domingo, 29 de julho de 2012

A verdadeira história de Chapeuzinho Vermelho

Por João Paulo da Silva

Machista declarado, talvez até incorrigível, o Gilmar é o tipo de sujeito que não perde a chance de soltar uma piadinha infame. Pode perder tudo. Os amigos, a namorada, a vergonha na cara, o respeito. Só não perde a piada. Por pior que seja. E parece que a situação ficou ainda mais absurda depois que o Gilmar descobriu um livro que conta as autênticas origens dos contos de fadas. Falando assim, ninguém acredita. Mas, segundo o Gilmar, as histórias da carochinha são, na verdade, tramas fantásticas que envolvem traição, sexo e violência.

Na semana passada, para minha surpresa, recebi por e-mail um texto no qual o Gilmar “revela” a verdadeira e cabeludíssima história de Chapeuzinho Vermelho. Se você tem menos de 18 anos, desligue o computador, tome seu leitinho e vá dormir. Abaixo, transcrevo o texto na íntegra. Mas cuidado! O Gilmar não tem escrúpulos.

“Quero esclarecer, antes de qualquer coisa, que a única personagem dessa história que realmente é dona de um caráter honrado é o Lobo, pois do começo até o final ele diz que vai comer a vovozinha, que é mau e pronto! Não nega em momento algum sua natureza.

Como todos sabem, Chapeuzinho Vermelho morava numa bela casa com sua mãe, mas o que a história não conta é que seu pai era caixeiro-viajante e, dificilmente, parava em casa. Certa feita, com o marido viajando, a mãe de Chapeuzinho aproximou-se tensa da filha e, tropeçando nas palavras, disse:
- Chapeuzinho, por que não vai levar uns docinhos para a vovozinha?
- Outra vez, mamãe?! Não faz nem dois dias que eu fui lá.
- Ora essa, menina! Vai me desobedecer? E depois não custa nada você ir novamente.
- Tá, tudo bem. Eu vou. Mas não sei qual o motivo de querer que eu a visite tantas vezes.
- Não é nada demais. – disse a mãe, ainda mais nervosa – E não demore nem mais um minuto aqui. Vá indo, vá!

Por que a mãe de Chapeuzinho tinha tanto interesse que a filha fosse ver a avó? Por que gostava muito da velha? Por que não queria ser enquadrada por maus tratos no estatuto do idoso? Errado! Então, por quê? Muito simples. Naturalmente, porque queria ficar sozinha em casa, estava esperando alguém. E quem era esse alguém? Provavelmente o amante, o pé-de-pano, com quem ela traía o pobre do marido. Se estivesse realmente interessada no bem estar da velha, teria ela mesma levado os docinhos.

Quando Chapeuzinho já estava de saída, sua mãe gritou do quarto:
- E não se esqueça! Vá pelo bosque. É o caminho mais longo, mas é o mais seguro. Se for pela floresta, você pode ser apanhada pelo Lobo Mau.

Agora você deve estar imaginando que a mãe de Chapeuzinho estava preocupada com a segurança da filha, não é? Errado de novo. Ela queria mesmo é que a filha demorasse bastante para voltar. Só assim teria tempo de sobra para aproveitar com o amante.

Mas enganam-se aqueles que pensam que só a mãe era quem tinha desvios de comportamento. Chapeuzinho não ficava nem um pouco atrás. Ela não era nenhuma criança, como contam as outras versões. Chapeuzinho já era uma adolescente, estava na puberdade. Hormônios a todo vapor, pelinhos nascendo, aquele calorzinho entre as pernas e por aí vai. Estava mesmo era descobrindo o sexo, e também tinha lá seus fetiches. Chapeuzinho não desobedeceu sua mãe e foi pela floresta porque era preguiçosa não! Foi porque queria realmente ser pega pelo Lobo. Achava o perigo excitante. Aquela mata selvagem e aquele sujeito peludo habitavam os seus sonhos mais eróticos.

Ela saltitava excitadíssima pela floresta quando de repente apareceu em sua frente o Lobo Mau.
- Para onde vai, garotinha? – quis saber o Lobo.
- Vou levar uns docinhos para minha vovozinha, seu Lobo. – respondeu Chapeuzinho com voz dengosa.

Bom, essa parte da história você conhece. O Lobo arquiteta um plano, chega primeiro na casa da vovozinha, come a velha e espera Chapeuzinho na cama, já fantasiado. Batem na porta. Toc, toc. Vem a voz de dentro da casa:
- Quem é?
- Sou eu, vovó. Sua netinha.
- Entre.

Já diante do Lobo, Chapeuzinho fala:
- Te trouxe uns docinhos.
- Tire a roupa! – diz o Lobo.
- Como?
- Isso mesmo! Não perca tempo, tire logo a roupa!
- Mas e as preliminares?
- Sem essa de preliminares, o caçador vem aí. Vamos!
- Assim eu não quero.
- Você não tem o que querer. Vamos logo!
- Nossa! Que boca grande!
- É pra te comer!
- Vem, Malvadão.

E Chapeuzinho foi comida.

Depois de ter comido a vovó e a Chapeuzinho Vermelho, o Lobo Mau foi fazer a sesta, tirar o sono dos justos. Enquanto roncava alto, alguém começava a se aproximar. Era o caçador. Atrasado, como de costume. Agora por que é que ele chegou atrasado? Por que perdera a hora? Por que ainda fora passar seu uniforme de caçador? Ou por que devia estar na casa da mãe de uma certa menina de capuz vermelho? Isso mesmo, caro leitor. Ele era o amante!

Aproximou-se na ponta dos pés, apontou a espingarda e disparou com o Lobo ainda dormindo. Que traição! Canalha! O pobre Lobo morreu como um mártir, um verdadeiro herói. Agora você deve estar imaginando que essa história tem um final feliz, não é? Sinto muito em informar, mas o desfecho é trágico. Uma verdadeira tragédia!

Depois de ter sido retirada da barriga do Lobo, junto com sua avó, Chapeuzinho Vermelho descobre que sua mãe resolveu fugir com o caçador, abandonando tudo que tinha, inclusive o corno. Ia viver uma aventura lá pelas bandas da floresta. Revoltada e desiludida com os seres humanos, Chapeuzinho foge de casa e vai morar com a avó. A avó, por sua vez, abre um bordel, onde Chapeuzinho Vermelho é obrigada a trabalhar como prostituta. Anos mais tarde, é encontrada morta no banheiro com os pulsos cortados. Suicídio! Suicidara-se de desgosto e de saudades do Lobo, o grande amor de sua vida.

Fim.”

Assim que terminei de ler o texto, fiquei chocado. Imediatamente, enviei uma resposta ao Gilmar, dizendo que achava tudo aquilo um tremendo absurdo. Ele estava destruindo a singeleza de uma das mais belas histórias da literatura universal, além – é claro – de estar assumindo uma postura machista.

No dia seguinte, o Gilmar me responde o e-mail:
“Sei que você deve estar assustado e incrédulo com tudo isso, mas é a mais pura verdade. Quer dizer, a mais suja verdade. Não acredita em mim, não é? Pensa que tudo não passa da imaginação fértil de um pervertido qualquer, não é? Está enganado! Se não acredita, então me diga por que é que Branca de Neve tinha que se perder justamente numa floresta e encontrar logo a casa de sete anões? Por que não sete anãs? Hein?! Hein?! Responda!!!”.

É fato. O Gilmar não tem escrúpulos. E depois dessa também não tem mais jeito.

2 comentários:

Dídimo Gusmão disse...

Gostei do texto!
Muito interessante!
Um grande abraço.

http://didimogusmao.blogspot.com.br/

Larissa Ramos disse...

Eu já tinha ouvido falar da verdadeira história de chapeuzinho vermelho. Realmente o Gilmar, dessa vez, não foi tão longe. kkkkkkkkk Parabéns pelo blog! Vou recomendar este blog para o meu colega Marquinhos que contou essa história de chapeuzinho vermelho.

Larissa Ramos - jornalista e funcionária estadual