segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Feliz ano novo!

Por João Paulo da Silva

Na beira do mar, o Roberval segurava sua tacinha de plástico cheia de vinho espumante barato. Vestido de branco, assim como centenas de tantas outras pessoas, ele aguardava eufórico a queima de fogos e a chegada do ano novo. No peito, aquele velho e conhecido pensamento: “Porra, o próximo ano tem que ser melhor, né?! Esse foi de lascar.”. E o Roberval tinha razão. O ano não fora nada bom. Repleto de tragédias individuais e coletivas, muitas das quais ele mesmo começou a recordar naquele momento, enquanto esperava o início da contagem regressiva.

Desgraças tomam conta do Haiti. Terremoto, furacão, cólera. Tudo agravado pelo papelão das tropas militares da ONU no país. Vazamento de óleo inunda Golfo do México. Vulcões enfurecidos cospem fogo e cinzas na Europa. Geleiras derretem cada vez mais e aquecimento global aumenta. Crise econômica retorna, com a fatura sendo depositada na conta dos mais pobres. Mineiros são soterrados no Chile. Rio de Janeiro patina entre os tiros do Bope e dos traficantes. Enchentes se espalham por São Paulo, Alagoas e Pernambuco. Violências aterrorizantes são cometidas contra mulheres, indo do Irã aos gramados brasileiros. Na Avenida Paulista, quem desfila é a homofobia. Capitão Nascimento chega ao posto de herói nacional. Dilma é eleita presidente para dar continuidade ao passado, junto com Tiririca e Maluf. Lula atinge 87% de popularidade pagando R$ 130 para miseráveis. Serra sofre atentado terrorista com bolinha de papel. Parlamentares aumentam os próprios salários para R$ 26 mil. Morre José Saramago, e o Paulo Coelho nem gripe pega. Brasil deixa escapar o hexa numa das piores Copas do Mundo da história (se não fosse a Larissa Riquelme, tudo estaria perdido).


O Roberval só foi tirado de sua rápida e trágica retrospectiva por causa da queima dos fogos de artifício e de um sujeito que o cutucava insistentemente.


- Opa, companheiro! Feliz ano novo pra você! – adiantou-se o Roberval para o desconhecido.
- Feliz ano novo é o cacete, cumpade! Passa logo pra cá a carteira, o relógio, o celular e essas pulseiras de bacana aí! – disse o sujeito com um canivete encostado na barriga do Roberval.
- Mas calma aí, colega. Também não é assim, né?! Poxa, é ano novo. O que é isso, companheiro?! – ainda tentou argumentar o Roberval, enquanto entregava os pertences.
- Isso é assalto, mano! Nunca viu, não? Nesse país todo mundo rouba. Por que ladrão não pode roubar?! Se ligou na ideia? Pois é. Agora me dá um gole desse champanhe aí também. Perdeu, prayboy. Feliz ano novo!


“É. Vai ser um ano daqueles.”, pensou o Roberval, vendo o sujeito se afastar e os últimos fogos de artifício estourarem.

2 comentários:

Rosa Kahlo disse...

ooooow, por que fizeram isso com o pobre Roberval?! premiado lg no início do ano...

Roberval Paulo disse...

Valeu João, tô seguindo seu blog por algumas razões 1º- por me chamar Roberval; 2º- Por ser neto de um João Paulo da Silva, de outros tempos é claro e que já fez a inevitável viagem; 3º- por ser um amante da escrita e da leitura. E por 4º e último, por ser originado do Nordeste, de São José de Piranhas no sertão da Paraíba. De mais, saudações nordestinas e parabéns pelo trabalho. Roberval Paulo