domingo, 25 de novembro de 2012

Broxadas 2

Por João Paulo da Silva

Quase todo mundo já broxou. E quem ainda não broxou não precisa se preocupar. Um dia a sua broxada chegará. Implacável, irremediável, inacreditável. Mais cedo ou mais tarde. É melhor que seja mais tarde. Aí dá até pra usar aquela desculpa da idade etc. e tal. Mas é isso. Desencane. Perder o tesão na hora em que você mais precisa dele pode acontecer com qualquer um. Homens e mulheres. É claro que a broxada não é uma “prerrogativa” meramente masculina. Mulheres também broxam, mesmo sem ter um pênis. Nós, seres humanos, somos criaturas hipersensíveis, muito vulneráveis a influências de fatores físicos e psicológicos.

Broxamos pelas mais diversas razões. Porque bebemos demais; porque sofremos de problemas cardíacos; porque há seis meses não pagamos o aluguel; porque certos homens falam “menas” ou “piroca” na cama; porque os níveis de hormônio estão baixos; porque a mãe daquele gato da academia telefonou bem na hora H e o desgraçado atendeu; ou ainda porque não temos autoconfiança suficiente e não acreditamos que a Scarlett Johansson possa estar nos dando mole. Enfim, motivos para broxar não faltam.

Finalmente, a Adelaide iria transar com o César, o homem mais cobiçado do escritório. Lindo, alto, forte, elegante, pele queimada do sol. Cabelo meio grisalho, sabe? Tipo George Clooney. “Uma coisa!”, como gostava de dizer a Adelaide às suas amigas do setor de recursos humanos. No trabalho, os dois sempre trocaram olhares diferentes, insinuantes. Mas nunca avançaram além das trincheiras da sedução. Faltava uma oportunidade. E ela veio na festa de fim de ano da empresa. Conversaram e riram a noite inteira. Adelaide nas nuvens. Lá pelas tantas, depois de muitos fogos, abraços e champanhe, o César se ofereceu para levá-la em casa, que nem hesitou em aceitar. Já na porta do condomínio, a Adelaide não perdeu tempo e convidou em tom provocativo: "Quer dar uma subidinha?"

Agora Adelaide estava ali, louca de tesão, rebolando como uma dançarina do "É o Tchan", tirando o vestido e deixando à mostra a lingerie vermelha. E o César deitado na cama, assistindo tudo.
- Eu vou acabar com você. Vou abusar de cada parte desse seu corpinho. – dizia a Adelaide, ensandecida.
- Então vem! Para de falar e vem aqui.
- Por que não tira essa roupa?
- Vem tirar você.

E lá foi a Adelaide. Saiu tirando peça por peça. Camisa, calças, sapatos, cueca. Mas quando tirou as meias...
- Ai, o que é isso?! Socorro, meu Deus!
- O que foi?! – estranhou o César.
- Que horror! Não acredito!
- Não acredita no quê?! O que foi que houve?!
- Você tem seis dedos no pé direito!
- Aaahhh, Adelaide. É só isso?! Que bobagem. É de nascimento. Vem cá, vem.
- Como assim, “só isso”?! Como assim, “bobagem”?! Não posso transar com um cara que tem seis dedos no pé. – disse e se afastou com repulsa.
- E por que não? Não é doença, nem é contagioso.
- Mas é nojento! Não posso chegar perto disso.
- Deixa de frescura, Adelaide. Não tem nada de nojento. Só dá mais trabalho na hora de cortar as unhas.
- Você estragou tudo. Acabou com todo o clima. Não tinha nada que ter esse sexto dedo aí.
- Olha, você quer que eu ponha as meias de novo? – perguntou o César, já meio sem jeito.
- Não adianta! Agora eu já sei. Não vou conseguir esquecer e me concentrar. Não posso nem imaginar você encostando esse pé em mim. E também transar com um homem de meias é o cúmulo!
- Escuta, não é o meu pé que eu quero encostar em você... Também começa com “P”, mas não é pé.
- Ai, seu grosso! Perdi completamente o tesão.
- Por causa de um pequeno detalhe anatômico?!
- Não é nenhum pequeno detalhe anatômico. Odeio eufemismos. Isso é uma mutação genética. Não é normal. Não posso fazer sexo com um mutante, com um X-Men. Meu Deus, acho que vou vomitar.
- Olha, assim você tá me ofendendo. Não acredito que estou ouvindo isso de você. Preconceituosa! Sabia que muitas pessoas tem seis dedos?!
- Ah, é?! Quem, por exemplo, além de você?
- Ah, sei lá, Adelaide. Não me lembro de ninguém agora. Mas até o George Clooney pode ter seis dedos no pé.
- O George Clooney tem seis dedos no pé?!
- Pode ser que sim. Quem vai saber? E se ele tivesse? O que você faria? Você não disse que me achava parecido com o George Clooney?
- Isso é só uma suposição. Ninguém tem certeza de que ele tem seis dedos no pé. E, de qualquer forma, você não é o George Clooney.
- Chega! Cansei! Vou embora. Parece maluca. Eu, hein!

Assim que o César bateu a porta atrás de si, Adelaide correu em direção ao telefone. Ligou para uma conhecida que morava nos EUA.
- Amiga, preciso de um favor seu. Coisa de vida ou morte. Será que você teria como descobrir se o George Clooney tem seis dedos no pé?

3 comentários:

Edson Falcão disse...

João, com sempre, excelente, e desopilante. Humor sarcástico, irônico e inteligente. Valeu meu irmão. Até a próxima crônica!

Cartas para Li disse...

mas as unhas do cara eram cortadas e limpas?

hahuahauhauhau


arrasou Jão!

Lee disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk