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domingo, 23 de agosto de 2015

Mudar de casa e arrumar o quarto

Por João Paulo da Silva

Viver é mudar de casa e arrumar o quarto. A gente sempre perde e encontra algo pelo caminho. É um grande “achados e perdidos”. A vida é o que deixamos cair do caminhão da mudança. O que ficou esquecido na casa velha. O que reencontramos quando damos uma geral no quarto. As coisas, as pessoas, as convicções, os amores.

O que é e o que poderia ter sido. Aquilo que escapou pelos dedos. O que estava perdido, mas foi reencontrado. Na bagunça, nas gavetas, entre os livros, cadernos, fotografias, CDs antigos. Somos escolhas e acidentes. A esperança da segunda chance, do reinício, do tente outra vez. Porque mudar e arrumar são imperativos.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Paciência

Por João Paulo da Silva

Na porta do banheiro, o pai tenta convencer o filho de dois anos a tomar banho.

- Vamos, filho. Hora de ir pro chuveiro.
- Não, papai. Não quero.
- Mas tem que ir, filho.
- Por quê?
- Porque você está sujo.
- Por quê?
- Porque está suado.
- Por quê?
- Porque você estava correndo, brincando na rua...
- Por quê?
- Ai, meu Deus... Filho, vai pro chuveiro.

domingo, 2 de junho de 2013

Pobre Yurinho

Por João Paulo da Silva

Quando era criança, lá pelos doze anos, eu costumava jogar bola com meu irmão no terraço da nossa casa. Ficávamos horas brincando de chute ao gol. Como não tínhamos autorização para jogar na rua, aquela acabava sendo a nossa diversão. Mas a gente até que gostava. Só não gostávamos mesmo era do Yurinho, o vizinho da frente. Ô moleque chato.

Ele sempre aparecia no portão lá de casa, pedindo pra jogar com a gente. Ficava um tempão implorando e enchendo o saco. Foram poucas as vezes em que permitimos. Eu e meu irmão tínhamos um motivo para não deixá-lo jogar. Qualquer coisinha o Yurinho chorava. Se levava um frango, chorava. Se perdia um pênalti, chorava. Se tomava uma bolada mais forte, chorava. E o pior: saía correndo e gritando que a gente tinha batido nele. Quer dizer, além de frouxo, o Yurinho também era mau-caráter.

domingo, 18 de novembro de 2012

Broxadas

Por João Paulo da Silva

Broxar é normal. Acontece. Quer dizer, desde que não aconteça sempre ou na maioria das vezes. Mas se esse é o seu caso, sugiro que procure um médico rapidinho. Existem muitos tratamentos eficazes contra a disfunção erétil (é feio falar impotência sexual). Entretanto, se você já ficou sozinho com a Scarlett Johansson dentro de um elevador, ela te dando o maior mole, e mesmo assim o tesão não veio, então desista. É melhor aposentar o “falecido” e ir criar passarinho no interior de Minas. Não insista. Vai ser vexame atrás de vexame. De todo modo, dar uma broxada ou outra na vida não é motivo para tanto desespero assim. Acontece com os melhores pintos.

domingo, 23 de setembro de 2012

O apartamento


Por João Paulo da Silva

Ele passava por ali todos os dias. Desde que ela fora embora, aquilo se tornara uma constante em sua vida. Era parte de seus dias e noites. Uma necessidade inabalável, como comprar o pão todas as manhãs ou tomar um banho todas as noites, mais para limpar a alma do que o corpo. Ficava ali, em frente ao antigo prédio dela, com os olhos presos à janela do apartamento. Esperava um sinal qualquer, um aceno, uma lâmpada acesa. Qualquer coisa que lhe permitisse compreender que podia subir, tocar a campainha, entrar no apartamento e beijar-lhe a boca pela primeira vez. Mas não. Não haveria luz acesa, nem aceno, nem qualquer tipo de sinal. Há meses ela não vivia mais ali.

domingo, 9 de setembro de 2012

Primeiros passos

Por João Paulo da Silva

Outro dia, li na internet que cientistas da Universidade de Liverpool resolveram olhar novamente antigas pegadas na Tanzânia e descobriram que um dos nossos ancestrais mais primitivos, o Australopithecus afarensis, já andava de pé, completamente ereto, assim como o homem moderno. Pesquisas anteriores mostravam que essa característica teria surgido apenas nos primeiros Homos, há 1,9 milhões de anos. Agora, já se sabe que a história não caminhou bem por aí. Ok. E que importância tem essa descoberta? Bom, tem muita, porque os pesquisadores acreditam que a forma ereta de caminhar foi determinante para que nossa espécie saísse da África e ganhasse o mundo. “Sebo nas canelas! Pernas para que te quero!”, devem ter dito na época. Ao modo deles, é claro.

domingo, 12 de agosto de 2012

Dia do “papá...”

Por João Paulo da Silva

Aos 27 anos, meu primeiro dia dos pais... como papai, é claro. Até dizem que já tenho cara de pai. Aliás, cara e corpo de pai. Há quem afirme que eu dei uma engordada e que estou caminhando para o cultivo daquela barriguinha saliente, presente na vida de todo pai que se preze (ou se despreze). Mas isso não passa de futrica alheia. Ainda não estou nestas condições, muito embora a calvície, que também é uma aflição paterna, já avance as fronteiras do aceitável. Minha aparência não me incomoda, da mesma forma que não me incomodaria se eu fosse um pai parecido com o Hugh Jackman. Fisicamente falando. A verdade, porém, é que a chegada do pequeno João Gabriel mudou para sempre os meus dias. Agora, além de comemorar o dia dos pais do lado daqueles que ganham presentes, também sou acordado todas as manhãs ao som das sílabas mais bonitas da língua portuguesa. Cinco e tanta da madrugada, vem a voz do berço me chamar: “papá, papá...”. Ser pai é viver em completo estado de abestalhamento.

domingo, 15 de julho de 2012

A perda da inocência

Por João Paulo da Silva

Vou usar um clichê. A vida é uma enorme travessia. E pelo caminho vamos perdendo uma penca de coisas importantes. Tudo bem. Eu sei. Já está manjado. Mas é que eu sempre quis dizer isso num texto. Tem a ver com uma espécie de magia que a frase exerce sobre mim. Não sei. Gosto da metáfora. É isso. É a metáfora.

domingo, 10 de junho de 2012

10 coisas para fazer antes do fim

Por João Paulo da Silva

Todo mundo vai morrer um dia, independente da forma. Tiro, facada, acidente, infarto, câncer, atropelamento, queda de avião, intoxicação alimentar ou mesmo falência múltipla de órgãos, que é bem mais chique. Se o sistema público de saúde funcionasse direito, é verdade que não morreriam tantas pessoas como morrem atualmente, com certeza não bateriam as botas por falta de assistência médica. Mas ainda assim elas morreriam, porque morrer é o curso natural da vida, pelo menos por enquanto. Obviamente, não descarto outras possibilidades para o nosso fim, como a destruição completa do planeta, seja por uma guerra nuclear, invasão alienígena, impacto de um meteoro gigante ou a continuidade do capitalismo. Esta última, inclusive, sendo a hipótese mais provável, caso os trabalhadores não consigam fazer o mundo mudar de sistema. Bom, o certo é que vamos virar poeira em algum momento. Pode ser amanhã ou daqui a bilhões de anos. Sem dúvida, a segunda opção é melhor.

domingo, 3 de junho de 2012

Paternidade

Por João Paulo da Silva

Dizem que ser mãe é padecer no paraíso. É uma imagem curiosa, intrigante, metafórica e repleta de significados, para o bem ou para o mal. Mas se isso é verdade, ser pai é o quê, então?! Qual a função da figura paterna na vida de um filho? No que consiste a essência da paternidade? Afinal de contas, pra quê serve um pai? Essas foram algumas das perguntas que brotaram na minha cabeça logo depois que o pequeno João Gabriel inundou os meus dias. A resposta para estas questões é uma só, e eu estou descobrindo-a aos poucos, no dia a dia, passo a passo, pedacinho por pedacinho, como num quebra-cabeça de um trilhão de peças. Embora existam muitos manuais ensinando “como ser um bom pai”, o que apenas demonstra a obsessão da humanidade por manuais, nenhum livro é capaz de decifrar aquilo que só se conhece por inteiro na prática. É verdade que se aprende um macete ou outro com algumas pesquisas no Google, mas nada substitui as primeiras descobertas, o espanto diante do desconhecido, ou até mesmo a epifania de uma fralda suja de cocô. Como se sabe, a prática é o critério da verdade.

domingo, 8 de abril de 2012

O medo da morte

Por João Paulo da Silva

Nietzsche dizia que existir é doloroso porque o mundo é doloroso. O filósofo alemão, entretanto, também afirmava que muito pior do que a dor da existência é a dor do “deixar de existir”. A verdade é que nós nos apegamos bastante ao que a vida tem de melhor; e talvez seja por isso que não queiramos morrer. Mesmo com as contradições sociais do mundo tornando difícil a nossa existência, nós gostamos de viver, e a possibilidade da morte é sempre uma aflição que nos persegue. Fazemos de tudo a fim de retardar o irremediável. Evoluímos a medicina, a nutrição, os exercícios físicos, as condições de vida, etc etc etc. Brigamos com a natureza de todos os seres e com o planeta para garantir maior longevidade. Mas, para afugentar a dor que vem com o destino final e com a perda, não fazemos outra coisa a não ser criar uma porção de ilusões místicas e religiosas. É fato: não lidamos bem com a morte.

domingo, 1 de abril de 2012

E o humor ficou órfão...

Por João Paulo da Silva

Tudo o que ele fez foi sucesso de crítica e público. Em mais de 70 anos de carreira, usou sua inteligência corrosiva e seu humor fulminante para escrever, “sem borracha”, o próprio nome entre os maiores intelectuais e artistas do Brasil. Foi jornalista, desenhista, cartunista, humorista, dramaturgo, escritor, fabulista, frasista, tradutor e inventor. Foi dele a ideia do frescobol. A única prática esportiva sem vencedores ou perdedores. Era dono de um gênio tão inquieto quanto brilhante. Uma daquelas cabeças que não veremos nunca mais. Millôr Fernandes era um homem múltiplo, de múltiplos talentos, de múltiplas facetas. E foi assim até na hora do adeus definitivo. Morreu aos 88 anos de falência múltipla dos órgãos.

domingo, 25 de março de 2012

Um estranho

Por João Paulo da Silva

O amor é estranho. Não escolhe hora, momento ou lugar. Vem como um susto. Acontece tudo muito rápido, de maneira bastante imperceptível. Invade, inunda, consome, retalha. É assim. O sentimento é tão mágico que às vezes nem mesmo o ser descobridor percebe a descoberta. Talvez seja o mais confuso dos sentimentos. O mais difícil de se entender. E por isso o melhor.