.
- Vai votar no Lula de novo, Múmia? – perguntaram no salão.
Meio receoso, hesitante e sem jeito, o Múmia fez uma cara onde se podia ler “mas ele veio do povo”. Assim como milhões de trabalhadores, o Múmia também votou de novo no Lula. Mas as caras e suspiros que ele deixava escapar demonstravam que aquela antiga esperança já não existia mais. O que havia era uma vontade de não perder as migalhas concedidas. A economia estava crescendo. Pouquinho, mas estava. No rosto do Múmia, via-se a expressão de “deixa como tá pra ver como é que fica”.
O segundo mandato começou como uma reprise do primeiro. Só com uma diferença: o que o Lula não conseguiu fazer de ruim com os trabalhadores no primeiro governo começou a fazer no início do segundo. E isso o Múmia sentia na pele e via pela TV.
No salão diziam:
- Ele agora vai mexer na nossa aposentadoria, não quer que ninguém faça greve, anda dizendo que usineiro é herói. Sei não, Múmia. Tá ficando pior.
O Múmia agora só balançava a cabeça em sinal de desaprovação. No rosto, a expressão de “na década de 80 não era assim”.
Esse ano começou ruim para o Múmia e milhões de trabalhadores. Começou mais caro. A cesta básica disparou. E o feijão? Este nem se fala. Assim como tantos outros milhões, o Múmia ia ter de apertar o cinto.
Foi aí que tudo aconteceu.
Eu tinha ido cortar o cabelo e fazer a barba. O Múmia estava passando a navalha no meu pescoço quando a TV deu a notícia. “Novo mínimo de Lula é de R$ 415,00”.
O Múmia arregalou os olhos e, com a navalha ainda no meu pescoço, disse:
- Isso é uma palhaçada! Um absurdo! O que que eu vou fazer com trinta e cinco reais de aumento?! Isso não dá nem pra cobrir o aumento do ônibus!
- Calma aí, Múmia. Espera um pouco. Olha essa navalha. – falei.
- Calma uma ova, seu João! – deu um salto pra trás e começou a sacudir a navalha no ar. – Eu esperei vinte anos da minha vida por um governo do povo. Votei muitas vezes no Lula e confiei no PT. E agora?! O que foi que eu ganhei?! Nada! Nesse governo, os ricos lucram fortunas! E os pobres pagam a conta, seu João. Esperei vinte anos por emprego, reforma agrária, educação, saúde, salário digno. Eu e milhões de trabalhadores!
Depois do desabafo, o Múmia sumiu do salão. Não voltou mais pro trabalho. E levou a navalha. Na barbearia até já tem outro no lugar dele. Está um clima diferente, todo mundo apreensivo, cheio de expectativas, como se algo estivesse prestes a acontecer. Todos achavam que ele ficaria sempre assim. Mudo. Mas até mesmo os mais calados uma hora acabam botando a boca no mundo.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Pro meio do oceano!!

Por João Paulo da Silva

Atualmente assistimos a um show de patifaria. O grau de cinismo se tornou escandaloso na República do aedes aegypti. O surto de dengue no Rio de Janeiro revelou, entre outras coisas, que o governador Sérgio Cabral e o prefeito César Maia são dois debochados sem escrúpulos. E tudo o que o Rio não precisa agora é de autoridades debochadas. Ainda mais quando o deboche é direcionado aos que estão morrendo nas filas e corredores de hospitais públicos.

Diante da epidemia – que o Maia só há pouco tempo admitiu, mesmo com 45 casos da doença por hora – os governos municipal e estadual vêm divulgando as mais esquizofrênicas medidas para combater o mosquito. O Cabral, por exemplo, anunciou o disque-dengue e orientou a população a usar calças e camisas de manga comprida. Vê se pode?!

Você está em casa e escuta um zumbido. De repente, surge em sua frente um mosquito preto com manchas brancas. É ele! Você não tem dúvidas. Devagar, sem estardalhaço, você vai até o telefone.
- Alô? Alô? É do disque-dengue?
- É sim. Em que posso ajudar, senhor?
- Socorro, moça. Tem um aedes na minha casa!
- Não se apavore. Procure manter a calma. O senhor tem certeza que é ele? É pretinho com manchas brancas?
- Claro que tenho certeza! Ai meu Deus! Ele está olhando pra mim! O que que eu faço?!
- Senhor, não demonstre que está com medo. Ele pode achar que tem o controle da situação. Faça o seguinte. O senhor tem calças e blusas compridas em casa?
- Tenho sim.
- Vista essas roupas e não deixe que ele se aproxime.
- Mas... e se ele se aproximar?
- Caso o mosquito avance sobre o senhor, corra! Corra e não olhe pra trás!
***
O César Maia foi mais longe na cretinice. Tendo viajado para a Bahia, o prefeito do Rio disse ter rezado para o Senhor do Bonfim. “Pedi ao Senhor do Bonfim que nos ajude, que leve o mosquito da dengue em direção ao oceano.”. A declaração do Maia me fez refletir sobre uma coisa. Não há limites para um crápula. Ainda mais se ele for do Partido Democratas (antigo PFL). É uma pena que a TV ainda não nos permite esganar alguém através da telinha.

Embora o Cabral e o Maia tentem jogar a culpa nas chuvas e no clima tropical, a calamidade carioca já revelou seus verdadeiros culpados. A redução dos gastos com prevenção e combate à dengue e os sistemáticos cortes de verbas da saúde em geral demonstram o completo desprezo dos governos diante das vidas humanas. Não bastasse o grande número de pessoas infectadas pelo mosquito, ainda temos que enfrentar a falta de leitos e atendimento médico nos hospitais públicos. Lula, Sérgio Cabral e César Maia formam um perfeito eixo do mal. Há duas explicações para justificar os atos daqueles que retiram dinheiro das áreas onde, na verdade, os investimentos deveriam ser maiores: burrice ou ação criminosa. No caso de nossos governos, a segunda opção cai como uma luva.

Bom, caso o Senhor do Bonfim resolva mesmo dar uma forcinha, que não leve apenas o aedes aegypti pro meio do oceano. Pode levar o Lula, o Cabral e o César Maia também. Já ajudaria bastante.

domingo, 23 de março de 2008

Liberou geral!! Quer dizer, mais ou menos.

Por João Paulo da Silva

Há alguns dias, uma notícia me tomou a atenção de assalto. Sim, porque em tempos de capitalismo decadente até mesmo as notícias estão assaltando. Mas não era exatamente sobre isso que eu ia falar. Você, caro leitor ou leitora, a esta altura do campeonato já deve saber que a Holanda vai liberar sexo em praças públicas a partir de julho.

A decisão levantou polêmicas y otras cositas más. Os mais conservadores acham um exagero, safadeza e coisa e tal. Dizem que lugar de sexo é entre quatro paredes. “Parque não é motel, caramba! Olha as crianças aí, pô!”. Mas tem gente achando a medida bastante progressista. “Deve ser tão excitante, uma delícia! Ai que loucura!” – argumentou minha vó, de 63 anos, suspirando e revirando os olhos.

Deixemos de lado, só por um momento, as polêmicas. O que o parlamento holandês acaba de fazer nada mais é do que liberar algo que já existia. Ora, as pessoas sempre fizeram sexo em lugares públicos. A diferença é que antes era proibido. Mas agora liberou geral. Quer dizer, mais ou menos. Há algumas restrições para se realizar o ato em praças públicas.

A polícia holandesa diz que não será permitido fazer sexo à luz do dia, só quando escurecer. Parece que o velho tabu de só fazer com a luz apagada ainda persiste. As camisinhas e acessórios do tipo deverão ser jogados na lata do lixo. Até mesmo porque o Vaticano incluiu, recentemente, a poluição ambiental na lista de pecados mortais. Não será liberado sexo em praças que fiquem próximas a parques infantis. Há o risco das crianças holandesas sentirem vontade de fazer o mesmo. E aí já viu, né? Criança é fogo! Além disso, os casais também não poderão fazer barulho durante o ato. Ou seja, nada de gritos, gemidos, urros, grunhidos ou similares.

Não sei. Tenho a impressão de que essa liberação pela metade trará alguns inconvenientes. Ao que parece, essas regras só serão cumpridas se houver uma certa fiscalização. Fico imaginando as cenas.

Um policial se aproxima de uma pequena moita, onde um casal se encontra em frenética atividade.
- Com licença. Boa noite. O senhor está usando camisinha?
- Claro, seu guarda. Estamos prevenidos. – diz o rapaz.
- Hum... Muito bem. Gosto de ver assim. Então não se esqueçam de jogar a camisinha no lixo, hein?!

Ou então:
Um outro policial se aproxima de outro casal.
- Com licença. Desculpe interromper, mas...
- Algum problema, seu guarda?
- Bem, na verdade sim. O senhor e sua senhora poderiam... diminuir os gritos. Ou, quem sabe, gemer um pouco mais baixo. Não que eu me incomode, mas é que o casal atrás daquela árvore diz se sentir constrangido com os ruídos vindos daqui.
Bom, de todo modo, serão situações inconvenientes. E não tenho certeza se a humanidade está preparada para este grau de civilização. Mas mesmo assim não tenho nada contra o sexo ao ar livre. Acho até um avanço em nossas liberdades democráticas. Só que eu não teria coragem. Tenho vergonha de mostrar minha bunda em público. Além do mais, se por ventura eu fosse visto nu em algum parque holandês seria imediatamente preso. Provavelmente confundido com um animal silvestre. No caso, um urso.

Mas tenho a impressão de que a questão de fundo mesmo – sem trocadilhos, por favor! – é outra. O que teria levado a Holanda a liberar o sexo nas praças? Nas palavras do vereador Paul van Grieken, responsável por um distrito em Amsterdã: “Por que manter proibido algo que atualmente é impossível de controlar?”. A liberação parece ser fruto de uma revolta silenciosa – vá lá, não tão silenciosa assim – organizada pelo povo holandês, possivelmente cansado de ter que gastar com motel. “Gozações” a parte, imagino que ainda existe muita gente em outros lugares do mundo torcendo o nariz para a Holanda. Entretanto, não importa o que digam ou o que façam. As hordas avançam sobre os pilares morais da civilização ocidental cristã. Que bom.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Schwarzenegger for president!

Por João Paulo da Silva

As eleições presidenciais no coração do Império tomam conta dos noticiários. Mas bem que poderiam invadir Hollywood e a festa do Oscar também. Inclusive com direito a premiação e a um “thank you very much” no final. As prévias americanas merecem ganhar um Oscar. O de melhor maquiagem.

Assistimos pela TV a algo inédito na história dos EUA: a possibilidade de um negro, Barack Obama, ou de uma mulher, Hillary Clinton, chegar ao principal assento da Casa Branca. Mas, ao contrário do que parece, o tom “progressista” das duas candidaturas não passa de uma ilusão. Geralmente as maquiagens servem para esconder ou realçar alguma coisa. No caso americano, para esconder.

A política assassina de Bush desencadeou uma importante crise no imperialismo. O presidente estado-unidense, que se considera xerife do mundo, amarga dias ruins. É repudiado em qualquer lugar do planeta, fez do Iraque um novo Vietnã, carrega nas costas o fantasma da recessão e possui os piores índices de popularidade do país. Só não é mais impopular do que a Britney Spears. Mas isso já é outra história. O fato é que o imperialismo está atolado em sangue e precisa de alguns retoques em sua imagem, já tão desgastada por Bush. É aí que entram em cena Obama e Hillary. Novos personagens de uma velha trama.

As campanhas dos dois candidatos despertam ilusões de mudanças em setores oprimidos da sociedade norte-americana. E não era pra menos. Por ser negro, Obama tem o apoio da maioria da população negra e pobre. Mas não faz questão nenhuma de se ligar às históricas reivindicações dos negros de seu país. Obama não é o candidato de uma América negra e explorada. É simplesmente o candidato de uma América que ignora a existência do racismo, quando não o pratica. Admirador de Ronald “Rambo” Reagan, Barack Obama é na verdade o futuro que quer repetir o passado. Já até falou em invadir o Paquistão. O senador americano pode ser negro, mas tem alma de branco rico.

De fato, uma mulher como presidente da maior economia do mundo seria algo extraordinariamente novo. Mas as novidades parariam por aí. Hillary Clinton é uma continuação de seu marido tarado. Digo isso politicamente, claro. A ex-primeira dama quer ampliar os estragos neoliberais realizados por Bill Clinton na década de 90. Não bastasse isso, Hillary ainda tenta construir uma imagem de combate à opressão machista, apoiada por setores feministas que esqueceram suas diferenças de classe. Quando diz que um maior número de mulheres no mercado de trabalho está reduzindo o preconceito, Hillary não fala evidentemente das trabalhadoras em geral. Lucros altos exigem salários baixos. E a justificativa mais petulante encontrada pelo capitalismo é um velho chavão machista: “as mulheres são inferiores aos homens”. Mesmo sendo mulher, Hillary não pode esconder de que lado da trincheira está. Quanto ao Iraque – embora ela hoje seja contra a guerra –, Hillary Clinton já tem seu passado manchado pelo sangue dos iraquianos. Em 2002 ela foi a favor da invasão.

Na tentativa de restaurar sua imagem e manter o saque a outros países, o imperialismo aposta numa simulação. Numa maquiagem. Obama e Hillary são duas faces do mesmo receituário neoliberal que desgraça a vida de milhões de trabalhadores no mundo todo. Duas novidades para conservar o velho. Não há mudanças à vista, pelo menos para os explorados. Apenas outro déjà vu.

Você deve estar se perguntando: “E o que tem a ver o Schwarzenegger com tudo isso?” Já me explico. Se a burguesia imperialista não tivesse com o filme tão queimado como está agora, o atual governador da Califórnia seria o candidato ideal para seus planos. Em se tratando de exterminar a vida de outros povos, quem melhor do que o próprio exterminador do futuro para assumir a presidência?! Schwarzenegger for president!! Bem ao estilo hollywoodiano.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Uma metáfora para o mundo contemporâneo

Por João Paulo da Silva

Andando tranqüilo no centro da cidade, não pude deixar de bater os olhos na manchete de um jornal numa banca de revistas: "Hamas diz que lançará foguetes enquanto Israel mantiver ocupação". Percebendo meu interesse pelo assunto, o dono da banca comentou:
- Esses sujeitos são todos uns fanáticos. Vivem metidos nessa guerra sem sentido.Um bando de terroristas doidos que só querem explodir tudo. Eu é que não me meto nisso. Estão todos errados.

A argumentação daquele homem nada mais era do que a simples repetição da propaganda da turma do Tio Sam. Eu que não tenho nenhuma simpatia pelo Hamas podia até ter ficado calado. Mas como isso não é do meu feitio não me contive. Na mesma hora me ocorreu uma metáfora para explicar o caso.
- O senhor tem casa? - perguntei.
- Claro que tenho. Por quê?
- Então imagine só a situação. É madrugada. O senhor e sua família dormem tranquilamente. De repente ouvi-se um estrondo. Parece que vão derrubar a casa. Rapidamente um exército armado até os dentes invade o quarto, apontando fuzis para a cabeça do senhor e de sua família. Os homens armados mandam vocês saírem da casa. Do contrário, todos vão morrer. Eles dizem que a partir daquele momento a casa não lhes pertence mais. Faz parte agora de um Novo Estado que eles estão fundando. O que o senhor faz?
- Saio, ué?! Não tô querendo morrer.
- Exatamente. No primeiro momento o senhor e sua família decidem sair. Mas depois você percebe que aquele exército não queria apenas a sua casa. Queria também a dos seus vizinhos. E a dos vizinhos dos seus vizinhos. E a dos vizinhos dos vizinhos dos seus vizinhos. Aí o senhor se dá conta de que tudo aquilo é na verdade parte de um projeto de dominação. Que na realidade o que eles querem mesmo é controlar toda a região. Tudo isso porque descobriram que naquelas terras – suas e de seus vizinhos, diga-se de passagem – existe muito petróleo e que vale uma fortuna. Então, o exército fortemente armado começa a empurrar o senhor, seus parentes e seus vizinhos cada vez mais para fora daquela terra. De modo que, em pouco tempo, todos vocês estão vivendo como escravos em verdadeiros campos de concentração, sofrendo bloqueios e passando necessidades. Aí o que é que o senhor faz?
- Aí eu me revolto, ué?! Os caras roubaram minha casa, me expulsaram da minha terra e ainda maltratam minha família!
- Exatamente! Esta situação é muito cruel. Sendo assim, o que o senhor fará todas as vezes que passar na frente de sua casa tomada pelos invasores?
- Ahhhh moço!!! Eu atiro uma pedra, um tijolo, um pedaço de pau! O que eu tiver na mão!
- Tudo isso porque o senhor quer de volta o que é seu. Mas digamos que o senhor não tenha apenas pedras e paus. Possui também bombas e foguetes. Usaria?
- Claro! Agora virou uma guerra!
- Pois é, meu senhor. É justamente essa guerra que vive o povo palestino.

Saí da banca de revistas imaginando o que aquele homem estaria pensando agora. No caminho pra casa, me lembrei da frase que certa vez ouvi de um trotskista chamado Valério Arcary: "Numa luta entre desiguais, permanecer calado é sempre apoiar o mais forte".