domingo, 2 de setembro de 2007

Uma lembrança natalina

Por João Paulo da Silva

Minha infância foi repleta de acontecimentos intrigantes, muitos relacionados ao dia 25 de dezembro. Um dos momentos mais mágicos do Natal é sem dúvida nenhuma o ato de montar a árvore. Tudo bem que a minha era pequena, feia e com poucos enfeites, mas o que é que eu podia fazer? Não tinha dinheiro pra comprar uma nova, fui obrigado a me conformar. Mas o bom mesmo era ficar esperando o presente do Papai Noel. Ah! Eu adorava isso. Pendurava minha meia na janela da sala de visitas (na minha casa não tem chaminé) e ia dormir cheio de expectativas. No dia seguinte, eu acordava eufórico. Corria até a janela para ver se havia algum presente. Tsc, tsc, tsc. Que nada! Papai Noel nunca deixou brinquedos em minha meia. Cheguei a pensar que talvez fosse por conta do buraco que nela havia. Tolice! Com certeza não era esse o motivo. O velhinho de barbas longas devia ter uma péssima memória. Mas eu nunca perdi as esperanças de que um dia ele pudesse lembrar de mim.

Foi no Natal de 1991 que ocorreu um dos fatos mais intrigantes de minha infância. Eu dormia um sono tranqüilo e sem sonhos quando fui acordado por um barulho vindo da sala de visitas. Ergui-me rapidamente ao ouvir a janela sendo aberta, alguém estava entrando na casa. Meu coração começou a bater descompassadamente, minha respiração tornou-se ofegante. Era ele! Só podia ser ele! Finalmente Papai Noel havia lembrado de mim! Corri apressadamente para a porta, pensei em ir até a sala. Pus a mão na maçaneta, mas estanquei. Não podia ir. Lembrei que as crianças não deviam ver o velhinho pôr os presentes. Era um ritual, fazia parte do encanto natalino. Voltei para a cama e tentei dormir novamente. Não consegui. Era difícil conter a emoção, comecei a sentir uma pressão no estômago e a garganta seca. Fiquei a noite inteira ouvindo os ruídos que o Papai Noel fazia em minha sala de visitas. Móveis arrastando e pesadas botas contra o chão.

Ao amanhecer, corri até a sala de visitas. Fui tomado por uma desconfiança intrigante. Olhei ao meu redor e senti falta da televisão, do rádio, de algumas cadeiras, da mesinha de centro e de minha meia. Perguntei-me o que teria acontecido durante a madrugada. Estivera mesmo o Papai Noel em minha casa? Claro que sim! Eu o ouvi chegar! Foi aí então que uma idéia me atravessou a cabeça. Eu não queria acreditar. Mas não havia outra explicação, pelo menos para mim. Conclui que o Bom Velhinho devia ser um sujeito bem mais pobre do que eu. Pra ter levado até a minha meia, com certeza o pobre Noel se achava em maus lençóis (se é que tinha lençóis!). Esse Natal marcou para sempre minha infância.

Os anos foram passando, eu cresci e acabei descobrindo que essa história de Papai Noel é uma tremenda invenção, lenda mesmo. Aqui em casa, o único que ainda acredita é meu pai. Todas as vezes que chega o Natal, ele acomoda-se diante da janela da sala de visitas, numa das últimas cadeiras que nos restou. Espera com os olhos sempre muito abertos, dificilmente pisca. Minha mãe já pediu pra ele desistir dessa história, já falou que é loucura, mas meu pai não dá ouvidos. Com sua velha espingarda calibre doze apontada na direção da janela, ele aguarda ansiosamente a volta do Bom Velhinho.

4 comentários:

Vivendo e Aprendendo disse...

huahuahuah
dexe dessa vey, rezenha!!
uahuah
tah massa mesmo

falcon disse...

huehuehueh
massa joão...
muito legal mesmo...
:)
isso me lembra Garotos Podres....

Paula Felix disse...

Genial esse texto. O João conseguiu mesclar muito bem o imaginário infantil e a realidade social do nosso país!

Fantástico, cara!!!

Danilo disse...

PO professor massa mermo esse blog!!!
gostei!!
flw!

Do carai...rsrsrsrsrs

massa mermo cara