Ouvir a Dulce contar a própria história é quase como ouvir as Marias, Estelas, Luízas e Marlenes também contarem as suas. Ao longo do tempo, o mundo deixou marcas profundas em todas elas. A diferença, entretanto, é que nem todas as Marias, Estelas, Luízas e Marlenes ocupam o mesmo espaço nas “leis da física social”. A dor das mulheres que trabalham ou estão desempregadas é bem mais aguda do que a das que aparecem nas colunas sociais. A Dulce nunca apareceu em colunas sociais. Casada há dez anos e mãe de cinco filhos, havia trabalhado fora de casa no passado, bem antes do casamento, mas não trabalhava mais. O marido dizia que o trabalho dela era lavar, passar, cozinhar e cuidar das crianças. O dinheiro que ele ganhava não era suficiente para todas as despesas. Quando a Dulce falava sobre isso, ele batia nela. Pensou muitas vezes em ir embora, em voltar para a casa dos pais. Mas estes lhe diziam que ela não podia fazer isso. “Você tem que viver com seu marido, com o pai dos seus filhos. Se entenda com ele”. Ela sabia que precisava sair dali. Mas onde iria morar? Como iria viver? Com medo das privações da vida, a Dulce ia suportando calada a miséria e a desgraça de seus dias.
A situação da família piorava a cada criança que nascia. Mais uma boca para comer significava menos comida na boca de todo mundo. A Dulce amava seus filhos, mas sabia que não poderia criar outros. Uma vizinha, então, falou pra ela de uma pílula que evitava filho. Escondida do marido, a Dulce passou a usar o remédio. Como não tinha dinheiro para comprar, era a vizinha que arrumava os comprimidos. Desconfiado, o marido acabou descobrindo e achou que Dulce andava tomando aquelas pílulas porque tinha outro homem. Nesse dia, ele a espancou e a proibiu de voltar a usar o remédio. Pouco tempo depois, ela estava grávida de novo.
Mas decidiu que não poderia ter aquele filho. Não haveria condições de criá-lo. O melhor era fazer um aborto. “Só em caso de estupro ou risco de morte para a mãe”, disseram. Algumas pessoas chegaram até a condená-la pelo fato de querer interromper a gravidez. “Você não pode fazer isso. É um crime!”. Dulce não entendia. Se o aborto era um crime, que nome eles davam, então, à vida miserável e cheia de privações que ela sempre levou? Por fim, acabou tendo o filho. Mais um.
Quando outra vez foi agredida pelo marido, Dulce, incentivada por uma amiga, resolveu que não suportaria mais viver daquela forma. Disseram a ela que havia uma lei que protegia as mulheres contra a violência doméstica. “Agora o agressor vai pra cadeia.”, contaram. Mas não demorou muito para Dulce perceber que a tal lei não era essa proteção toda que o governo falava. Dependente economicamente do marido, como Dulce iria se sustentar sem emprego? Onde se abrigaria até conseguir uma casa para morar? Com quem deixaria os filhos na hora de sair para arranjar trabalho ou mesmo para ir trabalhar?
A Dulce só não foi morar na rua porque uma amiga a acolheu. Para alimentar as crianças, precisava de dinheiro. Mas não havia emprego para todo mundo. Depois de muito tempo, apareceu um. De faxineira. “Como se as mulheres só soubessem fazer isso”, reclamava Dulce para si mesma. Na empresa, ela fazia o mesmo serviço que o Salvador, mas ganhava menos. O Salvador achava isso errado. “Fazem você de mão-de-obra barata pra lucrar mais. Nesse mundo, dizer que mulher é inferior é um bom negócio pra eles.”.
Outro dia, depois do trabalho, Dulce assistia em casa a uma reportagem na TV sobre o dia Internacional da Mulher, o 8 de março. O repórter falava sobre o espaço que as mulheres conquistaram no mercado de trabalho, a independência, a liberdade e sobre como todas elas eram iguais atualmente. Dulce sabia que o seu mundo e o de tantas outras que viviam como ela não era aquele pintado na TV. A verdade não é a das colunas sociais.
Do seu canto, observando com perplexidade tudo aquilo e pensando na própria vida, Dulce murmurou algo que nem ela mesma ouviu. Mas, lá dentro do peito, ela sentiu o baque de suas palavras como se fossem tambores anunciando uma novidade.


