domingo, 12 de maio de 2013

Superstições

Por João Paulo da Silva

A mãe do Rodrigo era supersticiosa, cheia dessas crendices populares que habitam o imaginário de muita gente. Aí já viu, né? Qualquer coisinha era motivo para um “Deus nos acuda”, literalmente. O pobre do garoto fora criado em meio a um mundo que parecia ser governado por forças ocultas e implacáveis. Era como se determinadas ações acarretassem, inexplicavelmente, consequências irremediáveis. “Pisar em rabo de gato atrai malefícios”, “deixar tesoura aberta por muito tempo dá azar”, “coruja que crocita em cima da casa, à noite, é sinal de morte na família”. Isso só para ficar em alguns exemplos. Mas a mãe do Rodrigo não mencionava apenas superstições ruins. Por vezes, quando o filho tinha soluços, ela aconselhava:
- Põe um palito de fósforo atrás da orelha que isso passa, menino!

Na bolsa, ela sempre carregava dentes de alho, figas e trevos de quatro folhas. Se, por acaso, quebrasse um copo numa festa – minha nossa! – era certeza de que vinha felicidade pela frente. Batata mesmo. Enfim, a dona vivia de crendices.

O Rodrigo não aguentava mais as ladainhas supersticiosas da mãe. Quando ele era criança, não podia fazer nada que a velha vinha reclamar:
- Menino, pare de apontar para as estrelas! Vai ficar com o dedo cheio de verrugas! Olha aí ô, Rodrigo! Desemborca esses chinelos já! Quer trazer desgraça, infeliz!

Outro dia, porém, já homem feito, o Rodrigo resolveu rebater as superstições da mãe e quase saiu do sério. Estava ele sentado no sofá, quando ela apareceu coçando a orelha esquerda.
- Ai filho, acho que tem alguém falando mal de mim. Minha orelha esquerda não para de coçar.
- Mãe! Quer parar com essa loucura?! Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Onde já se viu isso?! Essas crendices não existem. Não há nenhuma relação científica nisso tudo. Essa orelha deve tá é muito suja pra coçar desse jeito.
- Suja?
- É. Vem cá pra eu dar uma olhada nisso. Olha aí! Não falei?! Tá com o ouvido cheio de cera.
- Sério? Cheio de cera?
- É. Tá uma porqueira só.
- Ai meu Deus, que bom! Quem tem muita cera no ouvido é sinal de que vai ficar rico.
- MÃE!!!!

3 comentários:

Rafael Belo disse...

kkk muito bom! no ponto.

Kessiane Souza disse...

Muito bom!!!

Anônimo disse...

Gostei,parabéns.Você é criativo e desenvolve a narrativa muito bem.
Abraços.
Oscar Nora