domingo, 23 de setembro de 2012

O apartamento


Por João Paulo da Silva

Ele passava por ali todos os dias. Desde que ela fora embora, aquilo se tornara uma constante em sua vida. Era parte de seus dias e noites. Uma necessidade inabalável, como comprar o pão todas as manhãs ou tomar um banho todas as noites, mais para limpar a alma do que o corpo. Ficava ali, em frente ao antigo prédio dela, com os olhos presos à janela do apartamento. Esperava um sinal qualquer, um aceno, uma lâmpada acesa. Qualquer coisa que lhe permitisse compreender que podia subir, tocar a campainha, entrar no apartamento e beijar-lhe a boca pela primeira vez. Mas não. Não haveria luz acesa, nem aceno, nem qualquer tipo de sinal. Há meses ela não vivia mais ali.

Para ele, ficaram apenas as lembranças e as possibilidades, imagens soltas e turvas do que viveram juntos e também daquilo que não tiveram tempo ou coragem para viver. Agora, como um velho de oitenta anos parado sobre o ponteiro das horas, ele pensa no hiato em que se transformou sua vida. O vácuo. O vazio. A garganta do monstro que insiste em não devorá-lo. Olhando a fachada do prédio, ele pode jurar que sente o cheiro dela. Um cheiro doce, trazido pelo vento, como naqueles dias em que ela subia as escadas deixando pra trás o perfume. A fragrância adocicada fez suas recordações ganharem mais cor, se transformando em quadros recém-pintados. Em tinta fresca.

Diante da escuridão da janela, as imagens daquela tarde foram surgindo aos pingos. Ali, no quarto dela, sentados frente a frente. As caixinhas de som do computador tocando Doce Vampiro, da Rita Lee. Comendo jujubas, ela o encarava como se quisesse despi-lo. “Venha me beijar, meu doce vampiro” – cantarolava, bastante convidativa. Colocou uma jujuba entre os lábios e ofereceu a ele. As bocas se tocaram por um breve momento, tempo suficiente para ele perceber o quanto era bom ser mortal. O olhar terno que ela lhe lançou depois revelou que não eram duas esferas verdes que existiam naquelas órbitas. Eram dois enormes labirintos. E nunca foi tão bom se perder neles.

As luzes de Natal e as crianças brincando formavam o único quadro de coisas vivas na frente do prédio. Quando a chuva começou a cair com força, todas as criaturas correram para seus abrigos. Ele procurou uma árvore grande para se amparar, sempre protegendo o envelope que tinha nas mãos. O frio da noite lhe fez sentir um estremecimento. Lembrou do dia, muitos meses atrás, em que voltavam pra casa. Sentada ao seu lado no ônibus, ela repentinamente aproximou a boca do seu rosto e lambeu-lhe atrás da orelha. Ele estremeceu, como que atingido por uma golfada de vento. Riram. Daquele dia em diante, sempre que estavam no ônibus, ele pedia para que ela lhe lambesse a orelha.

Mas, agora, com o olhar fixado no aviso de “aluga-se”, as lembranças parecem mais saraivadas de balas contra o peito. Tantos foram os dias em que ele deitou a cabeça em seu regaço, querendo apenas os afagos daquelas mãos. Foram confissões, segredos, pecados, angústias e solidões trocadas. Uma cumplicidade que só os amantes possuem. Nunca foram ao cinema juntos. Mas viram alguns filmes comendo pipoca e bebendo vodca com Fanta. Faziam juras de amor.

Um dia ela falou que ia embora. Não dava mais pra ficar. Andava sofrendo muito e achou que assim seria melhor. Até já tinha se afastado dele nos últimos tempos, estava diferente. Não queria criar problemas, era o que ela dizia. Não podiam andar juntos, nem mesmo podiam ser vistos juntos. Acabou indo embora. Na despedida, apenas se olharam. Talvez nunca mais voltasse.

A chuva começou a diminuir. Foi ficando rarefeita, assim como as lembranças que se diluíam ao tocar o asfalto do passado. Com os olhos ainda pregados no apartamento escuro, ele se deixou tomar por fantasmas daquilo que não aconteceu. Um flashback do “se”. Saudades do que poderia ter sido, mas não foi. Muitas foram as vezes em que ficaram só se olhando. Dias e noites que poderiam ter sido resolvidos com um único gesto. Frases que murcharam antes mesmo de saírem da boca.

A saudade é um privilégio dos povos de Língua Portuguesa. Os americanos, por exemplo, não sentem saudade. Sentem falta de alguma coisa. Antes de atravessar a rua, era nisso que ele estava pensando. Na saudade da vida que nunca teve. Dos beijos que nunca deu. Das noites que não dormiu. Das cartas que não escreveu. Do amor que nunca fez. Era um homem pela metade, incompleto. Um náufrago em terra firme.

Com o envelope nas mãos, subiu devagar as escadas que há muito tempo não subia. Aproveitou o percurso até o apartamento para cantarolar Doce Vampiro. Lembrava com nitidez o número. Parou diante da porta. Olhou pela última vez o que tinha escrito dentro do envelope. Duas palavras apenas. Foi o mais sincero possível. Não assinou o bilhete. Não era preciso. Ela entenderia quando voltasse. Passou o papel por baixo da porta e desceu as escadas.

Ao sair do prédio, ele podia jurar que havia sentido um cheiro doce vagando na noite.

Obs.: Em tempos de correria e falta de tempo, republico um dos meus favoritos.

4 comentários:

Cartas para Li disse...

Esse daí é lindo demais.

Cabe na vida de todo mundo (dos que tiveram saudade e dos que sentem saudade de ter saudade).

Bruno Martins disse...

É, acompanho seu blog faz tempo. Esse eu tinha lido e é realmente um texto muito marcante. Ler de novo, imaginar as descrições e notar que elas estão ali no cérebro, que não foram embora, estavam apenas bem guardadas nessa caixa fascinante que é a nossa mente.

Daíse disse...

Adorei!!! Adorei!!! E adorei teu jeito de escrever!!!!

Encantada!!!!

Abraços!!!

Lourdimar Silva disse...

Passei a acompanhar recentemente o blog...e poxa, esse texto é belo.
Saudades...lembranças que possuem vida própria.
Parabéns.