Por João Paulo da Silva

Como acontece com maioria das histórias antigas, a lenda do velho Noel também sofreu modificações ao longo dos séculos. A consolidação do capitalismo e a globalização da economia também mexeram com o espírito natalino. Parece que a crise econômica e a aproximação do Natal ajudaram a revelar o lado Papai Noel dos principais governos do mundo.
Uma enxurrada de cifras astronômicas foi (e continua sendo!) liberada para salvar banqueiros e empresários da anarquia capitalista. Entre deixar os magnatas se quebrarem ou quebrar os trabalhadores, os governos escolheram a segunda opção. É verdade que não há nada de novo na preferência daqueles que hoje comandam os países, mas esperava-se pelo menos um pouco de discrição na hora de meter a mão no dinheiro público para salvar capitalistas.
Há duas importantes diferenças entre São Nicolau e os governantes do capitalismo. Nicolau deixava uma sacolinha de moedas de ouro na chaminé das casas e fazia questão de preservar seu anonimato. Os governantes do capitalismo não. Despejam trilhões nos bolsos dos ricos e ainda posam para as fotos, com as caras mais cínicas do mundo.
Por conta da crise, os líderes mundiais anteciparam seus presentes de Natal. Para aqueles que lucraram muito com a exploração de milhões, a recompensa vem na forma de pacotes econômicos bilionários. Para os que trabalharam muitas horas por um mísero salário, o prêmio é mais desemprego e pobreza.
Agora, para ser um Natal daqueles, só está faltando mesmo é dizerem que o critério usado na escolha dos presentes foi o bom ou o mau comportamento durante o ano de 2008.
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Idéia para uma história de Natal.
É noite. E Papai Noel viaja em seu trenó da Lapônia até o Brasil, puxado por suas renas. Pousa com segurança no telhado de uma casa e, cuidadosamente, entra pela janela. Uma vez dentro, dá de cara com o Robertinho e a Jandira.
- Papai Noel! Você veio de verdade. – falam as crianças magricelas.
- Pois é, garotada. Mas não posso demorar muito. Agora deixa eu ver aqui o que foi que vocês me pediram.
E o velho Noel começa a remexer nas cartas enviadas.
- Você, Robertinho, me pediu uma cesta básica, não foi?
- Isso mesmo.
- Bom, filho, você deve ter percebido que esse ano a comida aumentou demais. Sendo assim, nesse Natal só vou poder te dar esta caixinha de chicletes. Toma aí.
- E o meu presente, Papai Noel? – falou a Jandira.
- Bem, o seu foi... deixar ver... um emprego pro seu pai, certo?
- Foi isso sim, Papai Noel.
- Mas vocês hein?! Só me pedem presentes difíceis, ora bolas! Olha, Jandira, não vai ter emprego pro teu pai não. A crise econômica está aí, a recessão também. E o cenário é de demissões em massa. Eu mesmo já demiti metade dos meus duendes e dei férias coletivas pra seis renas.
- Mas Papai Noel...
- A gente não pode ter prejuízo nos negócios, entende? Alguém precisa pagar o pato. Mas faz o seguinte, Jandira. Pede pro seu pai pegar a caixa de chicletes que eu dei ao teu irmão e fala pra ele ir vender lá no sinal da esquina. Ok?
- Mas Papai Noel...
- Não tem “mas” nem meio “mas”. Agora deixem eu ir que já estou atrasado. Preciso entregar os presentes de alguns banqueiros e empresários. Feliz Natal pra vocês e até o ano que vem.
6 comentários:
Gosto do uso do 'teu' no lugar de 'seu', indica impessoalidade. A expressão 'lalau' foi uma referência ao juiz nicolau dos santos neto?
De um todo gostei, ficou criativo.
Abraço João.
kkkkkk
vc heim João nos brinda com mais um excelente texto... ;)
Acho que o papai noel que vc relata é aquele das maravilhosas propagandas da coca-cola... ajudando a enriquecer os banqueiros e as multinacionais... viva Santa Claus, vulgo Lalau hehe
Grande João!
Desde a jornada de literatura do SESC que estou com suas fotos com o Moacir Sclier! Manda teu e-mail para eu te enviar: jackrpassessoria@gmail.com
Grande abraço.
Cruel esse Papai Noel que você descreve vindo ao Brasil, hein? Rechaçou os pedidos dos mais humildes (muito simples, por sinal) e correu pra presentear os "banqueiros e empresários". A perfeita personificação do espírito do capital: ávido por lucros e com uma natureza reprodutiva incontrolável.
Papai Noel, Nicolau, Lalau! Pensei que você faria uma caricatura do juiz Nicolau dos Santos Neves quando vi o início do texto. Mas nem foi o caso... :p
Como sempre, e não é de se espantar, sua crônica ficou muito boa e crítica. Parabéns.
Me lembra nesse começo de ano o nosso prefeito benfeitor Cicinho que aumentará a passagem pra 2 reais a partir dessa segunda-feira.
Já dá pra pensar em maiar...
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