Mostrando postagens com marcador Economia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Economia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Pra frente, Brasil!

Por João Paulo da Silva


Dia normal no Brasil. Dois velhos conhecidos tomam café da manhã numa padaria. O assunto não poderia ser outro. Conversam sobre o “novo” momento econômico e político do país.
- Viu ontem o jornal? Já não somos mais os primos pobres no mundo.
- Não? Por quê? O povo ganhou na mega-sena por acaso?!
- Não, nada disso. É que agora somos a sexta maior economia do planeta, rapaz! Nosso PIB chegou a 2,51 trilhões de dólares. Ficamos na frente até do Reino Unido! Não é fantástico?!
- Sim, claro que é. Como também é fantástico o Brasil ter 16 milhões de miseráveis, mesmo sendo o sexto país mais rico do mundo.


domingo, 24 de julho de 2011

Esse tal de mercado

Por João Paulo da Silva

Era uma bela manhã de sábado. Eu estava assistindo ao futebol de areia pela televisão quando minha mulher gritou da cozinha:
- Querido, venha cá!

Levantei-me com relutância. O jogo estava emocionante e eu não queria perder nenhum lance.
- O que foi, meu amor? – eu disse.
- Querido, eu estou querendo fazer uma macarronada, mas não temos massa de tomate. Você poderia ir comprar?
- Logo agora que estamos metendo três na seleção de Portugal?! Não pode deixar isso pra depois?!
- Não! Tem que ser agora!
- Tá. Tudo bem. Eu vou.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Psicopatas

Por João Paulo da Silva

Horrores inimagináveis como os que foram cometidos por Josef Fritzl, o “Monstro da Áustria”, condenado em 2009 à prisão perpétua pelos crimes de incesto, estupro, cárcere privado e homicídio, estarrecem a humanidade pelo grau de barbárie e reacendem, de tempos em tempos, um medo imensurável em todos nós: o de que qualquer um ao nosso lado pode ser um psicopata. Inclusive o próprio pai. É claro que viver num clima desses só pode nos levar a uma paranoia coletiva, algo muito comum numa sociedade doente como a nossa.

É terrível, verdade seja dita. Como podemos saber se estamos diante de um psicopata? Como reconhecer alguém que pode cometer as piores insanidades sem o menor remorso, já que psicopatas não andam com placas de aviso nem rótulos no peito? Fica difícil. Quer dizer, ficava.

Recentemente, li uma entrevista com o psicólogo canadense Robert Hare, famoso por ter criado uma escala usada mundialmente para medir os graus de psicopatia de cada um. Na escala, o número máximo que a insanidade pode atingir é 40. A dificuldade de reconhecimento de um maníaco pode ser ilustrada com uma simples analogia.

Imagine um jogo de gato e rato. Para Hare, o psicopata é como o gato, que não pensa no que o rato sente. Ele só pensa em comida, em satisfazer a si mesmo. A vantagem do rato sobre as vítimas do psicopata é que ele sempre sabe quem é o gato. Com a gente é diferente. Às vezes não dá tempo de reconhecer o gato.

Mas os critérios de avaliação adotados por Hare podem ajudar a identificar um comportamento psicótico. Ele estabeleceu alguns, como extrema facilidade para mentir, grande capacidade de manipulação e mania de dizer que está sendo mal interpretado quando é pego fazendo coisas erradas.

Juro – e nem sempre faço isso – que quando li que estes seriam os indicadores de psicopatia pensei: se o psicólogo canadense estiver certo, nosso problema é bem maior do que imaginamos. Por quê? Observe o cenário político brasileiro. Agora, responda: em que as atitudes dos políticos se diferenciam dos comportamentos indicados pelo psicólogo?

Eu sei, não é uma conclusão tranquila. Eles mentem, manipulam e ainda se dizem mal interpretados quando são pegos com a boca na botija. Estou inclinado a acreditar que nosso país e estados são governados por astutos psicopatas, classificados nos graus 12, 13, 15, 22, 25, 40, 43, 45, 65, conforme número do partido. Terrível, não?

Mas isso não é tudo. Pior é quando, em tempos de crise econômica ou não, eles aumentam os próprios salários, culpam a natureza por tragédias em que eles são os responsáveis e ainda reduzem o orçamento de serviços essenciais, como a saúde, por exemplo. Aí deixam de ser apenas psicopatas. E, sem remorso nenhum, se tornam verdadeiros serial killers, responsáveis por todos os mortos nas filas dos hospitais e enchentes da vida.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Estado mínimo e Estado máximo

Por João Paulo da Silva

Nos anos 70, crescia e ganhava força a ideia de que o Estado deveria se desocupar de suas responsabilidades sociais e da prestação de serviços públicos gratuitos, como saúde e educação. Na época, diante de uma crise econômica profunda, os donos da “bufunfa” disseram que era preciso desinchar a máquina estatal e inchar os seus próprios bolsos. Sem essa de assistência social, investimentos em áreas não rentáveis e interferência do Estado nos negócios. A palavra-chave era liberdade. Mas para o mercado, não para as pessoas. Para fazer a economia voltar a crescer, era preciso reinventar o espírito de Robin Hood, só que às avessas: tirando dos pobres para dar aos ricos. Aí o FMI, o Banco Mundial e os governos se encarregaram do serviço. Privatizações e pagamentos regulares de juros de uma dívida impagável a banqueiros inauguraram o neoliberalismo e a conversa mole do Estado mínimo.

O Rio de Janeiro talvez seja um dos mais trágicos exemplos das consequências neoliberais do capitalismo, o que se confunde com o próprio conceito de capitalismo. A guerra nos morros cariocas é o reflexo manchando de sangue do encontro entre dois tipos de Estado. O Estado mínimo da assistência e o Estado máximo da violência. Só os responsáveis diretos pelos problemas sociais acreditam que a criminalidade é apenas um caso de polícia e que pode ser resolvida com a política do “mandar bala”. Lula e Sérgio Cabral estão combatendo o que eles e os governos anteriores mesmos criaram. A criminalidade não surge através de geração espontânea, assim como também ninguém nasce bandido, nem assaltante dá em árvore. A vida real não se movimenta pelo maniqueísmo barato dos filmes de ação e gibis de super-heróis, como gosta de fazer parecer a cobertura da imprensa. Nossos problemas vão além do bem e do mal, além da divisão entre mocinhos e vilões. A questão, na verdade, é de classe; de classes sociais, de quem tem acesso e de quem não tem acesso.

Se a repressão policial fosse a solução, o Brasil já seria pelo menos a Noruega. Afinal, as invasões policiais nos bolsões de miséria não podem ser contadas nos dedos, a não ser que você seja uma centopéia. Quando o assunto é garantir o atendimento às necessidades básicas do povo, como saúde, educação, emprego e moradia, o Estado se torna mínimo. Desaparece por completo, ao melhor estilo de “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Entretanto, quando a conversa é reprimir aqueles que foram empurrados para os braços do narcotráfico e da violência, aí o Estado é máximo. Aí tem Bope, Exército, Marinha, Aeronáutica e até Tropas Estelares. Aí vale revistar todo mundo, roubar trabalhador e atirar no primeiro preto pobre que correr.

Enquanto a única coisa que subir o morro for o fuzil, não haverá ponto final nessa história. Apenas cenas dos próximos capítulos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Presidente ou presidenta?

Por João Paulo da Silva

Eu poderia ter feito duas crônicas diferentes, uma para cada resultado da eleição. Mas me poupei do trabalho inútil e desgastante, já que é difícil escrever sobre diferenças entre iguais. Com Dilma ou Serra, os vencedores não seriam muitos. Nada mais do que um punhado de grandes empresários e alguns investidores de Nova Iorque. Aliás, estes têm sido os vencedores há muito tempo. A eleição de Dilma não impediu o retorno da direita ao poder. Por um motivo muito simples: a direita nunca saiu do poder. No Brasil, há oito anos a burguesia descobriu a melhor maneira de manter os trabalhadores quietos e continuar controlando o país. Trouxe o PT e sua principal liderança para o governo. Em troca, pediu que aquela história de esquerda, socialismo e luta de classes fosse deixada de lado. E foi.

Em oito anos, Lula foi um replay de Fernando Henrique. Só que mais “eficiente”. Fez os bancos e as empresas lucrarem mais do que na época dos tucanos, algo que o próprio presidente admite sem o menor constrangimento. Enquanto os lucros dos donos da festa cresciam quatro vezes mais com Lula do que com FHC, o salário mínimo crescia no mesmo ritmo daquele personagem dos Trapalhões, o Ananias. Ou, se preferirem, como gostam de fazer os trapaceiros na hora de repartir a riqueza: “quatro pra mim, meio pra você.”. Governar para todos onde as classes sociais têm interesses contrários só poderia dar nisso. Alguém tem que sair perdendo, ainda que pareça estar ganhando.

Os petistas dizem que a vitória de Dilma impediu a volta ao passado, que a vitória da ex-ministra fortalece o projeto da esquerda, que favorece a continuação das mudanças de Lula. Palavras e conceitos confundem, mas fatos e ações esclarecem. Governos de esquerda (ou dos trabalhadores, como quiserem) não enviam tropas militares para massacrar um povo de outro país, principalmente se este for o povo mais miserável das Américas. Governos de esquerda não pagam dívidas com banqueiros enquanto pessoas morrem em filas de hospitais públicos, sobretudo quando as dívidas já foram pagas uma dezena de vezes. Governos de trabalhadores não permitem demissões durante crises econômicas, não reduzem impostos para empresários e não doam R$ 370 bilhões para meia-dúzia de ricos em falência. Governos de trabalhadores não fazem reformas da previdência para dificultar a aposentadoria de quem passou a vida inteira trabalhando, muito menos vetam o fim de fatores previdenciários. Governos de esquerda não chamam latifundiários e usineiros de heróis, tampouco reprimem ocupações de terra e não fazem reforma agrária. Governos de esquerda não organizam mensalão nem mensalinho e não governam com corruptos, principalmente se eles forem Sarney, Collor e Renan Calheiros. Governos de trabalhadores não aceitam privatizações do patrimônio público, não fazem leilões de petróleo, nem dividem o pré-sal com empresas privadas. Governos de trabalhadores não permitem que um milhão de mulheres realizem abortos clandestinos e sem segurança todos os anos, correndo o risco de morrer ou ficar com seqüelas, ainda que isso incomode católicos e evangélicos. Governos de esquerda não chamam de distribuição de renda um programa que oferece apenas R$ 130,00 por mês para uma família inteira sobreviver. Governos de esquerda, depois de oito anos, não permitiriam a existência de mais de 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, sobretudo num país que é a oitava maior economia do mundo.

Bom, de fato existe, sim, uma diferença entre Dilma e Serra. Ele seria presidente, ela será presidenta. E é só.

Obs.: Por problemas de preguiça crônica, o blog As Crônicas do João só fez sua postagem hoje, e não no domingo como de costume. Próximo domingo tudo volta ao normal.

domingo, 3 de outubro de 2010

O voto útil

Por João Paulo da Silva

Essa quem me contou foi um amigo. É sobre o peso de nossas decisões e as ironias da vida. Ou sobre a nossa consciência de classe.

Seu Zeca trabalhava há vários anos na companhia energética pública de seu Estado. Era esse trabalho que garantia o seu sustento e o de sua família. A estabilidade do serviço público lhe dava, inclusive, certa tranquilidade no ofício e a doce ilusão de ver afugentado o fantasma do desemprego. Seu Zeca sempre teve orgulho do seu trabalho porque através dele ajudava a iluminar as vidas de centenas de milhares de pessoas. Em sua inocência, até se arriscava a dizer que era feliz. Aí veio a eleição para governador do Estado. O ano era 1994.

Seu Zeca, assim como a maioria do povo, entendia que era preciso votar em quem tinha chances de ganhar. Não valia a pena escolher um candidato que mal aparecia nas pesquisas e que não conseguiria vencer a eleição. Era o mesmo que jogar o voto fora. Afinal, voto tinha que ser útil. Por isso, Seu Zeca não pensou duas vezes e optou pelo candidato que estava liderando as preferências, um legítimo cacique da política no Estado e um representante dos interesses de grandes empresários. Seu Zeca era um trabalhador, mas escolheu votar no patrão.

Entretanto, o funcionário da companhia energética poderia ter tomado outra decisão. Na rua em que ele morava, em um bairro popular da cidade, havia um trabalhador que também era candidato ao governo e que sempre falava coisas sobre a esquerda, o socialismo e a importância da classe trabalhadora governar. Mas este trabalhador/candidato não tinha dinheiro para gastar nas eleições e nem o mesmo tempo de TV dos outros. Por isso, aparecia sempre em último nas pesquisas.

- Pois é, Seu Zeca. Eleição não muda nada. Mas a gente também não pode votar nos candidatos daqueles que nos exploram, não é verdade? Trabalhador tem que votar em trabalhador pra fortalecer a nossa luta em defesa da nossa classe. Pra gente um dia poder governar e deixar de ser explorado. – dizia o candidato da esquerda.

- Mas eu não vou estragar o meu voto votando em quem não tem condições de se eleger, rapaz. Se tem dois candidatos na frente das pesquisas, eu tenho que escolher é um dos dois pra não perder meu voto! – afirmava o funcionário da companhia energética.

O trabalhador/candidato ainda tentou argumentar, mas Seu Zeca estava decidido. Iria mesmo votar naquele que estava liderando a campanha e que tinha condições de ganhar. E foi o que aconteceu. O candidato que representava os grandes empresários e que foi escolhido por Seu Zeca venceu as eleições para o governo do Estado.

- Tá vendo aí?! Meu candidato foi eleito, rapaz! E eu não perdi meu voto!

Depois de eleito, uma das primeiras medidas do novo governador foi privatizar a companhia energética pública, onde Seu Zeca trabalhava. Com a venda da estatal para um grupo de empresários, muitos trabalhadores foram demitidos para que os gastos da empresa reduzissem e os lucros aumentassem. Entre os dispensados, estava o Seu Zeca, que acabou, desgraçadamente, perdendo muito mais do que o voto.

domingo, 12 de setembro de 2010

O Brasil que eu não conheço

Por João Paulo da Silva

Estas eleições estão particularmente muito chatas. “Nunca antes na história desse país” a cara de um foi tão semelhante ao focinho do outro. Mesmo com nove candidatos disputando a Presidência da República, embora a grande imprensa não mostre todos, os que estão liderando as pesquisas não passam de trigêmeos da mesma política dos últimos vinte anos. Enquanto isso, os demais candidatos, principalmente os da esquerda, precisam se virar nos cinqüenta segundos que dispõem na TV para fazer a diferença. Isso porque entre o PT de Lula e Dilma e o PSDB de FHC e Serra, não há distinções quanto ao programa de governo. Eles mesmos admitem o fato ao defenderem um modelo econômico idêntico.

Pior do que isso talvez só Marina Silva, que sem constrangimento algum reivindica Lula e FHC ao mesmo tempo. Dessa forma, fica difícil acreditar em disputa. Em democracia, então, nem se fala. De todo modo, estou convencido de que o correto deveria ter sido a união de Dilma, Serra e Marina em torno de uma única candidatura. É claro que ainda assim não haveria qualquer mudança para o Brasil, até porque o projeto defendido pelos três já foi aplicado antes e não mudou o país. Mas pelo menos seria mais honesto politicamente.

Além das semelhanças siamesas entre Dilma e Serra, outro aspecto dessa campanha vem despertando minha inquietação. Os programas de TV do horário eleitoral estão apresentando um Brasil que eu não conheço. São hospitais, escolas, universidades, estradas, postos de saúde, remédios para todos, geração de empregos, distribuição de renda, salário digno, construção de moradias etc, etc, etc. Tudo funcionando na mais tranqüila e absoluta perfeição. Como assim?! Transformaram o Brasil num país escandinavo e ninguém me disse nada?! Quer dizer que o Haiti não é mais aqui? Agora é a Noruega que é aqui?! Onde estão as favelas e os 52 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza? E as 40 mil crianças que morrem de fome todos os anos? E os mais de 8 milhões de desempregados? Para onde foi todo mundo? Para onde foram os mais de 14 milhões de analfabetos? E os baixos salários? O que fizeram com as filas e as macas nos corredores dos hospitais? E a falta de merenda nas escolas? Onde cargas d’água enfiaram a metade da população brasileira que vive sem tratamento de esgoto? Não há mais pobres nesse lugar? Nem miseráveis? Que país é esse?!

Instigado pelo instinto da investigação jornalística, decidi ir às ruas para ver de perto se o Brasil havia mesmo se transformado na Noruega. Mas nem foi preciso ir muito longe. Bastou dar uma volta no bairro e alguns telefonemas para retornar ao subdesenvolvimento e à tragédia social. Nas proximidades de onde moro, a realidade não havia mudado. As escolas caindo aos pedaços, os postos de saúde sem médicos, o esgoto a céu aberto. Estava tudo lá, do jeito que os brasileiros conhecem. Até o Google Earth eu usei para confirmar se as favelas ainda estavam no mesmo lugar. É claro que estavam. Só senti falta mesmo das condições dignas de vida, que continuam tão distantes quanto a Noruega. Pelo telefone, fontes seguras me informaram que a situação permanecia a mesma em todas as regiões do país. Mamãe, por exemplo, que mora em Maceió, me ligou pedindo dinheiro, já que o salário sempre acaba antes do fim do mês.

O Brasil mostrado nos programas de TV de Dilma e Serra não existe. Aquilo só pode ser Hollywood. Eu não ficaria surpreso se depois das eleições descobrissem que todas as cenas foram gravadas em estúdios da Warner Brothers e que os marqueteiros do PT e do PSDB foram assessorados pelo James Cameron. Efeitos especiais não faltam.

domingo, 18 de abril de 2010

O preço do abandono

Por João Paulo da Silva

Centenas de mortos, milhares de desabrigados, não sei quantos desaparecidos ou soterrados. Você e eu já vimos esse filme. Ele se repete todos os anos, numa espécie de déjà vu do caos anunciado. Irresponsavelmente, as autoridades continuam com a mesma política de sempre: só aparecem para recolher os corpos e jogar os sobreviventes em ginásios de esporte. Neste país, entretanto, a catástrofe humana que é morar em áreas de risco ou não ter onde morar não é um problema novo. É mais antigo do que a posição de... Bom, vocês sabem.

Não pretendo usar aqui os números reais das recentes tragédias do Rio de Janeiro e de outros estados brasileiros. Por uma razão muito simples. Mesmo se “apenas” uma única família tivesse morrido nos deslizamentos, nós já teríamos uma perda irreparável e injustificável, além de motivos suficientes para uma revolta armada. O número assustador de vítimas revela, tão somente, o quão pesado é o preço do abandono. Contudo, a conta do descaso nunca é paga por quem abandona, mas por quem é abandonado. E como mostrou emblematicamente o Rio, paga-se da pior forma possível.


Agora, como mais um requinte de sadismo, as autoridades responsáveis pelas tragédias – me refiro aos três patetas: Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes – resolveram culpar os que moram nos morros pelas desgraças. Quer dizer, as pessoas que vivem em encostas, favelas e áreas de risco em geral fazem isso por vontade própria.


- Por que o senhor decidiu construir o seu barraco aqui nesse morro?

- Porque eu quis, ora. O governo até me ofereceu uma casa em um condomínio de luxo, mas eu recusei. Bom mesmo é morar em casa de lona, no meio das encostas.

- Mas o senhor não sabe que tudo pode desabar a qualquer momento?! Ainda mais com essas chuvas.

- Sei sim. Claro que sei.

- E então, meu senhor?! Por que você não sai daqui?

- Porque eu gosto de viver perigosamente, entende? Aqui a adrenalina é constante, praticamente um esporte radical. Sempre que chove, vem aquela tensão, sabe? Muito maneiro, cara! É uma sensação incrível saber que sua casa pode desabar enquanto você e sua família dormem.

- Mas isso é uma loucura!

- Loucura? Você não viu nada, cumpade! Bom é quando começa a chover e a entrar água e lama dentro de casa. A gente, que já não tinha nada, perde tudo. E a correria? Radical! Todo mundo tem que sair correndo de dentro de suas casas. Aí já viu, né? Os mais lentos... babau. A gente vive assim, em encostas e morros, porque a gente gosta. O nosso negócio é o perigo, é o desafio. Sabe como é, né? Brasileiro não desiste nunca.


Agora, responda você aí, que está lendo esse texto. O que impede o governo de retirar a população pobre das casas localizadas em áreas de risco? Falta de dinheiro? Parece que não. Pelo menos não faltou dinheiro quando Lula entregou R$ 370 bilhões a empresários e banqueiros durante a crise econômica.


Recentemente, Dilma Rousseff afirmou que, em uma década, seria possível acabar com a pobreza e o déficit habitacional do país. O PT de Lula e Dilma e o PSDB de FHC e Serra passaram quase duas décadas no comando do Brasil. E não resolveram. Sobre Marina e Ciro Gomes eu nem falo, que é pra não ter dor de cabeça.


Karl Marx costumava dizer que a História se repete. A primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Mais um ponto para o alemão.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Aquele estranho bilhão que nunca chega

Por João Paulo da Silva

Em março, a revista americana Forbes divulgou a sua tradicional lista anual de bilionários, aquela minoria absurda da qual você e eu nunca faremos parte. O Brasil, graças ao empenho e à política econômica do presidente Lula, possui o maior número de ricaços da América Latina. São 18 brasileiros com fortunas acima de US$ 1 bilhão, reinando absolutos sobre quase 190 milhões de homens e mulheres comuns, cheios de dívidas e contas atrasadas.

Segundo a revista, o brasileiro mais rico é o empresário Eike Batista, que acumula uma bobagem monetária de US$ 27 bilhões. E o mais absurdo: em apenas um ano, o patrimônio de Batista aumentou US$ 19,5 bilhões. Nem nos melhores sonhos os trabalhadores brasileiros imaginaram seus salários subindo nessa proporção. O povo deve agradecer a Lula pelos R$ 510 do salário mínimo e pelos R$ 120 do Bolsa Família. Enquanto isso, Batista também agradece ao presidente, só que pelos bilhões. Nunca antes na história desse país a distribuição de renda foi tão bem feita.

A lista da Forbes aponta, ainda, o mexicano Carlos Slim, do ramo das telecomunicações, como o homem mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 53,5 bilhões. Agora, o detalhe mais importante dessa festa toda. Dos quase sete bilhões de habitantes do planeta, apenas 1.011 concentram uma riqueza bilionária. Destes, somente os dez mais ricos possuem juntos a bagatela de US$ 342 bilhões. Quer dizer, ou aquela história de que o capitalismo dá oportunidades iguais a todos é conversa pra boi dormir ou o mundo está repleto de incompetentes que não sabem aproveitar as chances da vida. Fico com a primeira opção. De uma forma ou de outra, você e eu continuamos contemplando aquele estranho bilhão que nunca chega.

Obviamente que estas cifras estratosféricas não surgiram do nada. Alguém precisou gerar toda essa riqueza. E, claro, quem a gerou sequer foi convidado a tirar uma lasquinha, visto que nunca tivemos tantos famintos, desempregados e mal pagos como hoje. Se você ainda não sacou quem criou toda essa riqueza da qual estou falando, vou dar uma dica: vivem de salários e são a maioria da população.

Quando eu era mais jovem, me disseram que enriquecer licitamente sob o capitalismo era impossível. Agora entendo o porquê.

---------------------------------------------------//-------------------------------------------

Obs.: Em decorrência do excesso de ovos de Páscoa, este cronista só pode postar sua crônica hoje, e não no domingo como de costume.

domingo, 28 de março de 2010

Mata de orgulho

Por João Paulo da Silva

Há algum tempo o Brasil é motivo de orgulho. Para os ricos, é claro. A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, por exemplo, a serem realizados em terras tupiniquins vão encher de ilusões os olhos do povo, e de “money” os bolsos dos magnatas. A entrega, feita por Lula, de R$ 300 bilhões dos cofres públicos para salvar empresários e banqueiros da crise econômica também foi motivo para morrer de orgulho. Só quem perdeu o emprego e continua na rua da amargura sabe do que estou falando. Entretanto, o país já tem outra grande razão para se orgulhar. O nobre deputado federal Paulo Maluf entrou para uma importante lista internacional: a de procurados pela Interpol.

Maluf foi incluído na lista a pedido da Promotoria de Nova York. Há três anos, a Justiça americana determinou a prisão do nosso medalha de ouro em corrupção pelos crimes de conspiração, auxílio na remessa de dinheiro ilegal e roubo de dinheiro público em São Paulo. O malandro é acusado de desviar recursos de obras e remetê-los para Nova York. Depois, para a Suíça, Inglaterra e Ilha de Jersey, outro paraíso fiscal. Uma parte do dinheiro roubado pelo recordista olímpico Maluf ainda foi investida na Eucatex, uma empresa do ex-prefeito de São Paulo. Ah, já ia esquecendo. O filho do deputado, Flávio Maluf, também é acusado pelos mesmos crimes. Estima-se que o roubo chegue a mais de US$ 11 milhões. Me mata de orgulho esse rapaz. E de fome e na porta dos hospitais o restante do Brasil.

Foi pensando nessa nova razão para nos orgulharmos que eu resolvi propor uma homenagem ao Maluf. Afinal, um homem que já nos deu tantas alegrias merece um pouco de reconhecimento na vida. Minha proposta é a seguinte: quando o Maluf morrer – que isso não demore, pelo amor de Deus – penso que ele não deve ser cremado ou sepultado. Defendo que o Maluf seja empalhado e exposto no MASP (Museu de Arte de São Paulo), numa sessão especial que receberá o título de “Grandes Mestres da Corrupção Mundial". Acho, inclusive, que esta obra-prima da bandidagem deve viajar em exposição pelos principais museus da Europa e da América do Norte. Convenhamos, meter a mão no dinheiro público é uma arte que exige muito talento, possível apenas em democracias como a nossa.

Mas isso não é tudo. Também vou defender que o Maluf se torne patrimônio da cultura nacional. E que a biografia do notório ladrão seja disciplina obrigatória em todas as escolas do país, com o objetivo de que as futuras gerações saibam exatamente que tipo de exemplo não seguir. Outra importante proposta é instituir o Dia do Tomate no Maluf. A ideia é criar um feriado nacional, no qual todos os brasileiros teriam a oportunidade de acertar um tomate na cara do Maluf. Bom, ideias não me faltam. Até ele morrer, eu já terei acumulado uma Bíblia de propostas.

Ah, uma última coisa. Agora que é sócio de uma das mais importantes listas de procurados do mundo, Paulo Maluf pode ser preso a qualquer momento, basta entrar em um dos 181 países que são membros da Interpol. Tá aí. Essa eu pago pra ver.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

2000inove: retrospectiva do ano que não inovou

Por João Paulo da Silva

Esse foi um ano daqueles. Daqueles de dar dor de cabeça, daqueles de dar desgosto e raiva de saber que o próximo pode ser muito pior. A julgar pelos fatos de 2009, não há nada que aponte – pelo menos até agora – para qualquer melhora, mínima que seja. Até o salário mínimo, que vai para R$ 510 agora em janeiro, vai continuar mínimo. Caso você não lembre o que aconteceu de mais importante em 2009, não precisa ficar preocupado. Fiz um resumo, mês a mês, dos principais acontecimentos do ano. Recordar é viver. Haja paciência!

Janeiro – Barack Obama toma posse como o primeiro presidente negro da história dos EUA. E é, também, o primeiro negro a ficar branco politicamente em tão pouco tempo. O negão já tá a cara do Bush. Entra em vigor o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa, uma espécie de reforma neoliberal da gramática. Passaram a tesoura no trema e em outros acentos. Agora ideia não tem mais o agudo. Péssima ideia por sinal. Nos estados do RS, MG, ES, RJ e SP as chuvas deixam milhares desabrigados e causam dezenas de mortes.

Fevereiro – O PMDB passa a controlar o Congresso, elegendo José Sarney para presidir o Senado e Michel Temer a Câmara dos Deputados. Era o prenúncio do caos. A produção industrial cai 12,4% em relação a novembro de 2008 e 14,5% em relação a dezembro de 2008, as maiores quedas desde 1991. O caos bate à porta e o índice de aprovação de Lula bate recorde de 84%. A Embraer decide demitir cerca de 20% do seu efetivo de 21.362 empregados. O caos se instala no sofá. Vítima de enfarte, morre na Bahia o ex-deputado Sérgio Naya. Enfim, uma boa notícia.

Março – O anúncio da queda de 3,6% no PIB brasileiro do último trimestre de 2008 mostra a “marolinha” de Lula. A crise existe e é grande. O caos abre a geladeira do povo. Governo prorroga por mais três meses a redução de IPI para carros e José Sarney começa a dar explicações sobre Agaciel Maia e os Atos Secretos. Após o aborto da menina de nove anos que engravidou do padrasto e corria risco de morte, o Arcebispo nanico de Olinda e Recife excomunga os médicos e a mãe da garota. Dieese anuncia que a crise financeira internacional eliminou aproximadamente 750 mil empregos formais no País entre novembro e fevereiro. O caos até já deita na cama com os trabalhadores brasileiros.

Abril – Confirmada a primeira morte por Gripe Suína no México. No Brasil, enquanto os casos da gripe A se confirmam e crescem, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirma: "Fiquem tranquilos. A situação está sob controle.". Aí é que bate o desespero. Na reunião do G-20, Obama diz que Lula é “o cara”. E a gente fica de cara. A Argentina perde por 6 a 1 para a Bolívia, em La Paz, pelas Eliminatórias da Copa. Em meio ao caos, um fugaz momento de felicidade para os brasileiros. Que pena, hermanos.

Maio – Perdigão e Sadia anunciam fusão e criam a Brasil Foods. O Teatro do Oprimido perde seu criador. Morre de leucemia Augusto Boal, aos 78 anos. Flamengo contrata Adriano, o Imperador. É a retomada do caminho ao título. STF livra Genoino, Delúbio e Marcos Valério de acusação de gestão fraudulenta. IBGE informa que o índice de desemprego apurado nas seis principais regiões metropolitanas do País chegou a 8,9%, no maior nível registrado para o mês desde abril de 2007. Nesse momento, o caos já Foods a gente.

Junho – Morre Michael Jackson, o Rei do Pop, vítima de uma parada cardíaca. É a prova de que ele era humano. A descoberta de 300 atos secretos coloca Sarney contra a parede, mas ninguém atira. Não para acertar, claro. Sarney diz que a crise não é dele, é do Senado e cria uma comissão para investigar os atos secretos (vê se pode?!). STF detona diploma para jornalistas (Morte ao Gilmar Mendes!). Presidente de Honduras é deposto por golpe de Estado. GM pede concordata e governo dos EUA segura 60% da empresa. Capitalismo balança, mas não cai. E o caos vendo TV na sala.

Julho – Romário abre o jogo e diz que não matou Michael Jackson nem trouxe a gripe suína para o Brasil. Só está falido e com problemas na Justiça. Parentes fazem funeral de Michael Jackson virar show, reunindo 20 mil pessoas. Todo mundo cantando ao redor do caixão. Saravá!

Agosto – O jamaicano Usain Bolt prova mais uma vez que não é deste planeta. No Mundial de Berlim, ele correu 100 metros em 9s58, quebrando o próprio recorde de 9s69, feito nas Olimpíadas de Pequim. O bispo Edir Macedo e mais nove pessoas, ligadas à Igreja Universal do Reino de Deus, se tornam réus em processo por lavagem de dinheiro, que já subiu aos céus. Lula lança marco regulatório do pré-sal e entrega petróleo brasileiro a multinacionais. Todas as denúncias e representações contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AC), são arquivadas no Conselho de Ética. O caos mexe na dispensa, já se sente de casa.

Setembro – 70 dias depois de sua morte, Michael Jackson é sepultado (Porra! Finalmente, né?!). Mesmo sem nunca ter publicado um livro, o ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) é eleito membro da Academia Alagoana de Letras, provando vocês sabem o quê. Comentando o crescimento de 1,9% do PIB no 2º trimestre em comparação com o 1º, Lula diz que o Brasil estava preparado porque “o povo fez sacrifícios”. Meu bolso que o diga. O caos toma sol na laje.

Outubro – Morre a Voz da América Latina, Mercedes Sosa, em Buenos Aires aos 74 anos. Rio de Janeiro se torna sede da Olimpíada de 2016, para a felicidade das empreiteiras e da corrupção. Em São Bernardo do Campo, a estudante de Turismo Geysa Arruda é assediada por alunos da Uniban por usar um vestido curto, registrando o retorno da Idade Média. Para economizar energia, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pede ao povo que reduza a duração dos banhos para três minutos. Agora os venezuelanos só lavam as orelhas. Agindo de forma chiquérrima, Brasil oficializa empréstimo de US$ 10 bilhões para o FMI. E a gente se Foods de novo. Mantendo duas guerras contra povos oprimidos, Barack Obama recebe o Prêmio Nobel da Paz. Até ele se surpreende. A essa altura do campeonato, o caos já dá risada da nossa cara.

Novembro – Apagão deixa mais da metade do País sem luz. O blecaute atingiu 18 estados brasileiros por cerca de quatro horas. Segundo o governo, as causas do problema foram os raios, ventos e chuvas muito fortes na região de Itaberá, no interior de São Paulo. O governo também investiga a possibilidade de sabotagem, talvez pelo Coelhinho da Páscoa. Guido Mantega anuncia que com a redução do IPI o total de desonerações chega a R$ 25 bilhões. Ou seja, os empresários não pagam impostos e nós se Foods outra vez. Em São Paulo, morre aos 63 anos o ex-prefeito Celso Pitta. Pelo menos uma boa notícia.

Dezembro – Vítima de enfarte, morre aos 69 anos o famoso locutor Lombardi, que ninguém nunca tinha visto a cara antes de ele morrer. O Flamengo conquista seu sexto título do campeonato brasileiro, as massas entram em êxtase e o Brasil não dorme por uma semana. O Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, anuncia o envio de mais 30 mil soldados ao Afeganistão. A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), ocorrida em Copenhague (Dinamarca), é um fracasso. As potências industriais não querem reduzir seus lucros e não vão parar de jogar CO2 na atmosfera. As coisas esquentarão ainda mais, o clima mudará pra cacete e o planeta inteiro vai se Foods, assim como a gente. Até o caos abandona o barco.

Bom 2010 pra todo mundo.

domingo, 19 de abril de 2009

Marx, o capitalismo e um velho fantasma

Por João Paulo da Silva

Após a queda do Muro de Berlim, uma ideia foi amplamente divulgada: o socialismo morreu e o capitalismo triunfou. A teoria do livre mercado, apoiada em seu neoliberalismo, afirmava que o mundo capitalista era o auge da civilização e que a propriedade privada daria conta de resolver os problemas da humanidade. Em um debate intelectualmente honesto, esses argumentos não se sustentam por cinco minutos.

Em primeiro lugar, o socialismo não pode ter morrido porque, de fato, nunca existiu em escala planetária. Identificar como socialismo as barbaridades cometidas por Stalin e companhia só prova duas coisas: desconhecimento sobre o que Marx escreveu ou mau-caratismo mesmo. Quanto aos argumentos de que o capitalismo seria o fim da história e de que ele solucionaria os problemas, vejamos a realidade. Em especial, o aspecto mais básico: a alimentação.

Segundo dados da FAO, o departamento das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, em 1970 a produção mundial de grãos (base alimentar dos povos) foi de 1,225 bilhão de toneladas para uma população de 4,003 bilhões de pessoas (uma média de 306 quilos por pessoa). Em 2007, a produção foi de 2,219 bilhões de toneladas para 6,453 bilhões de habitantes, ou seja, uma média de 344 quilos por pessoa. Os números mostram que a colheita de grãos cresceu 12% a mais que a população no período apresentado.

O capitalismo foi o sistema que fez o mundo deixar de viver crises de escassez para viver crises de abundância. O que justifica, então, a fome de 1 bilhão de seres humanos em todo o planeta? A chegada de mais uma turbulência econômica revelou, entre outras coisas, a verdadeira face de uma lógica selvagem por natureza.

A crise trouxe à tona um contingente de excluídos que ninguém queria ver. E fez mais. Mostrou trilhões de dólares sendo entregues a banqueiros e empresários. Uma montanha de dinheiro que os governos diziam não existir quando a conversa era acabar com a fome e a miséria. O capitalismo não só não resolveu os problemas da humanidade como também os aprofundou.

Os protestos que estão ocorrendo devem ser vistos com preocupação pelos donos da festa. Em 1848, no início de O Manifesto Comunista, Marx fazia um alerta ao Velho Mundo: “Um fantasma ronda a Europa. O fantasma do comunismo”. Hoje, ele parece ter voltado para dar seus passeios. Nunca um velho fantasma foi tão atual.

Mas a História dos homens não tem favoritismos. E as apostas já começaram a ser feitas.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Andando na prancha

Por João Paulo da Silva

Embora a História Oficial tenha documentado apenas um caso deste tipo de prática (no ano de 1829), reza a lenda que os piratas costumavam executar seus prisioneiros fazendo com que eles andassem sobre uma prancha até o encontro mortal com os tubarões. Se o método era uma forma recorrente ou não entre os corsários, pouco me importa neste momento. O que me interessa nessa história toda é a metáfora.

De tempos em tempos, o capitalismo é colocado para andar na prancha. Rebuliços econômicos, como este de agora, fazem parte de sua natureza paradoxal de produzir mais do que a sociedade pode consumir. A crise econômica é uma espécie de Frankenstein do capitalismo, responsável por agendar encontros periódicos entre o criador e a criatura. Quando isso acontece, os donos da festa vêem seus lucros diminuírem. E aí começa o pandemônio. Mas o fato dos capitalistas estarem andando na prancha não significa que, finalmente, eles vão nadar com os tubarões.

Demissões em massa, fechamento de empresas e redução de salários e direitos são algumas das formas encontradas pelo capitalismo para salvar a própria pele e retomar um novo período de lucros. É claro que o custo disso tudo é altíssimo, mas não tão alto para os magnatas. O aumento do desemprego, da fome, da miséria e da violência é sempre debitado na conta dos trabalhadores. Na história das crises do capitalismo, quem cria o problema não paga por ele. Faz os outros pagarem.

E pagar é realmente o termo que melhor se encaixa nessa tragédia toda. Desde que a turbulência econômica começou, o mundo já torrou trilhões na tentativa de salvar bancos e empresas de uma catástrofe maior. Detalhe: usando dinheiro público. Uma riqueza que não existe quando o assunto é aumentar os investimentos sociais. É incrível como esse pessoal sabe fazer mágica.

Nos últimos meses, executivos e governantes de muitos países vêm fazendo discursos efusivos, conclamando todos a se sacrificarem para tirar a economia mundial do buraco. Curioso: enquanto os bancos e as empresas estavam ganhando fortunas, ninguém chamou os trabalhadores para repartir o bolo. Agora, quando velhos fantasmas voltam a atormentar, eles aparecem com essa conversa de dividir os prejuízos.

Todos os dias o agravamento da crise faz o capitalismo andar um pouco mais sobre a prancha da História. Mas, para vê-lo realmente nadar com os tubarões, só falta mesmo alguém que dê um “empurrãozinho”.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Sobre nosso déjà vu e escolhas infames

Por João Paulo da Silva

Déjà vu. A expressão é de origem francesa e quer dizer, literalmente, “já visto”. Usando uma explicação bem simples, o fenômeno pode ser definido como uma reação psicológica que causa a sensação esquisita de estarmos revivendo experiências do passado. Ficamos com uma impressão de estranheza na cabeça. “Isto já aconteceu antes?” – nos perguntamos muitas vezes.

A cada ano que passa, Maceió vive um déjà vu. O último ocorreu no dia 31 de dezembro de 2008. Com o decreto que estabeleceu o novo valor da passagem de ônibus na capital alagoana para R$ 2,00, o prefeito Cícero Almeida ofereceu a seus eleitores mais uma daquelas incômodas impressões de repetição. Mas há um problema nisso tudo.

O déjà vu maceioense não é um déjà vu clássico. Possui uma diferença. Além do conhecido efeito repetitivo, nossa sensação do “já visto” provoca também um reajuste de preço. Há quatro anos é o mesmo déjà vu, mas sempre com um peso a mais no bolso. Penso, inclusive, que Almeida deveria ter ido a Pequim. Só em 2008 foram dois aumentos de passagem de ônibus. De fato, um recorde. Um déjà vu olímpico.

O novo valor do transporte urbano imposto por Cícero fez com que 2009 já nascesse maculado. Como se não bastassem a crise econômica e as demissões feitas pelas empresas com a permissão dos governos, Almeida ainda resolveu dar uma forcinha para aprofundar a miséria em Maceió. Não é apenas um novo aumento de passagem que está sendo imposto.

Cícero está impondo também uma opção. Agora, os trabalhadores e pobres de Maceió terão de fazer uma escolha infame: colocar mais comida em suas mesas ou pegar um ônibus para ir ao trabalho. Isso para aqueles que possuem algum tipo de renda, claro. Porque para todo o resto não há nem escolhas, o que não deixa de ser infame.

Parece que “2000inove” não será tão inovador assim. Tudo indica que os mais de 8,6 milhões de passageiros que por mês utilizam os coletivos continuarão se espremendo na insuficiente frota de 648 ônibus de Maceió. Com uma única diferença: vão pagar mais caro por isso.

A justificativa para o aumento da tarifa do transporte é uma velha desculpa esfarrapada: a elevação do preço dos insumos. Debitando na conta do povo os gastos com diesel, pneus e peças, o lucrativo setor do transporte coletivo realimenta uma conhecida máxima: privatizar os lucros e socializar os prejuízos. Há quase vinte anos utilizo os ônibus de Maceió e nunca vi os empresários pagarem a conta.
Esse ano será déjà vu atrás de déjà vu. E cada um mais infame que o outro.

domingo, 28 de dezembro de 2008

2008: o ano que não pode acabar

Por João Paulo da Silva

Você, provavelmente, já deve ter visto nestes últimos dias várias retrospectivas do ano de 2008. Todos os meios de comunicação costumam organizar e relembrar os fatos que marcaram estes 365 dias. Se cada um de nós fosse fazer sua própria retrospectiva, destacando o que de mais importante aconteceu no mundo, com certeza teríamos inúmeros resultados diferentes. Mas, possivelmente, os retrospectos seriam iguais num ponto: o das tragédias.

Destacaríamos, de forma esmagadora, mais tragédias do que benignidades em 2008. Mas e as Olimpíadas da China? – alguém pode argumentar. Ok. Foi um espetáculo belíssimo, concordo. Entretanto, por trás de toda aquela beleza estava escondida a exploração de milhões de trabalhadores chineses. Evidentemente uma tragédia. Mas isso nem todos colocariam em suas retrospectivas.

Ei! Espere aí. – outra pessoa pode reclamar – E a eleição do primeiro presidente negro dos EUA?! Também é uma tragédia?! Não exatamente, eu diria. Quando um país historicamente racista elege um negro, é preciso reconhecer que houve importantes avanços. O problema com Barack Obama é que ele é uma tragédia em potencial. Não por ser negro, claro. Mas por representar uma esperança que vai acabar em decepção, basta olhar o programa de governo do novo presidente. E as decepções geralmente são prelúdios de tragédias.

Não há o que discutir. 2008 foi um ano trágico. Assistimos a catástrofes ambientais inimagináveis. E olha que o planeta só deu umas sacudidelas. Nos escandalizamos bastante também. O sinistro é que o escândalo da impunidade dos corruptos é maior do que os próprios escândalos de corrupção. O caso do Daniel Dantas não é só emblemático. É também extravagante. É a falência das falências.

O retorno da dengue e o resultado das eleições municipais foram tragédias com sensação de déjà vu. Você, tragicamente, olha e diz: eu já vi isso antes. Só não achava que podia ficar pior, não é verdade? E há, também, a crise econômica, que é uma espécie de tragédia em aberto. Alguém precisa pagar a conta do crack. Espero que não seja o trabalhador. Porque aí a tragédia será completa.

Em 2008 fomos de desgraças individuais a tragédias coletivas com uma intensidade descomunal. E elas já provaram que não podem ser resolvidas em apenas 365 dias. 2008 é um ano que não pode acabar. Não enquanto não acertarmos as contas com ele. Gostaria de fazer um pedido aos deuses do tempo, mas, se não for possível, o pessoal que organiza os calendários pode dar uma forcinha. Precisamos de mais tempo. Nos dêem mais 365 dias neste ano para resolvermos nossas pendências. 2008 não pode passar imune ao nosso castigo. Do contrário, corremos o risco de 2009 já nascer velho.

Ok. Tudo bem. Entendo que talvez eu esteja pedindo tempo demais. Mas, por favor, concedam pelo menos mais um mês. Alguém precisa acertar aquela sapatada no Bush antes do ano acabar. Essa é a minha condição para entrar em 2009. E eu não abro mão!

domingo, 21 de dezembro de 2008

Feliz Natal?

Por João Paulo da Silva

Papai Noel é o personagem mais famoso do Natal. O velhinho de barbas brancas foi inspirado na figura de São Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mira, na Turquia do século IV. Nicolau ficou conhecido por ajudar, anonimamente, os que estivessem passando por apertos financeiros. Lalau, que depois foi declarado santo, costumava deixar uma sacolinha de moedas de ouro na chaminé das casas.

Como acontece com maioria das histórias antigas, a lenda do velho Noel também sofreu modificações ao longo dos séculos. A consolidação do capitalismo e a globalização da economia também mexeram com o espírito natalino. Parece que a crise econômica e a aproximação do Natal ajudaram a revelar o lado Papai Noel dos principais governos do mundo.

Uma enxurrada de cifras astronômicas foi (e continua sendo!) liberada para salvar banqueiros e empresários da anarquia capitalista. Entre deixar os magnatas se quebrarem ou quebrar os trabalhadores, os governos escolheram a segunda opção. É verdade que não há nada de novo na preferência daqueles que hoje comandam os países, mas esperava-se pelo menos um pouco de discrição na hora de meter a mão no dinheiro público para salvar capitalistas.

Há duas importantes diferenças entre São Nicolau e os governantes do capitalismo. Nicolau deixava uma sacolinha de moedas de ouro na chaminé das casas e fazia questão de preservar seu anonimato. Os governantes do capitalismo não. Despejam trilhões nos bolsos dos ricos e ainda posam para as fotos, com as caras mais cínicas do mundo.

Por conta da crise, os líderes mundiais anteciparam seus presentes de Natal. Para aqueles que lucraram muito com a exploração de milhões, a recompensa vem na forma de pacotes econômicos bilionários. Para os que trabalharam muitas horas por um mísero salário, o prêmio é mais desemprego e pobreza.

Agora, para ser um Natal daqueles, só está faltando mesmo é dizerem que o critério usado na escolha dos presentes foi o bom ou o mau comportamento durante o ano de 2008.

****

Idéia para uma história de Natal.

É noite. E Papai Noel viaja em seu trenó da Lapônia até o Brasil, puxado por suas renas. Pousa com segurança no telhado de uma casa e, cuidadosamente, entra pela janela. Uma vez dentro, dá de cara com o Robertinho e a Jandira.
- Papai Noel! Você veio de verdade. – falam as crianças magricelas.
- Pois é, garotada. Mas não posso demorar muito. Agora deixa eu ver aqui o que foi que vocês me pediram.
E o velho Noel começa a remexer nas cartas enviadas.
- Você, Robertinho, me pediu uma cesta básica, não foi?
- Isso mesmo.
- Bom, filho, você deve ter percebido que esse ano a comida aumentou demais. Sendo assim, nesse Natal só vou poder te dar esta caixinha de chicletes. Toma aí.
- E o meu presente, Papai Noel? – falou a Jandira.
- Bem, o seu foi... deixar ver... um emprego pro seu pai, certo?
- Foi isso sim, Papai Noel.
- Mas vocês hein?! Só me pedem presentes difíceis, ora bolas! Olha, Jandira, não vai ter emprego pro teu pai não. A crise econômica está aí, a recessão também. E o cenário é de demissões em massa. Eu mesmo já demiti metade dos meus duendes e dei férias coletivas pra seis renas.
- Mas Papai Noel...
- A gente não pode ter prejuízo nos negócios, entende? Alguém precisa pagar o pato. Mas faz o seguinte, Jandira. Pede pro seu pai pegar a caixa de chicletes que eu dei ao teu irmão e fala pra ele ir vender lá no sinal da esquina. Ok?
- Mas Papai Noel...
- Não tem “mas” nem meio “mas”. Agora deixem eu ir que já estou atrasado. Preciso entregar os presentes de alguns banqueiros e empresários. Feliz Natal pra vocês e até o ano que vem.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Cenas da crise

Por João Paulo da Silva

O Luis e o Elias tinham acabado de receber seus salários. Aí o Luis notou o Elias todo murchinho, meio pra baixo.
- O que foi Elias? Algum problema?
- Luis, me responde uma coisa.
- Claro. Pode falar.
- O teu salário dá pra satisfazer todas as tuas necessidades?
- Mas é claro, Elias.
- Eu não acredito nisso. Não é possível. Como é que você consegue?
- Muito simples, Luis. Eu satisfaço uma necessidade a cada mês. Num mês eu compro comida. No outro eu pago o aluguel. Aí no seguinte eu nem compro comida e nem pago o aluguel. Gasto com médico e remédios. Porque a essa altura já fiquei doente. Você achava que eu satisfazia todas no mesmo mês?
- Era.
- Como você é ingênuo, Elias.

******
Era final de tarde. Em pé no ônibus, eu voltava pra casa. Numa das paradas do coletivo, subiu um moleque com uma caixinha de chicletes.
- Boa tarde, pessoal! Desculpe estar interrompendo a viagem de todos vocês. – começou ele, com aquele discurso já conhecido dos passageiros – Estou aqui vendendo esses deliciosos chicletes para comprar comida para os meus irmãos, pessoal. Um pacote é R$ 0,50. Dois é R$ 1,00. Três eu troco por um vale-transporte, pessoal. Aqueles que puderem me ajudar eu agradeço. Aqueles que não puderem eu agradeço da mesma forma. Fiquem com Deus e tenham todos uma boa viagem, pessoal.
Antes mesmo de a crise econômica estourar, cenas como essa já eram bastante comuns. E tendiam a se multiplicar. Mas, naquela tarde, aconteceu algo que eu nunca tinha visto. Era algo novo.

Assim que terminou seu discurso, o garoto saiu oferecendo os chicletes entre os passageiros. Uma senhora comprou um pacote.
- Obrigado. – respondeu o moleque.
Alguns minutos depois, a mulher começou a gritar:
- Ei menino! Esse chiclete tá vencido! Tá fora da validade! Me dê meu dinheiro de volta! Ei menino!
Mas já era tarde. O garoto tinha decido no ponto anterior.
- Que peste! Me vendeu o chiclete vencido! – resmungava a senhora.
Um homem da cadeira de trás tentou amenizar a situação.
- O que não mata engorda, dona. Pior é na guerra.

Ou na crise. – pensei.

******
Quando a Maria chegou em casa, o Gilmar estava na mesa com lápis e papel na mão.
- Tá fazendo o quê, Gil?
- Contas, mulher. Contas.
O Gilmar ganha um salário mínimo. E isso, por si só, já é motivo pra entrar em depressão. Mas o desespero maior do Gil era ver seu minúsculo ordenado encolher ainda mais com o novo aumento dos alimentos.
- A comida subiu outra vez, Maria. Só a cesta básica leva quase metade do dinheiro.
Silêncio.
- Maria, sabe aquele “sifu” que o Lula disse?
- O que que tem?
- Era pra gente.

domingo, 27 de julho de 2008

O banqueiro e o ladrão de galinha

Por João Paulo da Silva

Eu cheguei até a pensar que jamais o encontraria. Pensei mesmo que ele fosse parte do folclore nacional. Uma lenda e coisa e tal. Eu estava enganado. Você deve conhecê-lo. Ele é a prova de que a Justiça condena os pobres e deixa livre os ricos. Ora, vamos. Você com certeza já ouviu falar dele. O tão mencionado ladrão de galinha. Sua existência é a comprovação de que a Justiça não é cega e de que sabe muito bem para onde está olhando. Nestes últimos dias, tive a oportunidade de encontrá-lo. Lá na redação do jornal me pediram pra fazer uma reportagem sobre o que anda pensando o ladrão de galinha a respeito da prisão do banqueiro Daniel Dantas.
- Você tá de brincadeira? – falei para meu editor.
- Não tô não, João. Vai lá e procura saber o que ele acha disso tudo.
Eu fui. E, para minha surpresa, ele existia. Dentro do presídio, atrás das grades, espremido numa cela superlotada, estava um genuíno ladrão de galinha. Bom, depois descobri que ele havia roubado mesmo era um galo. Mas isto é apenas um detalhe. O fato é que Everaldo já estava ali há três anos. Trabalhou muito tempo como auxiliar de limpeza. Um dia foi demitido e nunca mais encontrou emprego. O resto da história todos já sabem.

Fui ao presídio na terça, 8 de julho, algumas horas depois de decretada a prisão de Dantas. Everaldo ainda não sabia muito bem o que estava acontecendo. Tinha ouvido pouca coisa a respeito.
- Bom, seu Everaldo. Acabaram de prender o banqueiro Daniel Dantas.
- Mentira?! Sério? Prenderam um banqueiro? Tá de brincadeira comigo, rapaz?!
- De jeito nenhum, seu Everaldo. Falo sério. Te juro. Prenderam o sujeito por desvio de verbas públicas e lavagem de dinheiro.
- E isso lá dá cadeia, meu filho?! No dia que isso for crime, vão ter que prender o Congresso e tudo que é presidente da República!
- É verdade. Prenderam hoje, seu Everaldo.
- Humm... Algemaram o “homi”?
- Sim, sim. O banqueiro e mais tantos outros envolvidos. Até aquele ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, tá no meio.
- É mesmo? Que esquisito.
- Então, seu Everaldo, eu vim aqui pra saber o que o senhor acha disso tudo.
- Meu filho, se isso for verdade mesmo parece ser um bom sinal. Deixa a gente até feliz de saber. Eu, por exemplo, roubei pra comer. Esses aí não. Roubam por safadeza mesmo.
- Na sua opinião, o senhor acha que essa prisão pode significar uma mudança na Justiça?
- Olhe, acho que sim. Pode ser que agora as coisas se ajeitem, né? Tem mais é que botar esses caras na cadeia mesmo.
Saí do presídio com uma imagem na cabeça: o rosto do seu Everaldo na expressão de “agora esse país toma jeito”.
Mas não durou muito. Na noite de quarta-feira, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, mandou soltar o banqueiro Daniel Dantas. Na quinta pela manhã, fui novamente ao presídio.
- Seu Everaldo! Péssimas notícias. Soltaram o banqueiro.
- O quê?! Já soltaram o “homi”?! Mas isso é uma esculhambação mesmo! Quem foi que soltou o infeliz?
- Foi o presidente do Supremo Tribunal Federal, o ministro Gilmar Mendes.
- Eu sabia. Eu sabia que ia dar nisso. Rico, preso?! Onde já se viu isso?! Agora comigo não! Comigo é essa safadeza toda. Esses caras roubam milhões e não vão em cana! Eu peguei uma galinha pra comer e tô preso! Palhaçada! Depois vem aquela conversa mole de que a Justiça é cega. Uma banana!
- O ministro concedeu um habeas corpus na noite de ontem.
- Habeas corpus? Que diabo é isso?
- É uma garantia constitucional em favor de quem sofre violência ou ameaça de constrangimento ilegal na sua liberdade de locomoção, seu Everaldo.
- Violência?! Constrangimento?! Vê se eu posso me locomover aqui dentro com esse monte de gente. Eu é que sei o que é isso! Quando fui preso, não me deram nada de habeas corpus não! Me deram foi um porradeas corpus! Isso sim.
Saí de lá com a imagem de desiludido do seu Everaldo. Mas horas depois eu estaria de volta ao presídio. Na tarde do mesmo dia, dez horas após a libertação, a Polícia Federal recebeu ordem para prender novamente o banqueiro Daniel Dantas.
- Seu Everaldo, trago boas notícias.
- Vão me dar também um daqueles habeas corpus?
- Bom, não é bem isso.
- E o que é?
- Prenderam de novo o banqueiro.
- Mentira?!
- Verdade. E dessa vez ele foi acusado de corrupção ativa. Tentou subornar o delegado pra que seu nome fosse tirado da investigação. Filmaram tudo!
- Ahhhh! Dessa vez esse tal de Daniel tá lascado. Quero só ver soltarem o bicho agora que tem tudo filmado.
Mas não deu tempo nem do seu Everaldo se animar direito. Na tarde da sexta-feira, o ministro Gilmar Mendes mandou soltar pela segunda vez o desgraçado do banqueiro. A história se repetiu. Agora, combinando a tragédia e a farsa. Eu já não tinha nem mais cara para olhar pro seu Everaldo.
- Seu Everaldo...
- Nem precisa me dizer, rapaz. Já sei. Soltaram de novo o pilantra do banqueiro.
- Pois é. Essa Justiça... não sei pra que que serve.
- Mas eu sei! Serve só pra prender pobre e acobertar rico. Você, por exemplo, já viu algum desses poderosos ir pra cadeia?!
- E o que é que o senhor acha que deve ser feito, seu Everaldo?
- Meu filho, agora tem que prender também a Justiça, começando por esse tal de Gilmar Mendes.

domingo, 15 de junho de 2008

Mistério

Por João Paulo da Silva

Há mais ou menos vinte anos um ex-sindicalista desapareceu. Os seus mais destacados sinais característicos eram uma barba preta, uma voz rouca e a ausência do mindinho da mão esquerda. Tudo que se sabe é que o sujeito sumiu sem deixar vestígios. Ao que tudo indica, nunca mais foi visto. Mas talvez este mistério esteja próximo de ser solucionado.

É noite. Dois homens conversam num ponto de ônibus deserto enquanto esperam a condução que os levará para casa. Na verdade, são dois velhos operários. Quer dizer, não tão velhos assim, é verdade. Mas com idade suficiente para lembrar os estranhos acontecimentos do final dos anos 80.
- Você lembra?
- Do quê?
- Da última vez que ele deu as caras?!
- Lembro sim. Foi em 89. Talvez também em 94, eu acho. Não tenho certeza. Faz tanto tempo.
- Pois é. Quase vinte anos. Daquele período pra cá, nunca mais a gente teve notícia do sujeito.
- É. Sumiu do mapa mesmo. Se escafedeu.
- Que coisa, né? Escuta, você se lembra do que ele defendia naquele tempo? A reforma agrária, por exemplo.
- Claro que sim. Como é que eu ia esquecer. Ele dizia: “Nós não vamos fazer reforma agrária, companheiros, nas terras devolutas que querem nos dar na beira das estradas. Nós vamos fazer reforma agrária é na terra dos latifundiários!”.
- Minha nossa! Chega dava gosto de ver.
- Como dava!
- E aquela história de romper com o FMI?! Você lembra quando ele falava de não pagar a dívida externa?
- Ôôôô! Se lembro! Nada de dinheiro do povo pra banqueiro internacional!
- E nas eleições?! E nas eleições?! “Trabalhador vota em trabalhador”. Era o lema.
- Ou então: “Quem vota em peão, não vota em patrão”.
- Ali parecia ser um dos nossos. Você lembra aquela que ele soltou sobre os patrões terem lucros do século XX e pagarem salários do século XIX?! Que tirada, hein!
- Outros tempos aqueles. Outros tempos.
- Mas tinha também a questão de ser contra as privatizações das estatais!
- E de fazer valer o salário mínimo da constituição! Lembra?
- Nem me fale! Aquilo sim era política de valorização do mínimo.
- Pois é. Me lembro bem dele surgindo naquelas greves do ABC.
- Por onde será que ele anda hoje em dia, hein?
- Dizem que fugiu, morreu, rasgou a própria história. Sei lá.
- Mas logo ele?! Logo ele em quem eu depositei todas as minhas esperanças?!
- Pra você ver. Tanto trabalhador confiou no sujeito e ele sumiu assim de repente. E ainda deixou o tal do Luiz Inácio governando, que inclusive se parece muito com ele. Bom, é verdade que a barba é branca. Mas... ele também não tem o mindinho da mão esquerda. E digo mais: vem fazendo justamente o contrário do que o outro defendia. Agora taí essa festa toda dos bancos, com esse Luiz Inácio tirando dinheiro da saúde e da educação pra pagar dívida que não foi o trabalhador que fez. Sem falar também que ele tá vendendo o Brasil inteirinho. A Amazônia, as estradas, os poços de petróleo. Tudo já tem dono. Mas se eu fosse você não alimentaria ilusões nesse governo não.
- Eu? Alimentando ilusões?! De jeito nenhum. Com essa crise dos alimentos, eu não tô nem alimentando minha família direito. Que dirá alimentar minhas ilusões.
- É. Eu sei. Tá brabo o negócio.
- Mas vem cá. Voltando ao assunto do Luiz Inácio. Eu tava pensando aqui: será que ele e o outro não são a mesma pessoa? Tô achando muito esquisito esse sumiço.
- Ora, o que é isso?! Seria muita sacanagem com os trabalhadores brasileiros que os dois fossem a mesma pessoa. Depois de ter confiado numa história de luta a vida inteira, descobrir que ele e o Luiz Inácio são um só seria uma grande decepção. Não, não. Acho que não. Ele deve ter sido raptado por extraterrestres ainda em 89.
- Mas digamos que existisse a possibilidade do Lula e do Luiz Inácio ser a mesma pessoa.
- Bom, dessa forma estaríamos diante do maior caso de falsidade ideológica da história desse país.

domingo, 4 de maio de 2008

A culpa é do pobre

Por João Paulo da Silva

É noite. Jurandir, auxiliar de serviços gerais, chega em casa depois de um dia de trabalho. Pretende jantar e ir dormir. Pois amanhã vai levantar cedo de novo para trabalhar. Já estão todos ao redor da mesa. A mulher, os dois filhos e o Jurandir. No centro, uma panela fumegante. Uma só.
- O que temos pra comer? – pergunta o marido.
Antes mesmo da resposta da mulher, vem o espanto do Jurandir ao destampar a panela.
- O quê?! Mas o que é isso? Arroz? Só arroz? Onde estão o feijão e a carne?!
- A comida tá muito cara, Jurandir. Esse mês nem deu pra comprar tudo. O dinheiro foi embora rapidinho.
- Mas essa situação já tá ficando insuportável. Aonde é que nós vamos parar desse jeito, meu Deus?!
- E eu é que sei, Jurandir?! Tá tudo subindo de preço. É a carne, o feijão, o óleo, o leite. Uma loucura. A Maria mesmo, aquela da casa da frente, me contou hoje que os meninos dela ficam brincando de caça ao feijão no almoço. Tá difícil pra todo mundo, amor.
- Pra todo mundo não! Vê se tá essa pindaíba na casa do meu patrão. Coisa nenhuma! O sujeito não faz nada nessa vida, num bate um prego numa barra de sabão. Só sabe explorar os outros. Agora vê só a gente. Se mata de trabalhar pra não ter dinheiro nem pra comer direito. Aquele aumento miserável no salário mínimo que o Lula deu não serviu pra nada. Um absurdo!

Quando o Jurandir calou-se, ficou suspensa no ar aquela já conhecida sensação de que “não estamos sozinhos”. Havia mais alguém na mesa além da família. Uma visitante bastante ingrata. Sim, era ela. A inflação! Que desgraçadamente come melhor do que todos nós.
O rápido silêncio foi quebrado pela mulher.
- Tudo bem. Vamos tentar relaxar e comer. Filho, liga a televisão que já deve tá na hora do jornal.

Assim que o menino ligou o aparelho, Jurandir se engasgou com um punhado de arroz. A manchete do jornal dizia: “Brasil bate recorde na produção de alimentos.”.
- Recorde?! E pra onde diabos vai essa comida toda que não chega na mesa do povo?! – indignou-se Jurandir.
- Vai pra fora do país, pai. – disse um dos meninos – O Brasil vende quase tudo pro estrangeiro e fica com o resto.
- Quem foi que te disse isso, menino? – quis saber a mãe.
- A professora. Ela disse que é por isso que a comida tá tão cara. E falou também que a culpa é de uma tal de multinacional.
O Jurandir mal se recuperara da engasgada quando o jornal pôs no ar o Lula falando sobre a inflação dos alimentos. “Isso tem uma razão: os pobres do mundo estão começando a comer mais.”.
Aí o jurandir não se aguentou:
- Agora danou-se tudo de vez! Quer dizer que a culpa é nossa?! A gente não come direito porque os preços estão altos. E quando come os preços sobem mais?! Que que é isso, meu Deus?! Sei não, hein! Tem alguma coisa errada nessa história. Mas por via das dúvidas vamos fazer o seguinte: parem de comer! Ninguém come mais!
- Mas, Jurandir, os meninos estão com fome. Precisam comer!
- Nada disso! Se a gente comer mais desse arroz, o preço vai subir e aí não vamos poder comprar nem mesmo o arroz. Ninguém toca nesses pratos!
- Jurandir! – revoltou-se a mulher – Mas o que é isso?! Ficou doido?! Deixe os meninos comerem!

Estavam numa encruzilhada.
- Tá. Tudo bem. Mas só alguns grãos, hein!
Depois de algum tempo, a mulher se levantou pra ir até a cozinha. E de lá mesmo perguntou, suspirando:
- Ai, meu amor. Será que vamos voltar a comer carne de novo algum dia?
Não houve resposta. Quando voltou da cozinha, encontrou o Jurandir olhando de maneira esquisita pros meninos. E o pior: estava apertando a perna de um e a costela de outro, com jeito de quem verifica as provisões.