domingo, 5 de agosto de 2007

Confissões

Por João Paulo da Silva

Fui criado sob a égide do catolicismo. É claro que meus pais não perguntaram se eu gostaria de ser católico. E nem poderiam. Na época eu ainda nem falava. E mesmo que falasse não seria ouvido. Já cheguei até a imaginar a cena.
Minha mãe perguntaria:
- O bebê da mamãe vai ser católico, não vai?
E eu, com poucos meses de vida, responderia:
- Nada disso! Sou um ateu convicto! Deus não existe.
Meus pais trocariam olhares temerosos e incrédulos.
- E agora, Antônio?! O menino é ateu! – diria minha mãe.
Meu pai daria a sentença.
- É melhor sacrificar.
É claro que se trata de uma situação hipotética. Puramente imaginária.

O certo é que o catolicismo em minha vida foi de fato uma imposição. Assim como a escolha de meu nome também o foi. Me deram o nome do Papa do momento: João Paulo. Certo. Tudo bem que é um nome santo. Mas nada original.
Mamãe foi quem assumiu a tarefa de me catequizar. Confesso que nunca fui um bom católico. E isso se deu mais por incompetência de minha parte do que por qualquer outra coisa. Eu até tentei, não vou mentir. Só que não deu certo. Mamãe me levava todos os domingos à missa numa igreja no bairro do Farol, onde morávamos. Eu era obrigado a vestir um traje esporte fino, a roupa domingueira. “Vê se não amassa a roupa que é pra não ficar feio!” – dizia mamãe. Eu nunca aprendi direito todas aquelas orações. Nem mesmo sabia quando era pra ajoelhar ou ficar de pé. Era um terror. Mamãe ficava doidinha.

O padre dizia algo e todo mundo ficava de pé. Eu permanecia sentado.
- Se levanta, menino! – resmungava mamãe.
Assustado, eu levantava.
O padre dizia outra coisa e todo mundo ajoelhava. E eu de pé.
- Se ajoelha agora, menino!
Era o sinal apocalíptico de minhas futuras heresias. Pobre mamãe.

Para evitar novos transtornos, fui fazer catecismo. Forçado, claro. As aulas aconteciam aos sábados pela manhã, e os desenhos animados da TV representavam minhas tentações mundanas contra o Espírito Santo. “É preciso aprender os dogmas religiosos para realizar a Primeira Comunhão.” – afirmava mamãe. Tive de aprender.
Minha primeira grande heresia aconteceu durante uma missa aos dez anos de idade. Há muito tempo eu já havia percebido que num determinado momento da celebração as pessoas faziam fila para receber um tipo de “comida” das mãos do padre. Como eu estava com fome, também entrei na fila. Quando minha mãe percebeu, já era tarde. Pus a hóstia consagrada na boca sem nunca ter me confessado. E o pior: mastiguei! Minha mãe quase teve um treco.
- Menino! Pelo amor de Deus! Você ainda não pode comungar, não! Cospe já! Não! Não cospe não que é pecado! Pára de mastigar, criatura! Isso é o corpo de Deus! Ai meu Jesus santíssimo!
Eu não falei pra não deixá-la mais irritada. Mas o gosto era horrível.

Minha ruptura com o catolicismo, com a religião e, conseqüentemente, com Deus se deu de maneira gradativa, através de pequenas “revelações”.
Todas as noites, ao pé da cama, eu rezava.
- Senhor Deus, abençoe e proteja todas as pessoas do mundo. Mas não se esqueça daquela bola de futebol que eu pedi. Amém.
Ou então:
- Deus, faça a Pâmela se apaixonar por mim. Ela é da 6ª série e namora um bocó da 8ª. Por favor, não se esqueça. Amém.
Enfim, foram inúmeras as tentativas. E, no fim das contas, nada da bola. Nem da Pâmela.
Mas a mais contundente revelação foi como um soco no estômago. Diante de tanta fome e miséria no mundo, eu pedia:
- Deus, se o Senhor é mesmo tão poderoso, acabe logo com toda essa desgraça. Não deixe as pessoas morrerem de fome. Amém.
Na minha cabeça funcionava assim: para um sujeito que tinha feito o mundo todo em sete dias, acabar com a fome e a miséria seria coisa de criança.
No entanto, o tempo passava e nenhuma mudança ocorria. Só anos mais tarde eu iria descobrir uma frase do Millôr Fernandes que resumiria bem meus pensamentos daquela época. “Se tudo isso que está aí é realmente obra de um Deus-Todo-Poderoso, que patife!”. Bom, depois o marxismo se encarregaria do resto.

Mas se existe um acontecimento realmente marcante na minha curta vida de católico este se deu no momento da Primeira Comunhão. Um pouco antes, pra falar a verdade. Eu tinha concluído o catecismo e precisava fazer minha primeira confissão. Do contrário, não receberia oficialmente o corpo de Deus (que eu já havia mastigado!).
No dia da confissão, havia uma fila enorme de pequenos pecadores. Todos prontos para receberem o perdão do Senhor. Nem preciso dizer que eu não tinha a menor idéia do que fazer ali. Não havia decorado as orações nem sabia que pecados confessar.
Quando chegou minha vez, entrei no confessionário me borrando de medo. Mais do padre do que de Deus.
- Bom-dia, meu filho. – disse o sacerdote.
- Bom-dia, padre. – respondi.
Um rápido silêncio se meteu entre nós.
- Vamos lá, filho. Pode ficar à vontade. Conte-me seus pecados.
“E agora? O que que eu falo?” – pensei.
- Então... – incentivou o padre.
- Bem, seu padre... É que... eu... eu briguei com meus irmãos, respondi a minha mãe, bati no meus colegas da escola e menti pra professora. Foi isso.
O sacerdote espremeu os olhos. Parecia estar me examinando, parecia querer ler meus pensamentos. Demonstrando impaciência e desconfiança, falou:
- Meu filho. Você já fez safadeza?!
Pensei em correr. Mas não o fiz.
- Não, padre. Não. Nunca fiz não. Não sou menino de ficar fazendo essas coisas. – respondi sem saber exatamente o que ele estava perguntando.
- Me deixe ver suas mãos.
Estendi as mãos.
- Humm... – fez ele, analisando as palmas.
- O que foi? – perguntei.
- Esses calos... Não sei, não.
Silêncio.
- Tudo bem. Pode ir. Mas reze lá fora vinte padres-nossos.
Saí do confessionário quase em disparada. Nem rezei. Só depois de um tempo foi que descobri a razão da desconfiança do padre. E percebi que era infundada.

Não sei se é verdade. Mas contam que certa vez o Freud foi pego na maior saia justa. Em seus estudos sobre os sonhos, o médico austríaco disse que quando sonhamos com objetos cilíndricos ou pontiagudos estamos na verdade desejando o órgão masculino. Baseado nessa informação, alguém perguntou ao Freud no meio de outras pessoas se o charuto que ele fumava seria a representação do pênis no momento do sexo oral. O esperto doutor Freud teria respondido o seguinte:
- Veja, meu rapaz. Às vezes um charuto é apenas um charuto.

Se no dia de minha confissão eu conhecesse essa história, teria dado a seguinte resposta ao padre:
- Veja, seu padre. Às vezes um calo é apenas um calo.
Ora essa! Imaginem só. Fazendo safadeza?! Logo eu?!

12 comentários:

Bárbara disse...

Vc deveria ter olhado as mãos dele tb.
uhauhauhuahauhauhahaha

Elliott disse...

vai ser o nome do nosso livrinho!
em verso e prosa!
:P

tudo a ver

Estêvão dos Anjos disse...

Vc falou no seu primeiro ato herético eu lembrei do meu:
lá no interior onde morava meus pais sempre iam a igreja, inclusive meu pai era akela pessoa q lia as homenagens na missa e tal...numa dessas nossas idas fui convidado a ser coroinha, n sei o q deu em mim mas logo de car aperguntei se ganharia algo ou td akele dinhero q o povo da ia somente para do padre, ele sorriu sem graça e alisou minha cabeça...hj vejo q minha desconfiança era real...passe la em Palmeira dos índios, na Avenida Alemanha e veja a casa com um carro na garagem, uma sky no teto e de enorme proporções...q fi da peste

BELO TEXTO JOÃO, PARABENS

Anônimo disse...

muito bem escrito....está envolvente, nos deixa fixo pra saber a informação que virá depois...seu processo de construção está aprimorando mais e mais...Parabéns e continue escrevendo

Vivendo e Aprendendo disse...

manow
tah massa!
ficou bom!
dpois falow com vc melhor sobre ele pq deixar comentario assim é meio complicado.
flwws

Jenifer Leão disse...

essa situação da confissão é mesmo estranha
um monte de crianças confessando o que, finalmente?
Eu, com 11 anos, confessei q tinha preguiça de lavar os PRATOS, pode?!

Tá muito legal teu texto João. Divertido mesmo.

ººmauẺ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mah TenÓriO !! disse...

kkkkkkkkkkkkkk..Qui resenhaa..

huahuahuahau...

tow gostandu de vê..!! :P

teu blog ta ficandu cada vez melhor...!!


bzu...!!

carliane disse...

Amei!!!
Os seus contos são muitos bons, vc consegue prender as pessoas ao enredo. Eu pelo menos só me satisfaço quando termino de ler!!!
rsrsrsrs
xeru

deyvis disse...

azar de vcs.. eu nunca precisei me confessar..
quando eu nasci mamae disse logo:
- esse vai ser um belo ateuzinho..
kkkk!!!

tamires disse...

Fessorrrrrrrrrrrrr... ótimas as suas crônicas, divulguei e ainda vou divulgar mais!!!!!!! Arrasou vai longe em ? ei voce é ATEU? =/ Mais eu te admiro e respeito assim mesmo!!!!!!!!! Um Abraço! e PARABÉNS pelo talento!!!! BY / => Tamires Wanessa !

Deus nao se explica... nem se comprova... apenas se sente!!!!!

larissa lins disse...

vc é ateu!? mas eu te amo assim mesmo!

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

que sem noção!

mas a melhor parte do texto foi a última frase. logo você!? fazer safadeza? impossível.

auhihauihauihauiha bjo!