segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Detalhes

Por João Paulo da Silva

Oportunidades são perdidas, casamentos se desfazem, amizades terminam e amores são abortados antes mesmo de começarem. Tudo isso por causa dos detalhes. Por menores e mais insignificantes que pareçam, os detalhes podem decidir os rumos de nossas vidas. Pense quanta coisa deixou de acontecer porque você simplesmente não deu a devida atenção aos detalhes. Ou, ainda, fatos que poderiam ter sido evitados caso você tivesse percebido o papel decisivo dos detalhes nas relações humanas.

A maioria de nós – muitas vezes de forma inconsciente – está sempre querendo se convencer de que os pormenores da vida não têm lá essa importância toda. A verdade, entretanto, é que os pequenos aspectos de nossa existência acabam realmente ocupando um grande espaço na hora das definições, ainda que muitos não percebam isso. Eu, por exemplo, em várias ocasiões da vida subestimei a força dos detalhes. E foi justamente por esta razão que acabei perdendo alguns dos amores que me apareceram. Detalhe é fogo.

Primeiro foi a Jéssica, quando eu tinha uns 7 ou 8 anos. Loira, cabelos encaracolados, magra, rostinho de anjo, linda. Parecia uma modelo gaúcha. E o melhor: na 2ª série do primário, sentava ao meu lado na escola. Era uma companhia inseparável, fazíamos tudo juntos. Aí foi pintando aquela paixãozinha de infância, de ambas as partes. E eu teria conseguido namorar a Jéssica se ela um dia não tivesse notado uma verruga que eu tinha no indicador da mão direita. Foi o fim. Dali em diante, a Jéssica não podia olhar para a minha verruga que tinha logo ânsias de vômito. Aí mudou tudo. Bastava eu chegar perto para ela gritar: “Sai daqui, João! Não chega perto com essa coisa!”. Maldito detalhe.

Depois veio a Pâmela, aos 11 anos. Também na escola. E também loira e linda. Chegamos até a trocar cartinhas carinhosas e a dividir o lanche no recreio. Parecia coisa séria mesmo. Apostei todas as minhas fichas. Estava convicto. Nada impediria aquela iniciante história de dar certo. No dia em que eu havia decidido pedi-la em namoro, ocorreu a tragédia. Durante o intervalo das aulas, no pátio da escola, em meio a outros colegas, eu e a Pâmela conversávamos. Não lembro exatamente o quê, mas alguém na hora contou um caso que me fez rir bastante. Graças à crise de riso, acabei deixando escapar um sonoro pum. Ficou todo mundo me olhando estranho, principalmente a Pâmela que fez logo uma careta. Pronto. Não deu outra. Estava claro que a relação não se sustentaria diante daquele pum. E não adiantou eu argumentar que tinha sido apenas um punzinho e tal. Um pum era sempre um pum. Perdi a Pâmela e ainda ganhei um apelido, que obviamente não revelarei aqui.

Com a Luana, minha vizinha, tinha tudo para ser diferente. Mesmo porque, aos 12 anos, eu era praticamente um homem. Já tinha até bigode. Bem fininho, é verdade. Mas ainda assim um bigode. E um verdadeiro homem jamais se submeteria a vexames como os que eu tinha passado. Afinal, o momento era outro. A Luana apertava as minhas bochechas, me dava bitoquinhas (selinhos) e dizia que se casaria comigo quando eu crescesse. Mas eu não estava disposto a esperar e sempre respondia prontamente:

- Não é melhor a gente casar primeiro?! Aí você me espera sem perigo nenhum, porque já vamos estar casados mesmo.
Ela sorria e dizia para a minha mãe:
- Uma graça esse seu filho, né?!


Um dia resolvi dar um ultimato naquela história. Arrumei uma bolsa, coloquei umas roupas e fui para a porta da casa da Luana, esperá-la voltar do trabalho. Quando ela chegou à noite e me viu cochilando, ficou toda compadecida. Falei que estava ali pronto para me casar e que não aceitaria um “não” como resposta. Mas aí a Luana veio com uma conversa de que havia um pequeno detalhe que impediria nosso casamento.

- Qual? – eu quis saber.
Ela riu, provavelmente achando graça da postura de homem que eu estava querendo assumir.
- Nossa idade, querido.
- Mas por quê? Só por que você tem 22 anos e eu tenho 12?! Isso é só um detalhe, Luana.

Eu, porém, ainda não compreendia a força decisiva que possuem os detalhes. Só depois o tempo faria o favor de me ensinar. É como me disseram uma vez: “No amor e na guerra, o importante são os detalhes”.

Você duvida? Eu não.
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Obs.: Por motivos de trabalho acumulado, excepcionalmente desta vez o blog As Crônicas do João está fazendo sua postagem na segunda-feira. No próximo domingo, tudo voltará ao normal. A mesma justificativa vale para as duas semanas em que não houve postagem. Abraços.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Dona Ritinha

Por João Paulo da Silva

Dona Ritinha mora em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Vive sozinha em sua casa e deve estar hoje na casa dos oitenta anos. Eu não a conheço pessoalmente, e o pouco que sei me chegou aos ouvidos através de um amigo. Fisicamente, só posso imaginá-la. Provavelmente tem longos cabelos grisalhos, o rosto cortado de rugas e um andar encurvado. Não sei ao certo. Sei apenas que sua única companhia é a presença incômoda da solidão. Acho que dona Ritinha é uma mulher infeliz.

Teve três filhos. Dois meninos e uma menina. De seu marido, não sei nada. Não sei se está vivo, morto ou entrevado. Já dos filhos, sei que os criou com todo o afeto que as mães possuem, mesmo as piores e mais desatentas. O amigo que me falou de dona Ritinha me disse que ela é uma pessoa muito amável e faladeira. Adora contar histórias. Registra tudo que pode em sua memória idosa. É a resistência da tradição das narrativas orais, muito comuns entre os velhos de tempos mais velhos ainda.

Outro dia, o tal amigo me fez conhecer uma história sobre a própria dona Ritinha. Depois de criados, os filhos desta velha senhora se foram. Tomaram seus rumos. Cada qual seguiu seu caminho. Um a um, foram deixando a casa onde cresceram sob os cuidados da mãe. E dona Ritinha os viu partir como se fossem pedaços que se desprendem do corpo com o tempo. Quando deu por si, estava só, cheia de ausência numa casa que parecia dobrar de tamanho com o passar dos anos. É verdade que os filhos mandavam notícias, apareciam de vez quando. Mas não era a mesma coisa.

Um dia, dona Ritinha resolveu pôr a casa para vender, com plaquinha de “vende-se” e tudo na porta. Começaram a aparecer interessados. Gente querendo olhar a casa, saber das condições e do preço. Dona Ritinha mostrava tudo. Falava dos cômodos, das instalações, do encanamento e da excelente fiação elétrica da casa. A velha senhora havia cuidado de seu lar como cuidara dos filhos e passava horas conversando com os possíveis compradores sobre as maravilhas do lugar. Entretanto, o negócio sempre esbarrava no preço.

Dona Ritinha cobrava uma fortuna pela casa. Os anos passavam e ninguém comprava o imóvel, embora quase toda semana aparecessem compradores interessados. Mas o alto valor sempre impediu a venda. Até hoje a plaquinha de “vende-se” continua na fachada da casa. Dia desses, porém, o tal amigo que me contou a história quis saber quanto dona Ritinha pedia pela casa. Ficou abismado.

- Mas também com um preço desses a senhora não vai conseguir vender nunca.
- E quem disse que eu quero vender esta casa, meu filho?
- Então por que diabos a senhora pôs essa placa de “vende-se”?
- Porque, graças a ela, de vez em quando aparecem pessoas para conversar comigo e me fazer companhia, mesmo que por algumas horas.

Sei que não há leis para isso, mas acho que deveria ser proibido ficar sozinho nessa vida.

domingo, 6 de setembro de 2009

O mercado das almas

Por João Paulo da Silva

Eu respeito a fé das pessoas. Penso que cada um pode acreditar no que quiser. Contudo, o mundo está tão à beira do caos que não basta apenas crer para ser salvo. Hoje, mais descaradamente do que nunca, é preciso pagar caro para ir ao “paraíso”. Um investimento sem retorno garantido e que custa os olhos da cara.

Os escândalos envolvendo as falcatruas financeiras do bispo Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus e da Rede Record, me levaram a uma instigante reflexão: a de que Deus, talvez, seja a invenção humana que mais deu (e dá) lucros ao longo da história. Sabe, eu fico até na dúvida. Para fazer dinheiro fácil, é melhor fundar um banco ou uma igreja?

Cotidianamente, nos templos e nas TVs, ocorre uma acirrada disputa de mercado. São diversas facções religiosas concorrendo entre si para ver qual delas engana o maior número de fiéis. As promessas mais absurdas são feitas em troca de exigências financeiras cada vez mais imorais. Em nome de Deus, se pede de tudo: dinheiro, casas, carros, vale transportes e até tickets alimentação. A Igreja Universal, por exemplo, defende uma Teologia da Prosperidade. Prosperidade do bispo Edir Macedo e de seus pastores, claro. Ao que parece, o mercado das almas é tão lucrativo quanto o mercado financeiro.

Entretanto, arrancar dinheiro de bilhões de seres humanos infelizes e desesperados não é privilégio apenas do protestantismo, que encontrou no capitalismo sua verdadeira alma gêmea. A Igreja Católica não deixa nada barato. Durante séculos, a grande senhora da Idade Média condenou a usura. Dos outros, evidentemente. Na época, porém, ela vendia de tudo: desde indulgências até incontáveis ossos do corpo de Cristo, o que me fez chegar à conclusão de que Jesus, por causa do grande número de fêmures, não era um homem, e sim uma centopéia.

Hoje a Igreja Católica vende padres cantores e uma infinidade de quinquilharias da fé. Além, é claro, de possuir um 1/5 de todo o patrimônio imobiliário da Itália, o que fez o Vaticano lucrar 1,47 bilhões de euros com a especulação entre os anos de 2004 e 2005. Para as igrejas, semear ilusões sobre uma vida melhor após a morte não é suficiente. Sem o menor pudor, os profetas oferecem uma esdrúxula modalidade de credo: a “fé pegue e pague”.

Quando eu era garoto, sempre me disseram que Deus morava no céu, nas nuvens ou até mesmo no coração dos homens. Atualmente, sei que isso não é verdade. Ao que tudo indica, Deus vive em Nova Iorque, mais precisamente em Wall Street.

Guerra de TVs

Impossível não comentar a guerra midiática entra a Rede Globo e a Rede Record. Não é somente uma disputa pelo Ibope, é necessariamente um confronto por cifras estratosféricas. Em busca do monopólio, cada uma delas revela as sujas verdades da outra. As emissoras utilizam a concessão pública que receberam para fazerem fortunas, levando, assim, o privado para o público e o público para a privada.

Tão real quanto o desvio das doações dos fiéis para aumentar o patrimônio televisivo de Edir Macedo, é a ligação da Rede Globo com os episódios mais obscuros do poder. Seja no apoio à ditadura militar ou na “mãozinha” dada a Collor em 1989 (para citar alguns exemplos), o grupo da família Marinho sempre cumpriu o papel de enganar os milhões de brasileiros ligados no plim-plim. Ah, e não esqueçamos, por favor, o senhor Silvio Santos, que não foi citado nessa história toda, mas possui um cassino disfarçado de canal de TV.

O conflito Globo X Record não se trata de uma guerra entre mocinhos e bandidos. Não há diferenças entre os barões da comunicação, apenas semelhanças. Aqui, vale tudo para encher o cofre. Na verdade, não há televisão no Brasil. O que existe são grandes caça-níqueis. Nada mais.

domingo, 30 de agosto de 2009

A hora do cartão vermelho

Por João Paulo da Silva

Gostei dessa história do cartão vermelho. Foi uma boa sacada do Suplicy. Eu deveria ter pensado nisso antes. Entretanto, meu cartão vermelho não é apenas para José Sarney. É para todo o Senado. Para o Suplicy, inclusive. Por mim, iriam todos mais cedo para o chuveiro (quer dizer, já iriam tarde). E chuveiro, aqui, é só um eufemismo. Para os senadores, o termo correto é cadeia mesmo.

O arquivamento das acusações contra Sarney já era esperado, assim como o engavetamento das denúncias contra o tucano Arthur Virgílio. Costurando o velho toma lá, dá cá, Lula provou mais uma vez que, de fato, é um pizzaiolo de mão cheia. Ninguém investiga ninguém e todo mundo fica na moita. Sabe como é, né? É preciso ter cautela. Se o povo resolve ir às ruas... já viu!

Mas eu espero, honestamente, que ninguém no Brasil tenha apostado que, dessa vez, o Conselho de Ética iria ser, digamos, ético. Se alguém apostou, quebrou a cara. E se apostou dinheiro então... ui. Enfim, que justiça pode haver quando os bandidos são os próprios juízes? Afinal, corrupto que é corrupto tem seu próprio código de ética.

Confesso que desde que a crise política do Senado começou, há mais ou menos seis meses, passei a assistir a TV Senado com maior frenquência. Não vou esconder que os emocionantes bate-bocas se tornaram, para mim, atrações irresistíveis. Até pipoca com refrigerante eu pego na hora das sessões. Esses dias, porém, fiquei pensando em como tornar mais divertida a brincadeira. Aí tive uma ideia.

Lembrei que uma das possibilidades da TV Digital diz respeito a uma interatividade entre o espectador e o programa jamais vista antes. Na mesma hora, pensei como seria bacana poder interagir com os senadores durante as sessões. Já pensou nisso? Qualquer safadeza que as excelências dissessem ou fizessem, você, do outro lado da tela, no conforto do lar, apertaria uma tecla no controle remoto e o senador escolhido receberia um choque elétrico na cadeira. Ou ainda: ao apertar uma outra tecla, uma enorme mão-robô desceria do teto do Senado e acertaria um safanão na cabeça do senador de sua escolha. Ou, quem sabe, fosse até possível acertar uns tomates e ovos podres também. Bom, as possibilidades seriam ilimitadas.

Mas, provavelmente, o projeto não daria certo. O divertimento não compensaria os custos. Além do mais, muitas pessoas – assim como eu – não fariam outra coisa da vida a não ser dar choques e safanões biônicos em senadores. Enfim, o melhor mesmo é fechar aquela espelunca. Cartão vermelho neles!

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E tem aquela do cara que ligou para a Rádio Senado, querendo pedir uma música.
- Alô? É da Rádio Senado?
- É sim, senhor.
- Pô, toca aí a mais pedida.
- A mais pedida?
- É, cara. Aquela que começa assim: “se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”.
Taí. Poderia até virar uma campanha nacional.
Ligue você também para a Rádio Senado e peça a mais tocada da semana!
Bom, é só uma ideia.