domingo, 4 de novembro de 2007

Um péssimo dia

Por João Paulo da Silva

Há dias em que as pessoas se encontram com os nervos à flor da pele. Como não sou tão diferente dos outros, também tenho os meus dias de mau humor. Era uma segunda-feira escaldante. O sol devia ter acordado com muita vontade de trabalhar. Resolvi sair mais cedo do escritório, um pouco antes da hora do almoço pra ser exato. Eu estava indignado por não ter conseguido fechar um grande negócio. Acabara de perder a chance de tirar a barriga da miséria. Acho que nunca mais irei ver tanto dinheiro em minha vida. Sentia-me sufocado, precisava de ar. A cabeça me pesava estranhamente, parecia haver um bloco de concreto dentro dela. Tudo o que eu queria era chegar o mais rápido possível em casa. Jamais havia me sentido tão mal.

Quando cheguei ao ponto de ônibus, meu desespero aumentou. O ponto parecia um formigueiro e não havia um só lugar onde eu pudesse me proteger da fúria do sol. O calor me consumia as idéias. Eu suava feito um porco. Tive a impressão de que meus miolos iriam fritar ali mesmo.
O tempo passava e eu sentia minha paciência se esgotando junto a cada gota de suor que brotava de minha epiderme. A agonia que eu estava sentindo se materializou na forma de uma coceira nervosa. Foi aí que uma súbita alegria me invadiu, pois um ônibus se aproximava ao longe. Fui ao encontro do veículo e quase que a multidão alvoroçada me pisoteou. Concluí que muitos deveriam estar na mesma situação que eu. Tive algumas dificuldades para entrar no coletivo por conta do empurra-empurra. Porém, com muito esforço, consegui.

O ônibus já estava relativamente cheio e para minha infeliz surpresa não havia mais assentos vagos. Resignei-me a aceitar a idéia de ter que fazer a viagem em pé. Mas o pior ainda estava por acontecer. Começaram a subir os mais variados tipos humanos que se possa imaginar. Em questão de minutos a “lata de sardinhas” estava lotada. Pessoas se dependuravam do lado de fora. Ouviam-se alguns gritos:
- Cabe mais não, “motô”!
- Vambora, motorista!
Havia ainda uma oscilação de odores. Ora sentia-se um forte cheiro de suor, ora o ar se tornava pestilento e azedo por conta de uma criança que, enjoada, vomitara. Finalmente o ônibus se pôs em movimento. Decerto que aquilo não era um ônibus. Mais parecia uma sucursal do inferno motorizada. Posso afirmar sem exageros que eu me encontrava numa situação bastante apertada. Uma senhora de seios avantajados, baixa e com um ventre protuberante se acomodou atrás de mim. Seu corpo grande empurrava o meu, de modo que minhas partes íntimas eram dolorosamente comprimidas contra a lateral de um dos assentos. Do meu lado esquerdo, estava postado um enorme homem branco. Tinha os braços erguidos e suas axilas suadas encostavam-se ao meu rosto a cada “brecada” violenta que o veículo dava. Pude concluir que se eu ficasse por muito tempo naquela situação meu corpo não sobreviveria a tantos ataques externos. Minha capacidade de raciocínio estava lenta, quase estagnada. Tive um leve desfalecimento quando lembrei que o trajeto até a minha casa duraria aproximadamente uma hora. Insultei mentalmente os donos de empresas de transportes coletivos. Desejei-lhes as piores moléstias do mundo. A culpa por esses transtornos era, sem dúvida, pertencente a eles.

A condução seguiu seu caminho e gradativamente as pessoas foram descendo. O “recinto” começava a esvaziar. Fui tomado por um alívio sagaz quando avistei um assento vago. Dirigi-me até ele e me sentei. Abri a janela e senti o ar circulando com facilidade pelos pulmões. Minhas articulações estavam voltando ao normal. Tentei relaxar, pois ainda havia muita estrada pela frente. Presumi que o pesadelo chegara ao fim. Eu estava enganado.

O ônibus fez uma parada para apanhar alguns passageiros. Foi quando vi subir uma figura de feições magras, um tanto cadavéricas. Vestia um feio e amarrotado terno preto. A roupa era desproporcional ao corpo, as medidas estavam completamente desalinhadas. Trazia uma Bíblia embaixo do braço. Devia ser um daqueles evangélicos fervorosos. Havia um lugar vago ao meu lado. Desejei profundamente que não sentasse nele.

Eu devia estar num péssimo dia, pois o homem sentou-se justamente ao meu lado. Convenci-me de que se o cidadão tentasse de qualquer forma me persuadir eu o trataria com sarcasmo. Foi o que fiz. Não demorou muito para que o pulha fizesse sua primeira investida:
- Bom-dia, irmão. – disse ele.
- Bom-dia. – respondi sem entusiasmo.
Fez-se um silêncio momentâneo. O magricela desalinhado abriu sua Bíblia e retirou de dentro um papel. Era um desses folhetos que são distribuídos nas portas das igrejas. Trazia a imagem de como seria o paraíso. Tinha árvores cheias de frutos, uma cachoeira de água cristalina, animais livres e pessoas sorridentes. Entregou-me o papel e disse:
- Acredita num lugar assim, irmão?
Olhei incrédulo para ele e repliquei:
- Ora, é claro que não.
- Por quê? – indagou ele.
- Pelo simples fato de achar isto aqui um absurdo. – apontei para a figura, impressa no papel, de um homem que acariciava a cabeça de um leão como se o bicho fosse o inofensivo gatinho.
- Mas será assim mesmo! Não tenha dúvida. – insistiu. – Tudo será belo e maravilhoso.
Eu já estava ficando impaciente e percebi que era hora de agir sarcasticamente. Fiz minha ofensiva:
- Tudo bem, digamos que o paraíso seja realmente assim. O que farei eu lá?
- Você estará perto de Deus! – disse-me ele com os olhos arregalados.
- Haverá jogos de futebol? – indaguei ironicamente.
- Não.
- Cinema ou televisão?
- Não.
- Festas?
- Também não.
- E cerveja?
- Muito menos.
- Então eu prefiro ficar aqui mesmo. – finalizei.
- Mas você não pode se apegar às coisas mundanas. – disse o pulha.
- Posso sim! E você não se intrometa nisso. Vá cuidar da sua vida! – eu estava prestes a me irritar.
Houve um hiato na conversa. Cheguei a pensar que o falastrão tivesse desistido. Tolo engano. Creio que minhas ofensivas irônicas não estavam surtindo efeito. O magricela falou novamente:
- Você conhece Jeová?
Pensei comigo mesmo que se aquela situação prosseguisse eu não me responsabilizaria por meus atos. O sujeito parecia ser imbatível. Eu pensei em apelar para a ignorância, mas achei melhor usar mais uma tentativa irônica. O indivíduo repetiu a pergunta:
- Você conhece Jeová?
- Quem é esse? Tá no ônibus?
- Ele é Deus e está em todos os lugares. – falou com uma aparente ingenuidade.
- Como assim? Que história é essa de estar em todos os lugares? Quer dizer que ele pode ver tudo o que faço? – perguntei com curiosidade fingida e com um sorriso que me escapava pelos cantos da boca.
- Claro que pode.
- Ele pode ver quando vou ao banheiro?
- Pode.
- Quando vou tomar banho?
- Pode.
- E quando estou fazendo sexo?
- Também. Ele é onipresente.
- Nada disso! Isso é invasão de privacidade. Isso é crime! Eu posso processá-lo. – desferi meu último golpe de ironia.
O mal-arranjado me olhou nos olhos com uma expressão estranha e disse com mansidão:
- Mesmo que você não leve a sério as coisas Divinas, Deus tem um projeto pra sua vida. Ele te ama.
Numa tentativa desesperada, retruquei com total impaciência:
- Moço, eu sou ateu!
- Não importa. Ele te ama mesmo assim.
Foi a gota d’água. Não havia mais saída. O sujeito era definitivamente implacável. Minha paciência se esgotara por completo e o inevitável aconteceu. Nunca fui tão ignorante em toda minha vida.
- Pare, por favor! Eu não agüento mais! Você passou boa parte da viagem me enchendo o saco! Tudo que eu queria era chegar em paz na minha casa.
- Mas a paz está em Deus.
- Chega! Cale essa boca! – fiz um sinal para o motorista de que iria descer.
O homem estava boquiaberto. Os passageiros me olhavam assustados. Desci apressadamente. O ônibus arrancou e aos poucos foi sumindo na estrada. Completei os quilômetros restantes a pé. Cheguei em casa fisicamente exausto, mas meu cansaço não era maior do que a felicidade que eu sentia por finalmente ter chegado. Foi indiscutivelmente um péssimo dia.
Bom, é evidente que tive outros dias ruins, porém nunca mais apanhei um ônibus tão cheio como aquele. Quanto ao pulha, jamais voltei a vê-lo. “Graças a Deus”.

4 comentários:

jéssica disse...

frequentadora assídua, cá estou eu.
texto legal.. só tem um ar de preconceituoso com os evangélicos.. eu não sou a maior fã deles não, mas generalizar não eh legal.. mas fora isso o texto tá muito bom como sempre.. Quase um Veríssimo :)

Daniella disse...

hihaoihaoiahoiahoiahoiahaoi
me poquei de rir!
bom, joão! mto bom!

;D

Sil Leite disse...

Acho que este ônibus fazia a linha Eustáquio Gomes - Ponta Verde.

Ali sim está o inferno!


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;*



(leetraz.blogspot.com)

Lari disse...

mas nem sempre as viagens de ônibus trazem momentos tão traumáticos...