domingo, 2 de setembro de 2012

Sem saúde

Por João Paulo da Silva

Se você não é o Eike Batista, não é dono de banco, não acertou na loteria, vive de salário (principalmente se for o mínimo), é pobre ou está desempregado, então seja bem-vindo ao clube. Você e eu fazemos parte de um “seleto” grupo de milhões de brasileiros que não têm acesso aos serviços mais básicos para qualquer ser humano. Assim como numerosos outros companheiros, você e eu não temos direito a uma boa alimentação, a boas roupas, boa moradia, boa educação, boa saúde e um imenso etc., tão longo quanto a Muralha da China.

Quando não nos negam tudo, nos negam a qualidade de tudo. E isso só acontece porque você e eu, além de mais da metade do país, não temos dinheiro suficiente. Ou, na pior das hipóteses, não temos nem o suficiente. No Brasil e no mundo, a lógica do “pegue e pague” se impõe. Quem não tem como pagar fica à mercê do público. E o público, como se sabe, é sabotado pelos governos justamente para não funcionar e jogar você e eu nas mãos do privado, ou da privada. 

Veja, por exemplo, o meu caso. Dia desses descobri, da pior forma possível, que eu tinha cálculo renal (popularmente conhecido como pedra nos rins). Tive uma crise dolorosa, mais parecia que estava parindo, e fui levado para um hospital público. Depois de um rápido exame de urina, o médico que me atendeu constatou o que a dor já havia anunciado. Em seguida, ele pediu um raio-x do abdômen para ver o tamanho do “problema” e decidir qual tratamento aplicar.

- Mas você vai ter que fazer na clínica particular aqui ao lado. A máquina do hospital está quebrada. – falou o médico.
- Quebrada? Há quanto tempo, doutor?
- Ah... deixa ver... 2, 3, 4, 5... ahhh... Bom, deixa pra lá. Há muito tempo.

Resultado? Novas consultas, exames e tratamento não puderam ser feitos no setor público. Meu cálculo renal não podia esperar seis meses por uma consulta especializada nem meu bolso aguentaria pagar novos exames particulares sempre que fossem solicitados. Mas não havia com o que se preocupar. Os planos de saúde já estavam de braços abertos, esperando por mim com todo carinho e atenção. E lá fui eu para o privado. Fiz um plano caro e tratei logo de marcar uma nova consulta. O médico passou uma bateria de exames, dos quais eu só pude fazer a metade. A outra parte, a carência do plano impedia. Mas isso eu só descobri na hora.

- Sinto muito, o plano do senhor ainda não permite a realização de raio-x do abdômen. – disse a atendente do laboratório.
- Como não?! Por quê?
- Porque a doença do senhor é preexistente. Ou seja, o senhor já tinha cálculo renal quando fez o plano.
- Mas é claro que eu já tinha! Só fiz o plano porque fiquei doente e a saúde pública não funciona, ora! Se não tivesse doente, não tinha feito o plano, cacete!
- Pois é, senhor. Nesse caso, por causa da carência do plano, o senhor só poderá fazer o raio-x do abdômen daqui a 24 meses. Mas o senhor já tem direito a raio-x do antebraço.
- E pra quê que eu quero raio-x do antebraço, moça?! Eu estou doente é dos rins!
- Infelizmente, só quando o plano de saúde completar 24 meses.
- Mas daqui a 24 meses eu não terei mais pedra nos rins, moça. Terei é o Everest nos rins! Isso é um absurdo! A gente paga a saúde privada porque a pública não funciona. Aí quando precisa usar o serviço privado, que já está pagando, não pode usar! Que loucura, meu Deus!
- Todo plano de saúde tem sua carência, senhor. É uma garantia financeira para as seguradoras.
- Garantia do quê?! De que eu não vou usar todos os serviços e depois dar um calote em vocês?!
- Exatamente.
- Ah! Então, agora eu sou caloteiro?! Era só o que me faltava.
- Acalme-se, senhor. Aceita uma água, um cafezinho?
- Aceito. Mas vão servir agora ou daqui a 24 meses?! Hein, hein!

Como não poderia ficar sem tratamento nenhum, procurei uma senhora que vende umas ervas no centro da cidade. Ela me vendeu uma planta para fazer um chá e disse que era tiro e queda contra cálculo renal. É um escândalo, eu sei. Mas se você não é pobre, não está desempregado, não vive de salário, e ainda por cima é o Eike Batista ou um banqueiro, então não precisa se preocupar. Essa não é a sua vida.

Um comentário:

Rafael Belo disse...

É isso mesmo João! O poder público está preocupado em construir e não em equipar e oferecer nosso direito a saúde garantido na Constituição. Um bom texto de engolir amargamente. boa semana!