domingo, 20 de fevereiro de 2011

O primeiro pêlo

Por João Paulo da Silva

Já foi dito e redito inúmeras vezes que “a primeira vez a gente nunca esquece”. Seja lá o que for que esteja acontecendo pela primeira vez, o ocorrido torna-se sempre marcante talvez porque jamais volte a acontecer. Ao menos não da mesma forma. Do ponto de vista masculino, de onde posso falar com certa tranquilidade, penso que nunca se esquece o aparecimento do primeiro pêlo no rosto, no peito, nas axilas ou nos “países baixos”. É quando, biologicamente, o menino começa a se transformar em homem e o mundo ganha outras conotações. Observar o inevitável passar do tempo sempre foi recorrente para a humanidade. Mas as mudanças vindas com os anos podem ter efeitos diferentes sobre nós, a depender da época e das transformações.

Quando se é apenas um guri, o primeiro pêlo traz uma euforia de início de nova era, além de uma estúpida sensação de poder e autoridade. Em geral, achamos que um projeto de bigode nos dá permissão para oprimir garotos mais novos e praticar “coisas de macho”. Roubamos lanches, damos cascudos, xingamos e dizemos palavrões. Os primeiros e modestos pêlos também fazem a gente querer falar grosso, mesmo que a voz ainda não seja tão grave. Até o comportamento diante das meninas muda. Com meia dúzia de fios no rosto, pensamos ficar mais atraentes e exercer certo controle hipnótico sobre elas. Afinal, homem de barba é sempre mais homem do que os outros. Obviamente, tudo isso não passa de uma paleolítica cultura machista. Mas, de todo modo, o primeiro pêlo inaugura uma época na vida em que parecer mais velho não é um problema.

A vida sempre foi muito precoce comigo. Aos 11 anos, enquanto a maioria dos outros meninos aguardava a chegada do primeiro pêlo, eu já fazia a barba. Aos 14, tinha mais pêlos no peito do que o Tony Ramos. Quando fiz 17, a calvície já estava no meu encalço. De modo que as minhas primeiras vezes em tudo talvez tenham ocorrido mais cedo em mim do que nos outros da minha idade. Dia desses, porém, acho que a fatal transitoriedade do tempo extrapolou os limites do aceitável nas contas e resolveu tripudiar.

Eu estava de frente para o espelho, começando a me barbear, e acabei dando de cara com ele. No início não acreditei, o que é uma reação bastante comum diante de situações absurdas. Tudo bem que eu fosse precoce, mas aquilo já era demais. Aos 26 anos, tive um novo encontro com o primeiro pêlo no rosto. Só que desta vez com um agravante: era branco. Tá. Tudo bem. Eu sei. Eu sei que existem muitos homens, antes mesmo dos 30, que já possuem uma cabeça tão branca quanto um cotonete. Sei também que isso se deve mais a outros fatores do que propriamente à velhice. Mas não era para estar acontecendo com a minha barba. Não agora! Não aos 26! Não eu estando com uma calvície avançada! Isso é uma tremenda injustiça. Quer dizer que, além de careca, eu também vou ficar grisalho rápido demais?! Nesse ritmo, aos 35 anos, eu serei um maracujá, numa cadeira de rodas e com catarata. Quando fizer 45, então, nem se fala. As fraldas geriátricas e o Alzheimer já serão uma realidade. Daí para uma cama de hospital e respirar através de aparelhos será um pulo.

Já foi dito e redito inúmeras vezes que “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Por isso, não hesitei em raspar toda a barba e me livrar do pêlo branco. O problema vai ser quando eles começarem a aparecer no peito. Aí não terei como raspar. Entretanto, desafio mesmo será conservar os poucos cabelos que me restam, até que eles fiquem brancos. O mais provável é que caiam antes. Você pode até dizer que todo esse papo não passa de bobagem, frescura metrossexual ou coisa de gente que só se preocupa com estereótipos etc. Mas se pelo menos eu ficasse a cara do Sean Connery... nem diria nada.

5 comentários:

Rosa Kahlo disse...

ooooow, meu deus.. tadinho!
queria te entristecer mais ñ, mas o fato é que as coisas vão tomar esse ritmo mesmo. quem manda ser precoce, kkkkkkk
=p

Igor Bayma disse...

Meu querido. é só pintar!

Prof. Pedro disse...

Bicho, não sou tão precoce quanto vc... Estou ficando um pouco calvo, só um pouco. Mas nada de pêlos brancos.Nos últimos dias tenho sentido um frio na cabeça! Fiquei triste... Lendo sua história percebo que devo ficar feliz, afinal, vc herdou os piores genes. Espero que desses aí só tenham um exemplar! Rsrsrs

Bruno disse...

haha tava procurando no google sobre primeiro pelo na barba, porque o meu apareceu hoje e eu o notei a 10 minutos atrás. Detalhe: tenho 15 anos. Nosso problemas são inversos, você é precoce e eu sou atrasado. Não que eu me orgulhe disso. Fico mal vendo meus amigos com os pelos na cara e eu com pele de bebê. Fazer o que né.

Tadeu Brandão disse...

‎As opções são
1) Aceite e siga a vida, faz parte
2) Procure um Dermatologista
3) pelo amor de Deus, FAZ LOGO UM PRÉ-VIDA, P**RA!