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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Paciência

Por João Paulo da Silva

Na porta do banheiro, o pai tenta convencer o filho de dois anos a tomar banho.

- Vamos, filho. Hora de ir pro chuveiro.
- Não, papai. Não quero.
- Mas tem que ir, filho.
- Por quê?
- Porque você está sujo.
- Por quê?
- Porque está suado.
- Por quê?
- Porque você estava correndo, brincando na rua...
- Por quê?
- Ai, meu Deus... Filho, vai pro chuveiro.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Rolezinhos

Por João Paulo da Silva

Enquanto isso, nos shoppings brasileiros... o país da democracia racial se revela.

Numa loja, a gerente da grife e a cliente rica conversam.

- Ai, querida... não sei você, mas eu ando tão assustada com essa onda de... como é mesmo que eles chamam? ‘Rolezinhos’, não é? Isso tem tirado o meu sossego, acredita?! A gente nem pode mais fazer compras em paz. Ai, que absurdo.

domingo, 12 de maio de 2013

Superstições

Por João Paulo da Silva

A mãe do Rodrigo era supersticiosa, cheia dessas crendices populares que habitam o imaginário de muita gente. Aí já viu, né? Qualquer coisinha era motivo para um “Deus nos acuda”, literalmente. O pobre do garoto fora criado em meio a um mundo que parecia ser governado por forças ocultas e implacáveis. Era como se determinadas ações acarretassem, inexplicavelmente, consequências irremediáveis. “Pisar em rabo de gato atrai malefícios”, “deixar tesoura aberta por muito tempo dá azar”, “coruja que crocita em cima da casa, à noite, é sinal de morte na família”. Isso só para ficar em alguns exemplos. Mas a mãe do Rodrigo não mencionava apenas superstições ruins. Por vezes, quando o filho tinha soluços, ela aconselhava:
- Põe um palito de fósforo atrás da orelha que isso passa, menino!

domingo, 30 de dezembro de 2012

Feliz ano novo!

Por João Paulo da Silva

Na beira do mar, o Roberval segurava sua tacinha de plástico cheia de vinho espumante barato. Vestido de branco, assim como milhares de tantas outras pessoas, ele aguardava eufórico a queima de fogos e a chegada do ano novo. No peito, aquele velho e conhecido sentimento: “Porra, o próximo ano tem que ser melhor, né?! Esse foi de lascar.”. 

E o Roberval tinha razão. O ano não fora nada bom. Cheio de corrupção, desastres naturais, demissões, mortes. Uma enxurrada de tragédias individuais e coletivas, muitas das quais ele mesmo começou a recordar naquele momento, enquanto esperava o início da contagem regressiva.

domingo, 9 de setembro de 2012

Primeiros passos

Por João Paulo da Silva

Outro dia, li na internet que cientistas da Universidade de Liverpool resolveram olhar novamente antigas pegadas na Tanzânia e descobriram que um dos nossos ancestrais mais primitivos, o Australopithecus afarensis, já andava de pé, completamente ereto, assim como o homem moderno. Pesquisas anteriores mostravam que essa característica teria surgido apenas nos primeiros Homos, há 1,9 milhões de anos. Agora, já se sabe que a história não caminhou bem por aí. Ok. E que importância tem essa descoberta? Bom, tem muita, porque os pesquisadores acreditam que a forma ereta de caminhar foi determinante para que nossa espécie saísse da África e ganhasse o mundo. “Sebo nas canelas! Pernas para que te quero!”, devem ter dito na época. Ao modo deles, é claro.

domingo, 15 de julho de 2012

A perda da inocência

Por João Paulo da Silva

Vou usar um clichê. A vida é uma enorme travessia. E pelo caminho vamos perdendo uma penca de coisas importantes. Tudo bem. Eu sei. Já está manjado. Mas é que eu sempre quis dizer isso num texto. Tem a ver com uma espécie de magia que a frase exerce sobre mim. Não sei. Gosto da metáfora. É isso. É a metáfora.

domingo, 8 de julho de 2012

Fair play, brother!

Por João Paulo da Silva

Há situações na vida que possuem propriedades interessantíssimas. Encruzilhadas cotidianas em que as pessoas acabam por demonstrar quem realmente são. Na cama, ao volante, na prática política... São todas ocasiões de grande revelação. Outro dia, porém, soube de uma situação que talvez seja a mais reveladora de todas. O assalto! Eis o instante em que a moral burguesa é ofendida. Eis o encontro do capitalismo com seu Frankenstein. O criador e a criatura. Cara a cara! O assalto oscila entre a celebração do ridículo e o extremismo da barbárie. Pelo menos em alguns casos.

domingo, 24 de junho de 2012

O ronco

Por João Paulo da Silva

Chamar o ronco do Osvaldo de ronco era eufemismo. Ronco é o ruído que você e eu fazemos dormindo. Não era o caso do Osvaldo. O dele estava mais para aquele barulho que motor de caminhão velho faz. Não, minto. Era pior. Sabe o som que vem de dentro das cavernas nos filmes de dragão? Pronto. Algo semelhante. Uma coisa horrorosa. De tão alto, ouvia-se até do lado de fora da casa. Dava a impressão de que iria derrubar as paredes. Com exceção da dona Margarida, casada com o Osvaldo há 40 anos, ninguém agüentava o ronco estrondoso. Os filhos, assim que puderam, casaram e saíram de casa. Dona Margarida não tinha essa opção. Quer dizer, até tinha, porém o amor foi maior do que o ronco. Por mais incrível que isso possa parecer nos dias de hoje. De certa forma, a esposa acabou se acostumando com a sinfonia apocalíptica do marido. A resignação, evidentemente, veio com o tempo, como quase tudo na vida. Os anos se encarregaram de tornar habitual a poluição sonora do Osvaldo. Chegou uma época, inclusive, em que dona Margarida era capaz de acordar com uma buzina na rua, mas não mais com os rugidos do marido. E ainda há gente que diz que a rotina não tem seu lado bom...

domingo, 3 de junho de 2012

Paternidade

Por João Paulo da Silva

Dizem que ser mãe é padecer no paraíso. É uma imagem curiosa, intrigante, metafórica e repleta de significados, para o bem ou para o mal. Mas se isso é verdade, ser pai é o quê, então?! Qual a função da figura paterna na vida de um filho? No que consiste a essência da paternidade? Afinal de contas, pra quê serve um pai? Essas foram algumas das perguntas que brotaram na minha cabeça logo depois que o pequeno João Gabriel inundou os meus dias. A resposta para estas questões é uma só, e eu estou descobrindo-a aos poucos, no dia a dia, passo a passo, pedacinho por pedacinho, como num quebra-cabeça de um trilhão de peças. Embora existam muitos manuais ensinando “como ser um bom pai”, o que apenas demonstra a obsessão da humanidade por manuais, nenhum livro é capaz de decifrar aquilo que só se conhece por inteiro na prática. É verdade que se aprende um macete ou outro com algumas pesquisas no Google, mas nada substitui as primeiras descobertas, o espanto diante do desconhecido, ou até mesmo a epifania de uma fralda suja de cocô. Como se sabe, a prática é o critério da verdade.

domingo, 20 de maio de 2012

O casamento

Por João Paulo da Silva

Por que é mesmo que os casamentos acabam, hein? Uma amiga minha costuma dizer que o casamento é uma instituição social falida. Não sei. Talvez até seja mesmo. Mas imagino que ela esteja se referindo àquela tradicional e conservadora forma de casamento, surgida de uma das costelas da propriedade privada, lá nos primórdios da humanidade. Um tipo de matrimônio que previa a união entre um homem e uma mulher com o objetivo principal de garantir um herdeiro ao marido para que este não perdesse suas propriedades para o vizinho. No fim das contas, uma espécie de negócio. Vale lembrar, ainda, que essa era a única razão para que as mulheres fossem obrigadas a casar virgens (algo hoje bem mais fraco, é verdade). A história de manter a pureza do corpo até as núpcias e todo o blábláblá as religiões idealizaram depois. A exigência da virgindade era só para que o homem tivesse a certeza de que ao menos o primeiro filho seria seu. Quer dizer, quando inventaram a propriedade privada e o casamento monogâmico (este só para a mulher, é claro), inventaram também, de quebra, o machismo. Bom, mas a julgar pelo positivo avanço das atuais formas de união, inclusive homossexuais, talvez seja aquele casório démodé que tenha se tornado, sim, uma instituição social falida e com os dias contados.

domingo, 13 de maio de 2012

Que vexame, meu Deus!

Por João Paulo da Silva

Um amigo até me falou que era bobagem. Machismo da minha parte e coisa e tal. Eu até concordo. Mas é que... sei lá. Ficou um clima chato, sabe? Maior constrangimento, pô! Fiquei todo sem jeito na hora.

Eu tinha ido ao urologista. O motivo? É melhor poupá-los dos detalhes. Posso dizer apenas que o problema se tratava de uma dor que eu estava sentindo numa região estratégica. Mas a situação era dura, confesso. Sem trocadilhos maldosos, por favor.

O certo mesmo é que fui tomado pelo nervosismo. Me angustiava só de pensar no que o médico poderia dizer. Uma porção de hipóteses passava pela minha cabeça medieval.
- Hum...
- É grave, doutor?
- Grave?! Gravíssimo, meu caro!
- Ai, meu Deus do céu! O que é que eu tenho?!
- Você faz sexo regularmente?
- Regularmente? Bom, até as 20 horas funciono regularmente. Depois... já não garanto.
- Hum...
- O que foi?
- Vamos ter que amputar.
- O quê?! Amputar?! Mas por quê?!
- Por falta de uso.

domingo, 6 de maio de 2012

O padeiro

Por João Paulo da Silva

Quando chegou em casa, a mulher o recebeu com um beijo e uma notícia:
- Querido, estou grávida!
- O quê?!
- Isso mesmo! Estou esperando um filho.
- Mas que maravilha! Isso é ótimo, meu amor!

Emílio sempre foi um sujeito trabalhador, o melhor funcionário da repartição. Rita, sua esposa, trabalhava em casa e era uma mulher de beleza notória, extremamente atraente. O casal vivia um momento mágico. Seus rostos esbanjavam contentamento. A chegada de um filho abriria uma nova etapa em suas vidas. Emílio não queria perder tempo e tratou logo de contar a novidade para os amigos do trabalho.
- Sabem da nova? Vou ser papai!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Os chatos

Por João Paulo da Silva

Você sabe quem eles são. Com certeza já cruzou com muitos por aí. Eles estão por toda a parte, em todos os lugares. Na fila do banco, dentro do ônibus, no trabalho, numa roda de amigos. Parecem uma praga; se reproduzem tão rápido quanto as moscas. Mas, infelizmente, vivem bem mais do que 30 dias. Talvez você próprio seja um deles. E o pior: provavelmente ainda nem se deu conta disso. Os chatos andam pelo mundo, perturbando a nossa vida, interrompendo os breves momentos de sossego, ou até mesmo aprofundando o estresse diário de todos nós. Os chatos são tão chatos que deveriam integrar a tabela periódica. Estão tão impregnados na sociedade que mereceriam um estudo científico; preferencialmente um que revelasse como eliminá-los. Há chatos de todos os tipos, de vários segmentos sociais. Entretanto, por uma razão óbvia, não vou ficar aqui citando cada um dos espécimes que existem. Isso, por si só, já seria muito chato. Portanto, escolhi algumas das categorias de chatos que mais me incomodam. Vamos a elas.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Amigo íntimo

Por João Paulo da Silva

O meu melhor amigo é um homem que vejo todos os dias no espelho do banheiro da minha casa. Suas características físicas são estranhamente parecidas com as minhas. Tem uns olhos tristes, um sorriso tímido, sobrancelhas e lábios grossos, nariz delgado, uma calvície levemente acentuada e um corpo quase franzino. É um profundo conhecedor dos meus segredos mais íntimos e o único para quem posso confidenciar as minhas desilusões amorosas. Sinto-me à vontade com ele. É como se estivéssemos juntos desde o dia em que nascemos. Às vezes, ele se aventura como meu analista, vasculhando os vários cantos escuros e empoeirados do meu subconsciente. Procuramos conversar todas as manhãs em frente ao espelho. São diálogos abertos e naturalmente silenciosos. Ele tem um lado moralista que eu não valorizo muito, pois usa-o constantemente para reprimir algumas de minhas atitudes. Mas é apenas com ele que me vejo suficientemente bem para abrir meu baú secreto, onde guardo minhas ações mais nobres e os meus sonhos mais soberbos. Estamos misteriosamente presos um ao outro.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Dois Brasis

Por João Paulo da Silva

Não sei se você sabe. Mas existem dois Brasis. Parafraseando um autor cujo nome não lembro, posso dizer que nos dividimos em dois grupos. Aqueles que têm mais jantares do que apetite e os que têm mais apetite do que jantares. Pode até parecer uma definição simplista demais. No entanto, isso não faz dela uma mentira. É claro que existe um evidente confronto de classes nisso tudo. Tratemos desses dois Brasis de maneira metafórica. Até mesmo porque – “nunca na história deste país” – uma metáfora foi tão real.


domingo, 18 de dezembro de 2011

Prefácio

(O texto abaixo trata-se do prefácio que escrevi para um recente livro - Crônicas do Nova Natal - publicado por jovens cronistas, alunos da professora Amanda Gurgel, sobre situações vividas no bairro em que eles moram e estudam: o Nova Natal, na Zona Norte da capital do Rio Grande do Norte. Foi um grande prazer escrevê-lo. Agora, é um grande prazer publicá-lo aqui em meu blog.)

O escritor Ariano Suassuna costuma dizer que “a literatura é uma forma de protestar contra a morte”. Gosto de citar essa frase sempre que me perguntam por que escrevo. Se existir é doloroso, abandonar a vida sem deixar registros deve ser ainda mais. Há outras razões que levam as pessoas a escreverem, claro. Mas, ao que me parece, o escritor também escreve para ser lembrado. Não necessariamente por um exercício de vaidade, e sim porque acredita que todo mundo deve passar pela vida e marcar suas digitais na história. Na verdade, quem escreve tem medo do esquecimento. E a morte não deixa de ser uma forma de ser esquecido. Por isso, escrever e fazer literatura, além de serem artes, são também maneiras de impedirmos que as pessoas se esqueçam de nós e do mundo que as cerca.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Dando corda ao relógio do mundo

Por João Paulo da Silva

Tem uma frase do poeta Mário Quintana que diz: “Os que fazem amor não estão fazendo apenas amor: estão dando corda ao relógio do mundo.”. A chegada do pequeno João Gabriel na minha vida me fez pensar bastante sobre a questão. Quem deixa uma vida nestas terras deixa mais do que simplesmente um ser com identidade genética e semelhanças físicas. Deixa uma marca. Um desígnio de humanidade. Ter um filho é ter a chance de ser alguém melhor. Mas criar um filho é mais bonito. É experimentar a possibilidade de continuar existindo nos sonhos das gerações seguintes. Por inúmeras razões, muitas crianças são geradas sem nenhum tipo de sentimento de amor. Vem ao mundo e pronto. Na adoção, não. É um pouco diferente. Gerar não é o que define. Cuidar, criar e formar. Isso é o que basta. Adotar um filho é necessariamente um ato de amor. O pequeno João Gabriel é o meu.

domingo, 13 de novembro de 2011

Coçadinha

Por João Paulo da Silva

Quando temos febre, é sinal de que as coisas não andam muito bem. Podemos estar doentes. Há em nossa sociedade uma febre. Você já deve ter notado (se ainda não notou é porque é um tapado!) que somos vigiados em todos os lugares. As câmeras estão por toda parte. Quer dizer, por quase toda parte. O banheiro ainda é a última trincheira da privacidade. Mas o fato é que tem sempre alguém bisbilhotando a gente através das lentes das câmeras. Aquela história de que estão nos filmando para a nossa própria segurança é pior do que conto da carochinha. A única segurança que importa não é a nossa, é a das mercadorias que não podem ser roubadas. Nossa sociedade aprofundou de tal forma a desigualdade entre os homens que precisa vigiar a si mesma, em praticamente todas as situações. Este é apenas um dos sinais de nossa doença, os outros são ainda mais cruéis.

domingo, 23 de outubro de 2011

Sobre cheiros, músicas e outras coisas

Por João Paulo da Silva

É engraçado como um sentimento nostálgico vai tomando conta da gente com o passar do tempo. À medida que nos afastamos do passado, começamos a sentir saudades de uma porção de coisas. Os amigos, o primeiro carrinho, a primeira namorada, os pais que se foram... Tudo. Tudo um dia faz falta.

As melhores definições sempre foram dadas pelos poetas. Mario Quintana definiu bem aquele aperto no peito que sentimos diante do passado: “A recordação é uma cadeira de balanço embalando sozinha”. A tecnologia nos permitiu registrar o tempo em pixels, mas não conseguiu evitar que ele nos escapasse por entre os dedos. Afinal, não podemos voltar.

domingo, 16 de outubro de 2011

Invenções

Por João Paulo da Silva

Fico intrigado com a engenhosidade humana quando observo tudo o que inventamos até hoje, seja para satisfazer as necessidades mais básicas ou mesmo as mais estapafúrdias. Incrível essa capacidade do homem de modificar o ambiente em benefício próprio, criando objetos que não existiam antes de precisarmos deles. E o mais curioso: depois dos muitos inventos e melhoramentos que fizemos em nosso planeta, a vida tornou-se praticamente impensável sem eles. Nos primórdios da humanidade, por exemplo, quando mal tínhamos descido das árvores e a sobrevivência era ainda mais difícil do que é hoje (mas pelo menos não havia imposto de renda), o homem das cavernas enfrentou sérias dificuldades para poder abrir um simples coco. Batia numa pedra ali, batia em outra acolá. E nada. Até que resolveu colocar seu cérebro primitivo para funcionar. Uniu um toco de madeira a um pedaço de pedra lascada, amarrou os dois com cipó e... “Voilà!”. Surgia o primeiro machado da História, e nunca mais tomar água de coco foi um martírio. Melhor do que o machado para abrir coco só mesmo o vendedor de água de coco. Facilitou ainda mais a vida. Mas o importante é que, depois de nossa primeira invenção, não paramos mais. A cada nova necessidade, uma nova criação. E estamos assim até hoje.