domingo, 24 de março de 2013

Coisas do sexo

Por João Paulo da Silva

Tem um versinho cômico do Luis Fernando Veríssimo que diz: “O homem não é o único animal que faz sexo, mas é o único que precisa de manual de instrução.”. Essa é uma daquelas verdades incômodas. Daquelas que nos deixam um pouco envergonhados enquanto espécie. Ninguém precisa, por exemplo, dizer a um leão ou a um macaco como é que se faz a “coisa”. O bicho vai lá e faz, instintivamente. Não pergunta aos amigos, não consulta o Kama Sutra, nem pesquisa na internet. Com a gente é mais complicado. Tem que aprender todos os dias. Do contrário, não faz bem feito. É a incessante busca pelo know-how. É isso.

Com o passar do tempo, diferente dos outros seres, o homem e a mulher foram ficando mais complexos, criaram necessidades antes inexistentes e modificaram o mundo e a si mesmos. Todas as nossas atividades, inclusive as mais básicas e naturais, como é o caso do sexo, foram se sofisticando e recebendo inúmeros aperfeiçoamentos (há quem discorde). Nos primórdios da humanidade, o sexo era simples. Era só chegar e pimba! Pronto. Sem rodeios. Meio bruto, é verdade. Mas também ainda não tínhamos inventado o amor, o cinema e a banheira de hidromassagem. Hoje saímos para jantar, tomamos um vinho. Enfim, demos uma floreada.

O sexo ficou melhor, claro. Mais prazeroso, mais criativo, mais humano (ou menos animal). Entretanto, a sofisticação da nossa espécie e da forma como transamos cobrou um preço. A eterna reinvenção e aprendizagem. Vira e mexe surgem umas novidades eróticas que nos empurram para um constante processo de reciclagem. Além de diversas posições (algumas praticáveis só por ginastas olímpicos), inventamos ainda muitos artefatos sexuais, capazes de deixar a brincadeira mais divertida. Ou não. A história da humanidade, assim como a do sexo, é cheia de idas e vindas. Às vezes, a gente avança; noutras, retrocede. Se é que vocês me entendem.

Inovamos no sexo para não cairmos no marasmo do “papai e mamãe”. Reinventamos a vida na cama para não enjoarmos dela. Foi pensando nisso que um dia o Bira passou num sex shop e chegou em casa com uns brinquedinhos diferentes, meio exóticos. A Mirtes, esposa dele, vivia reclamando que a transa já não era a mesma, sempre convencional, sem novidades. Precisavam dar uma apimentada. “Eu quero emoção, Bira! Emoção! Entende?”, dizia ela. Aí o Bira resolveu agir.
- Amor, vem aqui no quarto! Tenho uma coisa pra te mostrar! – gritou ele.
- O que é, Ubirajara?! Tô vendo a minha novela! – respondeu a Mirtes, entrando no quarto.
- Calma, amor. Você vai gostar. Senta aqui na cama e fecha os olhos.
- Pra quê isso?!
- Confie em mim, querida. Você não queria emoção? Não queria apimentar a relação? Então. Agora fecha os olhos e espera aí. – insistiu ele, enquanto ia buscar uma sacola no guarda-roupa.
- Vai demorar muito? Estou perdendo minha novela.
- Só um minuto. Pronto. Pode abrir. – disse o Bira, exibindo nas mãos duas bolinhas coloridas, uma azul e a outra vermelha, dentro de uma embalagem de plástico.
- O que é isso? Bolinha de gude?
- Não, não. É outra coisa. Comprei num sex shop no centro da cidade. São bolinhas explosivas aromáticas.
- Como é que é?!
- Funciona assim. Eu coloco essas bolinhas em você antes de a gente começar a transar. Aí, com a pressão do movimento, elas explodem e liberam um lubrificante cheiroso que esquenta tudo.
- Colocar em mim uma coisa que explode e que esquenta tudo?!
- É. É só explosãozinha. Fica tudo molhadinho, quentinho. Muito gostoso. Emocionante.
- Claro. Muito emocionante, Ubirajara. – ironizou a Mirtes. – E você realmente acha que eu vou deixar você enfiar essas coisas que explodem dentro de mim?! Tá pensando que minha vagina é festa de São João pra ficar estourando bombinhas?! Endoidou, por acaso?!
- Mas, amor... eu só queria fazer algo diferente pra gente. Agitar um pouco a relação, sabe? Não foi você mesma que falou que queria emoção?
- Ubirajara, meu filho, se eu quisesse ir pelos ares, iria transar com o Bruce Willis. Nem morta você vai enfiar esses explosivos em mim!

O Bira ficou todo murcho, decepcionado, naquele silêncio constrangido. Maior balde de água fria. Mas não se entregou.
- Tá bom. Tudo bem. Sem bolinhas explosivas. Ok? Talvez não tenha sido uma boa ideia mesmo. De qualquer forma, eu também comprei uma outra coisinha. Quer ver?
- O que é?
- Fecha os olhos.
- De novo?!
- Vai, vai. Fecha.
- Ai, meu Deus. Me proteja, por favor.
- Abre agora.
- Mas o que é isso?! Mais bolinhas?! É fixação?
- Calma, amor. Essas bolinhas não explodem. Fica tranquila. São bolinhas tailandesas. É assim. Elas ficam presas por esse cordão aqui ó, e aí eu vou enfiando uma por uma em você. Devagarzinho. Depois, é só ir puxando. A vendedora da loja falou que você iria ficar louca de tesão.
- Vou ficar louca, sim. Mas é de raiva. Primeiro você pensa em colocar duas granadas na minha vagina, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Aí agora vem com essa história de bolinhas tailandesas. Já viu quantas bolinhas tem nesse cordão? Uma, duas, três, quatro... oito! Oito bolinhas, Ubirajara! Imagina se esse troço engancha dentro de mim. Como é que eu vou ficar com essas bolinhas penduradas?!
- Ah, Mirtes. Assim não dá. Que coisa difícil. Você também não gosta de nada. Cheia de frescura. Toda conservadora.
- Conservadora, eu?! Muito engraçado da sua parte. Você traz pra casa duas bolinhas que explodem e um cordão com mais oito bolinhas da Tailândia. Quer enfiar tudo isso em mim e ainda quer que eu aceite numa boa?! Francamente, Ubirajara.
- Também não é assim. Você tá exagerando.
- Exagerando nada. Se você é tão libertário, querido, então por que não enfia essas bolinhas tailandesas em você mesmo?! Vai lá!
- De jeito nenhum. Elas não são para serem usadas em mim. São só para mulheres.
- Que absurdo! Seu machista idiota! Quem te disse isso?
- Ninguém. Está escrito na embalagem. Olhe aí.
- Onde?! Onde?! Onde está isso?
- Bem aqui, ó, onde diz assim “bolinhas tailandesas”. Se fossem para homens, estaria escrito “bolinhos tailandesos”.
- Ah, seu cretino! – gritou a Mirtes, e saiu correndo atrás do Bira pelo quarto. – Vem aqui que eu vou enfiar todas essas bolinhas em você!

Não demorou muito, estavam os dois agarrados no chão, transando por cima das bolinhas. Emocionados.

4 comentários:

Edson Falcão disse...

Hilariante, genial mesmo, João! Enfim vc retorna no velho e bom estilo - sarcástico, irreverente, despudorado - marca registrada de suas crônicas. Pelo amor de Deus, não não nos prive mais por tanto tempo de seu bom humor - tão necessário para a gente encarar uma segunda-feira. Sou seu fã. Abração!

pedro disse...

Vc tem sérios problemas, cabeça! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk... Muito bom!

Rafael Belo disse...

muito bom! honesto e a vida como ela é!

Cainã Ito disse...

Sensacional João! Nunca,sequer para refletir isso rs.
Ótima crônica,parabéns.