segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Rei, o Príncipe e o Bobo

Por João Paulo da Silva

Não há nada de tão surpreendente na atual crise política do país. São novos escândalos, mas velhas maracutaias. Talvez com uma diferença: agora os bate-bocas estão cada vez melhores e mais emocionantes. Intrigas, revelações sórdidas, mentiras, traições. Assistimos pelos noticiários a um verdadeiro reality show. O único problema é que a gente não pode eliminar ninguém pelo telefone.

As recentes cenas de xingamentos envolvendo alguns senadores, como Renan Calheiros, Tasso Jereissati, Pedro Simon, e Fernando Collor, são expressões da existência de uma crise do cobertor curto na política nacional. Se cobre a cabeça, descobre os pés. Se cobre os pés, descobre a cabeça. Não há como esconder a sujeira.

A desgraça, porém, é que neste tipo de regime a corrupção é irmã da impunidade. Quer dizer, continua valendo o nepotismo. Tudo em família. No Brasil, a Justiça não faz o menor esforço para disfarçar sua cumplicidade. Ninguém é processado, representações são arquivadas e quanto maior é o número de provas, menor é a chance de se provar alguma coisa.

Atualmente o símbolo das maracutais é José Sarney, um verdadeiro obelisco da corrupção nacional e um estandarte do conservadorismo. Tão antigo no cenário político que até poderia ser chamado de “Corruptossauro Rex”. O sujeito esteve, literalmente, em todas. Foi da Arena durante a ditadura, passou pela redemocratização, foi presidente da república, senador e presidente do Senado. Sua bandeira sempre foi a da conveniência. Sarney é tão imoral quanto o próprio bigode.
A crise do Senado é a paisagem de um jogo palaciano. De olho nas eleições de 2010, Lula não quer ver José Sarney fora do troninho, pois precisa do apoio do PMDB. O PSDB e o DEM fazem uma pequena algazarra para desgastar o governo, mas não querem a cabeça de ninguém para também não perderem as suas. Enfim, o imbróglio segue sem uma definição, ao melhor estilo “deixa como tá pra ver como é que fica”.

Em 2000, após uma vitória do Vasco, Romário soltou uma de suas frases antológicas, referindo-se a Eurico Miranda, a ele próprio e ao desafeto Edmundo. “Agora a corte está completa. O rei, o príncipe e o bobo”. No Brasil também existe uma corte sendo montada, na qual Lula é o rei e Sarney é o príncipe. E, neste momento, os dois estão prestes a escolher o bobo.
Hora de fazer alguma coisa para que não sejamos nós.

domingo, 2 de agosto de 2009

O imortal?

Por João Paulo da Silva

Nos últimos tempos, um mistério aterrador vem me intrigando. A magnitude do problema se equipara, quiçá, ao enigma da derrota do Brasil na Copa de 1950. E os acontecimentos do final de julho passado só serviram para agravar ainda mais a minha perplexidade. Provavelmente, serei mal interpretado. Talvez as pessoas me chamem de insensível, de agourento, ou de qualquer outra coisa semelhante. Mas estou disposto a enfrentar as críticas. Afinal, estamos diante de um caso que foge aos padrões da normalidade.

Neste momento, o mistério brasileiro ocupa o cargo de vice-presidente desta jovem república das bananas. Os muito compassivos que me perdoem, mas por que cargas d’água José Alencar não morre?! Por favor, compreendam, não estou aqui desejando a morte do vice-presidente (pelo menos não diretamente), mas gostaria de entender o que mantém vivo um homem que há anos anda com o pé na cova.

Teria ele feito um pacto com algum tipo de força oculta? Ou, quem sabe, descoberto um poderosíssimo emplastro para as moléstias humanas?! Estaria certa a máxima popular que diz que vaso ruim não quebra? Ou, ainda mais espantoso, seria ele um Highlander?! Bom, seja como for, é impressionante. Em 12 anos de tratamentos contra o câncer, José Alencar já passou por 15 cirurgias difíceis, retirou dúzias de tumores, e nada. Nada de matar o câncer e nada de morrer.

Convenhamos, não é um mistério qualquer. Embora eu não esteja cruzando os dedos para ver o vice-presidente esticar as canelas (isso não é coisa que se diga publicamente), confesso que não alimento nenhum tipo sentimento nobre por tudo o que ele representa. José Alencar é dono de um dos maiores impérios da indústria têxtil desse país, a Coteminas. Além de atuar no mercado interno, a empresa exporta para os EUA, Europa e Mercosul. E em cada um desses produtos vai a marca da exploração de milhares de trabalhadores.

Antes de se tornar vice-presidente no governo do PT – uma das maiores provas de que Lula não governa para os trabalhadores – Alencar foi senador, um daqueles que costumam embrulhar o estômago da gente. Acusava o MST de cometer crimes e declarava que “a homossexualidade é uma forma de violência contra a natureza humana”. Resumindo: José Alencar é a representação mais fiel de nossa burguesia reacionária.

Toda essa sua resistência ao destino irremediável dos homens deve ter uma explicação lógica, suponho. Entretanto, eu tenho um palpite. O vice-presidente não é só um homem, nem apenas um representante dos exploradores do povo. Alencar é, também, uma metáfora sócio-política, uma alegoria para a luta de classes no Brasil.

A Velhinha de Taubaté, personagem criado pelo escritor Luís Fernando Veríssimo, era a representação do último fio de confiança do povo nos governos. Caso ela deixasse de acreditar, o “caos” se instalaria e, provavelmente, a vaca dos governantes iria para o brejo. Tenho a impressão de que algo semelhante acontece com a saúde de José Alencar.

A morte do empresário soaria como as trombetas do apocalipse para a burguesia brasileira, seria uma espécie de aviso sobre a inevitável hecatombe do capitalismo. José Alencar é um símbolo da classe dominante, e os símbolos não podem morrer. Deve ser por isso que a grande mídia e o empresariado torcem tanto para que o vice-presidente sempre se recupere.

Bom, mas eu não tenho certeza disso. Por enquanto é só um palpite. A verdade é que o mistério ainda persiste.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Ter ou não ter diploma? Eis a questão!

Por João Paulo da Silva

Vou entrar na polêmica. E não é apenas porque diz respeito a minha profissão. Escrevo porque o assunto tem mais relevância do que aparenta. Estou opinando com um pouco de atraso, é verdade. Mas ainda em tempo de pegar os patrões e o STF pelo pescoço e dizer umas verdades.

A discussão da obrigatoriedade do diploma não é recente, já tem um tempo. Entretanto, ganhou um importante destaque nos últimos anos, fazendo muita gente opinar sobre o assunto. Do meu canto, eu acompanhava todo tipo de argumento utilizado para defender o fim da obrigatoriedade.

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 17 de junho deste ano, motivada por uma ação protocolada pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo, veio coroar uma verdadeira rasteira nos trabalhadores da área.

O ponto chave da resolução é que agora as empresas têm o caminho livre para fazer o que quiserem. Isto significa, necessariamente, demitir e rebaixar salários sem ter que dar satisfações a ninguém, nem mesmo aos sindicatos. Tudo o que os patrões sempre desejaram. E, coincidentemente, o ataque ocorre durante a maior crise econômica desde 1929. Intrigante, não?

Para esconder os reais motivos da determinação e legitimar a trapaça, as empresas, o STF e uma porção de jornalistas picaretas inventaram todo tipo de argumento fajuto. O espertalhão do Gilmar Mendes, por exemplo, afirmou, assim como tantos outros, que a exigência do diploma era um obstáculo à liberdade de expressão. Eis aqui um aspecto curioso.

Aqueles que dizem que o diploma fere a liberdade de expressão deveriam, então, em primeiro lugar, enfrentar o capitalismo. Este, sim, impede os indivíduos de expressarem suas ideias em qualquer lugar. É preciso ser muito mau-caráter para afirmar que os jornalistas podem escrever o que bem entendem nos jornais.

O Cláudio Abramo tem uma frase interessante: “A liberdade de imprensa é a liberdade do dono do jornal”. É verdade. Não é a exigência do diploma que impossibilita alguém de escrever e expressar suas opiniões, e sim os interesses econômicos. É aquela velha história: negócios são negócios. Até há espaços nos jornais dedicados a pessoas que não são jornalistas, onde é possível escrever sobre o assunto de sua preferência. Desde que não fira os... bem, você sabe.

Pegando carona nos devaneios do Gilmar Mendes, o ministro Cezar Peluso alegou que o diploma em jornalismo não garante a eliminação do mau exercício da profissão, da deficiência de caráter e da falta de ética. Na hora pensei que ele estivesse brincando. Mas acho que alguém deveria ter perguntado ao ministro qual o curso que assegura toda essa moralidade no trabalho. Não conheço nenhum.

Me impressionou, também, o argumento de que nos EUA, na Alemanha e na França o diploma não é obrigatório. Sobre este ponto, direi apenas o que mamãe dizia quando queria me ensinar a pensar por minha própria cabeça. “Se alguém mandar você comer cocô, você vai comer, infeliz?!”.

Outra questão do debate, que cheguei a ouvir e ler em alguns lugares, é a seguinte: já que as escolas de jornalismo são ruins e não formam um profissional qualificado, então por que cargas d’água é preciso um diploma? Não há nenhum problema em discutir o nível dos cursos que formam um sem-número de jornalistas todos os anos. Mas este não é o X da questão. A culpa não é do diploma. No caso das universidades públicas, é do governo. Já nas privadas a culpa é do dono, que fez da educação um negócio.

Entretanto, talvez nada seja tão irritante quanto a ladainha que insiste em reduzir o jornalismo a um punhado de técnicas e a um amplo conhecimento geral. Basta escrever bem e ler bastante para ser um excelente jornalista. Isso, sim, é de um reducionismo vergonhoso. Golpe baixo.

Não tenho dúvidas de que o desenvolvimento dos meios técnicos, das forças produtivas e o aumento da complexidade social exigem do jornalista uma capacitação de nível superior. Assim como outras áreas do conhecimento humano, o jornalismo não é estático e necessita de um tratamento científico em sua elaboração. Ninguém vai à universidade só para aprender técnicas. Quem já foi a uma sabe do que estou falando.

Enfim, não há nada capaz de justificar a sentença do STF. A não ser, claro, os interesses escusos. A questão, aqui, não é de fetiche com o diploma, muito menos da vontade de colocá-lo numa moldura na parede. Trata-se “apenas” da defesa de uma categoria de trabalhadores e da sua qualidade de formação.

domingo, 12 de julho de 2009

Notas curiosas sobre o Rio Grande do Norte

Por João Paulo da Silva

Há quase um mês desembarquei em Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte, localizada no nordeste brasileiro. Em pouco tempo de residência nestas terras, já pude observar atentamente alguns lugares da região, travar contato com os nativos, conhecer determinados hábitos e registrar suas mais costumeiras expressões idiomáticas. Nos próximos parágrafos, você vai conferir as primeiras de muitas outras curiosidades que eu encontrei em solo potiguar. Todas as observações presentes neste texto foram colhidas através de uma intensa e criteriosa investigação jornalística. Juro pelos últimos fios de cabelo que me restam.

Assim que pus os pés fora do ônibus, notei de imediato uma das características marcantes do lugar: o calor. Só para se ter uma ideia, durante todo o ano passado, o sol rachou o coco dos potiguares por cerca de 300 dias. Em Natal, faz calor até na sombra. Aqui chove pouco, mas quando chove tem-se a impressão de que todas as nuvens do Brasil se deslocaram para o estado.

Passeando pela capital, de ônibus ou em carro de amigos, percebi também que a cidade parece mais uma montanha russa, cheia de altos e baixos. Me explicaram que as ruas são desse jeito porque Natal foi construída sobre enormes dunas. Há, inclusive, uma ladeira onde a subida é tão íngreme que, combinada com uma rápida descida, causa um ligeiro friozinho na barriga. Os nativos até apelidaram o trecho de “gozo de padre”, em razão do susto que provoca. Confesso que demorei a entender a ligação.

Antes de sair de Alagoas, algumas pessoas chegaram a me advertir sobre o alto custo de vida em Natal. Aluguel, comida, lazer, tudo é muito caro. Pude comprovar o que digo agora quando comprei uma Coca-Cola de 2 litros numa pequena mercearia, próxima da casa onde moro. A moça do caixa me informou que o refrigerante custava cinco reais, o que me obrigou a explicar que não estava interessado em comprar ações da empresa. Queria apenas uma garrafa do produto. Mas, para meu desespero, ela realmente estava falando do refrigerante. De fato, é preciso andar armado em Natal, pois em cada supermercado há um assalto acontecendo.

Para muitos estudiosos, a Língua é considerada um patrimônio cultural capaz de revelar traços importantes do comportamento de todo um povo. Isso não significa que, entre uma população de mesmo idioma, não possam existir variações regionais que demonstrem características particulares de alguns agrupamentos humanos. Nesse aspecto, o potiguar se apresenta como um espécime interessantíssimo. Vejamos algumas expressões muito utilizadas.

1. Pastorar: é o mesmo que vigiar alguém ou alguma coisa. Ex.: Fulano, vá pastorar aqueles alunos. Isso demonstra, talvez, que os potiguares sejam seres de características bovinas.

2. Pastorar prego: numa tradução literal, significa vigiar prego. Mas, na verdade, é o mesmo que ficar sem fazer nada. Ex.: Poxa, você não quer fazer nada. Fica só aí pastorando prego. Outro aspecto relevante da personalidade dos nativos é o talento para fazer associações sem o menor sentido.

3. Ruma: quer dizer pilha ou montão, expressão normalmente usada para indicar alguma coisa em grande quantidade. Ex.: Menino, corre que ali tá vindo uma ruma de gente pra te pegar. Para o homem potiguar, as rumas já possuem status de unidade de medida.

4. Homi: o mesmo que homem, só que em nordestês. Não é nenhuma novidade para nós, mas possui um diferencial no uso potiguar: a repetição excessiva do termo. De cada dez palavras ditas por um nativo, cinco são “homi”. Fala-se “homi” até para mulheres.

5. Ficar só o bocal: significa ficar muito cansado. Ex.: Querida, hoje eu tô só o bocal. Esta é uma expressão bastante comum por aqui. E eu nem preciso dizer o que é exatamente o bocal.
Ao que parece, o dialeto potiguar é bastante criativo e ainda deve reservar muitas outras estranhas descobertas linguísticas. Entretanto, nada foi mais esquisito do que uma placa que vi na cidade de Goianinha, Litoral Sul do Rio Grande do Norte, a 61 quilômetros de Natal.

Passando de carro pela estrada, avistei um letreiro com os seguintes dizeres: Hippie Motel Aqui. Seria algo muito normal, não fosse pelo fato de o motel ser apenas um grande banco de areia cercado por várias moitinhas. E um detalhe importante: não havia nada ao redor que se parecesse com um motel convencional. Nada de paredes, quartos ou entrada e saída de carros.

Aí fiquei pensando no tipo de serviço oferecido pelo estabelecimento. Como seria o merchandising? “Venha conhecer as instalações do seu Hippie Motel. Temos moitas discretíssimas, climatizadas e aromatizadas com um toque especial de esterco de bode. Hippie Motel. Prazer ao natural.”.

É claro que ainda pretendo estudar mais profundamente o comportamento dos habitantes dessa terra. Mas já posso concluir que uma parte dos potiguares possui hábitos sexuais muito primitivos, o que me deixou bastante impressionado. São seres realmente fascinantes. Acho que vou ficar por aqui.