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terça-feira, 4 de março de 2014

O pavor cega

Por João Paulo da Silva

A violência urbana tem causas sociais profundas. Ela não dá em árvore. Ninguém nasce bandido. Assaltos, agressões e homicídios aterrorizam as pessoas, é verdade. A revolta é compreensível e justa. Mas é impossível discutir uma solução para o problema sem questionar o modelo de sociedade que temos. Uma pergunta inescapável: aonde poderia nos levar uma sociedade cuja natureza é gerar exclusão social, miséria e a mais absoluta desassistência dos direitos mais básicos?

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O espetáculo do absurdo e a apoteose da canalhice

Por João Paulo da Silva

De dentro dos palácios do poder, parece que havia uma torcida organizada. Talvez em função do clima de Copa do Mundo, eu acho. Governos, setores da imprensa e um Congresso Nacional com vocação para a canalhice cruzaram todos os dedos, das mãos e dos pés, à espera de uma “justificativa” que respaldasse a histeria da mídia e o “balé quebra nós” do Estado contra as manifestações populares.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Rolezinhos

Por João Paulo da Silva

Enquanto isso, nos shoppings brasileiros... o país da democracia racial se revela.

Numa loja, a gerente da grife e a cliente rica conversam.

- Ai, querida... não sei você, mas eu ando tão assustada com essa onda de... como é mesmo que eles chamam? ‘Rolezinhos’, não é? Isso tem tirado o meu sossego, acredita?! A gente nem pode mais fazer compras em paz. Ai, que absurdo.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Quem é mesmo que faz o jogo da direita?

Por João Paulo da Silva

Gente... na boa, já tá ficando feio isso. Constrangedor, até. Mais falso do que os sorrisos do José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves juntos. Se é pra mentir, convém mentir direito, né?! Ninguém mais pode criticar os governos do PT, Lula e Dilma, sem ser imediatamente acusado de “fazer o jogo da direita”, “querer o retorno do PSDB”, ou “reproduzir o discurso da mídia golpista”. Assim fica difícil, pessoal!
(...)

terça-feira, 9 de julho de 2013

Explicações...

Por João Paulo da Silva

- E agora no nosso programa “Alô, Seu Otário!” a gente conversa ao vivo com o prefeito Armando Cilada. Ele vai falar um pouco sobre as providências que estão sendo tomadas pela Prefeitura para resolver os principais problemas da cidade. Boa tarde, prefeito. Muito obrigado por aceitar nosso convite para dar alguns esclarecimentos à população.
- Boa tarde a você, Rogenildo, e a todos os telespectadores do seu programa. Eu é que agradeço o espaço para mostrar o trabalho que estamos desenvolvendo.
(...)

domingo, 11 de novembro de 2012

Amadores

Por João Paulo da Silva

Aconteceu um dia desses em Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte. Eu tinha viajado a trabalho, como de costume. Talvez você não saiba, mas sou jornalista, embora isso não queira dizer muita coisa. Bom, era noite. E eu tinha acabado de fechar algumas matérias para o jornal. Estava cansado. Precisava relaxar. Foi aí que resolvi dar um pulo no bar da esquina pra tomar uma cerveja e arejar um pouco as ideias. Mas não pretendia demorar muito. Afinal, queria voltar a tempo para ver a minha novela das nove. Por isso, pedi apenas uma gelada e um pequeno aperitivo. Iscas de peixe. Adoro iscas de peixe, ainda mais com um limãozinho por cima. Enfim, eu estava querendo aliviar as tensões. Ficar tranquilo. Nada de estresse. Mas a vida é dura e às vezes o pastel vem estragado.

domingo, 2 de setembro de 2012

Sem saúde

Por João Paulo da Silva

Se você não é o Eike Batista, não é dono de banco, não acertou na loteria, vive de salário (principalmente se for o mínimo), é pobre ou está desempregado, então seja bem-vindo ao clube. Você e eu fazemos parte de um “seleto” grupo de milhões de brasileiros que não têm acesso aos serviços mais básicos para qualquer ser humano. Assim como numerosos outros companheiros, você e eu não temos direito a uma boa alimentação, a boas roupas, boa moradia, boa educação, boa saúde e um imenso etc., tão longo quanto a Muralha da China.

domingo, 19 de agosto de 2012

Os símbolos da decadência

Por João Paulo da Silva

A propaganda eleitoral gratuita na TV me diverte e desespera ao mesmo tempo, embora me pareça que quando a inventaram a função não fosse exatamente a de garantir entretenimento ou desânimo para milhões de brasileiros. Há algo de errado nisso tudo, eu sei. Quer dizer, algo não. Tudo mesmo. Da política econômica à falsa democracia. Mas não se pode negar que muitos candidatos estão mais para personagens folclóricos do que para postulantes a um cargo público. Parte da disputa eleitoral oscila entre o cômico e o absurdo, numa caricatura teatral da decadência.

domingo, 27 de maio de 2012

O pesadelo

Por João Paulo da Silva

Numa noite dessas, tive um pesadelo terrível. Muito pior do que a derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa de 1950, em pleno Maracanã. Mais absurdo do que ver o Flamengo perder um campeonato carioca diante do Vasco. Mais torturante do que ser obrigado a comer quiabo e maxixe todos os dias. Não, não, não. Estou sendo generoso demais. Isso é muito pouco. Tive um sonho tão bizarro quanto saber que alguém pagou US$ 18 mil por uma calcinha da rainha da Inglaterra, aquela velhota que não faz outra coisa a não ser comer e bufar. Um sonho mais desesperador do que nadar à noite com tubarões em mar aberto ou ser perseguido pelo Freddy Krueger. Pensando bem, acho que não há precedentes piores para o meu mais recente pesadelo. Nele, eu chego em casa do trabalho e encontro meu filho, já com uns sete anos, às voltas com um brinquedo que não foi dado por mim, nem pela mãe ou por qualquer outro parente. Intrigado, eu digo: “Oi, filho. Brinquedo novo, é? Quem te deu?”. Ao que ele me responde sem constrangimento: “Foi o Carlinhos Cachoeira, papai.”. Nesse instante, eu acordo assustado e lavado de suor, desejando do fundo do coração estar no meio do Maracanã, nadando com tubarões vascaínos que não comem maxixe e ainda com a rainha da Inglaterra pendurada no meu pescoço, só de calcinha, chamando pelo Freddy Krueger.

domingo, 11 de março de 2012

Uma metáfora para o mundo contemporâneo

Por João Paulo da Silva

Andando tranquilo no centro da cidade, não pude deixar de bater os olhos na manchete de um jornal numa banca de revistas: "Hamas diz que lançará foguetes enquanto Israel mantiver ocupação". Percebendo meu interesse pelo assunto, o dono da banca comentou:
- Esses sujeitos são todos uns fanáticos. Vivem metidos nessa guerra sem sentido. Um bando de terroristas doidos que só querem explodir tudo. Eu é que não me meto nisso. Estão todos errados.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Burocracia

Por João Paulo da Silva

O ano era 2005 e eu tinha acabado de entrar na universidade. Iria cursar jornalismo. No Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Alagoas, estava sendo realizada a semana do estudante de comunicação. Numa das salas, havia uma palestra com o professor de Filosofia Ivo Tonet. O tema, se não me engano, era “Socialismo ou Barbárie”. Ou alguma coisa assim. Não lembro bem. O certo mesmo é que o assunto me interessou por razões científicas, ideológicas, apaixonantes e, obviamente, por ser uma encruzilhada extremamente atual. Para ser mais exato, esta é uma questão que nos inquieta desde a época em que o King Kong era apenas um sagüi, como diria metaforicamente o poeta sertanejo Jessier Quirino.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A dignidade que nos roubam

Por João Paulo da Silva

Todas as noites eu deito minha cabeça num travesseiro confortável, me espalho numa cama bem quentinha e durmo tranquilo, embaixo de um teto erguido com muito suor. É por ter uma casa que não estou sob as marquises ou ao relento no centro da cidade. É por ter onde morar que não preciso me cobrir com papelões ou fazer uma fogueira para me proteger do frio. É por ter um lar que acho bonito a chuva batendo na janela. É para este lugar que eu sempre retorno, ao final de cada dia de trabalho, desejando apenas o mesmo descanso daqueles que lutam para ganhar a vida honestamente. Minha casa não é nenhum palácio, não ocupa uma rua inteira do quarteirão, não possui ostentações desnecessárias. No entanto, é nela que abrigo o meu sossego, a minha paz. A casa de um homem, de uma mulher ou de uma família é um templo inviolável. É o local onde nos encontramos protegidos, seguros de que ali ninguém irá nos incomodar. A casa da gente, na verdade, é a última trincheira da nossa dignidade. Foi isso que roubaram dos moradores do Pinheirinho.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Pra frente, Brasil!

Por João Paulo da Silva


Dia normal no Brasil. Dois velhos conhecidos tomam café da manhã numa padaria. O assunto não poderia ser outro. Conversam sobre o “novo” momento econômico e político do país.
- Viu ontem o jornal? Já não somos mais os primos pobres no mundo.
- Não? Por quê? O povo ganhou na mega-sena por acaso?!
- Não, nada disso. É que agora somos a sexta maior economia do planeta, rapaz! Nosso PIB chegou a 2,51 trilhões de dólares. Ficamos na frente até do Reino Unido! Não é fantástico?!
- Sim, claro que é. Como também é fantástico o Brasil ter 16 milhões de miseráveis, mesmo sendo o sexto país mais rico do mundo.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Dois Brasis

Por João Paulo da Silva

Não sei se você sabe. Mas existem dois Brasis. Parafraseando um autor cujo nome não lembro, posso dizer que nos dividimos em dois grupos. Aqueles que têm mais jantares do que apetite e os que têm mais apetite do que jantares. Pode até parecer uma definição simplista demais. No entanto, isso não faz dela uma mentira. É claro que existe um evidente confronto de classes nisso tudo. Tratemos desses dois Brasis de maneira metafórica. Até mesmo porque – “nunca na história deste país” – uma metáfora foi tão real.


domingo, 24 de julho de 2011

Esse tal de mercado

Por João Paulo da Silva

Era uma bela manhã de sábado. Eu estava assistindo ao futebol de areia pela televisão quando minha mulher gritou da cozinha:
- Querido, venha cá!

Levantei-me com relutância. O jogo estava emocionante e eu não queria perder nenhum lance.
- O que foi, meu amor? – eu disse.
- Querido, eu estou querendo fazer uma macarronada, mas não temos massa de tomate. Você poderia ir comprar?
- Logo agora que estamos metendo três na seleção de Portugal?! Não pode deixar isso pra depois?!
- Não! Tem que ser agora!
- Tá. Tudo bem. Eu vou.

domingo, 26 de junho de 2011

Quem te viu, quem te vê!

Por João Paulo da Silva

Tudo começou na Antiguidade. Para os povos desse período, junho era um mês especial. A primavera chegava ao fim e o verão se aproximava. E, com a nova estação, dias mais longos e quentes. Provavelmente eles não sabiam, mas era o solstício de verão: época ideal para o plantio. Sem ciência que explicasse o funcionamento do universo, os antigos atribuíam as alterações climáticas (dias quentes e ensolarados etc.) aos deuses. Daí o costume de promover festejos para “garantir” a boa vontade das divindades pelos próximos períodos. Os antigos também não sabiam. Mas provavelmente foram os primeiros puxa-sacos da História.

A festa junina só ficou mesmo mais parecida com o que nós conhecemos hoje quando a Igreja Católica meteu o bedelho. A antiga comemoração relacionada ao solstício de verão, celebrada no dia 24 de junho, era uma celebração pagã. Durante a Idade Média, a Igreja, estendendo ainda mais seus tentáculos sobre as pessoas, caçou os festejos pagãos e os transformou em rituais e mitos cristãos, tratando logo de meter um de seus santos no meio disso tudo. São João Batista era o nome do sujeito. E a comemoração ficou conhecida como festa joanina, o famoso São João. Quando os portugueses chegaram aqui com essa história, a geografia do local, o calor dos trópicos e a mistura que deu origem ao povo brasileiro se encarregaram dos últimos retoques. Inclusive a mudança do nome para festa junina.

Hoje também já não é como antes. Nas cidades, já não é mais tão comum encontrar comemorações juninas tradicionais. As bandas de forró eletrônico, estilizadas ou de plástico, com letras machistas e homofóbicas, estão cada vez mais presentes nas festas organizadas para o povão dos bairros periféricos. Isso para não falar dos outros “gêneros musicais” que aparecem de penetras. Embora algumas coisas permaneçam iguais, como as comidas típicas, por exemplo, outras começam a se perder. São poucos os trios de forró nas grandes festas. Sinto falta do zabumba, do triângulo e da sanfona. O palhoção mesmo está desaparecendo. Esse ano a comunidade do meu bairro não fez nenhum. Tá. Tudo bem. Ainda soltam fogos de artifício e acendem fogueiras. Mas não é a mesma coisa. Sei que algumas comunidades resistem. Mas... sei lá. Algo de mágico se foi. Devem ser os efeitos da pós-modernidade.

Êita, festa junina. Quem te viu, quem te vê. Até as quadrilhas perderam fôlego. Atualmente, as que ganham mais notoriedade são as existentes no Congresso Nacional. É outro tipo de quadrilha, claro. Mas com direito até a forrobodó. Forrobodó como sinônimo de desordem, evidentemente.

domingo, 12 de junho de 2011

Heróis e vilões

Por João Paulo da Silva

A maioria de vocês, assim como eu, provavelmente acompanhou nos gibis ou nos cinemas as aventuras de conhecidos super-heróis, imortalizados pela cultura pop, como Homem-Aranha, Super-Homem, Capitão América, X-Men etc etc etc. Gente que utiliza super poderes para salvar vidas, impedir o fim do mundo e lutar por justiça e liberdade. Gente que pode voar, desviar de balas, escalar paredes com as próprias mãos e levantar toneladas. Longe da ficção e da fantasia, essa gente não existe. Na vida real, os heróis são outros. São de carne e osso, sangram, pagam contas, recebem salários de fome, andam em ônibus lotados e passam horas em filas de hospitais. Mas, entre os personagens dos gibis e os humanos da realidade, existe ao menos uma semelhança: todos eles possuem terríveis vilões para enfrentar.

No universo das histórias em quadrinhos, os inimigos querem dominar o planeta, fazer experimentos perigosos e mirabolantes e espalhar maldade por todos os lados. No mundo real, é um pouco diferente, mas não menos terrível. Os vilões já controlam o mundo, através de bancos, grandes empresas, latifúndios e governos opressores. Exploram o trabalho da maioria dos povos e fazem guerras para garantir lucros altos. Com uma ganância sem limites, os inimigos da vida concreta ainda cortam verbas dos serviços públicos essenciais, só para alcançar um superávit primário maior e encher cada vez mais os próprios bolsos de dinheiro. O desemprego, a fome, a miséria e a violência são as consequências que vêm com os atos dos verdadeiros vilões.

Assim como os super-heróis dos gibis, os heróis de carne e osso também lutam todos os dias. Lutam para salvar vidas de incêndios, lutam para salvar vidas em hospitais, lutam para guiar vidas nas salas de aula e lutam pela própria sobrevivência. Mas quando estes heróis decidem lutar cruzando os braços em defesa de melhores salários e condições de trabalho, os vilões da História, da mesma forma como nos gibis, respondem com ações inescrupulosas e violentas. Chamam os mocinhos de vândalos, bandidos e delinquentes, além de convocar a polícia para reprimir.

No entanto, igualando-se aos super-heróis das histórias em quadrinhos, os heróis que sangram e recebem salários de fome também resistem e enfrentam seus inimigos. Às vezes perdem, às vezes ganham. Mas sempre retiram lições importantes de suas batalhas. Descobrem que, ao contrário dos super-heróis dos gibis, eles não podem vencer seus próprios vilões sozinhos. Precisam estar juntos, unidos como um time, um grupo, uma liga, uma classe.

Os bombeiros do Rio de Janeiro e todos os trabalhadores que fazem greves neste país e enfrentam seus inimigos mostraram ao mundo que é possível lutar, que é possível vencer. Mesmo sem possuir super poderes.

domingo, 29 de maio de 2011

As coisas e o que fazemos com elas

Por João Paulo da Silva

Ceará-Mirim, Rio Grande do Norte. Maio de 2011. Eu tinha ido cobrir um protesto de 200 trabalhadores rurais sem terra naquele município. Com suas camisas e bandeiras vermelhas, eles deslizavam pela principal avenida do centro da cidade como um rio de sangue, som e fúria. Era o sangue dos companheiros mortos em Eldorado dos Carajás, o som das reivindicações urgentes e a fúria da necessidade de viver. A caminhada ia em direção à sede da Prefeitura, onde o MST exigiria do chefe do executivo municipal a construção de uma escola nas proximidades de seus assentamentos na região.

A exigência dos sem terra era apenas para ter o direito à educação, mas a polícia foi chamada e os supermercados fecharam as portas. Aglomerados em frente à Prefeitura, homens, mulheres e crianças cantavam e pediam para ser recebidos. Entre eles e o prefeito, um cordão de policiais armados. Entre os pobres e a educação, as armas. Entre o povo e o futuro, o descaso. Historicamente, sempre foi assim. A violência sempre chegou primeiro do que os direitos.

Mas o impasse estava posto. Os trabalhadores não sairiam dali enquanto não fossem recebidos pela Prefeitura. E a polícia não sairia da frente enquanto não recebesse a ordem. Provavelmente para evitar desgaste político, o prefeito resolveu atender uma comissão de sem terras. Por alguma razão que até hoje desconheço, eu acabei indo junto com o grupo de negociação. Naquela euforia toda, ainda pude ouvir um trabalhador dizer: “Ele é jornalista. Ele é jornalista. Bota ele na comissão também.”. Talvez fosse pela possibilidade de registrar tudo. Não sei.

Acompanhei toda a conversa entre o prefeito e os trabalhadores. Horas depois, ficou a promessa de atender a reivindicação do MST. Educação nos assentamentos. Simples assim. Mas a lição dessa história é outra. Não é sobre como podemos conseguir nossos direitos exercendo pressão sobre os governantes. Muito embora esta seja uma boa lição. A aula mesmo é sobre as coisas e o que fazemos com elas.

Dentro do prédio da Prefeitura, na ante-sala do gabinete do prefeito, eu aguardava a comissão ser recebida. Do lado de fora, com a rua fechada, o restante dos trabalhadores cantava hinos de luta. Como quem não quer nada, um policial se aproximou de mim e perguntou:
- Você está com eles?
- Só acompanhando a negociação. Sou jornalista.
- Hum... Queria ver uma coisa com você.
- Pois não.
- Veja, lá fora tem muita gente armada com facões e foices. E nós não queremos que nenhuma confusão aconteça. Não poderíamos ver a possibilidade desse pessoal aí entregar essas armas? Nós recolhemos e depois devolvemos. Só por segurança. – argumentou ele.
- Acho muito difícil, policial. Mesmo porque não há ameaça de nada lá fora.
- E aquelas armas?
- Que armas?
- Aqueles facões e foices.
- Não são armas, policial. São instrumentos de trabalho. Foram feitos para o serviço no campo. Não têm como finalidade ferir ninguém.
- Sim, eu sei. Também tenho meus instrumentos de trabalho. – disse ele, batendo de leve em sua pistola presa ao coldre.
- É diferente. Não é a mesma coisa. O seu instrumento de trabalho foi feito com o objetivo específico de matar. – respondi eu.

Mas o policial já estava se afastando com um riso no canto da boca.

domingo, 22 de maio de 2011

O Censo e a nova classe média

Por João Paulo da Silva

Foi só depois que o IBGE divulgou os resultados finais do novo Censo que eu consegui descobrir quem é a nova classe média da qual o governo tanto fala. Estou abismado. Como não pude vê-la?! Como não pude encontrá-la, esbarrar com ela por aí?! Dizer um “Olá! Olha, parabéns, viu?! Isso é que é ascensão social, hein!”. Estava tão próxima a mim, e eu não consegui distingui-la. Santa Desatenção! Ela estava praticamente embaixo do meu nariz. Aliás, para minha completa e absoluta surpresa, eu também faço parte dessa nova classe média! Meu Deus, preciso urgentemente visitar o oftalmologista e trocar esses óculos. Francamente. Vai vendo aí.

Pobreza? Que pobreza?

Nos últimos 10 anos, a pobreza caiu 50,64%. Isso porque, no Brasil, o pobre é o sujeito que possui uma renda mensal menor que R$ 151, segundo as pesquisas. Já na extrema pobreza encontra-se o sujeito que possui renda mensal de até R$ 70. Em geral é menos, não se chega nem a isso, mas até setenta você é extremamente pobre. Quer dizer, bastou ganhar R$ 1 a mais e já saiu da pobreza ou da extrema pobreza. Entretanto, eu entendo a intenção do governo e dos institutos de pesquisa ao apresentarem os cálculos com base nesse critério. É para levantar o moral dos brasileiros. Convenhamos, ser pobre é deprimente e não ajuda a viver bem. Por isso, o melhor é acreditar que fazemos parte de uma nova classe média. Ou, como diria Millôr Fernandes, “classe mérdia”.

Sendo assim, é só através do critério dessa nova classe média que é possível compreender um diálogo entre dois desempregados numa esquina qualquer do país.

- Rapaz, esse mês, se Deus quiser, eu entro pra essa tal de nova classe média.
- É mesmo?
- Com certeza. Andei fazendo minhas contas. Tudo indica que com mais alguns bicos que já acertei pra fazer essa semana vou apurar uns R$ 160 esse mês.
- Mas olha só! Que coisa boa, hein! Parabéns, meu amigo.
- Pois é, rapaz. Vai dar até pra pagar um Chicabom pra patroa lá em casa.

O mistério do banheiro em casa

No país do futuro, o banheiro ainda é um mistério para os brasileiros alojados em 3,5 milhões de casas. Isso significa que nem na Idade Média essas pessoas se encontram, uma vez que neste período da história havia ao menos um lugarzinho com buracos no chão para lá deixarmos as “necessidades”. Inclusive, penso eu, que essa parte da população sem banheiro também deve estar enquadrada na nova classe média. Bom, na mérdia eles já vivem e acho que até o penico é um mistério.

Fico imaginando os moradores destas mais de três milhões de residências (estou sendo generoso) passeando pelas orlas de algumas de nossas cidades. Quando menos se espera, pimba! Dão de cara com um desses banheiros químicos. Emocionados, entram e saem diversas vezes do pequeno recinto. Não acreditam nos próprios olhos. Nem mesmo o Sílvio Santos e sua Porta da Esperança seriam capazes de proporcionar aquele momento. Ainda que a necessidade fisiológica não venha, passam horas sentados no vaso. A Maria, esposa do Zé, até pergunta ao marido:

- Será que deixam a gente levar um desses pra casa, meu filho? A cor combina direitinho com os tamboretes da sala.

O Censo é ainda mais terrível quando revela que 55,5%, das pessoas vivem sem saneamento básico. Ou seja, quase metade da população nunca viu água tratada, coleta de lixo e rede de esgoto. Mas o governo também deve ter uma justificativa para isso. Afinal de contas, para quê serve saneamento básico quando não se tem nem mesmo banheiro?

Incentivando jantares à luz de vela

O Censo também revelou uma preocupação dos governos em fazer com que a nova classe média seja mais romântica. Não é à toa que mais de 700 mil famílias não possuem energia elétrica em casa. Isso só pode ter uma explicação. Tanto o FHC quanto o Lula, e agora a dona Dilma, incentivam os jantares à luz de velas. Compulsoriamente, é claro. Mas não se pode negar que os governos querem salvar casamentos, ver os casais mais felizes, impulsionar o romantismo e fazer do Brasil o país do amor.

- Querida, você não vai acreditar no que eu preparei pra você.
- O que foi, Josimar?
- Vem por aqui que eu te mostro. Cuidado aí que tá escuro. Tcharam! Olha só o que fiz pra você.
- O que é isso, Josimar?
- Ué, um jantar à luz de velas. Não tá vendo as velas?
- As velas eu tô vendo. Não tô vendo é o jantar!
- Bom, a gente não tem energia e o dinheiro só deu pra comprar as velas. Mas já é um começo, não acha?

Joãozinho, o pai de família

Depois de um dia inteiro de trabalho, guardando carros e limpando pára-brisas nos semáforos, Joãozinho, um guri de nove anos, chega em casa exausto.

- Mãe, cheguei! Cadê o rango?
- Oi meu filho. Já tá saindo. Como foi no serviço?
- Foi duro, mãe. A vida tá ficando cada vez mais difícil. Hoje o dia foi brabo. Peguei um monte de cliente unha de fome. Quase não apurei o suficiente para o almoço. Coisa séria essa inflação, hein! Se continuar assim, o que eu ganho não vai dar nem pro café. Imagine pagar luz, água, aluguel e alimentação.
- Mas meu filho, eu também posso arrumar um emprego...
- Nem pensar! A obrigação de sustentar a casa é minha. O pai de família aqui sou eu.

Da mesma forma que o Joãozinho, mais de 130 mil crianças brasileiras são responsáveis por chefiar famílias. Elas, provavelmente, também fazem parte da nova classe média do governo. Como se pode ver, a ascensão social no Brasil é realmente coisa de país do futuro. Futuro sombrio, verdade seja dita. Nos últimos vinte anos, a classe que reúne pobres e miseráveis não deixou de existir. Apenas mudou de nome.

domingo, 10 de abril de 2011

O pesadelo de Odair Reacionário

Por João Paulo da Silva

Parecia ser mais um dia como outro qualquer na vida do deputado federal Odair Reacionário. Como de costume, acordou por volta das 5 da manhã, tomou sua ducha fria de meio minuto e barbeou-se com um canivete do tempo em que ainda era militar. Em seguida, vestiu sua cueca da sorte, com a suástica bordada na frente, sentou-se na cama e começou a lustrar os coturnos. Só para não perder o hábito, montou e desmontou seu fuzil umas trezentas e cinquenta vezes. Depois, dirigiu-se a um pequeno e singelo altar. Ajoelhou-se e pôs a mão sobre um livro de capa preta. Mein Kampf, dizia o título em alemão. Rezou em silêncio e com a cabeça voltada para duas imagens acima do altar. Eram figuras bastante conhecidas. Da parede, as fotos de Médici e Geisel observavam com alegria o nobre deputado.

Terminado o ritual matutino, Odair Reacionário sentou-se à mesa sem dar bom-dia a sua esposa, pediu o café e pegou o jornal. As notícias não eram nada animadoras. “MST ocupa mais dez fazendas no interior de São Paulo”, “Metalúrgicos do ABC iniciam greve geral”, “Congresso vota hoje Lei da Homofobia; movimento LGBT promete fazer pressão”. Os tempos não eram bons, pensou o deputado.
- Ai, que saudade da Dita. – suspirou Odair. – A Dita é que era mulher de verdade... – cantarolou baixinho.

Imediatamente, a esposa fixou os olhos duros no marido. Como um balão que não podia mais receber ar, ela explodiu pra cima dele:
- Não aguento mais isso, Odair! Desde que nós nos casamos que você fala nessa tal de Dita. Até na minha frente você fala nela. Anda, Odair! Quem é essa Dita?! Hein?! É Benedita o nome dela, não é?! Quem é essa sirigaita?! Fala, Odair!
- Olha aqui, mulher. Não admito que você levante a voz pra mim. Tá pensando o quê?! Que mulher pode fazer o que quiser?! Numa boa família, quem manda é o homem! E aqui o homem sou eu! Só não te dou umas porradas porque se não vou amassar meu terno. E outra. Larga de ser burra. A Dita de que tô falando é a Ditadura! Essa, sim, me dá saudade.

Raivoso, engoliu os ovos com bacon e saiu da cozinha pisando firme. Quando passou pela sala, viu que seu filho mais novo, um garoto de seus treze anos, estava assistindo ao desenho do Bob Esponja.
- Mas o que é isso, moleque?! Que merda de desenho é esse?!
- É o Bob Esponja, pai.
- Bob Esponja é o cacete, rapaz! Isso daí é o Bob Boiola. Que tipo de homem tem um amigo em forma de estrelinha cor de rosa?!
- Mas o Bob não é um homem. É uma esponja, pai.
- Ah, logo vi! Claro que não poderia ser homem. Mole desse jeito! Você não vai ver esse desenho. Isso é coisa de gay.
- Mas eu gosto, pai.
- Gosta nada, moleque. Escuta aqui. Se você não andar na linha, eu te dou um couro! – e Odair lascou um cascudo na cabeça do filho.

Da entrada da cozinha, a mulher ainda pediu:
- Não faz isso, Reacionário.
- E você cala a boca! Volta pra cozinha que é o teu lugar. Tão pensando o quê?! Que vão fazer revolução?! Que aqui pode ter mulher independente e filho veado?! Nada disso! Aqui não é a casa da mãe Joana, não!

E olhando para o filho que chorava, Reacionário completou:
- Ô moleque! Para de chorar! Homem não chora, cacete! Parece uma bichinha. E tem mais, hein! Quando eu voltar, se você não tiver aprendido a coçar o saco e a cuspir no chão, vai pro pau de arara. Tá me entendendo?! Agora quero ver pedir pra sair! Pede pra sair! Pede pra você ver!

Antes de sair de casa, o deputado Odair ainda deu mais três coices, relinchou e bateu a porta com força atrás de si. Só não comeu a grama do jardim porque já tinha tomado café. No caminho até o Congresso Nacional, ligou o rádio no carro para ouvir as notícias. Estarrecido, descobriu que centenas de milhares de pessoas se aglomeravam em frente à “Casa do Povo”. O locutor informou que a Praça dos Três Poderes estava repleta de pessoas. Eram trabalhadores, jovens, idosos, homens, mulheres, negros, brancos, gays, lésbicas, travestis. Segundo o locutor, bandeiras vermelhas e coloridas tomavam a fachada do Congresso. Todos querendo pressionar o Legislativo para que a lei contra a homofobia fosse aprovada. No carro, Odair Reacionário pensava: “Meu Deus. Hoje vai ser um dia daqueles. Parece um pesadelo. Esses promíscuos querem acabar com a família, a moral e os bons costumes. Isso tem que ser resolvido é na bala.”.

Quando o carro se aproximou do Congresso, o deputado pode comprovar que o pesadelo era maior do que o rádio havia informado. Na praça, tinha mais gente do que ele imaginara, mais até do que fora anunciado. Nas mãos, os manifestantes exibiam cartazes e faixas. “Chega de homofobia!”, “Direitos iguais para os homossexuais!”, “Contra toda forma de opressão!”, “O amor não é pecado!”, “Pela aprovação imediata do PLC 122!”, “Criminalização da homofobia já!”.

Odair Reacionário não acreditava no que estava vendo, devia ser um pesadelo mesmo. Ainda teve ímpetos de baixar o vidro do carro, colocar a cabeça para fora e gritar: “Mas o que é isso?! É o Apocalipse?! Sodomitas! Infiéis! Vão queimar no fogo do inferno!”. Só não o fez porque estava em menor número. Era um soldado, um estrategista. “Mas esperem até eu entrar no Congresso. Aí vocês vão ver. Os defensores da família não vão permitir a aprovação da safadeza.”, disse pra si mesmo.

Na entrada do prédio, dezenas de repórteres se amontoavam. Todos esperando a chegada do deputado Odair Reacionário, principal representante da moral e dos costumes. Um parlamentar que usava a democracia para defender abertamente a ditadura e que pregava sem remorsos o direito de ser preconceituoso. Eufóricos, os jornalistas queriam ouvir de Odair uma avaliação sobre a decisão que o Congresso estava prestes a tomar.
- Então, deputado, parece que por causa da pressão popular a bancada do governo está se vendo obrigada a votar pela aprovação da lei anti-homofobia. O que o senhor tem a dizer sobre isso? – perguntou uma repórter.
- Nós estamos numa guerra, minha filha. Esse é um governo de frangotes. Nós não vamos amolecer diante deste bando de pederastas que está aqui na frente do Congresso. Nossa bancada vai lutar até o fim contra essa imoralidade. Eu não quero que meu filho abra a porta de casa e dê de cara com duas mulheres ou dois homens se beijando. Eu quero que meu filho seja macho.
- Mas o senhor não acha que este tipo de comportamento é intolerante e homofóbico? – quis saber outro repórter.
- E quem é que está sendo intolerante e homofóbico aqui, meu rapaz?! Eu não sou homofóbico, só acho que isso de homossexualismo é coisa de veado. E por isso sou contra. Quero ter esse direito.
- Então, o senhor quer ter o direito de oprimir os homossexuais?
- Bom, se você chama de opressão o fato de eu estar defendendo que os homossexuais não tenham direitos, então sou um opressor, sim.

Odair Reacionário ainda deu mais algumas de suas “racionais” declarações e se encaminhou para o plenário da Câmara. Mas, antes, fez questão de relinchar três vezes e beliscar um pedacinho da grama do Congresso.

Lá dentro, deputados e senadores debatiam – obrigados pela pressão popular, é claro – o projeto de lei que tornava crime a homofobia. Foram horas e horas de sessão, seguidas de discursos e mais discursos. Contra e a favor. A bancada evangélica estava assombrada diante da possibilidade da aprovação da lei. Da tribuna, seus representantes esperneavam e faziam falas bíblicas, citavam passagens dos evangelhos, reivindicavam que Deus havia criado Adão e Eva, e não Adão e Ivo, etc, etc, etc. Governistas e oposição de direita discursavam constrangidos. Uns contra, outros a favor. Mas todos constrangidos. A pressão era grande. Estavam numa encruzilhada.

Lá fora, quase um milhão de pessoas ameaçava entrar no Congresso, caso os parlamentares não ouvissem seu clamor e não aprovassem a lei anti-homofobia. Os jornais noticiavam que o Movimento Gay não iria mais retroceder em suas reivindicações. “O país já sofreu o suficiente com o preconceito, a violência, a perseguição e a intolerância. É preciso avançar no combate à opressão aos homossexuais, que tanto serve para aumentar a exploração sobre nós.”, diziam líderes do movimento.

Dentro da Câmara, o deputado Odair Reacionário era a todo instante informado por seus assessores sobre os desdobramentos da situação. O governo não tinha condições de enfrentar mais uma crise política. Caso o Congresso não aprovasse a lei, a imagem negativa das instituições democráticas só iria aumentar. Depois dos problemas com a Ficha-Limpa, será que o Legislativo suportaria mais esse baque? Era o que se perguntavam os analistas políticos.

Já passava das onze horas da noite quando o que parecia apenas um pesadelo para Odair Reacionário finalmente tornou-se uma realidade. Por uma margem pequena de diferença, o Congresso havia aprovado a lei anti-homofobia. Do lado de fora, os manifestantes comemoravam o direito de expressar a própria sexualidade. Comemoravam o direito de ver presos aqueles que ousassem reprimir a felicidade e o amor dos outros. Do lado de dentro, Odair Reacionário, já muito desesperado, pediu para subir até a tribuna. Queria falar.

- Isso é uma vergonha! – gritava – Vocês não podem aprovar essa safadeza! Isso aqui vai virar uma república de veados. Onde estão a moral e os bons costumes?! Eu não sou a favor da violência contra os homossexuais, mas acho que se o menino começa a ficar meio gayzinho ele tem que tomar umas porradas pra se orientar. Vocês não sabem o que estão fazendo. É por isso que eu defendo a ditadura e a tortura! Assim é que se endireita esse país!

Nesse momento, o deputado Odair Reacionário foi interrompido por um assessor, que lhe informou que alguém precisava falar com ele urgentemente pelo telefone.
- Quem é?!
- Seu filho, deputado. Diz que tem algo importante pra falar. – disse o assessor entregando um celular.
- O que é, moleque?!
- Pai, queria cantar pra você uma música muito legal que aprendi hoje. Tem uma lição de vida.
- Garoto, esse não é um bom momento. Estou aqui numa situação muito difícil.
- Só o refrão, pai. É rápido.

Depois de um suspiro de impaciência, Reacionário concedeu.
- Tá, moleque. Vai logo.

Com um fundo musical dançante, Odair ouviu o filho cantar:
- “Não se reprima! Não se reprima! Não se reprima!”. – em seguida, ainda com o telefone no ouvido, o deputado ouviu o garoto improvisar. – Não me reprima! Não me reprima! Não me reprima!

Imediatamente, Odair Reacionário sentiu uma forte dor no peito, a visão escureceu e ele tombou sobre o chão. Acordou assustado em sua cama, com o corpo lavado de suor.
- Meu Deus, que pesadelo. Tudo parecia tão real. Por um momento até achei que... ah, não. Claro que não. Impossível de acontecer.

Levantou-se e andou pela casa. Notou que estava sozinho. Acabou encontrando um bilhete da mulher sobre a mesa da sala. Dizia que ela havia decidido abandoná-lo. Tinha levado o filho também. “Que merda está acontecendo aqui?”, pensou Odair. Sentou-se no sofá e ligou a TV. Os telejornais falavam da realização do primeiro casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Acontecimento que só se tornou possível após a extensão dos direitos de casais heterossexuais para casais homossexuais, aprovada juntamente com a lei anti-homofobia.

- NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO!!! – gritou Odair Reacionário, acordando para o seu pesadelo.