domingo, 24 de julho de 2011

Esse tal de mercado

Por João Paulo da Silva

Era uma bela manhã de sábado. Eu estava assistindo ao futebol de areia pela televisão quando minha mulher gritou da cozinha:
- Querido, venha cá!

Levantei-me com relutância. O jogo estava emocionante e eu não queria perder nenhum lance.
- O que foi, meu amor? – eu disse.
- Querido, eu estou querendo fazer uma macarronada, mas não temos massa de tomate. Você poderia ir comprar?
- Logo agora que estamos metendo três na seleção de Portugal?! Não pode deixar isso pra depois?!
- Não! Tem que ser agora!
- Tá. Tudo bem. Eu vou.


Saí resmungando bastante para comprar a massa de tomate. Fui até o supermercado da esquina. Insatisfeito, mas fui. Entrei e me dirigi logo à seção de condimentos. Não demorou muito para que eu encontrasse o produto. Lá estava ele no cantinho da prateleira. Quando o peguei, tomei um susto. Custava R$ 3,00. Mal pude acreditar. Trezentos e vinte gramas de massa de tomate por três reais?! Que absurdo! Cheguei ao caixa e fui logo reclamando.
- Os preços estão bem altos por aqui, não?
- A culpa não é minha, senhor. – disse a moça do caixa, com certa irritação.

Soltei um longo suspiro, paguei os três reais e fui embora. Entrei em casa meio indignado. Comentei vagamente com minha mulher que os preços estavam aumentando e voltei para ver o jogo. Já havíamos metido mais um. O primeiro tempo terminou quatro para o Brasil e zero para Portugal. O segundo já estava começando quando minha mulher gritou da cozinha novamente.
- Querido, venha cá!

Levantei-me impaciente, um pouco mais chateado.
- O que é dessa vez?!
- Acho que essa massa de tomate não vai ser suficiente. Você poderia ir comprar outra?
- Mas por que você não disse isso antes?!
- Eu não sabia. Devo ter calculado errado a quantidade.
- O segundo tempo já começou. Será que você não pode esperar um pouquinho?
- Não! Não posso! Se você não for, não vai ter almoço! – disse ela com firmeza.
- Tá. Tudo bem. Eu vou. Mas que seja a última vez, hein?!

E lá fui eu novamente, bufando de impaciência, comprar massa de tomate. Entrei na seção de condimentos e fui direto ao cantinho da prateleira. Quando apanhei a massa, quase caí para trás. O preço havia aumentado! Estava custando agora R$ 4,00. Dirigi-me furioso ao caixa.
- Mas o que é que está acontecendo aqui? – disse eu.
- Do que o senhor está falando? – perguntou a moça do caixa.
- Estou falando disto! – e apontei para o preço da massa de tomate.
- Eu não estou entendendo. – retrucou ela.
- Como não?! Há quinze minutos eu estive aqui e este produto custava três reais! – falei aborrecido.
- E daí? Qual é o problema?
- Minha senhora, não se faça de besta! Há quinze minutos isto custava três reais. Como pode agora estar custando quatro?!
- Simplesmente aumentou.
- Mas isso é um absurdo! Isso é impossível! Estou sendo assaltado em plena luz do dia! Onde é que nós estamos?!
- Estamos no Brasil, senhor!
- A senhora acha que eu tenho cara de idiota?!
- Não, senhor. Absolutamente.
- Então como pode ser tão cínica ao dizer que o preço simplesmente aumentou?
- Mas a culpa não minha, senhor.
- E de quem é a culpa?!
- Eu não sei.
- Claro que não sabe! Vocês nunca sabem de nada! Onde está o gerente?! Eu quero falar com o gerente!
- O senhor aguarde um momentinho que eu vou chamá-lo.

Não demorou muito e um careca de terno apareceu em minha frente.
- O senhor é que é o gerente? – perguntei bastante inquieto.
- Sim, sou eu.
- Pois bem! Pode me explicar o que está acontecendo?
- Veja bem, o senhor tem que entender que a culpa não é nossa.
- E de quem é então?!
- É do mercado. O mercado anda muito preocupado e até irritado.
- Ah, é?! E quem é esse tal de mercado? Chame esse mercado aqui que eu mostrarei a ele quem realmente está irritado!

Foi aí então que avistei um homem perto das prateleiras com uma daquelas máquinas que servem para rotular os preços. Corri em sua direção e gritei para ele:
- Pare aí mesmo onde você está!

O homem assustou-se. Eu o agarrei pela gola da camisa e o sacudi com força.
- É você, não é?! – disse eu com energia.
- Eu o quê?! Do que está falando, moço?
- Não se faça de idiota! É você que é o mercado, não é?! É você que vive sabotando os preços?!
- Que história doida é essa, moço?! Eu não tô sabotando nada, não.
- Ah! Então, você quer saber que história é essa, não é?! Mas sou eu que faço as perguntas aqui, espertinho! Eu é que quero saber que história é essa de você aumentar os preços toda vez que fica irritado.
- Ouça aqui, moço. – disse o homem se desvencilhando de mim. – Parou a palhaçada! Eu não sei quem é o senhor e também não conheço esse tal de mercado. O meu nome é Severino e eu só estou fazendo o meu trabalho. E quer largar, por favor, a minha camisa!

Nesse momento, o gerente se aproximou de nós, me puxou para um canto e disse:
- Escute, meu senhor. Nós não queremos ter problemas ainda maiores. Esta pequena confusão que foi armada está prejudicando as vendas. Olha só esse furdunço. Vamos fazer um acordo. O senhor pode levar essa massa de tomate de graça. Fica como cortesia da casa. Estamos acertados?
- De graça? – perguntei?
- Sim, de graça.

Eu estava desconfiado, mas aceitei. Antes de sair, me virei para o gerente e disse:
- Mas pode dizer ao mercado que isso não vai ficar assim!

Depois de comermos a “bendita” macarronada, minha mulher e eu resolvemos assistir um pouco de televisão. Estávamos atentos a um desses programas de auditório quando a transmissão foi interrompida para um pronunciamento da Presidência da República.
- Meus amigos e minhas amigas, vivemos uma época de mudanças. O ano que passou foi um ano histórico para a política brasileira. Estamos enfrentando alguns problemas, mas que aos poucos serão resolvidos. Temos que erguer nossas cabeças e trabalharmos juntos por um Brasil melhor. Um Brasil que irá continuar crescendo economicamente e que vai gerar empregos. O mercado está se acalmando e a inflação está sob controle. Não há com o que nos preocuparmos.

Incrédulo e transtornado, olhei para minha mulher e disse:
- Querida, eu daria tudo pra descobrir quem é esse tal de mercado.

4 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom! Como sempre!
Simone

Renan Mendes disse...

HAHA Muito massa.

Bruno Martins disse...

Esse negócio de aumentar preço em quinze minutos lembra o Plano cruzado. Tudo aumentava de preço de um dia pro outro. Tempos que não fazem falta.

Anônimo disse...

Gostei muito!!! Já me senti assim algumas vezes quanto aos pronunciamentos! Pensava, será que só eu estou achando tudo muito caro ou ganho pouco? Muito mês pra pouco dinheiro! :D